ABRUPTO

31.8.03
 


ESTADO DO ABRUPTO (AGOSTO 2003)

O n�mero real de �pageviews� actual do Abrupto aproxima-se, no final deste m�s, de 180000 - 190000. A habitual discrep�ncia deve-se �s datas diferentes do in�cio da contagem, mas tendo-se isso em conta, os n�meros s�o consistentes. O contador da Bravenet foi o �ltimo a ser instalado, por isso a diferen�a com ele � a maior.

No m�s de Agosto deu-se uma quebra das visitas ao Abrupto: de cerca de 75000 em Julho, para 60000 em Agosto, menos 15000. Esta quebra concentrou-se nas primeiras duas semanas de Agosto e est� a recuperar na segunda quinzena, o que pode indicar a sazonalidade das f�rias. Neste momento, a m�dia di�ria de visitas � de 2130, uma pequena quebra em rela��o �s 2200 do m�s passado.

N�o h� altera��es quanto � distribui��o geogr�fica, a n�o ser talvez um incipiente aumento de visitas oriundas do Brasil e dos EUA, irrelevante ainda para se tirarem conclus�es. O padr�o de consultas permanece, com a ter�a-feira e as 17 horas com maior aflu�ncia e o domingo com a maior quebra. De facto, quem � que se lembra de ir para a rede num domingo de Agosto?

As �ac��es� no Blogshares conheceram uma enorme turbul�ncia, desceram a pique e subiram a pique e est�o neste momento a 473.64 dolares.

No Technorati, os �ltimos resultados apontavam para cerca de 461 �inbound Blogs� e 620 �inbound Links� , o que come�a a aproximar um blogue escrito em portugu�s de n�meros significativos a n�vel mundial.

Obrigado aos leitores do Abrupto. Continuaremos.

 


OBJECTOS EM EXTIN��O 22 ?







Aqui est� , cortesia do nosso m�dico, uma requisi��o de vacinas anti-var�olicas, que felizmente deixaram de ser necess�rias desde que a var�ola foi erradicada na natureza. Um "objecto" que desejamos que continue extinto. O problema � que ela continua viva, um v�rios laborat�rios, alguns militares, alguns em pa�ses pouco recomend�veis, sem nenhum outro objectivo que n�o seja o armamento biol�gico. E a var�ola, se voltar, ser� uma terr�vel arma.
 


COSA MENTALE

Este quadro � de um pintor do in�cio do s�culo XVII, Pieter Saenredam e retrata o interior da igreja de S. Louren�o em Alkmaar. Est� no Museu Boymans-van Beuningen em Roterd�o. Saenredam especializou-se em pintar o interior das igrejas holandesas �reformadas�. Estas eram despidas do peso dos ornamentos, das imagens, dos santos, das esculturas que preenchiam todo o espa�o interior das igrejas crist�s antes da Reforma.

Se h� quadro que representa a ideia que a pintura � cosa mentale � este. O que fascina o pintor � um objecto imenso, uma parede maci�a na qual se abre uma porta que abre para outra porta e que abre para um claustro, onde um arco � uma outra esp�cie de porta. L�, ao fundo, percebe-se um espa�o t�o interior como o da igreja, porque n�o h� varia��o na luz, o mesmo amarelo esbranqui�ado.

Os homens, melhor os hom�nculos, est�o l� num canto, pequenas figuras a preto, sem qualquer papel que n�o seja dar dimens�o � coluna e � porta gigantesca que se abre. Se o quadro fosse feito para os homens por que raz�o a porta teria cinco vezes a sua altura? Nada de humano justifica esta dimens�o. Os ornamentos que sobram n�o s�o tamb�m para os olhos humanos. Quem conseguiria ver o que est� pintado no losango, t�o alto ele est�?

Este quadro n�o est� feito para glorificar nem os homens, nem a obra dos homens (este espa�o � inumano), nem a igreja, nem Deus. N�o h� nesta igreja nada que aproxime de Deus, nada que aponte para o sagrado, nenhum s�mbolo religioso identific�vel. Percebe-se que � uma igreja pela altura do edif�cio, mas o espa�o que se observa nem sequer � o da nave principal, mas de um corredor acess�rio. Podia ser um edif�cio p�blico, uma Rathaus, uma casa de corpora��es. � verdade que uma igreja holandesa � tamb�m um edif�cio c�vico, mas n�o h� aqui sombra de uma comunidade para o ocupar. Os burgueses que se percebem como uma mancha negra, com um papel muito parecido com as moscas numa natureza morta filos�fica, n�o est�o a rezar, est�o a conversar.

� um quadro metaf�sico. A sua constru��o n�o � muito distinta da de alguns quadros chineses influenciados pelo budismo zen, ou mesmo de muita da pintura moderna abstracta. O risco do drapejado acompanhando a coluna, o quadro em formato de um losango dependurado, s�o elementos que refor�am o car�cter geom�trico da pintura.

O que est� pintado nesta pintura? Duas coisas. Uma, o despojamento, uma ideia moderna mais pr�xima do design do que da pintura tradicional, e que � comum encontrar no Norte da Europa, a procura de uma s�lida simplicidade. Outra, a de que isso se faz num mundo que nos ultrapassa. A arquitectura da igreja destina-se a mostrar-nos isso, vive-se num espa�o que n�o � nosso, que nos ultrapassa.

Entre a vida s�lida e a ang�stia de estar abandonado por Deus no mundo, este � um dilema protestante e n�o cat�lico. Saenredam pintou pois uma coisa mental, uma ideia.

30.8.03
 


L� FORA

H� tanta coisa interessante, h� tanta coisa para aprender, como � que nos podemos aborrecer, como � que nos podemos fartar?

Claro que h� tanta coisa interessante, mas � l� fora. L� FORA. Mesmo quando a trazemos para dentro � L� FORA. Mesmo quando � em n�s que essas coisas est�o, � L� FORA, longe da pegajosa circularidade do eu. Como � que algu�m se farta em dois meses, numas f�rias, em meio ano, em tudo que seja menos de uma vida inteira, n�o de escrever aqui, porque isso � o menos, � circunst�ncia, mas de ter a cabe�a L� FORA?
 


EARLY MORNING BLOGS 35

... um pouco a deitar para o tarde.

Fazendo uma leitura retrospectiva que tinha atrasada da Formiga de Langton , um dos meus favoritos. A formiga est� cada vez melhor, cada vez mais solta, cada vez mais experimentando rela��es entre crian�as, gaivotas, o �pomar de imagens� de Teixeira Gomes, labirintos, uma curiosidade na qual, sem mod�stia, me reconhe�o inteiramente e me deixo ir pela regra de Asimov do "That's funny..." . Tudo o que l� vem (e noutro blogue que comecei tamb�m a ler, o Teste de Turing ) me interessa sem restri��es.

Com a formiga fui pelo carreiro at� ao Blog Notas , que tem um conjunto de cita��es sobre o uso do anonimato nos blogues muito certeiras, at� ao Microcontentnews, de absoluto interesse para os estudiosos do meta-bloguismo, que somos quase todos , mesmo que o recusemos, pela pr�pria circunst�ncia de estarmos a usar um meio ainda experimental de comunica��o.
 


NOTAS CHEKOVIANAS 6

 


OBJECTOS EM EXTIN��O 21 / LICEU RAINHA SANTA

Para quem � do Porto e fez o liceu no Alexandre Herculano, o encerramento do Rainha Santa � mais uma refer�ncia da mem�ria que se vai embora, mais um objecto em extin��o. O Rainha Santa ao lado do Alexandre Herculano representava a separa��o sexual r�gida do regime salazarista: o Rainha era para as �meninas� e o Alexandre para os �meninos�. Da� que o grande momento de respira��o dos dois liceus era o da sa�da da uma da tarde, quando a fauna masculina do Alexandre corria pela rua abaixo para se colocar em frente do Rainha e ver a �sa�da�. Era, mesmo passando-se no meio da rua, fora de portas, uma actividade altamente vigiada. Os �rapazes� n�o podiam estar no passeio junto dos port�es do Rainha, mas apenas no passeio em frente, encostados ao muro. As meninas n�o podiam atravessar a rua e era suposto s� o fazerem muito acima, para os lados do Bonfim, ou mais para baixo, junto da Bar�o de Nova Sintra. Em frente ao Liceu, era o espect�culo da descida das meninas pela escadaria, observadas por mil e um olhos �vidos, encostados ao muro. Parecia uma encena��o de palco.

Uma das minhas maiores vergonhas foi no dia em que a reitora do Rainha me convidou para repetir no liceu feminino uma palestra sobre m�sica que tinha feito no Alexandre e que ela devia achar ser suficientemente �conveniente� para arriscar meter um rapaz dentro do liceu. O interior do liceu, como se percebe, era totalmente off limits para visitas juvenis masculinas. L� fiz a palestra, s� que ela acabou �� uma da tarde. Para sair tinha que descer as tenebrosas escadas acompanhado pela multid�o das meninas e diante dos olhos dos meus colegas em frente. L� desci, desejando a invisibilidade ou o tradicional buraco que nos devia tragar nesses momentos e que nunca se abre quando � preciso. Imaginem os risos e o gozo dos meus colegas e os risinhos das meninas (est�o a ver a linguagem sexista, os homens riem, as mulheres tem risinhos�), em todo o meu percurso no palco das escadas e na parte feminina do passeio, at� me conseguir misturar an�nimo no passeio masculino.

Como � que se pode n�o ter saudades do Rainha?

29.8.03
 


IRAQUE

N�o tenho tempo, neste momento, para ir mais longe na explica��o, mas penso que � preciso dizer uma coisa que tem vindo a ser iludida em muitos escritos portugueses sobre o Iraque: que o factor mais importante para explicar muito do que se passa hoje no Iraque n�o � a �ocupa��o� americana do pa�s, mas sim a verdadeira revolu��o social e pol�tica que esta provocou � o fim do poder hegem�nico da minoria sunita face � maioria chiita.
 


CORREIO

Como de costume atrasado, mas isso n�o � novidade.

Muito correio sobre o Flashback, de que vou enviar c�pia, quando � exclusivamente sobre o programa, ao resto da equipa.

Como h� uma Internet negra, ro�ando o crime, a mentira e a falsifica��o, facilitada pelo relativo anonimato poss�vel, o meu nome e o do Abrupto aparece em falsas mensagens aqui e ali. Repito que n�o escrevo, por regra, para qualquer caixa de coment�rios.

Aviso igualmente que a utiliza��o do antigo endere�o �jpp_abrupto� no Hotmail � igualmente fraudulenta. N�o tenho hoje qualquer endere�o no Hotmail.

Infelizmente, isto � o p�o nosso de cada dia na rede.
 


S�LIDO

 


MAIS E MAIS SOBRE OS FALARES , DOS LEITORES DO ABRUPTO

V�rios leitores do Abrupto acrescentam novas informa��es e correc��es �s notas publicadas.

A. Marques acrescenta � nota sobre o galego:

A prop�sito do seu �post�, permito-me dizer que a falta de entendimento que, a final, se verificou entre o �labrego� (sem sentido pejorativo, para al�m do Rio Minho, como se sabe) e a locutora, � devido ao facto de aquele falar portugu�s (simplesmente!) e esta falar �castrapo�.
A locutora tem a sua TV Galicia; o �labrego� merecia uma TV-Galiza.


Bruno Toledo comenta o �ingl�s� do texto que transcrevi do Parlamento Europeu

As conclus�es s�o muito interessantes, s� tenho pena que o estudo realizado no parlamento europeu pelo Eurobarometer contenha tantos erros de escrita e de sintaxe. Como professor de Ingl�s e cidad�o europeu, n�o percebo como � que um documento oficial consegue ter tantos erros! No que concerne � informa��o sobre Portugal o primeiro par�grafo � um tiro no p�! "There is marked the interest for television, the 98.7% of citizens in Portugal watch TV and only the 1.3% declare to doesn't watch it. (...)" Isto continua ao longo do capitulo com p�rolas do tipo: "For the other hand there are more citizen female who follow the series and soaps than men are (60.9% & 12.)% respectively), but there isn�t difference from the sex"!�

Ser�o transmitidas as reclama��es, ali�s muito comuns, quanto � qualidade da tradu��o dos textos.

TORRE DE BABEL

O ambiente de Torre de Babel do Parlamento Europeu � um dos seus aspectos mais interessantes e atinge n�veis sem paralelo com qualquer institui��o deste tipo. A compara��o com outras institui��es internacionais mostra que elas s�o bem menos multi - lingu�sticas do que o PE , dado que o ingl�s � a l�ngua franca. Tamb�m no PE o ingl�s, e, em menor grau, o franc�s, tem esse papel, mas como se pode usar a l�ngua nacional em todos os debates h� uma muito maior presen�a da variabilidade das l�nguas. Por seu lado, tamb�m os deputados, por defer�ncia uns com os outros e porque o contacto permanente o induz, fazem um esfor�o de falar nas respectivas l�nguas. Num pequeno trajecto entre a sala das sess�es e o gabinete, � poss�vel come�ar em ingl�s, passar pelo franc�s e, no elevador, falar em espanhol ou italiano. E funciona, � de facto poss�vel, ter uma institui��o genuinamente multi �l�ngua , sem perda quer da identidade cultural das l�nguas, quer da vivacidade dos contactos.

�, no entanto, muito caro. Uma parte importante do or�amento do PE � para tradu��o e interpreta��o e, com a entrada de novas l�nguas, levantam-se problemas gigantescos. Gigantescos � ainda aqui um eufemismo, porque imaginem o que � traduzir do malt�s para o let�o e do turco (l�ngua oficial de Chipre junto com o grego) para h�ngaro, etc. , etc. Imaginem como � que uma sala fica para ter cabinas de interpreta��o para todas estas l�nguas, e a dificuldade de arranjar, por exemplo, juristas - linguistas para tratar os textos legislativos, ou de fazer uma delega��o internacional em que os interpretes s�o mais que os deputados. Tudo isto serve de pretexto para um permanente press�o para reduzir o n�mero de l�nguas de trabalho, mas, quando se chega � defini��o de quais s�o, entra o ingl�s, vem o franc�s, e logo a seguir espanh�is e alem�es come�am ao barulho e depois entram todos os outros.

Tenho sempre defendido que, numa institui��o parlamentar deste tipo, o argumento da �efic�cia� or�amental n�o tem sentido face � igualdade das na��es nela representadas e que essa igualdade fica ferida se a sua identidade cultural, traduzida na l�ngua nacional, fica subalternizada. Esta � tamb�m uma posi��o partilhada pela maioria dos deputados, mas h� um permanente atrito, em pequenas decis�es, sobre esta mat�ria. Mas eu acho que vale a pena pagar para que o meu colega checo fale a l�ngua do bom soldado Svejk e ou�a a de Cam�es.

28.8.03
 


OS EUROPEUS E OS MEDIA

Partilho convosco os resultados de um estudo e de um inqu�rito sobre os europeus e os media, realizado no Parlamento Europeu e divulgado ontem. O texto est� em ingl�s, mas os dados s�o t�o interessantes que mesmo assim justificam a sua imediata divulga��o. O estudo integral encontra-se aqui.

1. S�ntese da situa��o na UE:

"TV
Almost all Europeans (97.6%) watch television. 99% have at least one TV set at home.
The four types of programmes that Europeans mostly watch are: news and current affairs (88.9%), films (84.3%), documentaries (61.6%), sports (50.3%).

Radio
Almost 60% of the citizens within the European Union listen to radio every day.
Radio programmes that Europeans prefer are: music (86.3%), news and current affairs (52.9%), sports (17.4%).

Newspapers
46% of Europeans read newspapers 5 to 7 times a week. The highest rates are found in Finland, Sweden, Germany and Luxembourg where 77.8%, 77.7%, 65.5% and 62.7% people read newspapers 5 to 7 times a week. On the other hand in Greece, Spain and Portugal only 20.3%, 24.8% and 25.1%, respectively, do so. It is also in these three countries that the proportion of people saying that they never read newspapers is higher than in other countries (30.5%, 23.4% and 25.5% respectively).

Computer
A majority of Europeans (53.3%) does not use a computer. This is especially the case for Greece (75.3%) and Portugal (74.7%). On the other hand, more than one fifth (22.5%) uses it every day. This proportion reaches 36.7% in Sweden, 36.6% in Denmark and 32.2% in the Netherlands. A smaller proportion (14%) uses it several times a week.

Internet
34.5% of the interviewed surf the Internet: 13.5% several times a week and another 8.8% every day. Swedes (66.5%), Danes (59.4%), Dutch (53.8%) and Finns (51.4%) use the Internet more than other Europeans. On the other hand, the proportion of Internet usage is the lowest in Portugal and Greece (14.8% and 15.1%, respectively)."


2. Dados sobre Portugal:

"Television: 98.7% of the citizens in Portugal watch TV. The three types of programmes that the Portuguese watch the most are: news and current affairs (76.7%), soaps and series (38.0%), sports (37.1%).

Radio: 52.7% of the Portuguese listen to radio every day. The Portuguese mostly prefer to listen to: music (88.8%), news and current affairs (59.1%), sports (15.3%).

Newspapers: Only 25.1% read newspapers 5 to 7 times a week.

Computer: The majority of the Portuguese (74.7%) does not use a computer.

Internet: In Portugal the proportion of Internet usage is the lowest in the European Union, as only 14.8% surf the Internet. "
 


HORIZONTE

 


EARLY MORNING BLOGS 34

O mais importante que se passou na blogosfera nos �ltimos dias foi a sua utiliza��o como instrumento para uma opera��o de desinforma��o de bastante gravidade, a pretexto da investiga��o em curso sobre pedofilia e a Casa Pia. Hesitei se devia ou n�o referi-la, porque este tipo de den�ncias presta-se a retalia��es tamb�m an�nimas. Resolvi n�o colocar o endere�o do falso blogue, ali�s j� citado noutros blogues., porque na realidade n�o � um blogue mas uma carta an�nima daquelas que circulam nos empregos, ou que s�o enviadas �s pol�cias e aos jornais. N�o refiro o endere�o nem o nome, porque ao faz�-lo contribu�a para a sua divulga��o. As cartas an�nimas n�o se l�em, rasgam-se. Mas conv�m que as pessoas estejam prevenidas, de que � grave, muito grave, e n�o caiam no truque de se porem a discutir se � verdade ou mentira.

� uma t�pica opera��o criminosa ao modelo de algumas opera��es policiais. ou de servi�os de informa��o, feita por gente profissional, que sabe o que est� a fazer e conhece obviamente aquilo sobre o que est� falar. Mais: est� directamente envolvida no que fala, ou profissionalmente, ou individualmente. � tamb�m um crime, um crime cometido na blogosfera, presumo que o primeiro. Entramos noutra dimens�o.
 


N�O VER A NOITE

Afinal o meu m�s marciano n�o foi grande coisa e o planeta vai-se agora embora. Marte cumpriu a sua obriga��o , e l� esteve sempre. Mas os inc�ndios, a humidade, a m� visibilidade comum no Ver�o, tornaram-no solit�rio e Marte sem estrelas, sem o manto de luzes em que o seu esplendor brilharia, ficou mais pobre.
Vem a� Saturno.

27.8.03
 


FLASHBACK 2

Estou a receber muitas mensagens sobre o fim do Flashback, muitas das quais com perguntas concretas que n�o tenho aqui e agora condi��es, nem comunica��es, para responder.

Compreendo o que se passa com muitos ouvintes que cresceram, literalmente, a ouvir o Flashback, ou que tinham esse h�bito t�o incrustado na sua vida, que agora sentem a falta. Agrade�o as suas palavras, e penso que o posso fazer tamb�m pelo resto da equipa, Carlos Andrade, Jos� Magalh�es e Lobo Xavier, e pela mem�ria de todos os outros, Em�dio Rangel, Vasco Pulido Valente, Miguel Sousa Tavares e Nogueira de Brito que fizeram o programa durante todos estes anos.
 


FLASHBACK

Confirma-se o fim do Flashback na TSF. O Flashback foi o mais longo programa de debate pol�tico em qualquer meio de comunica��o social desde o 25 de Abril. Voltarei a falar do Flashback e da TSF.
 


TRATADO DOS TELEM�VEIS

(Continua��o)


No �ltimo n�mero da Newsweek de 1 de Setembro de 2003, um muito interessante dossier sobre as mudan�as nos jovens provocadas pelas novas tecnologias de comunica��o, telem�veis, computadores, jogos, etc. O t�tulo diz tudo : "Bionic Kids : How Technology is Altering the Next Generation of Humans" . E uma fotografia fabulosa de um mi�do negro, da �frica profunda, a brincar com um telem�vel feito de lama seca e uma cana.
 


MAR

 


GALEGO

Ontem a TV Galicia transmitiu um festival de gaiteiros. Quando passo pelo canal, fico sempre um pouco, pelo fasc�nio de ouvir galego. E ontem tive um pr�mio: uma locutora entrevistava um velho, contempor�neo de um gaiteiro famoso. Nunca tinha ouvido melhor galego, sem nenhuma sombra de sotaque castelhano, no fundo o falar do Norte. O homem dizia "que marabilha" com o b da minha terra.

A locutora, que tamb�m falava galego, tinha, pelo contr�rio, um forte sotaque castelhano e a mesma l�ngua soava a duas diferentes. Tanto era assim que, a uma dada altura, um n�o percebia o outro e n�o se conseguiam entender.

26.8.03
 


FRONTEIRAS

Os atentados na �ndia n�o devem ser ignorados pelo nosso centramento no M�dio Oriente. Eles d�o-se na mesma fronteira civilizacional que faz um arco desde Marrocos � Chech�nia, passando pelo Kosovo, e terminando nas ilhas indon�sias com importantes popula��es crist�s, como as Flores. Por raz�es da nossa hist�ria, sabemos alguma coisa dos conflitos entre crist�os e �mouros� e �turcos�, mas o mesmo tipo de conflitos, com imenso sangue, se d�o na fractura em que o Isl�o encontra o mundo hindu.
 


exp

25.8.03
 


�DECIS�ES TERRORISTAS� � Conclus�o

(A prop�sito de um texto de Paulo Varela Gomes no crist�v�o-de-moura. No Abrupto, l� para baixo, est�o as outras duas partes.)

Interpretar a hist�ria como uma sucess�o de actos �nicos, sujeitos apenas � vontade dos seus agentes, feitos para �al�m do bem e do mal�, � bastante atractivo. O actual terrorismo apocal�ptico vai a� buscar uma das sua fontes, por via do �excesso� religioso, da ideia de �mart�rio� , n�o por acreditar na irracionalidade da hist�ria, mas por acreditar na racionalidade do terror. � contradit�rio, mas muitas vezes � assim.

Eu n�o tenho a certeza que a hist�ria n�o seja fundamentalmente irracional, at� por outras raz�es. Basta que se abandone qualquer transcend�ncia, qualquer destino manifesto, qualquer variante hegeliana da Hist�ria com H grande, seja marxista, seja crist� (como em Teilhard de Chardin) . Tira-se a teleologia e ficam os humanos com o �nus de fazerem a hist�ria, ficando os humanos, � o que se v�.

Basta que se considere que o homem n�o tem qualquer garantia divina para a sua sobreviv�ncia, para se perceber que, desde que possui armas termo � nucleares, tem elevadas probabilidades de se estourar a si pr�prio � � s� uma quest�o de tempo. Este � ali�s o �nico problema filos�fico radicalmente novo que penso n�o estar presente na tradi��o cl�ssica grega. (Penso tamb�m, mas isto � um desvio, que foi a Bomba, como se escrevia nos anos cinquenta, que dissolveu interiormente todas as teorias da hist�ria triunfante com H grande.). Se nos podemos matar a todos, numa esquina da hist�ria, toda a hist�ria fica, retrospectivamente sem sentido, e � um gigantesco del�rio do acaso, uma absoluta irracionalidade face ao dom�nio da morte, da entropia.

Repito agora a frase anterior, com um acrescento para mim fundamental: eu n�o tenho a certeza que a hist�ria n�o seja fundamentalmente irracional, mas quero viver e actuar como se n�o fosse. N�o me interessa, a n�o ser do ponto de vista cientifico, o que a hist�ria � ou pode ser, au grand complet , porque n�o pretendo ter como programa de vida qualquer vazio, mas um mais humilde programa de sobreviv�ncia. Digamos que sou agn�stico quanto aos fins da hist�ria, mas crente na sua racionalidade poss�vel e fragment�ria . Dito de forma abrupta: eu n�o acredito que haja progresso, mas entre um mundo sem anestesia e outro com anestesia , h� para mim uma diferen�a abissal.

Isso talvez me torne numa esp�cie mais complicada do que os voluntaristas brutos de PVG, num voluntarista cultural ou simb�lico, que actua perante as coisas por via de uma teatro, de uma fic��o, que resulta tanto mais quanto o maior n�mero de pessoas aceite representa-la, sempre sem qualquer garantia de sucesso final. Mas h� uma raz�o para que eu queira viver assim: � que se houver um n�mero significativo de pessoas a fazerem o mesmo, criam � sua volta uma ecologia mais saud�vel, menos violenta, mais viv�vel e j� n�o � mau que o consigam em determinados espa�os e durante determinados per�odos de tempo. Talvez haja uma massa cr�tica nestas coisas e se consiga tornar o mundo melhor por pequenos per�odos de tempo, para um cada vez maior n�mero de pessoas. Talvez.

� por isso que, do meu ponto de vista, posso decidir com a mesma firmeza que PVG atribui �s suas personagens nietzschianas, apenas fundado numa filosofia pragm�tica, para tempos dif�ceis, sem pretens�es sistem�ticas. N�o preciso de grandes certezas, nem de especiais �m�sculos da vontade�, mas apenas de um discernimento quase de bom senso, uma filosofia mais do lado humilde da anestesia, pela anestesia, por mil e uma pequenas anestesias, incluindo o bem-estar, a liberdade, a democracia, a felicidade. Pode ser tudo prec�rio, pode ser um esbracejar ilus�rio, mas n�o troco e luto, se for preciso, para que n�o me obriguem a trocar.

E isso diz-me que h� �decis�es� que, mesmo implicando em �ltima ratio a viol�ncia, n�o s�o �terroristas� porque s�o contra o mundo do sistema da morte, contra o apocalipse now, a favor do imp�rio da anestesia e contra o do da kalashnikov.
 


QUEM TAL F� ESQUECE MAL FARIA

 


TRADU��O IN�DITA DE PETRARCA POR VASCO GRA�A MOURA

Em exclusivo para os leitores do Abrupto, publica-se a seguir a tradu��o in�dita que Vasco Gra�a Moura fez da Can��o n� 206 , parte de uma tradu��o integral do Canzoniere, que ser� publicada em Novembro deste ano. Vasco Gra�a Moura considera esta can��o �um exerc�cio da virtuosidade petraquiana: constru��o complexa de modelo proven�al em que as est�ncias rimam duas a duas, e em que h� uma certa obscuridade. Parece que o autor se defende de "terem dito que ele tinha dito" alguma coisa desfavor�vel a Laura..� O original italiano est� em it�lico, a tradu��o em tipo normal.
Obrigada, Vasco.

206.

S�i� �l dissi mai, ch�i� vegna in odio a quella
del cui amor vivo, e senza �l qual morrei;
s�i� �l dissi, che � miei d� sian pochi, e rei,
e di vil signoria l�anima ancella;
s�i� �l dissi, contra me s�arme ogni stella,
e dal mio lato sia
paura e gelosia,
e la nemica mia
pi� feroce v�r� me sempre e pi� bella.

S�i� �l dissi, Amor l�aurate sue quadrella
spenda in me tutte, e l�impiombate in lei;
s�i� �l dissi, cielo, e terra, uomini e d�i
mi sian contrar�, et essa ogni or pi� fella;
s�i� �l dissi, chi con sua cieca facella
dritto a morte m�invia,
pur come suol si stia,
n� mai pi� dolce o pia
v�r me si mostri, in atto od in favella.

S�i� �l dissi mai, di quel ch�i� men vorrei,
piena trovi quest�aspra e breve via;
s�i �l dissi, il fero ardor, che mi desvia,
cresca in me, quanto il fier ghiaccio in costei;
s�i �l dissi, unqua non veggian li occhi mei
sol chiaro, o sua sorella,
n� donna, n� donzella,
ma terribil procella,
qual Faraone in perseguir gli ebrei.

S�i �l dissi, co i sospir, quant�io mai f�i,
sia piet� per me morta, e cortesia;
s�i �l dissi, il dir s�innaspri, che s�udia
s� dolce allor che vinto mi rendei;
s�i �l dissi, io spiaccia a quella ch�i� t�rrei,
sol, chiuso in fosca cella,
dal d� che la mamella
lasciai, fin che si svella
da me l�alma, adorar: forse e �l farei.

Ma s�io no �l dissi, chi s� dolce apria
meo cor a speme ne l�et� novella,
regga �ncor questa stanca navicella
col governo di sua piet� natia,
n� diventi altra, ma pur qual sol�a
quando pi� non potei,
che me stesso perdei,
n� pi� arder devrei.
Mal fa, chi tanta f� s� tosto oblia.

I� no �l dissi gi� mai, n� dir por�a,
per oro, o per cittadi, o per castella.
Vinca �l ver dunque, e si rimanga in sella,
e vinta a terra caggia la bugia.
Tu sai in me il tutto, Amor: s�ella ne spia,
dinne quel che dir d�i.
I� beato direi,
tre volte, e quattro, e sei,
chi, devendo languir, si mor� pria.

Per Rachel ho servito, e non per Lia;
n� con altra saprei
viver; e sosterrei,
quando �l ciel ne rappella,
girmen, con ella, in sul carro Elia.



206.

Se o disse alguma vez, ent�o aquela
de cujo amor s� vivo, a mim odeie;
se o fiz, meu tempo encurte e se desfeie
e vil senhor � alma d� tutela;
se o disse, me desgrace toda a estrela
e eu tenha em companhia
o medo e a gelosia
e minha imiga fria
mais feroz para mim sempre e mais bela.

Se o disse, gaste Amor as flechas nela
de chumbo e com as de ouro me alanceie,
e c�u, terra, homens, deuses fa�am lei
contr�ria a mim, com a crueza dela;
se o disse, quem com cego archote zela
e � morte j� me envia,
fique como so�a,
e nem mais doce ou pia
a mim se mostre, em acto ou em loquela.

Se o disse, do que menos quererei
encontre eu cheia esta �spr�a e breve via;
se o disse, o fero ardor que me desvia
cres�a em mim quanto nela o gelo � rei;
se o disse, nunca a mim se patenteie
sol claro, irm� que vela,
nem dona, nem donzela,
mas terr�vel procela
qual Fara� a hebreus desencadeie.

Se o disse, com suspiros quantos dei,
me morram piedade e cortesia;
se o disse, amargue o dito que se ouvia
t�o doce, que vencido me entreguei;
se o disse, desagrade a quem busquei,
s�, posto em turva cela,
d�s que mamei �quela
hora que nos apela
a alma, adorar: e acaso inda o farei.

Mas se o n�o disse, quem t�o doce abria
meu peito e nova esp�ran�a lhe revela,
governe inda esta lassa navicela
com leme que piedade inata guia,
nem se torne outra e seja qual so�a
quando a mais n�o cheguei:
perdi-me e perder sei
que mais n�o poderei.
Quem tal f� cedo esquece mal faria.

Eu n�o o disse nunca, nem podia,
por ouro, por castelo ou cidadela.
Ven�a a verdade pois e fique em sela,
caia em terra a mentira sem valia.
Tu sabes tudo, Amor: e se ela espia,
diz-lhe o que te mandei.
Feliz tr�s vezes sei,
e quatro e seis, direi,
quem, devendo sofrer, antes morria.

Por Raquel hei servido e n�o por Lia,
nem noutra saberei
viver; e susterei,
se o c�u chamar, com ela
ir na atrela em que Elias ascendia.
 


LER JORNAIS UNS DIAS DEPOIS

Eu leio os jornais na rede todos os dias e em papel uns dias depois, �s vezes uma semana depois. S�o leituras muito diferentes, com tempos diferentes e com destaques diferentes. Uma das vantagens deste desfasamento � tamb�m verificar o que � que dura uma semana, que artigos t�m um acrescento de informa��o ou m�rito anal�tico para valer a pena l�-los fora da actualidade.

UM BOM ARTIGO

No P�blico de ontem , que li hoje, um record de rapidez entre o ecr� e o papel, h� um desses artigos , um longo dossier sobre os fogos de 1980 at� 2003, feito por Nuno S� Louren�o, Patr�cia Silva Dias e Ricardo Batista. Esse artigo d�-nos duas informa��es essenciais e inequ�vocas. Uma , a de que o problema n�o est� no dinheiro, deitar dinheiro em cima dos fogos � o que se tem sempre feito sem resultado. Outra, corol�rio da anterior, � que os inc�ndios s�o um caso irrecus�vel de responsabilidade pol�tica. Nesta mat�ria, o pa�s tem sido mal governado,

UM OUTRO PROBLEMA

Uma dos aspectos que pude observar durante a �poca dos fogos, vendo como se moviam as diferentes inst�ncias do poder, � a inexist�ncia de continuidade entre os �poderes de cima� e os �poderes de baixo�, ou seja, a dilui��o das autoridades interm�dias. �De cima� vem a melhor legisla��o do mundo, as melhores an�lises, a identifica��o de problemas genu�nos; de �baixo� v�m as diferentes resist�ncias sociais � mudan�a, dos propriet�rios, das autarquias, dos utilizadores dos baldios, dos madeireiros, dos construtores civis, das pirotecnias, dos que h� muito fazem as mesmas pr�ticas de risco, e acham que, como est�o nas �suas� terras, podem fazer o que quiserem. As leis bem podem obrigar �s mais racionais das obriga��es, s� que ningu�m as aplica, nem os governos civis, nem a GNR, nem os bombeiros, nem os presidentes das C�maras e Juntas. Quanto mais abaixo est� uma autoridade, e as nossas est�o quase todas em baixo, maior � a press�o dos interesses e menor � a vontade e a capacidade de agir.

Um bom exemplo do passado para estudar este mecanismo, foi a proibi��o das vinhas de �vinho americano�, em pleno regime autorit�rio, e as enormes resist�ncias que causou, com conflitos, viol�ncias, feridos e mortos.
 


EARLY MORNING BLOGS 33


Sauda��es a dois dos blogues mais �teis que existem : o Valete Frates!, um pioneiro que foi dos primeiros que li regularmente, e o Intermitente. O que eles fazem � trabalhar para n�s, por gosto pela controv�rsia e pela verdade poss�vel, oferecendo texto sobre texto, cita��o sobre cita��o, refer�ncia sobre refer�ncia, a maioria das vezes na l�ngua original, de todo um conjunto de informa��es e opini�es que de outro modo nunca ter�amos com o actual sistema comunicacional. Obrigada.

Por v�rias raz�es, que j� puderam encontrar dispersas no Abrupto e ainda v�o encontrar mais, interessa-me o fluir que se d� entre diferentes meios e suportes para um determinado conte�do. Interessa-me saber at� que ponto, esse mesmo conte�do, � alterado pelo meio, entre o ecr� do computador, o papel impresso, a voz, os actos. Sigo, quando posso, as palavras do Abrupto para al�m do blogue propriamente dito, para as cita��es nos jornais, para a mais invis�vel influ�ncia (ontem, por exemplo, vi um jornalista fazer perguntas que claramente foram inspiradas pelas cr�ticas que fiz a Carlos Fino). Nos �ltimos dias, pude ver uma c�pia em papel do texto sobre a prociss�o popular, que algu�m tinha tirado do Abrupto e fazia circular numa pequena comunidade. Soube tamb�m que um leitor tinha usado o programa AvantGo para colocar o Abrupto num PDA. Li poemas em que a �luz de Skagen� se reflectia. Pelas cartas dos leitores encontro �s vezes, uma simultaneidade de observa��o e o seu efeito afectivo, quando escrevi sobre o que se podia ver � noite e algu�m saiu de casa ou foi � janela ver se via a mesma Lua.

24.8.03
 


DELIBERADA INCOMPLETUDE

 


�DECIS�ES TERRORISTAS� � Segunda parte

A teoria de Paulo Varela Gomes sobre o terrorismo, que, bem vistas as coisas, � sobre a hist�ria, � de modelo nietzschiano. Os fazedores da hist�ria seriam uma esp�cie de Zaratrustas. que batem no ferro quente da humanidade com um gigantesco martelo , moldando assim o sentido da hist�ria . O martelo � a capacidade de �exagero�, de �loucura� (termos nietzschianos) de �decis�o�, Isto tornaria os terroristas em �seres pol�tico-militares interessantes. Praticam a decis�o e o exagero como formas de agir.

PVG veio, em seguida, precisar o sentido deste �exagero�, acentuando ainda mais os elementos nietzschianos na an�lise � veja-se o uso de termos como �vontade�, os �m�sculos da vontade�, e o papel do medo:

O exagero e e as decis�es terroristas s�o como que figuras de ret�rica que, como todas, se encenam como verdade. Mas, al�m disso, encenam tamb�m a vontade soberana. Ou seja, se todas as decis�es, sendo por defini��o arbitr�rias, se apresentam como a "�nica" solu��o poss�vel, ou a "melhor", as decis�es que pratica o discurso exagerado ou a ac��o pol�tica terrorista derivam de uma dupla opera��o ret�rica: apresentam-se como a verdade mas tamb�m como uma exibi��o dos m�sculos da vontade. S�o, portanto, decis�es persuasivas: podem fazer medo.

Para PVG esta caracter�stica de �vontade� igualiza os terroristas, os israelitas, e o trio conservador americano (Bush-Ramsfeld-Wolfowitz), n�o s� na forma como actuam, como na possibilidade de �ganharem�. De forma coerente, PVG considera que os movimentos terroristas, a que chama de �terrorismo comunit�rio�, da Irlanda, do Pa�s Basco, do M�dio Oriente, podem ser vitoriosos, do mesmo modo que os israelitas ou os americanos. O que torna o texto de PVG diferente � que, ao manter este leque de possibilidades, distancia-se muito do que � vulgar escrever-se sobre esta mat�ria.

(De passagem, porque n�o � central no argumento, PVG faz uma distin��o contest�vel, entre �terrorismo comunit�rio� e �terrorismo meramente pol�tico� , o do grupo Baader-Meinhof, BRs e FP 25 de Abril. Inclui tamb�m a Al-Qaeda no grupo do �terrorismo comunit�rio�, o que, mesmo que se admita a sua tipologia, n�o me parece aceit�vel.)

Para PVG o que � essencial na atitude mental dos terroristas � a capacidade de �decidir�, ou seja, segundo PVG, de �errar�:

"Bem vistas as coisas, todas as decis�es s�o um salto no escuro, uma cat�strofe entre pensamento e ac��o: a gente hesita, pensa, pesa �os pr�s e os contras� e, de repente, decide. Quando se decide, abdica-se de continuar a pensar. Uma decis�o � sempre a decis�o de ignorar v�rios aspectos da realidade e a complexidade real de qualquer situa��o. Deste modo, ao decidir, erra-se � sempre. N�o h�, por defini��o, decis�es acertadas. Quem quer � viva for�a acertar, acaba por n�o decidir nunca porque � imposs�vel ter a certeza de que se est� a decidir bem. A hist�ria � feita por quem decide, ou seja, por quem escolhe uma op��o (errada) e depois a negoceia ou enfrenta as suas consequ�ncias. "

Conclui, �a hist�ria � dos �loucos�, ou seja, a hist�ria move-se com base numa irracionalidade fundamental, a hist�ria � irracionalidade. Tamb�m aqui n�o sa�mos de um modelo nietzschiano e de uma interpreta��o do terrorismo muito comum no s�culo XIX e no princ�pio do s�culo XX.

(Continua)
 


MARIO VARGAS LLOSA SOBRE O ATENTADO CONTRA A ONU EM BAGDAD

O artigo de Mario Vargas Llosa, que pode ser lido integralmente no Estado de S. Paulo , apresenta uma not�vel an�lise e uma acertada conclus�o sobre o que se passou.:

"O atentado terrorista que destruiu a sede da ONU em Bagd�, matando mais de 20 pessoas e ferindo mais de 100 - o mais grave de que a ONU foi v�tima desde sua cria��o -, j� mereceu, como era de se esperar, leituras bem distintas. A mais enviesada ideologicamente, de meu ponto de vista, � aquela segundo a qual este atentado � uma demonstra��o do fracasso absoluto da interven��o militar no Iraque e da necessidade de as for�as de ocupa��o se retirarem o quanto antes e devolverem a independ�ncia ao povo iraquiano.

Este aberrante racioc�nio pressup�e que o atentado foi levado a cabo "pela resist�ncia", ou seja, pelos un�nimes patriotas iraquianos contra os invasores estrangeiros e seu s�mbolo, a organiza��o internacional que legalizou a Guerra do Golfo e o embargo. N�o � assim. O atentado foi perpetrado por uma das v�rias seitas e movimentos dispostos a provocar o apocalipse a fim de impedir que o Iraque possa ser, num futuro pr�ximo, um pa�s livre e moderno, regido por leis democr�ticas e governos representativos, uma perspectiva que com toda justi�a aterroriza e enlouquece os assassinos e torturadores da Mukhabarat e os fedayn de Saddam Hussein, os comandos fundamentalistas da Al-Qaeda e do Ansar al-Islam e as brigadas terroristas que os cl�rigos ultraconservadores do Ir� enviam ao Iraque.

Todos eles - uns poucos milhares de fan�ticos armados, isso sim, de extraordin�rios meios de destrui��o - sabem que, se o Iraque chegar a ser uma democracia moderna, seus dias estar�o contados, e por isso desencadearam essa guerra sem quartel, n�o contra a ONU ou os soldados da coaliz�o, e sim contra o maltratado povo iraquiano. Deixar-lhes livre o terreno seria condenar este povo a novas d�cadas de ignom�nia e ditadura semelhantes �s que ele padeceu sob a palmat�ria do Baath.

Na verdade, diante deste crime e dos que vir�o - agora est� claro que as organiza��es humanit�rias e de servi�o civil passaram a ser objetivos militares do terror -, a resposta da comunidade de pa�ses democr�ticos deveria ser multiplicar a ajuda e o apoio � reconstru��o e democratiza��o do Iraque. Porque neste pa�s trava-se nestes dias uma batalha cujo desfecho transcende as fronteiras iraquianas e do Oriente M�dio e abarca todo o vasto dom�nio desta civiliza��o pela qual sacrificaram suas vidas S�rgio Vieira de Mello, o capit�o de navio Manuel Mart�n Oar, Nadia Younes e tantos her�is an�nimos. "

 


EARLY MORNING BLOGS 32

Os ge�grafos t�m um conceito para estudar a parte �humana� da sua disciplina � os �lugares centrais�. Na nossa blogosfera tamb�m h� �lugares centrais�: um � o Magn�lia, outro a FNAC do Chiado. Do Magn�lia nada posso dizer porque n�o conhe�o. Quanto � FNAC do Chiado intriga-me que nunca haja refer�ncias � FNAC do Colombo. Estranho, at� porque a FNAC do Colombo � muito melhor do que a do Chiado � Porqu�? Ser� que moram todos no Chiado? Os nossos autores de blogues n�o entram em centros comerciais? S� v�o directamente para as livrarias?
 


�DECIS�ES TERRORISTAS� � Primeira parte

Uma nota de Paulo Varela Gomes (PVG) no seu cristovao-de-moura intitulada �Decis�es terroristas�, foi a que mais interessante me pareceu em todo este debate sobre o terrorismo. Nela existem dois aspectos que podem ser separados para an�lise: um, aprecia��es sobre a situa��o relativa ao Iraque e ao fundamentalismo, outro, considera��es sobre o terrorismo como ac��o e decis�o e a sua efic�cia. Falarei das duas separadamente, porque penso que tal se pode fazer sem prejudicar a argumenta��o de PVG

Na parte inicial cito algumas afirma��es:

PVG- Os fundamentalistas sabem ter ganho, nas �ltimas d�cadas, apenas uma batalha: a do Ir�o (a primeira). Perderam as da Arg�lia, do Egipto, da Turquia, do Afeganist�o e do Iraque, registaram uma esp�cie de empate na Ar�bia Saudita e no Paquist�o, continuam o combate em muitos s�tios (Marrocos, Tun�sia, Egipto, Iraque, Paquist�o, Indon�sia).

JPP- N�o concordo e penso que n�o � suport�vel factualmente. Em aspectos decisivos da vida p�blica e quotidiana, � naquele que talvez seja mais revelador, o da condi��o da mulher, mas tamb�m no esbo�o de uma laicidade do estado � , o fundamentalismo mudou profundamente o quotidiano na Arg�lia, no Egipto, no Paquist�o, e introduziu tens�es em todas as sociedades referidas. Cortou um caminho t�mido, mas real, para sociedades menos dominadas pelos preceitos religiosos estritos. Na maneira de vestir, no consumo de bebidas alco�licas, na imposi��o social do jejum no Ramad�o, na liberdade de express�o sobre mat�rias religiosas, na liberdade de ser agn�stico ou ateu e proclama-lo, na liberdade de actua��o de outras confiss�es religiosas, houve enormes recuos de Marrocos � Indon�sia., passando pelas �reas mu�ulmanas da �sia central.
A ideia que o combate do fundamentalismo � pelo poder pol�tico, pela governa��o, n�o � central no fundamentalismo, nem se manifesta do mesmo modo no sunismo e no chiismo.

PVG - Ainda � muito cedo para dizer se est� ou n�o comprometido o objectivo estrat�gico dos norte-americanos no Iraque. Trata-se de um objectivo a duas d�cadas, pelo menos. Entretanto, os comentadores mais �sensatos� parecem pensar que a administra��o americana n�o teve consci�ncia plena do vespeiro em que se ia meter.

JPP - No essencial, de acordo.

PVG - Por mim, acho que Bush, Rumsfeld, Wolfovitz e Cia s�o iguais aos fundamentalistas: n�o s�o moderados. S�o exagerados, radicais, brutos. S�o daqueles que fazem hist�ria, n�o daqueles que limam as arestas da hist�ria. Acho por isso que v�o cerrar os dentes e meter mais tropas e mais dinheiro no Iraque.

JPP - Discordo com a caracteriza��o inicial. As palavras pregam-nos o truque de nos seduzirem a usa-las de forma pouco rigorosa. �Fundamentalismo� � aqui usado para caracterizar realidades muito distintas. N�o � o facto de se considerar Bush, Rumsfeld, Wolfovitz, �exagerados, radicais, brutos� que permite a compara��o total � �s�o iguais aos fundamentalistas� � que � feita. Churchill, por exemplo, foi v�rias vezes assim classificado, quando a pol�tica de apaziguamento face a Hitler gozava de um apoio generalizado na opini�o p�blica inglesa. A compara��o tem todo o sentido porque o tipo de cr�ticas a Churchill, que ali�s se repetiram no mesmo tom e conte�do quando ele fez o discurso sobre a �cortina de ferro�, � exactamente o mesmo daquelas que s�o feitas ao trio conservador. Pode-se dizer que eles est�o convictos que � necess�rio travar uma guerra complicada no vespeiro do M�dio Oriente, porque entendem que n�o h� outra solu��o face aos desafios estrat�gicos que o terrorismo actual coloca aos EUA, pode-se dizer inclusive que a interpreta��o que fazem dos interesses americanos os leva a uma pol�tica belicista. Pode-se dizer que est�o errados, que as suas ac��es tem o efeito contr�rio do pretendido, (n�o � esse ali�s o ponto de vista de PVG), mas n�o se pode considera-los iguais.

Eu bem sei que para PVG o que os igualiza � o mind setting, a forma mentis, a capacidade para decidir, e para PVG, decidir � errar. Esta � a segunda quest�o que tratarei em seguida.

(Continua)
 


NA M� DE BAIXO

Quando se est� na m� de baixo, em Portugal, todos batem. A maneira como nos notici�rios (principalmente o da TVI) foi tratado o primeiro com�cio do PS, antes sequer dele acontecer, � penosa de t�o desequilibrada. Infelizmente j� estamos t�o desabituados de um texto limpo, com not�cias e sem coment�rios, sem ditos engra�adinhos ou repeti��o das banalidades escritas em todos os jornais da semana, que j� nem sabemos como � ter uma televis�o que seja um �rg�o noticioso.

O PS est� de facto numa situa��o muito dif�cil, com grandes responsabilidades da direc��o de Ferro Rodrigues nessa situa��o. Mas isso � uma coisa, outra � um permanente coment�rio ridicularizante, profundamente opinativo e superficial. Isto acontece porque os jornalistas simpatizam com o governo ou o PSD? N�o, mas porque gostam de bater em quem est� em baixo.
 


TEMPLATE


23.8.03
 


CARLOS FINO EM BAGDAD

A RTP enviou Carlos Fino de novo ao Iraque. Fino � um jornalista experimentado, seguro, que n�o hesita em correr riscos para estar no s�tio certo no tempo certo. Essa capacidade permitiu-lhe momentos de reportagem que qualquer jornalista gostaria de ter.

Mas Fino n�o � um jornalista objectivo, nem nada que se pare�a. J� me reduzo a considerar objectividade, apenas a procura de objectividade, que isso qualquer pessoa sabe o que � , sente se existe. Fino � um jornalista program�tico, que desenvolve o seu trabalho em fun��o da sua opini�o e s� v� e s� comenta o que com ela coincide. Se analisarmos os seus relatos da guerra, na estadia anterior, eles revelam um enorme desequil�brio, insisto, enorme. O que Fino relatou, dia ap�s dia, n�o s� n�o se verificou como foi contrariado pelos factos de forma gritante. Fino continuou na mesma, imperturb�vel, mesmo quando a queda de Bagdad de Saddam, foi um desmentido flagrante do que ele dizia na v�spera.

Na RTP, ningu�m quer saber destas minud�ncias e Fino foi de novo enviado para o Iraque. E, desde o primeiro minuto, est� a repetir o mesmo que j� fez: as suas interven��es nos notici�rios s�o completamente program�ticas e t�o previs�veis que as podia fazer de Lisboa. A linha actual � simples e repisada a prop�sito de tudo: o Iraque est� mais inseguro do que alguma vez esteve, tudo corre mal aos americanos, nada se estabiliza e a situa��o � um beco sem sa�da. Todos os dias ele vai dizer o mesmo, todos os dias ele vai procurar um pretexto de reportagem para dizer o mesmo.

Que a situa��o no Iraque � de inseguran�a, n�s sabemos. Que nem tudo corre bem para os americanos, n�s tamb�m sabemos. Se � um beco sem sa�da, isso n�o sabemos. Agora o que sabemos certamente � que o Iraque de Saddam , h� meia d�zia de meses, era um regime de torturas, fuzilamentos sum�rios, pris�es e espancamentos , opress�o da maioria chiita, de viol�ncia absoluta. Talvez por isso, quando vemos numa reportagem de Fino, um iraquiano exaltado � frente de uma manifesta��o de desempregados, com muito pouco gente ali�s, a berrar que �hoje se est� pior do que no tempo de Saddam� , nos fa�a falta algum enquadramento, que um jornalista isento faria sobre o valor deste �testemunho�. � um pouco a mesma coisa que ver o 25 de Abril em 1975 pelos olhos de um legion�rio.

22.8.03
 


CORREIO

Quando me defronto com a lista de correio atrasado, neste momento qualquer coisa como quinhentas mensagens, j� percebi que nunca vou conseguir p�-lo em dia. Desde que comecei o Abrupto s� consegui responder a cerca de setecentas mensagens, muitas ali�s o mais sucintamente poss�vel.

Vou continuar a tentar responder a todos, mas j� n�o posso dar a garantia de o fazer. De qualquer modo, n�o queria que ningu�m desistisse de me escrever. Uma das alegrias que o Abrupto me d� � conhecer o que cada um pensa do que escrevo. E podem ter a certeza que leio com aten��o tudo, e tenho em considera��o o que me � dito.
 


FALC�ES

 


NOTAS CHEKOVIANAS 5

Fiel a uma promessa que fiz nos primeiros momentos do Abrupto, comprei uma s�rie de DVDs de filmes franceses, que tenho vindo a ver ao acaso do tempo. Para quem n�o leu essa nota inicial, recapitulo. Fiz uma compara��o entre o cinema franc�s e o americano, pouco abonat�ria para o cinema franc�s. Alguns autores de outros blogues censuraram-me a nota e chamaram-me a aten��o para determinadas filmes que eu n�o tinha visto. Eu enfiei, como se costuma dizer, a viola no saco, e prometi voltar ao assunto depois de os ver.

J� vi alguns e com gosto. Continuo a manter a mesma opini�o em termos gerais, mas a verdade � que h� outras coisas nesses filmes que merecem mais aten��o do que a que eu tinha dado. Vi, por exemplo, uns a seguir aos outros, tr�s filmes de �ric Rohmer, Le Genou de Claire, La Collectionneuse e L�Amour l�Apr�s-Midi, da s�rie dos �Seis contos morais�. S�o todos muito parecidos, podiam ser um �nico filme.

Em todos eles um conjunto trivial de personagens, homens e mulheres, encontram-se num espa�o comum, um bairro de Paris, uma casa em Annecy junto ao lago, uma velha mans�o na parte rural por detr�s de St. Tropez. N�o h� verdadeiramente uma hist�ria � est�o l�, v�em-se, almo�am, passeiam, tomam o pequeno-almo�o, conversam, namoram. N�o h� em nenhuma personagem qualquer sentimento forte, nem sequer qualquer desejo de tocarem os outros, ou de por eles serem tocados. N�o h� gritos, n�o h� zangas, n�o h� ci�mes, mas, pouco a pouco, as personagens s�o empurradas umas para os outras, para rela��es que aparentemente n�o queriam, mas que acontecem. Acontecem, mas sempre no limiar de n�o acontecer, porque o enleio dura um ver�o, ou melhor uns dias de ver�o, e depois desaparece com a mesma ligeireza com que come�ou. Tocam-se e afastam-se quase t�o rapidamente, sem drama, sem tristeza, sem ningu�m achar que ganhou ou perdeu alguma coisa.

O mecanismo destas hist�rias � semelhante aos dos contos de Chekov, mas a ecologia das personagens � muito diferente. Este mundo seria o de Chekov, se houvesse um pouco menos de ligeireza, um pouco menos de Ver�o, um certo sentido de tristeza humana, um vago assomo de destino. N�o h�, � tudo muito am�vel, quase se poderia dizer, agrad�vel.
 


BAGDAD / JERUSAL�M 6

Quanto mais vou aprendendo sobre o mundo isl�mico, sem querer meter tudo no mesmo saco, mas falando genericamente, porque n�o deixa de ser neste caso poss�vel, mais import�ncia atribuo ao dom�nio dos homens sobre as mulheres como factor de uma forte e agressiva diferencia��o cultural, na origem de muitos dos actuais conflitos.

Na guerra actual, como em todas as guerras, h� um elemento de poder presente, poder que se quer ganhar, poder que se quer defender. Um dos elementos que cada vez me parece mais importante neste conflito � a defesa da autoridade quase absoluta dos homens sobre as mulheres no mundo isl�mico. Bernard Lewis tinha j� chamado a aten��o para esta caracter�stica do mundo isl�mico, como uma das grandes barreiras � moderniza��o, uma das coisas que explicava o �que correu mal�.

� verdade, como muitos mu�ulmanos dizem, com raz�o, que a autoridade masculina, seja do marido, seja do pai, seja dos irm�os, acompanha direitos, principalmente patrimoniais, da mulher, que foram pioneiros em rela��o ao mundo ocidental. Mas mesmo a� o que se defende � mais a fam�lia original da mulher do que a mulher em si, que sai de uma servid�o para outra. A escravatura sexual da mulher, a sua aus�ncia de direitos c�vicos ou quaisquer outros, a imposi��o de uma autoridade absoluta e desigual, � uma das caracter�sticas culturais e sociais mais violentamente defendidas pelos homens.
 


H� CAMINHO

 


EARLY MORNING BLOGS 31 / OBJECTOS EM EXTIN��O 20

Cito do blog do veneno eficaz

J� se aperceberam de que, hoje em dia, n�o � f�cil comprar uma estante para livros? O que sempre existe nas lojas de m�veis s�o aquelas estantes quase in�teis para "bibelots" mas nada para livros.
As estantes ca�ram em desuso? Deixaram de ser um elemento das casas? Ou foram os livros?
Parece que a alternativa f�cil continua a ser aquele m�vel grandioso e pesado com espa�o pr�prio para a TV, uma porta de vidro para uns copos e aperitivos, umas gavetas em baixo e prateleiras largas para as enciclop�dias e outras colec��es encadernadas que ningu�m voltou a ler.
A mim sempre me impressionaram as grandes estantes s� para livros no meio da sala ou no escrit�rio. Estantes, regressem.
 


BAGDAD / JERUSAL�M 5

Um poema para que o nosso olhar n�o fique s� de um lado.

The Indian Upon God

I passed along the water's edge below the humid trees,
My spirit rocked in evening light, the rushes round my knees,
My spirit rocked in sleep and sighs; and saw the moorfowl pace
All dripping on a grassy slope, and saw them cease to chase
Each other round in circles, and heard the eldest speak:
Who holds the world between His bill and made us strong or weak
Is an undying moorfowl, and He lives beyond the sky.
The rains are from His dripping wing, the moonbeams from His eye.

I passed a little further on and heard a lotus talk:
Who made the world and ruleth it, He hangeth on a stalk,
For I am in His image made, and all this tinkling tide
Is but a sliding drop of rain between His petals wide.

A little way within the gloom a roebuck raised his eyes
Brimful of starlight, and he said: The Stamper of the Skies,
He is a gentle roebuck; for how else, I pray, could He
Conceive a thing so sad and soft, a gentle thing like me?

I passed a little further on and heard a peacock say:
Who made the grass and made the worms and made my feathers gay,
He is a monstrous peacock, and He waveth all the night
His languid tail above us, lit with myriad spots of light.


W. B. Yeats
 


BAGDAD / JERUSAL�M 4

Devido a uma avaria na minha rede telef�nica provinciana, (depois das 17.30 n�o h� piquete para arranjar telefones, um servi�o supostamente de 24 horas), n�o pude actualizar as notas sobre esta quest�o. Estas duas notas eram para ter sido colocadas ontem.

1. Tive ocasi�o de ler , um pouco por todo o lado, que o dirigente do Hamas morto pelos israelitas (numa pol�tica de assassinatos selectivos incompreens�vel a n�o ser em estado de guerra) era um �moderado�. Quem diz isto, seja do Departamento de Estado americano, seja no mais portugu�s dos blogues, n�o sabe o que � uma organiza��o terrorista. N�o h� �dirigentes moderados� numa organiza��o terrorista, ponto. Esse mesmo �dirigente moderado� , se era dirigente, esteve com certeza em v�rias reuni�es em que se decidiu o atentado do autocarro e muitos outros atentados. � da natureza da perten�a a essas organiza��es. Votou contra, levantou d�vidas numa reuni�o, achou que n�o era a altura? Se n�o saiu pela porta fora, a denunciar o crime em prepara��o, para o que tem a Autoridade Palestiniana como interlocutor, discutiu apenas t�cticas. Claro que n�o duraria muito, porque nestas organiza��es s� se entra, n�o se sai.

2. Os autocarros israelitas que explodem s�o a guarda avan�ada de muitos outros autocarros, comboios, avi�es, que podem explodir um pouco por todo o lado. � esse o caminho que imperceptivelmente se est� a definir. Algu�m, nalgum s�tio, h� de estar hoje a pensar nas frotas de autocarros que podem explodir no centro de Londres, Nova Iorque ou Madrid, pela obra de um �m�rtir� e nos efeitos desses massacres como oportunidades pol�ticas. � por isso que est� uma guerra em curso.

21.8.03
 


NA MESMA, FIOS NA PEDRA

 


BAGDAD / JERUSAL�M 3

Como esperava, o que escrevi sobre os atentados em Bagdad e em Jerusal�m suscitou muito correio. Alguns dos textos enviados apareceram entretanto nos blogues dos seus autores, pelo que para a� remeto os leitores. H� algumas cartas que contem textos que directamente confrontam o que escrevi. Seleccionei algumas, compreendendo bem que palavras duras suscitam palavras duras. Como � obvio, n�o concordo com o seu conte�do, mas penso que suscitam quest�es que merecem reflex�o, ou que s�o significativas do modo como as pessoas v�m esta muito complexa situa��o.


"Porque raz�o � que as mortes israelitas, na sua enorme brutalidade, n�o suscitam um milion�simo de reac��o, da f�cil reac��o que outras mortes causam, mas apenas incomodo? (�) Porque raz�o as mortes iraquianas suscitam l�grimas e as israelitas coment�rios?" (perguntas de JPP)

Pela mesma raz�o pela qual tomamos o partido dos ind�os de lan�a na m�o contra o dos cowboys de Gatling na cintura.

Pela mesma raz�o pela qual se nos confrangemos ao vermos o longo bra�o armado de Israel entrar por territ�rio alheio adentro e arrasar a casa do 'm�rtir' que se fez explodir ontem.. (como essa fosse a terapia indicada para impedir a barb�rie! Como se essa fosse a melhor pol�tica de rela��es p�blicas que algu�m pudesse imaginar no sentido de angariar boas vontades a n�vel mundial!)

Pela mesma raz�o pela qual me arrepio ao ver os judeus Hasidi, ultra- ortodoxos, por todo o lado. Homens, todos. S�o homens severos, velhos e novos que se vestem de negro, que usam um chap�u antiquado (ou um streimel) ao inv�s da kippa, que exibem as tzitzis por sobre as cal�as e os payos (aquelas longas tran�as por sobre as orelhas, geralmente com o restante couro cabeludo rapado � m�quina de pente um mandatadas por Deus no Lev�tico 19:27) com orgulho e que balan�am devagarinho, para tr�s e para frente, enquanto murmuram preces em hebraico sonegadas a livros assebentados que parecem deles fazer parte integral. Entram-me em casa pela televis�o, saltam-me aos olhos na capa do P�blico, sempre r�gidos e severos, sempre calados, proverbialmente vingativos
e castigadores.

O fundamentalismo � sempre assustador, seja l� qual for a forma sob a qual se apresente. E a intoler�ncia � sempre a m�e de todos os conflitos, a pedra de toque de um futuro que teima em n�o haver, com ou sem v�timas politicamente correctas. Ou n�o."

(Alexandre Monteiro do No Arame)


*

Li no seu blogue:

"Porque � que n�o se pode dizer que S�rgio Vieira de Mello morreu pelo mesmo objectivo por que morrem os soldados americanos? Por ter sido funcion�rio da ONU?"

Sou um grande fan do seu blogue, mas as frases anteriores revelam uma grande hipocrisia e m� vontade por parte do seu autor, pois facilmente se v� que S�rgio Vieira de Mello n�o fazia parte de um ex�rcito de ocupa��o
.� (Pedro Andrade)

*

Escreveu no abrupto sobre os atentados de Badgade e Jerusal�m: �� que h� muita gente que prefere os seus confortinhos ideol�gicos, ao decente sentimento de poupar a dor a pessoas concretas�

N�o me leve a mal, mas quanto ao decente sentimento de poupar a dor a pessoas concretas, n�o me ocorre ningu�m com menos legitimidade em invoc�-lo do que aqueles que, como o Senhor, fizeram a apologia da interven��o militar no Iraque.
� (Manuel Anselmo Torres)

20.8.03
 


BAGDAD / JERUSAL�M 2

Por que � que n�o se pode dizer que S�rgio Vieira de Mello morreu pelo mesmo objectivo por que morrem os soldados americanos? Por ter sido funcion�rio da ONU?

Por que raz�o � que as mortes israelitas, na sua enorme brutalidade, n�o suscitam um milion�simo de reac��o, da f�cil reac��o que outras mortes causam, mas apenas incomodo? Deixem-se de disfarces � est� escrito em letras garrafais em tudo o que est� escrito e no muito que n�o est�.

Por que raz�o as mortes iraquianas suscitam l�grimas e as israelitas coment�rios?

Por que raz�o ningu�m quer saber para coisa nenhuma do plano de paz israelo - palestiniano, o �nico que existe, o �nico que se est� a implementar, o �nico que permite alguma esperan�a? Porqu�? Porque acham que � Arafat que tem raz�o ou o Hamas? � com eles que v�o fazer a paz?

Por que � que este pobre, d�bil, fr�gil plano n�o suscita a mais pequena defesa, o mais pequeno entusiasmo pela paz, a mais t�nue mobiliza��o da opini�o p�blica? Porqu�, porque os americanos est�o envolvidos?

Porqu�? Tem outro? Conhecem alternativa?

H� uma raz�o brutal para algumas respostas a todas estas perguntas e que s� se aplica a quem as enfiar como carapu�a. � que h� muita gente que prefere os seus confortinhos ideol�gicos, ao decente sentimento de poupar a dor a pessoas concretas. E que n�o quer saber rigorosamente para nada quer dos israelitas, quer dos palestinianos, quer dos iraquianos, concretos, mas sim das abstrac��es long�nquas de que se alimenta um discurso f�cil e arrogante sobre o mundo.
 


MOMENTOS

 


IRAQUE

Eu n�o gosto de escrever sobre a situa��o iraquiana de forma fragment�ria e curta, para que os blogues empurram. O Iraque � mat�ria em que quem apoiou o conflito tem, no meu entender, uma responsabilidade particular e s� o pode tratar muito a s�rio., ou seja, de forma extensa e mais longa, para permitir a argumenta��o. Farei isso noutros locais mais apropriados, aqui ficam apenas notas por desenvolver.

Contrariamente ao que se possa pensar, n�s temos hoje um grande deficit de informa��o sobre o que se passa no Iraque. A cobertura noticiosa � puramente incidental, manifesta��es, atentados e mortes de soldados americanos ou de civis. Tudo o mais, que � relevante no plano pol�tico mas menos espectacular, n�o chega aos jornais e �s televis�es. Julgar apenas com base nos incidentes, muito diferentes de natureza uns dos outros, � cair numa armadilha interpretativa.

H� no entanto um dado de bom senso, que pode ser partilhado pelas pessoas moderadas, � esquerda e � direita, mesmo com os que se opuseram � guerra � a verifica��o de que, se houvesse uma retirada das tropas americanas, haveria um banho de sangue no Iraque. Haveria uma desestabiliza��o generalizada no M�dio oriente e um crescendo do terrorismo a n�vel mundial.

A natureza do problema que se defronta no Iraque � mundial, n�o � local. � da natureza da guerra e n�o de uma opera��o de pol�cia. Tem caracter�sticas de uma guerra civil mundial, n�o o sendo exactamente. � uma guerra moderna porque vive da combina��o entre o atentado suicida e o impacto na opini�o p�blica. � apocal�ptica porque quanto mais mortos, quanto mais c�maras presentes, maior � o espect�culo, maior � a efic�cia

A compara��o com o Vietnam � uma asneira completa. Nem o Iraque � o Vietnam, nem o mundo � o do Vietnam, nem a opini�o p�blica americana � a do tempo do Vietnam, nem o ex�rcito americano � o do Vietnam, nem o fundamentalismo � o nacionalismo. Podia continuar-se indefinidamente.

A chave para resistir no Iraque o tempo necess�rio para se ter resultados � a firmeza e a persist�ncia, as duas qualidades que o ascenso da demagogia nas democracias modernas mais dissolve na vida p�blica. A sobreviv�ncia das democracias no s�culo XXI vai depender de se encontrar um equil�brio que impe�a a demagogia de substituir a democracia e a pedra de toque dessa capacidade est�, a n�vel global, em saber-se se as democracias v�o continuar a poder fazer a guerra, a serem democracias armadas e a conduzir pol�ticas de guerra com persist�ncia suficiente para elas mudarem alguma coisa.

Eu n�o precisava de dizer que a guerra numa democracia � um instrumento de �ltimo recurso para defesa e seguran�a e para construir a paz, mas � melhor dizer para n�o facilitar as interpreta��es de m� f�. Sem um pensamento sobre a guerra, n�o h� paz, sem um pensamento democr�tico sobre a guerra , o mundo ser� muito mais violento. Se em meados do s�culo XXI as principais pot�ncias militares mundiais forem regimes ditatoriais, a democracia conhecer� um longo ocaso e haver� um prolongado sofrimento para milh�es e milh�es de homens. T�o simples como isso.
 


A MASTURBA��O DA DOR

Devido �s minhas estadias europeias tenho uma oportunidade de ver os normais notici�rios televisivos, quotidianos, comuns, de v�rias televis�es nacionais p�blicas ou privadas. N�o me refiro �s vers�es, que tamb�m se podem ver em Portugal, por cabo ou sat�lite, normalmente vers�es especiais, reduzidas, dos notici�rios dos pa�ses de origem, mas diferentes em muitos casos do que passa �s 13 ou 20 horas em Madrid, Bruxelas, Paris, Londres ou Berlim.

N�o h� qualquer remota parecen�a com os notici�rios televisivos portugueses, com o exagerado tempo de �not�cias�, com o caos da agenda noticiosa, com a repeti��o vezes sem fim e ao mais pequeno pretexto das imagens fortes, com a inser��o de pe�as narrativo - ficcionais sobre noticias fortes do passado quando n�o h� adrenalina no presente, com m�sica de fundo e tratamento �est�tico� das imagens, com a utiliza��o, sem qualquer pedido de autoriza��o, de cenas de dor e choro, com jornalistas excitados a fazer simula��es de riscos que n�o correm (houve v�rias nos inc�ndios para uma s� genu�na) e fazendo as perguntas mais est�pidas do mundo a pessoas que est�o a sofrer.

Uma especialidade actual dos media televisivos, que teve o seu primeiro esplendor com a queda da ponte de Castelo de Paiva, � a masturba��o da dor alheia.

19.8.03
 


VAZIO

 


BAGDAD / JERUSAL�M

N�o foi preciso deixar o Assass�nio na Catedral de T. S. Eliot (tradu��o de Jos� Blanc de Portugal):

Entorpecida a m�o, secos os olhos,
Continua o horror e mais horr�vel sempre;
Mais horr�vel que o rasgar dos nossos ventres
Continua o horror e mais horr�vel inda
Que o torcer dos nossos dedos
E o que as cabe�as nos espeda�ava;
Pior que os passos pela claustra;
Pior que as sombras do portal;
Pior que o furor no pa�o episcopal.
Sumiram-se os agentes do inferno, os homens amesquinham-se, encolhem-se e esgueiram-se.
Solutos na poeira do vento, esquecidos, imemor�veis; apenas aqui fica
A branca lisa face da Morte, de Deus silenciosa serva;
E atr�s dela o Final Ju�zo;
E atr�s do Ju�zo o Vazio vem; o Vazio ainda mais horr�vel que as activas formas do inferno;
Vacuidade, aus�ncia, separa��o de Deus; o horror da jornada inesfor�ada para a terra vazia,
Terra que o n�o �, apenas vacuidade, aus�ncia, o Vazio
Onde os que foram homens mais n�o podem tornar seu pensamento,
Ou distra�rem-se, ou iludirem-se, fugirem para os sonhos, simularem;
Onde a alma enganar-se n�o mais pode pois l� n�o existem nem Sons nem objectos,
Nem cores nem formas que a distra�am ou afastem
Da vis�o de Si pr�pria, vilmente unida eternamente, nada de nada,
N�o o que chamamos morte mas o que lhe e al�m e n�o � monte;
Temos medo! Medo! Quem ent�o me pode defender,
Interceder por mim na necessidade extrema?�

 


A COMPRAR

A correr, antes que desapare�a, se esgote, acabe. O livro de hoje do DN, � o Assass�nio na Catedral de T. S. Eliot, na tradu��o de Jos� Blanc de Portugal. Nas p�ginas 65 a 67, na fala do coro, um dos pedidos de perd�o mais veementes, porque �eu consenti�. Tom�s responde: �A esp�cie humana n�o suporta muito bem a realidade�.
 


NOTAS CHEKOVIANAS 4

O quadro que hoje nos ilustra varia do modelo habitual por causa das notas sobre Chekov. � uma parte de uma pintura do noruegu�s Peder Severin Kroyer um dos pintores de Skagen. Passa-se ali�s em Skagen em 1893, uma cena burguesa, de um pequeno-almo�o de intelectuais a� veraneantes. A luz de Skagen est� tamb�m presente reflectindo-se no vestido da mulher e no boi�o com as flores. Tudo � s�lido, tudo parece ser simples e de boa qualidade, n�rdico se se quiser. Na mesa est� p�o, manteiga, ovos, ch�, talvez caf�, �gua gaseificada. Alguns destes pormenores n�o se v�m no fragmento, mas apenas no quadro original. Uma reprodu��o do original est� aqui.

Na pintura est� o casal Kroyer e Otto Benzon, um escritor dinamarqu�s, autor de alguns dos poemas que Grieg musicou. Todo este mundo � t�o n�rdico que se procurarem na Internet por estes nomes, quase nada aparece em ingl�s. A raz�o porque este quadro me atraiu foi pelo humano exerc�cio (e chekoviano) de divagarmos em imagina��o de como � que no futuro nos poder�o ver. Como � que daqui a cinquenta anos se olhar� para o que somos , o que fazemos, como vivemos? Eu j� n�o generalizo, mas fico-me com os intelectuais, com os litterati, que somos quase todos os que escrevem aqui � os �mulos menos talentosos dos veraneantes dourados de Skagen.

O quadro responde-nos, porque Benzon, e os Kroyer fizeram certamente a mesma pergunta. Assim. Fomos n�s? Somos n�s.
Sem a pintura.
 


MUNDO

 


NOTAS CHEKOVIANAS 2

H� um momento na literatura russa, entre o fim do s�culo XIX e o in�cio do s�culo XX , em que escritores como Tolstoy e Chekov encontraram um olhar �nico, que n�o sei descrever melhor do que usando as palavras de outro, o olhar do �milk of human kindness� shakespereano.

Entre as raz�es que estiveram na origem desse olhar est�o raz�es que hoje, que estamos em tempos de retorno ao esteticismo, n�o nos pareceriam suficientemente �liter�rias�. Fizeram-no por preocupa��es sociais. Um e outro disseram-no de forma expl�cita.

Esse olhar, esse toque a que chamo chekoviano, n�o se concentrou na fractura da diferencia��o social (como o fizeram outros escritores, Tolstoy em parte, Gorki), foi para al�m dela para ver a mis�ria humana, o sofrimento das pessoas comuns, a n�voa de tristeza das vidas mal vividas, seja a que n�vel social for.

Chekov percebeu a intensidade do sofrimento das pessoas comuns, e a maioria das pessoas comuns eram, na R�ssia, camponeses vivendo na mis�ria, mas manteve a continuidade do olhar, mesmo subindo na escala social. Muitos contos de Chekov passam-se nos meios �pequeno - burgueses�, pequenas vidas, pequenos sonhos, pequenas riquezas, f�rias em Yalta, cidades provincianas, funcion�rios e oficiais de baixa patente, embora n�o ficasse por a�. Mas o toque � o mesmo, toca num pequeno mosteiro pobre, num casa camponesa, numa pris�o de deportados, ou num clube de oficiais sem nada para fazer, e encontra o mesmo abismo entre a vida que se desejava viver e a que se vive. O maior abismo que h�.


NOTAS CHEKOVIANAS 3

O toque chekoviano foi o encontrar um modo muito simples de falar desta tristeza, sem mais do que a enunciar, pequenos tra�os sobre pequenos tra�os, muitas vezes interrompendo uma sequ�ncia narrativa que o leitor esperava ver conclu�da. N�o h� em Chekov grandes amores, grandes paix�es, actos nobres, nenhuma esp�cie de grandiloqu�ncia nem afectiva, nem qualquer outra. H� uma voz m�nima que perpassa entre as personagens, todas um pouco perdidas entre o aborrecimento e a tristeza, entre a dor sentida e a percep��o da dor dos outros.

Esta falta de grandiloqu�ncia, n�o diminui em nada a for�a dos sentimentos. Talvez mais do que em qualquer outro escritor, h� uma enorme integridade pessoal nas personagens chekovianas, fi�is a um destino que n�o controlam, mas tendendo, a, no momento certo, fazerem as coisas certas sem qualquer sentimento de arrog�ncia moral. Estas �coisas certas� em Chekov tamb�m n�o s�o decis�es dilacerantes, mas pequenos actos que se esgotam mal se realizam.
 


SINDROMA DE ABSTIN�NCIA

Os nossos notici�rios televisivos, dos tr�s canais em un�ssono, sofrem de sindroma de abstin�ncia: fazem-lhe falta os fogos. Como nada est� a arder em s�tio nenhum, passam imagens sobre imagens, dos fogos da semana passada (sem indica��o que s�o imagens de arquivo, para assustar as pessoas) na parte nobre que , noutra era televisiva, era reservada para not�cias. Que pena, n�o �, que n�o haja inc�ndios?
 


NOTAS CHEKOVIANAS

Inicio aqui uma s�rie de notas, observa��es, indica��es sobre um dos meus autores absolutos, Chekov. H� os autores de que se gosta, os autores favoritos e h� os autores absolutos � sem os quais n�s n�o somos o que somos, porque fomos feitos por eles. S�o muito poucos, como � natural. J� basta a confus�o que cada um �, ainda por cima transportar depois uma multid�o de vozes � volta, falando tanto ou mais alto.

Estas notas n�o ter�o qualquer ordem. Incluir�o meras observa��es, relatos de visitas minhas a locais chekovianos, compara��es �s vezes um pouco imprevis�veis, como com Ces�rio Verde, entusiasmos de leitura. Vale tudo, desde que seja � volta de Chekov.
 


EARLY MORNING BLOGS 30

Escrevi ontem que para mim o template � a face do blogue, mais que a face do seu autor: Talvez por isso eu esteja t�o preso ao meu, template de f�brica, ready made do Blogger, mas fazendo-me bom servi�o. Escolhi-o pela simplicidade e legibilidade, e partilho-o com mais um ou dois blogues, n�o muitos porque poucos o escolheram e, alguns que o escolheram, entretanto mudaram.

Isto � um pouco contradit�rio, porque gosto de ver os outros blogues mudarem, e de um modo geral penso que mudam para melhor. Mas este meu, vermelho e branco, como a antiga bandeira czarista , ficar� aqui por v�rios s�culos.

Outra coisa que acho interessante � o modo como o tempo no blogue se manifesta de uma forma parecida com o tempo inscrito na geologia, por estratos. Eu coloco esta nota e empurro para baixo a imagem e as outras notas. Uma sair� da zona vis�vel e entra no princ�pio da sombra. Como os mares antigos, que somos capazes de ler numa rocha, folha a folha, de um gigantesco cemit�rio, o tempo empilha camadas. A camada de cima aperta as de baixo reduzindo-as a um fio cada vez mais fino de hist�rias indecifr�veis.

Ser� que quem ler isto, muitas camadas depois, numa arqueologia esfor�ada qualquer, encontrar� tamb�m, numa camada de ir�dio, o sinal dos grandes impactos? E das grandes extin��es?

18.8.03
 


CORSO - RICORSO

 


EARLY MORNING BLOGS 29

Pouco a pouco, os blogues chegam de f�rias. Recome�a a Torre de Babel a ser constru�da.

Reparei hoje, com alguma surpresa, num efeito de despersonaliza��o na minha rela��o com a leitura dos blogues: associo-os pouco com os seus autores, mesmo quando os conhe�o pessoalmente ou sei o que fazem e o que escrevem. O blogue X � o blogue X e, mesmo quando sei de quem �, essa perten�a � muito imaterial, raras vezes me lembro disso ao l�-lo. Leio-o sem a vera ef�gie. A face � o template cheio de palavras e imagens.

Tenho tamb�m muito pouca curiosidade em saber de quem s�o os blogues, atitude que n�o � partilhada por muitos, para quem a identidade do seu autor se sobrep�e a tudo e procuram afanosamente saber quem est� por detr�s de um pseud�nimo.

Claro que h� excep��es, e essas excep��es funcionam exactamente ao contr�rio - nesses blogues s� h� o autor(a) e o resto � que � abstracto. Vejo a pessoa viva atr�s. Mas acontece com menos blogues do que os dedos de uma s� m�o. A blogosfera � , para mim, impessoal.
 


HAROLDO DE CAMPOS

Morreu Haroldo de Campos, um nome que talvez n�o diga muito hoje a ningu�m. A mim diz muito, porque foi atrav�s de Haroldo de Campos e M. S. Louren�o (nos artigos do Tempo e o Modo) que comecei a entrar dentro de Pound e Joyce. E n�o era o Joyce do Ulisses mas o do Finnegans Wake . �Entrar dentro� significava interessar-me muito, entusiasmar-me, estudar, tentar repetir, e mandar umas coisas como resultado para o Di�rio de Lisboa Juvenil. A�, o Castrim, que tinha o c�none apertado, poupou-me a vergonha da publica��o.
 


TEMPOS DE PUREZA

Palavras da �Ignota� , �L�cia� em Come Tu Mi Vuoi , pe�a escrita em 1929, por Luigi Pirandello:

"Sono qua, sono tua; in me non c'� nulla, pi� nulla, di mio: fammi tu, come tu mi vuoi. Eccomi di nuovo a te, non per me pi�, non per ci� che quella pu� aver vissuto ... nessun ricordo pi�: dammi i tuoi ... Questi ridiventeranno vivi in me, vivi di quell'amore che lei ti diede."

"Io s�, sono Cia, non quella che fu, quella che sono io oggi, domani ... Essere? Essere � niente! essere � farsi."

Imaginem o que uma grande actriz faz destas palavras.

17.8.03
 


ORIGEM DAS IMAGENS

� natural que periodicamente os leitores perguntem sobre a origem das imagens, porque as explica��es que j� dei sobre elas est�o l� para tr�s, enterradas no limbo dos arquivos, onde os textinhos, que brilharam um dia � luz do ecr�, vagueiam soturnos no meio das sombras electr�nicas. Os leitores podem dar-lhes uma alegria passageira visitando-os, jorrando o sol da aten��o sobre essas palavras esquecidas.

De qualquer modo algumas das imagens mais recentes s�o de Caspar David Friedrich, Marcus Larson, L. A. Ring, Roy Lichtenstein, Claude Monet, P. S. Kroyer. Jacobus van Looy, Johan Thomas Lundbye, Edward Lear, Memling, Emanuel Larsen, Van Gogh, etc. N�o h� ordem nem cronol�gica, nem est�tica, nem qualquer outra. H� um elevado n�mero de pintores do Norte da Europa, n�rdicos em particular, da chamada �escola de Skagen�.

Voltarei um dia a falar dos pintores de Skagen, um dos meus entusiasmos em pintura, criadores da �luz do Norte� que n�s, no sul , desconhecemos.
 


T�TULOS QUE NUNCA USEI 2

Um grupo de amigos sugeriu-me outro t�tulo � procura de artigo: �N�o foi por querer�, ou �n�o foi de prop�sito�. Vem na sequ�ncia do �Pode ser Vidago?� que, por sua vez, tem como inspira��o �ltima a hist�ria de E�a de Queiroz da chegada tardia a S. Apol�nia de Fradique. O tema � modesto: Portugal.
 


GRAVITAS

 


UMA PROCISS�O POPULAR

Daquelas genu�nas, s� para as pessoas de uma pequena aldeia, sem ningu�m de fora, desconhecida, n�o especial por coisa nenhuma. Um acto social puro de uma pequen�ssima comunidade.

Sai da igreja ap�s uma formatura complicada pela desorganiza��o geral. Mas, pouco a pouco, a experi�ncia de anos e anos sobrep�e-se, e a fila organiza-se. Uma prociss�o � uma fila.

� frente, tr�s homens cobertos com uma capa branca. A seguir o presidente da colectividade organizadora das festas deste ano (revezam-se) com fato domingueiro, com um pend�o antigo bordado com o santo padroeiro e o nome da terra. O escuro do fato contrasta com as capas brancas esvoa�antes que s�o a regra nos homens e mulheres que transportam os andores e que constituem o corpo avan�ado da prociss�o. O mesmo pend�o j� tinha servido para encabe�ar a banda no pedit�rio anual pelas ruas. Funciona como a bandeira n�o oficial da aldeia.

Seguem-se os andores, muito pequenos, porque os santos s�o os da igreja, apeados dos altares e tem tamanhos vari�veis, uns maiores outros, mais pequenos, mas como a terra � pobre tendem para o muito pequeno. Os andores s�o padiolas onde assenta o santo e � sua volta explodem flores. Uma das riquezas da
prociss�o s�o as flores viv�ssimas dos andores, vermelhas, amarelas, brancas. No dia anterior, os andores foram montados no interior da igreja, tarefa que exige muito trabalho e dedica��o. � um grupo de mulheres que prepara os andores.

H� qualquer coisa de parada militar na prociss�o, a ordem interior, a marcha cadenciada, a r�gida hierarquia. Quando passa a banda nota-se mais este aspecto militar. A banda � precedida pela bandeira da banda e a seguir o maestro, imponente de autoridade e de gravidade, fato escuro, tendo ao lado uma rapariguinha muito pequena que marcha ao seu lado com evidente prazer (filha? Algu�m que pediu para ir ali?). Depois segue o corpo da banda, fardado, com enorme disparidade de idades, muito velhos e crian�as, tocando instrumentos na maioria de sopro e madeiras. O som da marcha marca a cad�ncia do passo.

O padre, um jovem padre que se ocupa de v�rias par�quias na regi�o, vem vestido de branco, com ar fr�gil, rodeado de jovens. Enquanto o presidente da colectividade caminha sozinho com a sua bandeira, o padre est� no centro de um pequeno grupo. A Igreja como comunidade? A colectividade como hierarquia?

Embora haja pessoas a ver ao lado, nos passeios, persignando-se quando passa o andor de N. S. da Assun��o, ou o padre, a esmagadora maioria vai integrada na pr�pria prociss�o, no fim. � a� que vai a comunidade, uma pequena mole de cem, cento e cinquenta pessoas, compacta, as mulheres �s vezes de bra�o dado, um pequeno n�mero de casais, algumas crian�as pela m�o. O grupo final � a aldeia, ou melhor, a parte feminina da aldeia. O n�mero de homens � pequeno.

Apesar do som da banda, o sil�ncio predomina. Fam�lias que s� se re�nem uma vez por ano est�o c�, fam�lias que s� v�m � terra uma vez por ano, c� est�o, uma terra com muito pouca gente, quadruplicou � h� crian�as a correr por todo o lado, raparigas e rapazes a passar ruidosos na sua adolesc�ncia a anunciar por todo o lado, telem�veis tocam � esquerda e � direita, as not�cias de compras e vendas, sucessos e insucessos, funerais, casamentos, namoros e div�rcios s�o postas em dia.

A comunidade reconstitui-se por um dia � volta da prociss�o e dispersar-se-� no dia seguinte. At� ao ano. H� uma for�a interior invis�vel no meio deste corso-ricorso, uma perten�a.

16.8.03
 


MICROCOSMOS

 


PEDRAS

Os Reflexos ontem foram pouco am�veis para com as pedras. Escreveu o seu autor :

Com uma pedra n�o se fala, contorna-se. �

Eu percebo a frase para certo tipo de pedras, para determinadas variantes de pedras homin�deas. Percebo tamb�m que os �reflexos el�ctricos� , sendo do lado das part�culas fugazes, olhem para a solidez da pedra com desconfian�a. Mas, l� no fundo da pedra est�o �reflexos�, sobre �reflexos�, sobre �reflexos�, tamb�m fugazes a seu modo mais preso. Digamos que cintilam menos.

Eu sou mais amador de pedras devido � li��o que recebi da Educa��o pela Pedra do Jo�o Cabral de Melo Neto e a uma velha admira��o pela frase fundadora : �sobre esta pedra � � Mas se nos desentendemos sobre a pedra em geral, penso que nos encontramos no l�pis laz�li, a pedra sem a qual n�o havia os azuis dos quadros italianos e que, penso, est� reflectida no �azul el�ctrico�.
 


EARLY MORNING BLOGS 28

Uma nota de circunst�ncia: uma das minhas liberdades neste blogue � n�o ter que me pronunciar sobre tudo, nem sobre a agenda do mundo exterior, nem sobre a agenda desta atmosfera. � ali�s uma liberdade bastante prezada penso que por todos. Eu, que como muitos outros aqui, acabamos por defender micro - causas , a �ltima coisa que me passa pela cabe�a � que os outros blogues se tenham que pronunciar sobre elas.

Essa liberdade � t�o natural como a id�ntica liberdade de me pronunciar sobre o que me apete�a, o que inclui claramente muitas mat�rias tamb�m aqui discutidas. A mais in�til das notas � a que insta o outro a pronunciar-se e tira imediatas conclus�es morais, sobre as raz�es porque n�o faz. Ora o que abundam s�o falsos problemas, problemas colocados de modo viciado, problemas que n�o me interessam, problemas sobre os quais eu n�o sei o suficiente nem para ter a veleidade de me pronunciar, problemas sobre os quais acho que j� disse o que queria, problemas sobre os quais, como toda a gente, existem factores de censura e inibi��o pessoais. Por isso, � mais natural o sil�ncio do que a fala.

15.8.03
 


CHANSON DE LA PLUS HAUTE TOUR


 


NOVA IORQUE. NOVA IORQUE

Onde eu gosto tanto de estar.

Estava em Nova Iorque no dia do apag�o nos anos setenta. Lembro-me, como hoje. Meia hora depois, os empregados de restaurantes e caf�s vieram para a rua dirigir o tr�nsito, com uma habilidade, longamente reprimida, para, uma vez na vida, serem bailarinos e sinaleiros.

Apesar das enormes dificuldades que a falta de luz causa numa cidade como Nova Iorque, as pessoas riam, falavam umas com as outras e iam ajudando no que podiam.

No meu hotel, o Washington Square Hotel, um velho hotel delapidado, e frequentado pela fauna da Village, onde havia sempre um som ao fundo de jazz e o ar cheirava a erva, o meu quarto era num dos andares superiores, talvez onze ou doze. Na entrada do hotel, organizavam-se excurs�es de subida aos quartos em grupo pela escada de servi�o, escura que nem breu, sem janelas. Os grupos organizavam-se com velas e l� iam rindo, pregando sustos, brincando pela escada acima. Algumas dessas subidas devem ter contribu�do para o baby boom do apag�o.

Presumo que depois do 11 de Setembro, as coisas n�o tenham sido t�o felizes, mas, pelo que se viu nas ruas, continua a ser a grande Nova Iorque, cidade �nica no mundo.


FOGUETES

Eu pr�prio fiz a pergunta e j� tenho v�rias respostas � em muitos locais n�o houve foguetes nas festas de N. S. da Assun��o. A directiva do MAI foi aplicada pelos governadores civis e, com mais ou menos protestos, acatada. O clima de revolta com os inc�ndios ajudou ao cumprimento, e convinha que, passado este choque, se aproveitasse para acabar de vez com uma desnecess�ria e evit�vel causa de fogos

Agora h� um ano para as pirotecnias investirem no fogo preso e abandonarem o fogo de cana, perigoso para os inc�ndios, e provocando todos os anos uma s�rie de acidentes com crian�as, Para que se incentive o uso de lasers decorativos, que n�o tem estes perigos. Para que se aprenda alguma coisa e n�o se ande para tr�s outra vez.
 


AVARIAS

Devido a avarias em v�rias pe�as do hardware que suporta o Abrupto, blogue e correio electr�nico, textos e trabalhos, este est� desde ontem em regime de manuten��o m�nima. Talvez durante o dia de hoje se volte ao normal.

14.8.03
 


CALMA


 


CONTRIBUI��O PARA O DEBATE SOBRE A TSF

Em Dezembro de 2000, quando a PT comprou a Lusomundo, houve apenas uma voz que suscitou problemas a essa compra quer na imprensa, quer no Flashback da TSF. Seguem-se extractos do que escrevi na altura no P�blico :

A compra da Lusomundo pela PT e a hip�tese de se concretizar id�ntica compra da Media Capital, junta na PT um dos grupos mais poderosos de comunica��o social em Portugal. Com um mesmo dono ficar�o entre outros o Di�rio de Not�cias, o Jornal de Not�cias, a TSF, portais do Internet e eventualmente a TVI, o Di�rio Econ�mico, e v�rios outros jornais regionais e r�dios. A justifica��o oficial dessa compra est� na necessidade de unir "conte�dos" com plataformas de telecomunica��es, uma tend�ncia caracter�stica dos "neg�cios" na �rea estrat�gica da nova economia. Tudo isto parece id�ntico ao que se passa nos outros pa�ses e o "neg�cio" fundamentado em tend�ncias correntes da economia. Mas esta inocente an�lise, t�o conveniente ao poder, esconde uma perigosa consequ�ncia para a qualidade da nossa democracia.

(�) Alguns directores de �rg�os de comunica��o social do grupo Lusomundo, entenderam escrever editoriais ou dizerem que o "neg�cio" n�o impedia a liberdade editorial que eles pr�prios garantiam nos �rg�os de comunica��o. N�o contesto a genuinidade das suas convic��es de que assim seja, mas acho que, est�o a ser pouco cautelosos e a desprevenir os seus leitores e ouvintes, e em geral os portugueses quanto �s consequ�ncias do que se est� a passar. De facto, como jornalistas, com responsabilidades de direc��o, eles devem ser os primeiros a saber que justificar o que se passou como se fosse "apenas" um "bom neg�cio" nestes tempos de nova economia ilude o essencial: o papel do governo no "neg�cio" e a depend�ncia do governo da PT atrav�s da chamada "golden share". Eles vieram garantir com grande ingenuidade, que nenhum comando pol�tico ser� poss�vel, visto que as op��es do "neg�cio" n�o ter�o reflexos editoriais e, que se tratava por parte da PT, apenas de comprar "conte�dos", para potenciar a sua plataforma de distribui��o. A pr�pria justifica��o deste "neg�cio", feita desta forma acr�tica, � j� preocupante.

O que se passa � que nesta aquisi��o da PT h� quest�es pol�ticas incontorn�veis e que devem ser descritas com toda a clareza para se perceber bem: quem manda na PT � o governo, e dificilmente algu�m imagina a decis�o da compra da Lusomundo (e eventualmente de outras compras a haver) sem que tal passasse por uma decis�o do governo. Tem sido pol�tica do tandem, Primeiro Ministro Guterres, Ministro Pina Moura, privatizar na apar�ncia, e refor�ar o controle do governo atrav�s de golden shares, do exerc�cio da tutela e da nomea��o de gestores de confian�a pol�tica, e da interfer�ncia directa do governo em actos normais de gest�o. Isto coloca a decis�o da PT numa luz diversa da de um mero "neg�cio". A PT n�o � uma empresa privada qualquer � um instrumento "estrat�gico" do governo e do poder socialista e j� n�o � de agora que � assim.

Dito com a brutalidade das grandes verdades, a cadeia de comando vai do Ministro Jorge Coelho, para o Presidente do Conselho de Administra��o Murteira Nabo e, quer um quer outro, n�o s�o pessoas vulgares mas socialistas com fun��es politizadas: o Ministro Coelho � o que se sabe e o Eng. Murteira Nabo s� n�o foi ministro, pela raz�o que tamb�m se sabe. Com a golden share do estado, as decis�es �ltimas sobre qualquer grande neg�cio da PT v�o a Conselho de Ministros, formal ou informal, e � por isso que quando eles est�o a mexer nos "conte�dos", mesmo que em nome dos "neg�cios", se possa suscitar necessariamente uma quest�o pol�tica s�ria de liberdade e pluralismo. E se n�o se suscita, ent�o a coisa � ainda mais s�ria, porque se est� a jogar ou no amorfismo ou, pior ainda, em obscuros compromissos de que muitas vezes a pr�pria oposi��o n�o est� isenta, em empresas geridas pelo m�todo do "bloco central".
(�)
J� ningu�m � suficientemente ing�nuo para pensar que a interfer�ncia do governo na comunica��o social se faz por telefonemas directos dos ministros, embora ainda os haja. As formas s�o mais sofisticadas uma das quais s�o as "reestrutura��es" em nome da efic�cia dos "neg�cios" que condicionam carreiras, postos, compromissos e o destino de jornais e r�dios. Tamb�m a� h� algu�m a premiar quem se porta bem e quem se porta mal e esse algu�m est� no governo, ou depende do governo.


Este foi o contexto da compra da Lusomundo pela PT e as consequ�ncias previs�veis para quem pensasse um pouco. Acrescento apenas que de h� muito penso que um governo, qualquer governo, seja socialista ou social-democrata, n�o deve controlar �rg�os de comunica��o social, quer directa, quer indirectamente e que tendo meios para os controlar , usa-os sempre. � v�lido para a RTP, para a Lusa, para todo o sistema comunicacional ligado a empresas p�blicas.

Se hoje se v�, no fim da TSF como emissora noticiosa, um manobra grave contra o pluralismo informativo, conv�m ir atr�s, � raiz do problema.
 


ASPECTOS DO IMPERIALISMO CULTURAL AMERICANO

H� uma s�rie televisiva americana que se arroga o direito de falar de Proust, Goya, Sartre, Heidegger, Camus, Kierkegaard, Churchill, Dostoiewsky, Coleridge, Freud, Lacan, para al�m dos Beatles, das Spice Girls e mais mil e uma refer�ncias � nossa s�lida e inexpugn�vel cultura europeia, parte do nosso baluarte identit�rio contra o imperialismo americano. Devia haver protestos por eles n�o se ficarem apenas pelas �french fries�. Podem chamar o Bov� para ele ir partir os vidros das Barnes and Noble.

Os culpados s�o os Sopranos.
 


T�TULOS QUE NUNCA USEI

�s vezes h� textos � procura de t�tulos, outros t�tulos � procura de textos. H� muitos anos que dois t�tulos me perseguem, sei o que queria escrever para eles e nunca fui capaz, ou por pura incapacidade ou receio, medo, medinho.

� o caso de um texto sobre Portugal que nunca fui capaz de escrever com o t�tulo �Pode ser Vidago?�, excelente retrato de uma terra onde se pede uma coisa e nos perguntam se pode ser outra. N�s queremos Pedras, ou Carvalhelhos, ou outra coisa qualquer e respondem-nos quase automaticamente se pode ser Vidago. A resposta, como se sabe desde E�a, � pode� Pode ser Vidago.

O segundo t�tulo � o de uma can��o que todos os anos ou�o repetida mil e uma vezes nas festas populares: �Quem nasceu para lagartixa nunca chega a jacar�. Aqui n�o teria nenhuma dificuldade em descrever a lagartixa, ou v�rias, e a impossibilidade gen�tica de chegar a jacar�, mas depois, uma mistura de �para que � que eu estou a ma�ar-me� e uma r�stia remota de caridade crist� ou de filantropia moscovita � Pessoa, l� me deixa o t�tulo no limbo.

13.8.03
 


IRRESPONSABILIDADE

O notici�rio da TVI come�ou com estas palavras : �neste momento no Algarve cerca de 2000 pessoas est�o cercadas pelo fogo�. Quem n�o for capaz de descodificar o alarmismo destas not�cias toma � letra o que � dito: h� 2000 pessoas que n�o podem sair do s�tio X e correm perigo de vida. Quantas pessoas v�o apanhar um susto enorme, absolutamente criminoso, nestes dias j� de susto?

O primeiro testemunho em directo, de uma autarca, um ou dois minutos depois, sobre a mesma situa��o, come�ou assim: �neste momentos a situa��o est� mais calma�. Veja-se o tempo dos verbos, est�o ambos a falar da mesma situa��o. H� fogos que n�o tem chamas.
 


CALMA?

 


PRESENTES MATINAIS PARA OS AMADORES DE LIVROS 2

Para os amorosos da blogosfera

� dif�cil transmitir um grande entusiasmo, mas The Anatomy of Melancholy de Robert Burton, texto j� velho de quase quatrocentos anos, � um deles. Escrevendo sobre aquilo que hoje se chamaria mais vulgarmente �depress�o� do que melancolia, � um cat�logo enciclop�dico dos males do amor e dos �estados de alma�. � uma obra revolucion�ria, profundamente inovadora, um daqueles livros de uma vida, e a quem devemos muito do nosso olhar moderno sobre essas mat�rias. Burton percebeu a enorme dificuldade do seu projecto, "for the Tower of Babel never yielded such confusion of Tongues as the Chaos of Melancholy doth of Symptoms", mas prosseguiu-o com uma dedica��o e uma erudi��o t�pica dos antigos.

O livro � dif�cil de encontrar e est� esgotado nas edi��es dos �cl�ssicos� ingleses, embora a New York Review of Books tenha feito uma edi��o recente mas excessivamente pesada. Sempre s�o mais ou menos 1500 p�ginas que h� vantagem em dividir em v�rios volumes. Existe, no entanto, uma edi��o em linha que permite abrir folhas ao acaso e encontrar as maravilhas quer de Burton, quer dos autores que ele cita, toda a literatura cl�ssica e os cl�ssicos ingleses.

12.8.03
 


INVEN��ES (Actualizado)

A Pol�cia da Escrita do suplemento Ind�gena do Independente faz todas as semanas uma contabilidade dos �mas� , �todavia� e �contudo�, inclu�dos nos artigos publicados na imprensa. Eu l� venho em lugar de destaque e, por curiosidade, uma ou duas vezes, j� tinha verificado qu�o criativa � a contabilidade. S� que agora, mais do que criativa � imaginativa � na semana passada no artigo do P�blico eu teria 50 dessas �muletas�. Sucede que eu, nessa semana, n�o escrevi qualquer artigo no P�blico

*

Leonardo Ralha editor do Ind�gena do Independente enviou-me a seguinte precis�o:

Respondendo ao post �Inven��es�, permita-me esclarecer um ponto. Apesar de tudo n�o passar de uma brincadeira do que considera ser a �pol�cia da escrita do Ind�gena�, a contabilidade est� longe de ser criativa e imaginativa. Os seus 50 pontos n�o dizem respeito � �ltima semana - em que, de facto, n�o escreveu nenhum artigo para o �P�blico� -, mas sim aos �pontos� acumulados desde o in�cio do jogo. Ali�s, na pr�xima edi��o do Ind�gena ser� ultrapassado pelo Jos� Manuel Fernandes, que somou mais alguns pontos enquanto a sua nova falta de compar�ncia levou a que mantivesse a mesma pontua��o.�

Embora o autor do Abrupto n�o seja da escola de que sempre tem raz�o e que mesmo errando se acerta, neste caso entende que continua a ter raz�o. Primeiro, quem l� a coluna semanal n�o percebe nenhum dos seus crit�rios cumulativos , e tende a l�-la como uma avalia��o semanal; segundo, qualquer compara��o resulta injusta se os autores citados n�o escreverem textos com o mesmo tamanho e periodicidade. Bom, fica a afirma��o de que � uma �brincadeira� e um �jogo�. O problema � se a gente fica a olhar para aquele jornal todo e o entende como uma sucess�o de brincadeiras e jogos �
 


ACONTECE

Eu escrevi, publiquei e re-publiquei uma das mais duras (e raras) criticas feitas ao Acontece na altura em que o programa se auto-comemorou, com toda a fina flor do nosso establishment cultural diante das c�maras, governava o engenheiro. As minhas objec��es de ent�o s�o as mesmas de agora. O Acontece retratava bem o car�cter almofadado e reverente da nossa cultura oficial, cheia de lutas surdas de turf e de salamaleques, vivendo das partilhas de v� gl�ria e dos subs�dios, onde todos os livros s�o bons e ningu�m � mau poeta, mau romancista ou mau coisa nenhuma.

Mas eu tenho raz�es seguras para reconhecer em Carlos Pinto Coelho um m�rito de fair play t�o raro em Portugal, t�o ausente dos nossos costumes culturais, t�o pessoalmente estim�vel, que seria uma enorme injusti�a n�o o dizer em p�blico.
 


FIOS NA ROCHA

 


CR�TICAS AO ABRUPTO

Escrevo-lhe estas observa��es a prop�sito do post no Abrupto em que critica a Volta a Portugal e a circunst�ncia de se permitir que os ciclitas corram debaixo desta can�cula.
Pois �, meu caro JPP. Quem fala sobre tanta coisa arrisca-se a errar. N�o vou discutir consigo se o ciclismo � um desporto violento. Porventura ser� um desporto que exige um esfor�o sobrehumano e onde os atletas correm riscos de v�ria ordem. Nesse car�cter �pico reside um dos grandes p�los de interesse do desporto. A minha cr�tica vai para o que est� subentendido no seu post. Se morrer um ciclista, diz o caro JPP, a culpa � de ningu�m, como � costume. Entendo nesta afirma��o que, na sua opini�o, estaremos perante mais um mal portugu�s.
� aqui que est� enganado. A Volta a Portugal � uma brincadeira de crian�as se comparada com uma Volta a Fran�a ou uma Volta a Espanha. Aconselho-o a ver as magn�ficas transmiss�es directas destas provas atrav�s do Eurosport. A Volta a Portugal dura 11 dias enquanto que as de Fran�a e Espanha duram 21 dias. Em Portugal sobe-se a serra da Estrela e em Fran�a sobem-se os Alpes e os Pirin�us. O ciclismo � um desporto de Ver�o e � disputado com temperaturas elevad�ssimas, aquelas que Deus d�. Por vezes sob chuva e ventos inclementes. N�o se adiam provas por causa das condi��es climat�ricas. Seja em Fran�a, Espanha ou Portugal. E � assim em todos os pa�ses ditos civilizados. Os prolet�rios da bicicleta s�o clinicamente acompanhados, de forma que talvez n�o haja paralelo em outros desportos. Quem n�o tem condi��es f�sicas n�o pode ser ciclista profissional.
Tudo isto para lhe dizer que, neste caso, n�o vale a pena bater em Portugal. Bem ou mal, nesta mat�ria somos iguais aos outros. Ir�amos ser a gargalhada da Europa se fosse anulada alguma etapa da Volta porque est� muito calor.
� (ruim)

11.8.03
 


A LER

No n�mero de Junho do Scientific American h� dois artigos muito interessantes.Um de Gordon Kane, �The Dawn of Physics beyond the Standard Model� faz um balan�o actualizado sobre o que explica e n�o explica o modelo dominante da f�sica contempor�nea . Entre o que n�o explica inclui-se �a gravidade, entre o que explica uma imensid�o de coisas.
Outro de Chatles Bennett /Wing Li /Bin Ma , �Chain Letters and Evolutionary Histories� � um not�vel exerc�cio feito a partir das cartas em cadeia e das suas altera��es , permitindo um modelo comparativo para processos que evoluem com o tempo, como, por exemplo. as fam�lias dos mam�feros.
Cada n�mero do Scientific American, a revista que leio regularmente h� mais tempo (desde 1972 li todos os n�meros) , mostra como na ci�ncia h� um entusiasmo imaginativo que escasseia noutras actividades. Em bom rigor foi sempre assim, n�s � que estamos habituados a ver a filosofia ou outras "artes", sem a ci�ncia por detr�s.
 


OBJECTOS EM EXTIN��O 19


Mais algumas colabora��es dos leitores do Abrupto sobre objectos, e tamb�m sentimentos , em extin��o.

"- Quem se lembra hoje de, creio que na d�cada de 50/60, ver uns cart�es rectangulares perfurados, feitos por especial pun��o, que eram as facturas/recibos da CRGE (antecessora da actual EDP)?

- De resto tais cart�es eram usados nos computadores da �poca, para neles introduzir dados atrav�s da sua leitura por especiais leitores �pticos ou mec�nicos.

- J� na d�cada de 70, fitas cont�nuas de papel perfurado, permitiam o "aben�oado carregar" desses computadores de dimens�es "mastod�nticas", se os compararmos com os actuais.

Da nossa mem�ria colectiva saltam, objectos e sensa��es ( recordo os preg�es de Lisboa) que constituem o esp�lio activo duma cultura.
"(Rui Silva)

*

"O saco do p�o. Num tempo em que se acabou com as lixeiras e se constru�ram aterros sanit�rios mais consent�neos com o nosso tempo e com as nossas exig�ncias e com a nossa qualidade de vida, recordo o saco do p�o � um saco geralmente de linho, por vezes bordado � como s�mbolo de um outro tempo em que n�o produz�amos res�duos desnecess�rios e em que os produtos do supermercado n�o traziam tr�s ou quatro forras de cart�o e pl�stico, nem se trazia o p�o em sacos de pl�stico estampados que depois exigimos que algu�m fa�a desaparecer longe da nossa porta e longe da nossa vista. Os aterros sanit�rios est�o a encher a um ritmo mais de duas vezes superior aos valores de projecto � que, inocentes, nos viam a n�s mesmos como povo civilizado e preocupado com as quest�es ambientais. E, portanto, daqui a poucos anos � muito antes do que se previra � l� estaremos a manifestarmo-nos contra a localiza��o de novos aterros sanit�rios que militantemente nos esfor�amos agora por encher o mais depressa que pudermos." (J. C. Barros do Um Pouco Mais de Sul)

*

Lembram-se do tempo em que havia amigos? (�) Lembram-se de ter algu�m com quem tinham uma linguagem �nica que mais ningu�m decifrava. Que nenhum dicion�rio contemplava nem nenhuma l�gica explicava. Por meio de sinais e olhares chegava-se � gargalhada consensual em plena sala de aula, fazendo com que o professor despertasse desconfiado. Lembram-se de receber nos bra�os o amigo tra�do e triste que vinha � procura de colo, ombro, m�o, consolo? Ser� que ainda se lembram? Ser� do vosso tempo? � (Marlene)

*

Morrer de amor parece-me ser um objecto em vias de extin��o .� e segue-se uma hist�ria que mostra �que � poss�vel morrer de amor.� (Miguel Leal)


 


DISSOLU��O

 


SCRITTI VENETI

Dos cadernos de Bib., sine nobilitate.

1.

�O que torna dif�cil a verdade � que ela n�o � subjectiva. Se ela fosse um convencimento interior, - todos temos a �nossa� verdade, como quer a sensibilidade rom�ntica � n�o havia perip�cia da vida que n�o obtivesse a� a sua justifica��o. Eu fa�o, porque fa�o, porque �interiormente� a minha voz me diz para fazer assim. O que acontece a maioria das vezes � que aquilo que se toma como �verdade� n�o � sen�o uma m�scara auto-congratulat�ria , um espelho da nossa incapacidade para ir mais al�m, uma justifica��o que �nos �serve para remediar um presente satisfat�rio em detrimento de uma procura mais dif�cil, mas mais verdadeira.

A sensibilidade rom�ntica valoriza at� ao limite a pior das vanitas, a cren�a, psicologicamente apaziguadora, de que se � senhor do seu destino e que este se domina por s�ries de arroubos sentimentais. H� quem goste mais da vanitas do que a verdade e confunda as duas.

Outro esquecimento da sensibilidade rom�ntica � o da alegria, da alegria pura, que n�o tem antes nem depois e realiza o tempo perfeito."

2

�Veja-se a t�tulo de exemplo o an�ncio que JPV fez da sua morte. Se ele fosse um texto liter�rio, seria pouco mais do que uma bravata, mas como foi escrito quando ele sabia, no estado presente em que o escreveu, que ia morrer, cada palavra � inundada de uma verdade �ltima que � tamb�m uma coragem interior.

O verdadeiro cl�ssico prepara-se para esse momento, mas sabe que tudo o que pensa e diz s� tem prova nesse momento e nunca antes. Por isso, o cl�ssico pratica a ataraxia como um treino em tempos f�ceis para os tempos dif�ceis.�

3.

�Vale a pena gastar uma l�ngua pura, para se perceber, como se percebeu desde o primeiro momento, que a l�ngua que se ouvia maculada era a de um parafraseador franc�s? �
 


EARLY MORNING BLOGS 26 / MEMORY FREAK

Uma das caracter�sticas dos blogues � produzirem um esquecimento r�pido de tudo que neles se encontra com mais de um dia. Nesse sentido eles ainda refor�am mais uma tend�ncia dos media modernos para actuarem somente num tempo muito curto, quase sem mem�ria que dure mais do que uma semana. Nos blogues � pior, esse limiar � ainda menor.

Aqui tenho desenvolvido v�rias estrat�gias contra esse esquecimento suscitado pela tecnologia do meio, sem obter mais do que resultados muito fr�geis. Essas estrat�gias incluem notas na parte activa da p�gina remetendo para notas j� na parte esquecida, numera��o de notas para criar um sentido de continuidade, etc. N�o chega e n�o � eficaz para o que quero.

Na reorganiza��o de Setembro, com a ajuda dos meus volunt�rios amigos mais ligados � parte tecnol�gica, irei experimentar a combina��o blogue � p�gina pessoal, nela incluindo um arquivo mais estruturado de notas tem�ticas e remetendo para outros textos n�o � blogue sobre assuntos pr�ximos.

Outra hip�tese que coloco � a edi��o peri�dica , de seis em seis meses por exemplo, do Abrupto em livro. Aqui levantam-se quest�es muito interessantes como seja a diferente percep��o da ordem cronol�gica, que levaria a colocar as notas na ordem oposta � sua leitura no blogue e problemas associados com o car�cter interactivo dos textos com os de outros blogues. Esta �perplexidade� inter � media interessa-me, porque revela os limites de formas de comunica��o quer tipogr�fica, quer electr�nica, no modo como produzem um sentido cronol�gico da leitura e a nossa percep��o do fluir do tempo.

10.8.03
 


TEMPOS DE PUREZA

Tamb�m aqui cabe o poema de Pasternak "A vela" , que est� traduzido mais abaixo , na parte do Abrupto enterrada no esquecimento. Tamb�m s� com uma pureza inicial, uma pureza do cora��o absoluta, o olhar de Yuri pode ver na vela , o que a vela era. Para os russos, como para Chekov por exemplo, essa pureza vinha de uma luta interior pela verdade, pela simplicidade da verdade. A verdade n�o � complicada, a liberdade � que �.
 


MICRO-CAUSAS

As raz�es por que cada um tem um blogue s�o muito diferentes e essa diferen�a � uma das riquezas desta atmosfera. Mas uma leitura de v�rios blogues revela interesses e agendas pr�prias que envolvem um esp�rito de �causa�, um activismo orientado. H� causas, pequenas causas e micro - causas em muitos sectores da vida p�blica. � natural que assim seja tamb�m nos blogues.

Se os blogues me parecem um meio pouco adequado para, chamemos-lhe assim, neles se centrarem as grandes causas, que n�o entram aqui a n�o ser pelo protesto, pela den�ncia, pelo testemunho, o que � pouco , j� para aquilo que chamo as micro - causas pode haver resultados.

Veja-se o caso dos foguetes. Haver� quem, com um sorriso de lado, presumo que em riscos de ficar permanentemente de lado e parecer um esgar, dir�: a gente vem aqui para falar de Larkin e Auden e vem este aqui discutir os foguetes. �, vem. Vem aqui discutir os foguetes porque acredita que pode ser eficaz em reduzir o risco de fogo e a dispers�o dos bombeiros a muito curto prazo, neste Agosto. N�o me passa pela cabe�a que possamos fazer muita coisa sobre o ordenamento florestal ou sobre a organiza��o dos bombeiros, mas pressionar o governo para proibir o fogo de cana, talvez seja poss�vel. N�o h� nada que os governantes mais temam do que a possibilidade de, se correr qualquer coisa mal, poderem ser confrontados com um aviso p�blico, uma preven��o que conheciam e que ignoraram.

Penso, no entanto, que a condi��o de sucesso destas micro - causas � serem sensatas, razo�veis e moderadas. N�o se trata de proibir o fogo de artif�cio, trata-se de proibir o fogo de cana lan�ado para terra, nas partes do pa�s em que isso � um risco conhecido de inc�ndio. A legisla��o j� existente �, como muita legisla��o portuguesa, dur�ssima, s� que nunca � aplicada. Obrigar a que os bombeiros se desloquem nesta altura do ano para milhares de festas do pa�s para controlar o lan�amento do fogo, � pura decis�o de gabinete e perigosa. Existem resist�ncias populares consider�veis a que haja festas sem foguetes, e os governadores civis, oriundos das m�quinas partid�rias, n�o querem impopularidades e incidentes? � verdade, mas quem n�o quer ter autoridade que n�o lhe vista a capa.
Eu acredito na distin��o entre a democracia e a demagogia, que se revela nestas humildes coisas dos foguetes.
 


TUMULTO

 


VER A NOITE - CORUJAS

Recebi quase de imediato, a meio da noite, alta madrugada, ap�s escrever sobre a minha coruja ca�adora, esta carta de Miguel Nogueira:

"Umas semanas atr�s enquanto conduzia pela noite, em Porto Corvo, na estrada que liga � Ilha do Pessegueiro, avistei uma coruja em frente ao carro, pousada na estrada. A coruja olhou-me com os seus negros olhos, ao ouvir o ru�do do autom�vel, para de seguida olhar na direc��o oposta, quase como analisando o ar por onde iria voar, e abrindo as brancas asas, pairou pela estrada fora fugindo do meu campo de vis�o e tamb�m de um prov�vel impacto.
O curioso � que em todas as ac��es, atr�s referidas, a ave manteve sempre um imperturb�vel manto de calma, nunca se mostrando assustada. O meu caro Pacheco Pereira observou uma ca�adora. A mim o sentimento com que fiquei, foi que tinha partilhado uns segundos da minha exist�ncia com um ser mitol�gico."


Ser� que olhando uma coruja nos olhos aprendemos alguma coisa que nunca saberiamos de outra maneira? Talvez.

 


COUNTRY � CONTRIBUTOS

Nota: j� n�o � a primeira vez que uma frase que se pretendia ir�nica � tomada � letra. Culpa minha, que me esque�o de uma forte tend�ncia para o literalismo existente nos blogues. A minha descri��o da country apenas como m�sica pimba americana destinava-se exactamente a criticar os que a isso a reduziam.
Alguns dos leitores do Abrupto enviaram contribui��es sobre a country que a seguir se publicam.

Hugo Pinto acrescenta :

vejo que j� lhe referenciaram, e bem, Johnny Cash e Townes Van Zandt. S�o, juntamente com o paladino Hank Williams, os nomes que mais influenciaram a gera��o que, respeitosamente, recomendo. Falo de uma m�sica que as publica��es europeias designam singelamente de "americana". Ainda se chegou a falar de "alternative country"...
Aqui ficam alguns nomes: Lambchop, Chris and Carla, Palace Music (que � Will Oldham, cujo heter�nimo � Bonnie 'Prince' Billy), Red House Painters, Neil Casal, Tarnation, Smog. �, acima de tudo, muito boa m�sica."


Miguel na Origem do Amor remete tamb�m para can��es country num seu outro blogue.

Ant�nio envia-me a sua mem�ria pessoal da country :

"Comecei a apreciar a m�sica country por volta de 1962, em Mo�ambique. (�) Penso que neste estilo �e eles at� dizem country & western style � ele h� de tudo, como na botica. O mesmo se poderia dizer em rela��o ao fado ou ao tango argentino.

N�o me parece que o Tex Ritter deva ser apontado como exemplo negativo, tanto mais que ele tamb�m interpretou trechos muito mais interessantes, designadamente o tema do c�lebre filme �O Comboio Apitou Tr�s Vezes �High Noon / do not forsake me oh my darling�- e que n�o era, de forma alguma, um filme reaccion�rio. Diz-se que John Waye colocou esse filme na lista negra, por causa da cena anti-autorit�ria em que Gary Cooper atirava com a estrela de xerife para o ch�o para a pisar em seguida. Diga-se ainda que a m�sica era da autoria de Dimitri Thiomkin, um nome consagrado de Hollywood.

Muitos cantores populares norteamericanos passaram ou tiveram que passar pela country, tamb�m definida como �white men blues�. E tamb�m houve cantores negros, como o Ray Charles, que venderam milh�es de discos com interpreta��es dessa m�sica de brancos wasp, numa altura em que os afro americanos ainda n�o tinham conquistado todos os direitos c�vicos nos Estados Unidos.

Se consultarmos a lista do �Country Music Hall of Fame� verificamos que h�, efectivamente, nomes absolutamente impr�prios para o consumo, como Merle Haggard. Mas tamb�m encontramos pessoas recomend�veis em termos de cr�tica social, tais como Johnny Cash ( e os seus colegas �highwaymen� Waylon Jennings e Willie Nelson�). Cash at� conseguiu trazer o Bob Dylan para estas lides, participando no excelente album �Nashville Skyline�, que tamb�m � uma homenagem � �Meca� da m�sica country. Claro que, nessa altura, Dylan era um valor consagrado da �protest song� e ainda n�o tinha ca�do no fundamentalismo judaico.

Li algures que Nashville se transformou na capital da m�sica country devido � existencia de um n�mero consider�vel de saloons e de outros recintos adequados �s vozes de Hank Williams e seguidores, um pouco como as tabernas do Bairro Alto e da Alfama em rela��o aos cultores do �portuguese blues�. Mas o fen�meno de Nashville � tamb�m o resultado do trabalho empreendido pelo pianista e produtor Floyd Cramer, de parceria com o excelente guitarrista Chet Atkins. O que era can��o de vaqueiro passou a ser produto cultural e industrial algo sofisticado.

Compositores consagrados da pop americana dos anos 60 deram � country t�tulos de gl�ria. Lembro-me de Jimmy Webb que escreveu alguns dos maiores standards, tais como �Wichita Lineman�, �Galveston� e �By the Time I Get to Phoenix�, interpretados originalmente pelo c�lebre Glen Campbell e que posteriormente entraram nos report�rios de artistas ultra consagrados como Sinatra. Curiosamente, um dos maiores standards da country, �Let It Be Me�, foi composto pelo franc�s Gilbert B�caud. Este foi convidado a ir a Nashville receber um dos grandes pr�mios da country, mas recusou porque n�o lhe pagaram o bilhete do avi�o...

Pela parte que me toca, sou fan�tico das vozes femininas da country, tais como Linda Ronstadt e Emmylou Harris, embora os puristas as designem como cantoras de variedades... Gra�as � internet tenho conseguido reunir uma colec��o razo�vel de trechos. At� consegui arranjar can��es de Jim Reeves gravadas na Africa do Sul em afrikaans, nos anos 60, com o Cramer e o Atkins.

N�o me parece que este g�nero musical tenha sido explorado pelos artistas portugueses. Excepto, talvez, o Paco Bandeira na �Minha Cidade� ( �oh Elvas, oh Elvas, Badajoz � vista/ sou contrabandista de amor e saudade/ transporto no peito a minha cidade) ...
"


Paulo Azevedo lembra Townes Van Zandt:

O Townes Van Zandt foi um texano (de pedigree familiar holand�s, da� a estranheza do nome para um texano) que editou entre 1968 e 1978. Era um filho da classe m�dia mas com uma inclina��o irremedi�vel para o lado mais depressivo e contemplativo da vida. Chegou a ter um relativo sucesso, apesar de ter passado grande parte das fases iniciais e finais da carreira a tocar em bares.

Inscreve-se naquela tradi��o folk-blues que come�ou com Hank Williams ou Woody Guthrie, assim como nos blues � desgra�ado do tipo Lightnin' Hopkins; e que continuou (mais recentemente) com os primeiros sons do Bob Dylan, Lee Hazelwood, Scott Walker, Nick Drake ou mesmo (ainda mais recentemente) Mark Koezelek (dos Red House Painters) e o pr�prio Jeff Buckley.
N�o cai naquele country mais xaroposo; � uma m�sica muito melanc�lica mas ao mesmo tempo muito genu�na; ou seja, os ambientes criados n�o s�o estilizados de forma a parecerem tristes, s�o-no naturalmente.

H� tempos encontrei uma CD set de 4 discos com todo o material gravado pelo Van Zandt; � uma edi��o daquelas bonitas e cuidadas que parece um livro rectangular e tem fotos e textos muito bons. Fica-se com uma boa perspectiva da m�sica e do enquadramento pessoal e social em que ela surgiu.

Chama-se 'texas troubador' e tem, nos 4 CDs, 8 �lbuns (LPs):

-for the sake of the song (1968)
-our mother the mountain (1969)
-townes van zandt (1970)
-delta momma blues (1971)
-high, low and in between (1972)
-the late great townes van zandt (1972)
-flyin' shoes (1978)
-live songs from 1973 (1973)


 


EARLY MORNING BLOGS 25 (Actualizado)

Sou fiel aos s�tios onde aprendo e a Formiga � um deles.

H� uns dias, a prop�sito dos inc�ndios, est� l� uma fotografia de sat�lite que cont�m mais informa��o do que dezenas de notici�rios. E por cima da fotografia um t�tulo t�o terr�vel como verdadeiro:�a ignor�ncia � uma calamidade�. �, a ignor�ncia � a nossa calamidade, a ignor�ncia pura e simples, a ignor�ncia esperta, a ignor�ncia presumida, a ignor�ncia arrogante, a ignor�ncia bo�al.

O problema � que a mediocridade da vida poss�vel, a pobreza dos meios socialmente dispon�veis, o pr�prio modo como a ascens�o social das fam�lias se fez da absoluta pobreza para uma mediania satisfat�ria, parece travar um impulso de melhoramento. Talvez porque fomos muito pobres, parecemos satisfeitos como o n�vel da mediocridade que atingimos.

Como parece que a puls�o social para sair da mis�ria rural, que levou uma gera��o de trabalhadores rurais e pequenos camponeses a poderem dar aos seus filhos um m�nimo que lhes demorou toda uma vida a ter, criou nos filhos uma esp�cie de acomoda��o com o que os pais lhes deram e passaram a viver �habitualmente�, ou seja a andar para tr�s em rela��o ao resto do mundo que anda para a frente.

Ser� que uns cresceram num Portugal mais violento e desequilibrado e portanto onde a ascens�o vertical era quase que empurrada pela necessidade de garantir m�nimos vitais? Ser� que depois, quando se atingiram esses m�nimos se deu uma esp�cie de repouso, facilitado pelas mil e umas estrat�gias de vida garantidas pelo �Estado - provid�ncia�? E que hoje, com a cultura da casa, do carro, do whiskey, do marisco, da piscina, da praia, do centro comercial, do futebol, achamos bastante? Ser� que perdemos a viol�ncia e mantivemos a bo�alidade?

Eu n�o desprezo a fabulosa mudan�a que isto representa para um povo que andava descal�o h� sessenta anos, mas j� est� na altura de se dar o passo seguinte e � dif�cil ver onde est� a for�a para o dar. Porque o passo seguinte � o de acabar com a �ignor�ncia� , essa mistura de bet�o de h�bitos de complac�ncia e facilitismo que cria um enorme lastro a todo o movimento.

Eu sei que tudo isto � impressionista, que um soci�logo nunca o diria assim, mas que numa parte importante de Portugal uma cultura �providencial� parece ter travado a vontade de ser melhor, de ser mais culto, de ser mais livre, ai isso parece.

*

Pelas mesmas raz�es de aprender, de ter a alegria de aprender, tamb�m volto ao Socio[B]logue. S� que onde l� se coloca Deus nos detalhes, eu estou habituado a colocar o Diabo. Da� que a genealogia da frase seja outra, e a sua l�ngua original diferente -. "the Devil is in the details ". Por raz�es que se podem discutir , suspeito que � mais o Diabo que Deus, o habitante das pregas das coisas, dos detalhes, dos decisivos detalhes. Se n�o houvesse detalhes n�o era tudo mais simples, mais pr�ximo das virtudes divinas? Porque ser Deus n�o � complicado.

 


VER A NOITE

Ver uma coruja ca�ar � um privil�gio raro. Nas gravuras e fotografias parece sempre Minerva, um pisa-pap�is para os literatos. No ar, na noite profunda, � um grande p�ssaro de asas brancas, com a palavra rapina escrita em todas as penas, que passa no mais absoluto sil�ncio. No vale escuro, os pequenos ratos n�o sabem o que lhes cai em cima. Mesmo no planalto, as gatas protegem as ninhadas, n�o v� gatinho ser rato. S� tamanho conta e h� quem n�o tenha o tamanho.

9.8.03
 


TEMPOS DE PUREZA

O que se podia escrever em tempos de pureza:

Te loquor absentem, te vox mea nominat unam;
nulla venit sine te nox mihi, nulla dies.
Quin etiam sic me dicunt aliena locutum,
ut foret amenti nomen in ore tuum.


(P. Ovidi Nasonis Tristium Liber Tertius)
 


ENTRE A DESRESPONSABILIZA��O E A BO�ALIDADE


Assistir a uma hora de telejornal da RTP � devastador para qualquer cidad�o que gosta do seu pa�s. � um exerc�cio penoso de desresponsabiliza��o � pro�bem-se os foguetes mas eles estalam pelas centenas de festas sem a presen�a de um bombeiro sequer, um �pirot�cnico�, que deve ser um nome pomposo para um dono de uma f�brica onde meia d�zia de homens e mulheres est�o a meter p�lvora em cartuchos de foguetes, com m�ximo risco de vida, diz que ainda est� por provar que os foguetes provoquem inc�ndios, a seguir os desgra�ados ciclistas profissionais, verdadeiros prolet�rios do desporto de marca, arrastam-se pelo Portugal de 40� � sombra, etc., etc. Para rematar, como se diz, um grupo de estudantes duma Tuna de uma faculdade t�cnica da Universidade de Coimbra, a elite da na��o, de capa e batina negras � torreira do sol, cantam alegremente �� o branco, � o tinto que me faz levantar de manh�� e fazem umas piruetas por cima uns dos outros. � dif�cil mostrar t�o bem todo o esplendor do nosso atraso.
 


VIOL�NCIA

N�s somos uma sociedade muito mais violenta do que n�s pr�prios pensamos. Permitimos que uma prova desportiva-comunicacional-comercial como a Volta a Portugal em bicicleta se realize a temperaturas acima dos 40�. Se um dia destes um ciclista cair morto por desidrata��o ou por problemas card�acos associados com o calor, de quem � a culpa? De ningu�m como � costume.
 


FOGUETES

Gostava de saber em quantos s�tios vai ser proibido o uso de foguetes , apesar da nota do MAI.
 


SEM VOZ

 


DOS FRANCESES PARA OS INGLESES (E OS AMERICANOS)

As discuss�es sobre a Livraria Francesa mostram a hegemonia actual do mundo cultural anglo-sax�nico pelo menos nas camadas de consumidores culturais mais jovens. O mundo �franc�s� resiste em certa cr�tica liter�ria e de cinema, e no ainda poderoso establishment cultural do Jornal de Letras, muito ligado ao estado pela via de ser subsidiado como um jornal oficioso da literatura portuguesa para os professores do ensino secund�rio e os leitores nas universidades estrangeiras. A vers�o televisiva do Jornal de Letras era o Acontece, honra lhe seja feita bastante mais liberal do que o controle ideol�gico e cultural r�gido que Jos� Carlos Vasconcelos mant�m no jornal.

S� de passagem noto que a �ltima coisa que quero dizer � que tudo que � franc�s � mau e o resto bom. Mas � um facto que o proteccionismo cultural franc�s, a celebre �excep��o cultural�, associada a uma absurda mistura de nostalgia franco - gaulesa e arrog�ncia chauvinista, fechou a cultura francesa numa esp�cie de �aldeia de Asterix� e estiolou muito da sua criatividade. O peso do estado centralista, que se arroga legislar sobre o que as pessoas podem ou n�o ver na televis�o, que palavras utilizar, etc., associado a um esquerdismo anti-americano, muito patente na edi��o corrente, fez os franceses implodir. Olhando para dentro n�o conseguem sair dos seus fantasmas � a guerra da Arg�lia, a colabora��o durante a ocupa��o alem�, a suspeita de serem anti-semitas, o estalinismo dos intelectuais, etc. Ora sobre quase tudo isto j� Camus tinha sido melhor, direi mais, gigantescamente melhor, h� cinquenta anos.

Na actual hegemonia anglo-sax�nica perde-se pelo menos o mundo alem�o, muito pr�prio, muitas vezes herm�tico, mas contendo elementos culturais �nicos nascidos da peculiar e muito traum�tica experi�ncia nacional dos �ltimos duzentos anos. Os espanh�is, por exemplo, tem uma tradi��o de traduzir do alem�o sem paralelo na Europa. Em �reas como o direito, a filosofia , a Kultur (intraduz�vel) , a pol�tica, a hist�ria de arte, h� livros traduzidos em espanhol que n�o existem em ingl�s ou em franc�s.

Esta mudan�a de mundo cultural em Portugal come�ou pelo menos h� tr�s d�cadas e n�o tem sido estudada. Hoje colocarei nos Estudos sobre Comunismo uma nota sobre um dos primeiros exemplos da ruptura com o mundo franc�s, o que na pr�tica significava tamb�m em Portugal a ruptura com a cultura ideol�gica do comunismo sovi�tico e com o neo-realismo do PCP, no interior das Associa��es de Estudantes. � uma parte de um estudo in�dito que fiz sobre a g�nese da extrema-esquerda em Portugal e a sua rela��o com a mudan�a do paradigma cultural e nele se analisam os conflitos culturais bastante intensos e, nalguns casos, quase violentos, que marcaram as Sec��es Culturais das Associa��es de Estudantes por volta dos anos 1967-8.

Fui testemunha e participante activo desses conflitos, em particular nos que envolveram a Sec��o Cultural da Associa��o de Direito, sobre que m�sica passar no sistema sonoro , sobre se se podia (devia) patear os filmes do Cineclube Universit�rio , sobre o modo de tratar a �condi��o da mulher� e a sexualidade, sobre o Pierrot le Fou de Godard , etc. Com tempo voltarei a cada uma destas pol�micas. Agora fica a nota a colocar nos Estudos sobre �Popologias�, o ciclo de realiza��es em que, pela primeira vez, uma Associa��o de Estudantes olhou para a cultura pop, ou seja para o mundo anglo-sax�nico, com outro modo de ver.

S� uma observa��o para terminar: a m�sica popular, os Beatles e o que vinha com eles, foi decisivo.
 


EARLY MORNING BLOGS 24

J� havia uma Abrupta, agora h� um �A�Bruto. Sejam bem vindos ao mundo dos espelhos.

Louvo a paci�ncia do �A�Bruto em escrever uma anti-nota sempre que eu fa�o uma nota. Pensei que ele desistia quando apareceram os textos sobre a F�sica e Matem�tica, mas ele encolheu-os e l� continuou. Acabar� por desistir, porque isto de ser eco n�o � profiss�o.

Obrigado ao Outro, Eu pelo Johny Cash , ao Paulo Azevedo por uma nota sobre Townes Van Zandt , que publicarei � parte, e ao M�rio Filipe Pires pela ades�o ao grupo dos amadores da country na blogosfera, que � bem pequeno como eu imaginava. Aqui s� alta cultura�

E o Contra Corrente foi injustamente esquecido na nota sobre a Livraria Francesa.

Talvez, se houver tempo , durante o dia de hoje, os Estudos sobre o Comunismo , que j� resolveram o problema gr�fico com a nota sobre a den�ncia do Avante! de Jo�o Pulido Valente em 1964, publicar�o alguns elementos sobre a actividade de M�rio Cesariny de Vasconcelos nas margens do PCP (ou at� dentro) nos anos do p�s.guerra.

Ser� a minha maneira de homenagear um dos maiores poetas portugueses que escreveu, exactamente nesta �poca, um texto fundamental que sei de cor e que come�a: �Todo o homem � teatro de uma inexpugn�vel autoridade�. Citei-o num discurso na Assembleia da Rep�blica onde duvido que o seu nome tenha entrado alguma vez.

 


VER A NOITE

Com uma Lua j� quase cheia, mas vermelha dos inc�ndios. Red Moon, mau press�gio se houvesse batalha. Marte, no seu m�s, brilha apagado e solit�rio no meio de um c�u sem estrelas. H� muita cinza, muito fumo, muita poeira levantada para se poderem ver as estrelas.
 


CORREIO

est� absolutamente, escandalosamente atrasado. Cartas de resposta obrigat�ria empilham-se, cartas que tem respostas � volta da palavra "obrigado" e que s�o as mais obrigat�rias de todas, tamb�m. Cartas com colabora��es esperam por ser agrupadas, temas sugeridos, perguntas com sentido, encalharam no meu limbo electr�nico, um caos de atraso, uma vergonha. Mas este blogue � obra de um s� e pe�o-vos pois um pouco de paci�ncia.

8.8.03
 


SAINTE-ADRESSE

 


COUNTRY

And now for something completely different� H�, nos blogues, amadores de Country para a troca? Eu sei, a m�sica � pimba americano para os parolos a fazerem-se de cowboys, as letras s�o rid�culas, sentimentais, reaccion�rias, mas tudo aquilo bate muitas vezes muito mais certo do que tudo o resto.

Um exemplo da imagina��o, sim da imagina��o dos pobres de esp�rito, da Country: I Dreamed of a Hillbilly Heaven de Tex Ritter:

�(Wah, wah, wah, waaahhhh)
I dreamed I was there in hillbilly heaven
{Oh what a beautiful sight}

Last night I dreamed I went to hillbilly heaven. And you know who
greeted
me at the gate? The ole cowboy-philosopher himself, Will Rogers. He
said
to me, he said "Tex, the Big Boss of the riders up here has asked me
to
kinda show you around. Now, over yonder are a couple of your ole
compadres." My, was I glad to see them, Carson Robison and the
Mississippi blue yodeler Jimmie Rodgers.�


Em resumo : Deus, o �Big Boss of the riders up here� , manda o �cowboy filosofo� ,Will Rogers , abrir as portas do c�u, qual Beatrice dantesca. O resto � o passeio em sonho de Tex Ritter pelo para�so onde encontra Red Foley, Ernest Tubb, Gene Autry, Roy Acuff, Eddy Arnold, Tennessee Ernie, Jimmy Dean, Andy Griffith, Roy Rogers e � ele pr�prio, Tex Ritter. Ent�o acorda, �com pena�.
 


EARLY MORNING BLOGS 23

Discute-se nos blogues, no Intermitente, no Homem a Dias, nos Reflexos , o encerramento da Livraria Francesa e as perora��es de Eduardo Prado Coelho sempre que o modelo estatal centralista de �cultura� est� em causa. As poucas vezes que l� fui pareceu-me muito pobre, mas tamb�m, dependendo da edi��o francesa, era dif�cil ser mais rica.

Tenho sempre pena que uma livraria acabe, mas o que verdadeiramente faz falta em Lisboa � uma livraria inglesa como a Waterstone�s. N�o h� uma cidade civilizada na Europa se n�o tiver uma livraria inglesa, porque hoje � em ingl�s que o mais interessante e importante � publicado em qualquer parte do mundo.

Em Bruxelas onde h� uma excelente livraria francesa, a Tropisme, raras vezes compro l� sequer um ter�o do que compro na Waterstone�s . O pr�prio espa�o de ambas as livrarias mostra as diferen�as culturais entre o que hoje se publica em ingl�s e franc�s. Na Waterstone�s predominam os livros de �current affairs� , ensaios pol�ticos, hist�ria, ensaios em geral, biografias, estudos militares, economia, ci�ncias, viagens, e fic��o actual. A sec��o de �literary criticism� � fraca. Na Tropisme o que domina no andar nobre � a literatura francesa e traduzida e ensaios liter�rios, e nas �ci�ncias sociais e humanas� uma grande sec��o de psican�lise e filosofia e uma colec��o de livros de arte, H� tamb�m hist�ria, mas muito daquilo que � a mat�ria do andar nobre da Waterstone�s est� na Tropisme em sec��es secund�rias, ou apenas em estantes. Apesar de tudo a Tropisme � das melhores livrarias francesas que conhe�o.

Significativamente estas duas livrarias que existem na B�lgica, quase n�o tem livros sobre a B�lgica com excep��o de livros tur�sticos. Mais um sinal que a B�lgica n�o � bem um pa�s.

A decad�ncia das livrarias em Portugal � um facto e, como intenso frequentador de quase todas, sen�o todas, n�o posso deixar de nomear a que, de h� muito, � a melhor livraria nacional � a Livraria Leitura no Porto
 


FLASHBACK

Conv�m que se saiba que o Flashback da TSF s� existe com o Carlos Andrade, sem o Carlos Andrade n�o h� Flashback pelo menos connosco. De h� muito temos, eu, o Jos� Magalh�es e o Lobo Xavier, esta posi��o.

7.8.03
 


DOEN�A

A doen�a � um dos elementos mais importantes para perceber a obra de Thomas Mann. Ela est� presente por todo o lado e � o elemento central da Montanha M�gica. Na Montanha M�gica todos os que para l� v�o querem ficar �doentes� e acabam por ficar �doentes�. O poder da doen�a � essa revela��o do corpo, essa percep��o acrescida, essa perturba��o do equil�brio hormonal � de que tantas vezes fala o dr. Behrens - que actua como um revelador das diferentes personalidades que habitam a Montanha.

Quando n�o se tem nenhuma grande doen�a, mas s� pequenas, ligeiras, subtis doen�as h� como que uma �chamada da intimidade�, - aqui est� uma coisa que s� os alem�es eram capazes de transformar numa palavra expressiva - uma acomoda��o do corpo sobre si pr�prio, um torpor e uma modorra agrad�veis, resultado de uma vaga febre, de um amolecimento do corpo. Na Montanha eram as temperaturas de 37� que davam mais lucidez.
 


UM PORTUGAL DESCONHECIDO

O fragmento seguinte faz parte de um colec��o de pap�is que pude salvar de serem vendidos a peso, oriundos do Centro Republicano Democr�tico do Porto, manuscritos e portanto �nicos. Datam na sua maioria de 1911.

Entre esses pap�is consta a lista de �volunt�rios republicanos� preparados para actuar e do armamento que possu�am: espingardas, pistolas, etc. distribu�dos pelas diferentes frequesias do Porto. Esta era uma �poca em que uma parte dos portugueses, homens, de profiss�es da pequena burguesia e oper�rios realtivamente especializados, tinham armas na sua posse. O grau de viol�ncia inscrito na vida comum era grande.
 


OUTRO OLHAR

 


INC�NDIOS

de novo � minha frente, dois, um maior do que o outro, come�ados � mesma hora em locais separados por trezentos ou quatrocentos metros. De novo s� a aus�ncia de vento permitiu que n�o fossem um perigo.
 


J� CHEGA DE �TAMB�M ELE�

Hoje � um dia urbano dedicado � vida de que S. Bernardo n�o gostava.


�TAMB�M ELE� � MAIS ALGUMAS CONSIDERA��ES

O que tenho estado a fazer � parte a defender-me, parte a atacar - a prop�sito da not�cia do 24 Horas, no Abrupto � um uso delicado deste meio, que nunca previ vir a fazer. Mas que sentido teria pronunciar-me sobre outras coisas, sobre o que leio e o que gosto, e n�o sobre o que me revolta? Pensei duas vezes e decidi-me a escrever no Abrupto, o meu pequeno jornal pessoal. Para al�m disso pode ser pedag�gico ver como evolui um �esc�ndalo� ad hominem do lado do alvo.

Neste caso impus-me uma regra: nunca escrever aqui o que n�o faria num org�o de comunica��o social normal, sujeito aos mesmos condicionamentos e �s mesmas regras deontol�gicas.

O assunto saiu num jornal tabl�ide e n�o chegou � imprensa chamada s�ria. Estou convicto que chegar�, dado que o pr�prio tabl�ide gera o pretexto para esse salto. � uma t�cnica conhecida, ningu�m quer publicar em primeiro lugar, mas depois todos acham que continuar a �not�cia� � leg�timo. A prud�ncia aconselharia sil�ncio, o assunto podia morrer por si. Mas n�o sei porqu�, o meu sil�ncio parecia admiss�o de culpa e eu n�o fiz nada de que tenha que me condenar.

Vi finalmente o insultuoso t�tulo � �Pacheco d� volta ao fisco� com honras de capa, fotografia e uma p�gina inteira no interior, e isso ultrapassa a minha medida. Sobre ele consultarei o meu advogado para saber se h� fundamento para processar o jornal com todo o vigor e sobre todas as formas poss�veis.

DIVULGAR A DECLARA��O DO IRS?

Quando se est� revoltado, e n�o tenham d�vida que � essa a palavra exacta, pensa-se fazer algumas coisas nem todas sensatas. Uma das que apesar de tudo penso mais sensata foi publicitar a minha declara��o de rendimentos e todos os documentos conexos aos rendimentos associados aos direitos de autor, para se ver n�o s� extenso e inequ�voco tra�o de papel que vai desde a TSF ou a SIC at� � SPA e �s declara��es de IRS. Por a� se ver� que n�o h� qualquer �volta ao fisco� � est� l� tudo preto no branco. Pode depois haver uma diferen�a de interpreta��o sobre a categoria de determinados rendimentos, e a parte colect�vel que lhe � aplicada, mas num pa�s civilizado seriam as Finan�as a fazer essa chamada de aten��o para que insisto, tem todos os elementos. Nunca o fizeram.

Ainda n�o decidi se divulgo ou n�o a minha declara��o, mas se o fizer ser� no Abrupto para n�o me sujeitar ao tratamento selectivo dos seus elementos. Ser� integral e cada um julga por si.

H�, no entanto, raz�es de outro tipo que me fazem hesitar. H� uns anos, escrevi um programa para a Distrital de Lisboa do PSD que continha dois aspectos pol�micos: um, o fim da televis�o p�blica, outro, o acesso generalizado �s declara��es de rendimentos, como acontece nalguns pa�ses n�rdicos. Da mesma maneira que qualquer pessoa pode pedir algumas certid�es sobre terceiros poderia aceder � sua declara��o de rendimentos. � evidente que se previa uma altera��o radical dos impressos, que poderiam ter uma parte confidencial, mas o que dizia respeito aos rendimentos seria p�blica. Na altura, e isso n�o � segredo nenhum, a dr� Manuela Ferreira Leite, que fazia parte da lista, op�s-se com argumentos que merecem toda a pondera��o e s�o v�rios. T�cnicos e pol�ticos. Voluntariamente retirei essa proposta, mas fez-se ent�o uma primeira discuss�o sobre a mat�ria.

Decidindo no impulso do momento, eu quebraria uma regra de violar mais um passo da privacidade, mais um direito que me assiste, para ga�dio de um voyeurismo populista que continuaria a tratar-me como dando a �volta ao fisco� , porque ele n�o se alimenta de informa��o mas de um desejo no qual se mistura inveja socializada e preconceitos contra a democracia e os pol�ticos. Insisto, ainda n�o decidi, mas hesito.

Parte do pre�o que hoje muitos lamentam se estar a pagar com as escutas telef�nicas, pris�o preventiva facilitada e longa, poderes excessivos a magistrados, come�ou aqui, nesta continua ced�ncia ao populismo, na qual h� muita consci�ncia de culpa.

6.8.03
 


"TAMB�M ELE"

foi actualizado.
 


CRATERA

 


MEDIDAS A MEIO CAMINHO N�O RESOLVEM NADA

Li a not�cia que o MAI �cancelou hoje as licen�as para o lan�amento de foguetes durante a actual situa��o de risco de inc�ndios.� Se fosse assim ficaria contente � � um risco desnecess�rio, a que sem custo nos podemos poupar.Mas depois quando se analisa o texto s� surgem ambiguidades.

O MAI �ordenou � GNR e � PSP que n�o procedam � concess�o de licen�as para o lan�amento de foguetes ou queima de outros fogos de artif�cio, excepto nos casos em que os bombeiros da �rea certifiquem que n�o h� risco.� J� temos excep��es e uma pura abstrac��o para as definir: n�o estou a ver os bombeiros assumirem essa responsabilidade, nem que tenham meios, ou burocracia, para, no meio deste inferno de fogos, irem agora �certificar� a terra X ou Y.

Depois h� pior:

O ministro Figueiredo Lopes determina ainda que seja dado conhecimento ao coordenador distrital do Servi�o Nacional de Bombeiros e Protec��o Civil das licen�as j� concedidas antes da actual situa��o e cujos lan�amentos ou queimas ainda n�o tenham sido efectuados, para que sejam tomadas medidas de preven��o contra inc�ndios.�

Pode ser que o defeito seja de quem redigiu a not�cia , mas depois de a ler ficam-me imensas perplexidades. Foram ou n�o �canceladas as licen�as�, ou seja, � proibido deitar fogo? Se � assim porque raz�o se abre uma excep��o �para as licen�as j� concedidas antes da actual situa��o e cujos lan�amentos ou queimas ainda n�o tenham sido efectuados, para que sejam tomadas medidas de preven��o contra inc�ndios.� Toda a gente sabe que a maioria das festas ainda est�o para vir no m�s de Agosto, portanto o fogo deitado at� agora � pouco significativo. Eu aqui s� vejo uma preven��o poss�vel: n�o deitar o fogo.

Esta � um medida que, para ter efeito, devia ser gen�rica pelo menos no �mbito dos distritos de risco e n�o ter excep��es, nem um processo burocr�tico complicado que ningu�m est� em condi��es para garantir, a uma semana das festas do 15 de Agosto. Para al�m disso num mesmo distrito criaria desigualdades entre aldeias cujas festas competem entre si. � mais f�cil de aplicar se, num �mbito distrital, for igual para todos.

Se nos ficarmos por isto, e conhecendo-se a realidade de desresponsabiliza��o da cadeia de autoridade, das Juntas de Freguesia aos Governos Civis, vai haver foguetes em todos os lados. O MAI deve saber isso porque termina dizendo

A Guarda Nacional Republicana e a Pol�cia de Seguran�a P�blica devem tamb�m refor�ar a fiscaliza��o no �mbito do uso de foguetes ou queima de outros fogos de artificio.�

Mas estamos a falar de uma proibi��o ou de um �uso� controlado? Como � que eu conven�o algu�m com este texto que n�o se pode deitar foguetes. Nem vale a pena tentar.


 


UMA HIST�RIA DE JO�O PULIDO VALENTE DE 1958

est� nos Estudos sobre o Comunismo.
 


A CAMA DO GADO

Isto de se ser itinerante, vagabundo e curioso �s vezes d� para aprender algumas coisas. Uma das fun��es econ�micas das matas era fornecer tojo para a �cama do gado�. Literalmente aquilo sobre o qual o gado (bois de trabalho, vacas de leite) dormia. Todos os anos se vendia o tojo e depois, pouco a pouco, deixou de se vender. O tojo passou a acumular-se nas matas aumentando a sua carga t�rmica. Os inc�ndios s�o feitos de muitas destas coisas.


DI�LOGOS SOBRE FOGUETES

- Talvez este ano fosse bom n�o deitar foguetes�

- Acha? E depois ningu�m vem � festa.

- � um risco, mas os inc�ndios s�o um risco maior.

- Os foguetes n�o provocam inc�ndios, para al�m disso avisamos os bombeiros.

- Mas e se os bombeiros n�o tiverem gente que chega nesse dia e se estiver vento �

- N�o, n�o acontece nada e as pessoas querem os foguetes nas festas. Ainda se algu�m que mandasse proibisse�

(Por absurdo que pare�a ningu�m que �manda�, o governo civil neste caso, pro�be.)
 


O NEGRO

Vivi, num dos meus �lugares de ascens�o�, numa casa que ficava no limite de uma �rea que tinha ardido recentemente, em Pinho, Boticas. � noite, quando regressava a casa, atravessava a �rea do inc�ndio e pude �ver� como o negro absorve a luz. Os far�is do carro quase que n�o iluminavam a estrada e a luz fugia para dentro do negro dos pinheiros queimados nas bermas e para o ch�o coberto de cinzas. N�o sabia que este efeito existia e pensei que as l�mpadas estivessem a acabar. N�o.
Onde est� negro fica mais negro.

(Actualiza��o)

Fotografias deste mesmo negro, nas redondezas de Amor, Leiria est�o na Aldeia de Amor.

5.8.03
 


NOVO - F�SICA E MATEM�TICA - 3� S�RIE DE COMENT�RIOS

Actualiza��o mais atr�s
 


OUTRA VEZ � LUZ DE SKAGEN

 


�TAMB�M ELE�

Como imaginam este � o �ltimo dos coment�rios que eu gostaria de aqui colocar, mas neste tipo de escrita est�-se aqui para o bem e para o mal. Este � o mal.

Tamb�m n�o tenho feitio para olhar para o lado, como se nada fosse. Podia ficar calado para n�o �amplificar�, mas eu n�o sou da escola do ficar calado. Segundo me disseram, o 24 Horas acusa-me de fugir aos impostos por receber as colabora��es nos �rg�os de comunica��o social como direitos de autor, o que, segundo o jornal. n�o seria conforme �s regras fiscais. N�o li o texto do jornal, e por isso atenho-me apenas ao que sei da not�cia.

Sobre isto queria esclarecer o seguinte:

1) n�o recebo um tost�o que n�o declare para efeito de impostos e desafio quem quer que seja que diga o contr�rio;

2) n�o tenho outros rendimentos que n�o sejam os do meu trabalho, quer como deputado, quer como autor;

3) n�o sou jornalista, pelo que n�o posso declarar as minhas contribui��es nos �rg�os de comunica��o social como �jornalista�:

4) tratando-se de colabora��es originais, coment�rios, confer�ncias e textos � para mim �bvio que se trata de�autorias� , pr�tica ali�s comum seguida por outros autores, tanto quanto eu saiba, nas mesmas exactas circunst�ncias; isto significa , de facto, pagar menos impostos porque a lei protege os autores;

5) de h� dois anos para c�, agrupei na Sociedade Portuguesa de Autores o recebimento de todas estas colabora��es; tudo � feito com recibo; tudo est� contabilizado quer no �rg�o de comunica��o social respectivo, na SPA e nas declara��es �s Finan�as, onde consta como � obvio a origem , e o car�cter de direitos de autor do dinheiro recebido; n�o h� qualquer informa��o que seja sonegada, nem qualquer truque, tudo claro e transparente:

6) ali�s, s� um doido � que tendo actividades pol�ticas faria qualquer truque com dinheiro que recebe de �rg�os de comunica��o social:

7) nunca at� agora isto suscitou qualquer d�vida a ningu�m, a come�ar pelas Finan�as e eu, n�o sendo especialista, nunca me passou pela cabe�a que tal pudesse suscitar d�vidas;

8) se algu�m tem que colocar objec��es s�o as Finan�as (que tem os pap�is todos com a clara indica��o do que se trata ) e se o fizer procederei em consequ�ncia; se as Finan�as tiverem raz�o pagarei o que devo, se me parecer que a interpreta��o � abusiva contestarei legalmente, como � direito de qualquer cidad�o; o meu �nico interlocutor nesta mat�ria s�o as Finan�as;

9) enquanto n�o o fizer n�o tenho nenhuma raz�o para alterar o meu comportamento, porque , insisto, n�o sou jornalista mas autor do que escrevo, e do que digo.

Uma pen�ltima observa��o: admito que n�o tenha sido essa a inten��o do 24 Horas, mas j� esperava que em v�speras das elei��es europeias de 2004, dizendo eu o que digo, estando eu a empecilhar alguns arranjos, alguma coisa deste tipo acontecesse.

Uma �ltima observa��o: talvez o aspecto mais penoso da actividade pol�tica seja este, ser misturado com quem deve e teme, ouvir o ru�do invis�vel do �tamb�m ele�. Provoca revolta e tristeza, grande revolta e tristeza, porque este tipo de acusa��es n�o tem emenda poss�vel, alguma coisa sempre fica.
Mas n�o �, n�o � �tamb�m ele�.

(Actualiza��o)

Agrade�o a correspond�ncia que recebi e as manifesta��es de solidariedade nela contida. Alguma dessa correspond�ncia � de car�cter t�cnico e muito interessante. Dela decorrem v�rios aspectos que sintetizo a seguir.

Trata-se de uma pr�tica comum e generalizada (n�o s� entre pol�ticos, mas tamb�m entre jornalistas e comentadores acad�micos) que nunca suscitou reparos. O meu nome foi obviamente escolhido a dedo. � uma mat�ria controversa sobre a qual h� pr�ticas e pareceres contradit�rios, tanto mais que a legisla��o foi feita antes de se generalizar este tipo de actividades na r�dio e televis�o, dado que a descri��o de um coment�rio como �discursos proferidos em debates p�blicos� dificilmente se aplica a esta nova realidade. Para al�m disso, os programas s�o muitas vezes repetidos pelo que tamb�m n�o � verdade que �os direitos de autor esgotam-se no momento da comunica��o. N�o existem direitos posteriores.� Tanto existem que os contratos o estipulam para as emissoras poderem comercializar programas que incluam coment�rios.

No entanto, eu n�o sou jurista e percebo pouco de finan�as, pelo que tamb�m tenho em conta as opini�es abalizadas que dizem que tal n�o � poss�vel. O que vou fazer � suspender de imediato os pagamentos na SPA, at� esclarecer porque raz�o uma entidade que � suposto saber se � legal ou n�o receber direitos de autor de coment�rios, aceita recebe-los e pedirei um parecer �s Finan�as.

� minha inten��o manter os leitores do Abrupto informados de como evolui este caso.
 


S. BERNARDO E A ARTE COMO DISTRAC��O DE DEUS

Uma das alegrias de quem � curioso, na defini��o antiga do curioso, amador, coleccionador, � estar a sempre a encontrar palavras, objectos, imagens, na espantosa variedade do mundo, e dos livros. Enquanto o mundo for assim, como � poss�vel haver aborrecimento? Como � poss�vel n�o haver nada para fazer?

Vejam-se estas palavras, enviadas por V., uma amiga que gosta de Bernardo, S. Bernardo de Claraval, sobre o que os monges podiam ver, olhando em volta numa capela j� antiga para o seu s�culo. Bernardo pergunta �para que serve�, ele que achava que a arte era uma �distrac��o�:

De resto, para que serve, nos claustros, onde os frades l�em o Of�cio, aquela rid�cula monstruosidade, aquela esp�cie de estranha formosidade disforme e disformidade formosa? O que est�o ali a fazer os imundos s�mios? Ou os ferozes le�es? ou os monstruosos centauros? Ou os semi-homens? Ou os tigres manchados? Ou os soldados na batalha? Ou os ca�adores com as trombetas? Podem ver-se muitos corpos sob uma �nica cabe�a e vice-versa: muitas cabe�as sobre um �nico corpo. De um lado,avista-se um quadr�pede com cauda de serpente, do outro, um peixe com cabe�a de quadr�pede. Ali um animal tem o aspecto dum cavalo e arrasta atr�s de si uma metade de cabra, aqui um animal cornudo tem o traseiro de cavalo. Enfim, por todo o lado aparece uma estranha e grande variedade de formas heterog�neas, para que se tenha mais prazer em ler os m�rmores do que os c�digos, para que se ocupe o dia inteiro a admirar, uma a uma, estas imagens em vez de se meditar na lei de Deus. Oh Senhor, j� que n�o nos envergonhamos destas criancices, porque n�o lamentamos, ao menos, os disp�ndios?�

Tudo � interessante neste texto. A for�a das frases, com o f�lego do contemplativo que v� mais que os outros, a descri��o magnifica do que um homem do s�culo XII podia ver numa capela rom�nica, e o argumento final, a que hoje chamar�amos �economicista�, dos �disp�ndios�. O verdadeiro �disp�ndio� era naturalmente o corpo:

Se desejardes viver nesta casa, � necess�rio deixar fora os corpos que trazeis do mundo; porque s� as almas s�o admitidas nestes lugares, e a carne n�o serve para nada�.

Essa veem�ncia contra o corpo, que o levou a atirar-se para dentro de uma tanque de �gua fria quando viu uma rapariga, ou a dominar o sabor para n�o ter gosto na comida, ou a n�o querer dormir para n�o perder o controle de si, � , como n�s sempre suspeitamos, pura sensualidade. Por isso nos seus textos h� das melhores descri��es da beleza, das �car�cias do corpo� , em nome da nega��o da pr�pria beleza, uma �distrac��o� que nos afasta de Deus:

N�s, monges, que j� nos isol�mos do povo, n�s que, por Cristo, abandon�mos todas as coisas preciosas e formosas do mundo, n�s que para merecer Cristo consideramos como esterco todas as coisas que resplandecem de beleza, que acariciam o ouvido com a do�ura dos sons, que lan�am odores suaves, que t�m um gosto doce, que agradam ao tacto, e o que, em suma, acaricia o corpo...�

Bernardo sabia que a arte nascia do corpo, mesmo quando era cosa mentale.
 


F�SICA E MATEM�TICA � COMENT�RIOS - 3� S�RIE

O Abrupto recebeu ( e continua a receber) muitos coment�rios sobre a quest�o das notas de F�sica e Matem�tica. Considero que esta � uma quest�o estrat�gica para combater o nosso atraso end�mico, pelo que todo o espa�o que se lhe der � pouco.

*

Sei que o timing para comentar este assunto j� passou, mas gostaria de acrescentar algo sobre a quest�o dos exames de Matem�tica e F�sica. Em geral, os coment�rios s�o todos a culpar o sistema. Acho mais interessante analisar o que causou esse tal entorpecimento do sistema e o que n�o deixa que se modifique. Mas aqui n�o h� grupos de press�o, interesses das multinacionais, pelo menos directamente. Todos somos culpados, como se costuma dizer, mas talvez seja �til apontar o dedo a alguns deles: pais, intelectuais, programadores de televis�o. Propositadamente deixei pol�ticos e agentes de ensino de fora, porque as suas culpas e desculpas j� s�o bem conhecidas.

Os pais, em geral, n�o demonstram qualquer interesse na educa��o dos filhos. Para eles a educa��o � apenas uma forma de conseguir um bom emprego, de atingir estatuto social ou talvez apenas uma forma gratuita de ocupar os filhos. O saber tem que ser utilit�rio, tem que servir para algo que d� dinheiro ou poder, � essa a vis�o geral. � comum um pai perguntar ao filho o que aprendeu na escola? Partilhar com eles conhecimento? N�o, os pais n�o se interessam, os pais n�o acompanham diariamente os filhos, apenas querem ver notas, resultados, sucesso ou falhan�o. S�o juizes, n�o s�o orientadores.

Depois culpo os intelectuais. Coloco-os entre it�lico devido ao pouco respeito que tenho pela classe que em Portugal se costuma denominar assim. Por c�, intelectual � a figura que se deixa deslumbrar pelo poder, que comenta nos jornais e na TV, que fala com suposta autoridade. Como dizia um fil�sofo, h� pessoas que s� consegue convencer os ignorantes, e � assim que vejo os nossos intelectuais. E o meu pouco respeito deriva precisamente dessas pessoas serem, na sua quase totalidade, analfabetos em F�sica e Matem�tica. Estes intelectuais n�o sabem em que mundo vivem, n�o sabem o que � um electr�o, o que diz o 2� princ�pio da termodin�mica, o que � a luz, o que � o princ�pio da incerteza e nem sabem pensar matematicamente - e tudo isto s�o coisas fundamentais, t�o essenciais ao homem culto como saber a Hist�ria do seu pa�s ou dominar a l�ngua materna. O baixo n�vel que atinge a pseudo - intelectualidade faz com que aos verdadeiros intelectuais lhes repugne o contacto com estas pessoas. Porque temos muitos bons investigadores em Portugal na �rea cient�fica, mas estes preferem falar com quem lhes est� � altura, os seus pares por c� e no estrangeiro. Por isso, os verdadeiros intelectuais normalmente est�o escondidos do p�blico, substitu�dos por med�ocres sedentos de protagonismo.

Por �ltimo, os programadores de TV. Trata-se de um problema global. A linguagem televisiva actual privilegia o �bvio, a �ltima novidade, mostra tudo rapidamente e pronto a consumir, sem necessidade de pensar. As maravilhas da ci�ncia n�o se explicam desta forma. O pior � que muito dificilmente se explicam de qualquer forma. Existem muitos livros que fazem uma boa divulga��o cient�fica, mas a� j� s�o os leitores que tomam iniciativa (quase sempre) e j� est�o dispostos a fazer um esfor�o para compreenderem. A TV como meio de divulga��o cient�fica quase n�o existe e quase nunca existiu. Desde os programas de Carl Sagan que n�o foram feitos outros que conseguissem entusiasmar tantas pessoas pelo mundo fora pela ci�ncia. A verdade � que n�o � f�cil falar de ci�ncia para toda a gente com rigor e poesia, mas se n�o for assim n�o se consegue cativar.

Claro que o sistema est� mal. Um simples exemplo: h� uns anos atr�s, numa livraria, abri um manual de F�sica do secund�rio. Li o pref�cio e apenas em algumas linhas detectei uma meia d�zia de erros crassos. Assim � dif�cil aos alunos aprenderam alguma coisa.

Gostava de lan�ar um desafio que acho interessante. Eu tenho forma��o cient�fica, como se pode ver pela minha escrita tosca e directa. Agora vou tentando me complementar procurando saber mais de artes, literatura, hist�ria, ci�ncias sociais. Que tal as pessoas ligadas �s letras, artes e ci�ncias sociais procurarem saber mais de ci�ncia? N�o lhes faria mal nenhum e iriam descobrir muitas coisas interessantes. O conhecimento pode ser uno, se fizermos por isso. Seria o primeiro passo para muita coisa.

M�rio Chainho

*

Embora concorde com as considera��es do seu post acerca deste tema e com o ponto de vista de que resultam os seus coment�rios, parece-me que h� um ponto que est� a fugir ao debate e ser� mesmo uma das raz�es base do actual estado das coisas.

Parece-me haverem dois grandes patamares, ou fases, na aquisi��o do conhecimento.
Uma 1� Fase, que pode ser encarada como Fase de aquisi��o do conhecimento elementar e uma 2� Fase, um patamar j� mais ligado � criatividade, investiga��o, experimenta��o, etc. Acontece que o debate se centra sempre no falhan�o desta segunda fase, sem que tomemos consciencia de que � o falhan�o da fase anterior que gera a impossibilidade de se obterem resultados na fase seguinte.Se nem os alunos, nem os professores s�o menos capazes do que eram h� 20 anos, por exemplo, o que � que est� a correr mal?
Penso que na 1� fase do ensino, h� que dotar os alunos dos conhecimentos elementares que s�o essenciais. Sem pretender ser exaustivo, a Hist�ria, a F�sica, a Matem�tica, as Ciencias Naturais, o Portugu�s, o Ingl�s, a Qu�mica, a Filosofia, etc., s�o exemplos das �reas que fornecem as ferramentas do "conhecimento" que tem que ser adquiridas num certo grau m�nimo, para ser poss�vel avan�ar para patamares posteriores, com as condi��es b�sicas asseguradas. Aqui, h� que fazer uma separa��o entre os alunos que est�o preparados e os que n�o o est�o. Sejam Exames, Testes, ou o que se quiser, h� que ter uma maneira objectiva de aferir, com verdade, o grau de prepara��o dos alunos. Se est�o ou n�o de posse dos tais conhecimentos base. Depois, s� os que est�o preparados deveriam poder avan�ar, pois os outros nunca poder�o ter resultados efectivos, enquanto lhes faltarem os conhecimentos essenciais.Isto parece-me l�gico.

A situa��o de os professores terem medo de reprovar os alunos � um aburdo porque n�o resolve nada e no final, gera uma insuper�vel frustra��o em todos os envolvidos. Mesmo n�o sabendo o essencial, os alunos, chegam ao 10� ano sem reprovarem. A partir daqui, como as coisas se complicam e eles n�o t�m os conhecimentos essenciais, "estacionam" no 10� ou 11� e ficam � deriva. Entretanto, passaram os anos e j� n�o � poss�vel voltar ao secund�rio para aprender aquilo de que necessitam. Ficam, literalmente, sem saida e intala-se a frustra��o. A frustra��o dos alunos, dos professores e dos pais.� essencial que se fa�am Exames em v�rios n�veis de modo a garantir a "qualidade" dos alunos que transitam � fase seguinte.Por analogia, veja-se por exemplo o que se passa na Ind�stria Alimentar. H� j� alguns anos foi criado um sistema de controle de qualidade nos EUA, chamado HACCP (Hazardous Analyses and Control of Critical Points) que consiste resumidamente no seguinte :
Na fase de produ��o de um bem, s�o identificados os pontos cr�ticos para a qualidade do produto final.Sempre que no processo de fabrico, o produto sofre uma tranforma��o para passar a uma fase superior e esse ponto � considerado cr�tico, o produto � sujeito a testes de qualidade nesse ponto.O produto s� avan�a para a fase seguinte se "passa" nos testes. Deste modo se garantem 3 factores. A melhor qualidade do produto final, O menor n�mero de rejei��es, O mais baixo custo total envolvido. Se o produto passou em todos os pontos cr�ticos, j� n�o precisa do controle de qualidade final que antigamente era aquele que servia para "aprovar" o produto.

Sem querer ser "redutor" parece-me que o nosso problema � sempre o mesmo. Estamos todos de acordo quanto ao problema. No entanto, nenhum Governo resolve tomar uma decis�o, mesmo sabendo que existir�o alguns erros, para depois se ir construindo (aperfei�oando) nessa plataforma. Assim, vamos debatendo, debatendo e o tempo a passar. Parece querermos encontrar o �ptimo, quando ainda estamos no Sofr�vel. Fazer o Bom era um avan�o significativo. E nisto, francamente n�o me parece estar a ser "faccioso".

Ant�nio Torres

*

Sou uma estudante do 12� ano que pretende candidatar-se ao curso de economia na Faculdade de Economia na Universidade do Porto, a qual exige como prova espec�fica a t�o temida Matem�tica. O meu prop�sito ao escrever-lhe � para lhe contar uma experi�ncia pessoal invulgar e as conclus�es que tirei da�. Frequento um liceu P�blico do Norte do Pa�s no qual obtive um esfor�ado 16 a Matem�tica no 12� ano. Fui fazer o exame bastante nervosa e assustada pois todos os professores e alunos nos descreviam o exame como algo de terr�vel, embora tivesse no��o de ter estudado o necess�rio. Para meu espanto, correu-me bem e no passado dia 1 de Agosto constatei que tinha obtido um 18.5 no exame. Ent�o, face a esta invulgar situa��o de subida de nota em exame, parei para pensar. Ser� que estudei mais para este exame do que para os testes? (Penso que n�o) Ser� que fiz testes mais dif�ceis? (N�o, mesmo porque os meus testes eram uma selec��o de perguntas de exames de anos anteriores integralmente ou adaptadas), ser� que fui injustamente avaliada?

Afinal os exames at� nem s�o dif�ceis e seguem sempre o mesmo esquema, conclu�a que o que me permitiu tirar esta nota foi o facto de nos dias antes do exame ter feito todos os exames dos �ltimos 4 anos. Ent�o percebi, que estive durante um ano inteira a ser preparada para aquele exame, que tinha feito dezenas ou talvez centenas de exerc�cios estereotipados. Mas porque � que ao percorrer no sentido vertical as pautas de F�sica e Matem�tica na minha escola era poss�vel encontrar 10 alunos seguidos com notas negativas?
Na minha opini�o, as raz�es que explicam tal facto s�o as seguintes:

1.Alguma incompet�ncia por parte dos professores. Muitos nem sequer s�o formados em Matem�tica ou F�sica e n�o sentem a mais pequena voca��o para leccionar. Um aluno � capaz de faltar a todas as aulas de uma disciplina como Hist�ria, estudar em casa pelo livro e apontamentos e tirar uma boa positiva. Por outro lado em rela��o � Matem�tica, bastava ir a todas as aulas, n�o estudando em casa, a partir do momento em que percebesse tudo nas aulas. Porque os exerc�cios n�o variam muito, se se perceber, porque � que se usa uma derivada, n�o ser� preciso fazer centenas de exerc�cios com
derivadas, at� se mecanizar, bastar� face a um novo exerc�cio raciocinar e depois aplicar. Por fim � de salientar a dificuldade que muitos professores t�m em atribuir notas altas aos alunos, especialmente por parte das escolas p�blicas. Citando um antigo professor meu: �20 � para Deus, 19 para mim, e o resto para os alunos�...

2.A in�rcia total por parte dos alunos. Pois para muitos a Matem�tica e a F�sica s�o dif�ceis e por isso n�o vale a pena estudar. Os alunos v�o-se acomodando a esta situa��o e at� v�o passando de ano at� se depararem com um exame final.

3.O problemas das escolhas m�ltiplas. Por exemplo, num exame de matem�tica h� 7 perguntas de escolha m�ltipla com quatro respostas poss�veis, no valor de 0.9 cada uma, perfazendo um total de 6.3 valores. No entanto, sempre que um aluno falhar a op��o que escolhe � lhe descontado 0.3 �s restantes perguntas feitas. Acho que pelo menos devia ser obrigat�rio que o aluno al�m da resposta escolhida, indicasse uma breve explica��o do racioc�nio elaborado. Pois por muitas vezes me senti injusti�a devido � escolha m�ltipla.

4.A culpa dos nossos governantes. Como diz o velho ditado � de pequenino � que se torce o pepino�, o que neste caso n�o poderia ser mais verdade, pois o gosto pela matem�tica adquire-se desde pequeno, n�o � s� importante criar projectos, como por exemplo a �ci�ncia viva�, como � urgente incentivar os mais novos ao mundo dos n�meros, pois quando se gosta, � mais f�cil estudar e obter melhores resultados. N�o sendo de descurar a revis�o dos programas, dos exames e das aulas do ensino secund�rio. Sei que n�o ser� f�cil, pois apesar de os exame por vezes serem injustos, no contexto actual s�o a melhor forma de fazer justi�a. Pois � a �nica maneira poss�vel de nivelar os alunos � entrada na faculdade face a crit�rios de avalia��o e t�cnicas t�o vastas e diferentes a n�vel nacional.

Diana Silva



 


AN�NCIO DA SUA MORTE

Texto do an�ncio da sua pr�pria morte feito por Jo�o Pulido Valente:

"Eu, Jo�o Pulido Valente, informo os meus Amigos que morri hoje, 4 de Agosto de 2003, de manh�zinha. Convivi com Ideias, mulheres, tabaco e �lcool. Contra� cadeia, s�filis, cancro e ressacas. N�o estou arrependido. Julgo ter pago o pre�o justo por ter vivido. Quando eu morrer n�o quero choro nem velas, quero uma fita amarela, gravada com o nome dela: Liberdade."

Ainda h� homens assim.

4.8.03
 


� LUZ DE SKAGEN

 


INC�NDIOS

Nestes momentos, que todos sabemos serem dif�ceis, falar de outras coisas pode parecer escapismo, mas tamb�m falar delas �, muitas vezes, ru�do. A destrui��o de uma parte de Portugal pelos inc�ndios, � apenas uma parte de outras destrui��es mais lentas, menos vis�veis, menos dram�ticas, mas nem por isso menos eficazes. As raz�es de umas e outras s�o mais pr�ximas do que parecem, remetem para um laxismo governamental muito antigo, para a dilui��o das autoridades interm�dias que n�o cumprem as suas responsabilidades, e para resist�ncias sociais profundas. � tudo menos um problema de dinheiro.

As causas dos inc�ndios s�o conhecidas (todos os estudiosos da nossa floresta sabem porque � que ela arde), s�o complexas (porque mexem com o tecido social, com a propriedade e com as muta��es no uso econ�mico da floresta) e tem solu��es tamb�m conhecidas, embora menos f�ceis do que neste momento de indigna��o parecem.

Quando passarem os inc�ndios � uma discuss�o a que se deve voltar. De fundo e a fundo. Agora � natural a indigna��o e que, quem possa fazer alguma coisa, fa�a.


RESIST�NCIAS

Experimentem fazer esta coisa t�o simples como seja convencer uma Comiss�o de Festas a n�o deitar foguetes. N�o falo em abstracto, mas em concreto. Chamar a aten��o para que n�o h� quaisquer condi��es de seguran�a para se deitar foguetes � ser �contra a Festa� de imediato. � assumir a responsabilidade do �falhan�o� da festa, porque, como muitas coisas que se fazem voluntariamente, est�o presas por um fio t�nue entre o desastre econ�mico e o magro sucesso. Os meios pequenos s�o cru�is na atribui��o de responsabilidades e incapazes de as assumirem.

O fogo est� comprado e presumo que pago e ningu�m imagina uma festa sem as dezenas de foguetes �s 8 da manha para a �alvorada� e durante o dia repetidas vezes para marcar eventos ou pura e simplesmente mostrar que h� festa. N�o � fogo de artif�cio para iluminar os c�us, s�o foguetes para fazer barulho. J� sugeri que gravassem o barulho e o atirassem para o ar como se fossem os foguetes. N�o adianta. O sucesso da festa � ter foguetes, mesmo que ningu�m saiba se eles t�m algum papel em trazer pessoas para os espect�culos, ou se estes foram bem ou mal escolhidos.

Deitar foguetes, por muito treino que se tenha, n�o � uma ci�ncia exacta. O vento atira-os para qualquer lado e vastos espa�os com erva seca e vegeta��o rasteira est�o apenas � espera de serem incendiados. Tamb�m isto n�o � abstracto, os foguetes provocaram regularmente pequenos inc�ndios nas festas dos anos anteriores e os bombeiros s�o chamados quase como um h�bito. Toda a gente sabe isto, ningu�m verdadeiramente liga. Ningu�m imagina sequer que este ano possa n�o haver bombeiros porque est�o ocupados noutro s�tio e n�o chegam para as encomendas.

Seguros? N�o existem. Algu�m se responsabiliza? Ningu�m. Do governador civil que deveria este ano proibir em determinados distritos de risco o fogo de artif�cio, � Junta que n�o quer aborrecimentos e incompatibilidades. E o mais prov�vel � que haja foguetes e depois a culpa n�o seja de ningu�m.

 


PRESENTES MATINAIS PARA OS AMADORES DE LIVROS

Para o Almocreve das Petas

Mesmo que o �almocreve� j� conhe�a, aqui vai uma recomenda��o do livro de Nicholas A. Basbanes, Among the Gently Mad. Strategies and Perspectives for the Book Hunter in the Twenty-First Century , Nova Iorque, A John Macrae Book, 2002. Para a tribo dos �gently mad� dos amadores dos livros � uma boa leitura.

Para os Textos de Contracapa



Esta reprodu��o do in�cio de uma carta de 1 de Agosto de 1970, faz parte de um conjunto de cartas de Verg�lio Ferreira sobre a sua obra, sobre a juventude, o Maio de 1968, o cinema, etc., fragmentos de uma correspond�ncia que com ele mantive nesses anos.

Para os entusiastas dos Sopranos

... nos quais eu me incluo, o melhor que se publicou at� agora � a antologia de ensaios editada por David Lavery, This Thing of Ours. Investigating the Sopranos, Columbia University Press , 2002 . Entre os ensaios, com t�tulos como �Fat fuck! Why don�t you take a look in the mirror?�. Weight, Body Image, and Masculinity in the Sopranos� ou �Soprano-speak� Language and Silence in HBO�s The Sopranos�, t�picos dos acad�micos americanos h� muita coisa que vale mesmo a pena ler. Para a esquerda politicamente correcta h� o livro de David Simon, Tony Soprano�s Am�rica. The Criminal Side of the American Dream, Boulder, Westview Press, 2002, muito menos interessante e que se dedica a dizer o que se espera � os Sopranos s�o a Am�rica, viol�ncia, mentiras, extors�o, ou seja, a culpa � do capitalismo, etc.

3.8.03
 


ONDE

 


EARLY MORNING BLOGS 23

A blogosfera est� um fio de �gua, um pequeno ribeirinho, n�o corre de dia, n�o corre de noite. Agora � que as f�rias profundas est�o c�, secando tudo.

N�o me custa imaginar como vai ser o princ�pio de Setembro: chuvas poderosas, torrentes de palavras de novo a encher este vale. Trovoadas, estrondos, Zeus l� em cima de rel�mpago na m�o, f�ria, sturm und drang, �guas do Sul, �guas do Norte, �guas a quererem correr para tr�s desafiando a gravidade, �guas ligeiras flutuando sobre outras �guas, �guas negras do fundo, clareza, limpidez, obscuridade, desejo de ser rio, desejo de ir para o mar, desejo de n�o ir para parte nenhuma.

Todas revolvendo-se num pequeno espa�o de um vale profundo, a querer deixar um sulco que diga � �esta � a minha �gua e corre por aqui�.

2.8.03
 


UMA VELA

Aqui, fica-se sempre. Como a vela que Yuri observou na rua, num principio de noite russa, t�o precoce, t�o cedo e t�o tarde. Como no poema de Pasternak que vem no Dr. Jivago, que traduzi a seguir. O poema resulta de um olhar casual:

Quando passavam na rua Kamerger, Yuri reparou numa vela que tinha derretido uma abertura na camada de gelo de uma das janelas. A luz parecia querer dirigir-se para a rua, quase conscientemente, como se estivesse a observar as carruagens que passavam ou esperando por algu�m.
�Uma vela arde na mesa, uma vela arde �� murmurou para si pr�prio � o princ�pio de alguma coisa confusa, informe, que esperava que assumisse uma forma. Mas nada lhe surgiu


O que mais gosto no poema � o toque chekoviano, algo que s� a literatura russa do principio do s�culo XX era capaz de dar, uma delicadeza infinita a tratar das coisas humanas, sem exageros ou dramas, s� a frase simples e leve e terr�vel. Nos momentos mais dif�ceis, quando tudo so�obrava � nossa volta, l� ficava a vela ardendo na fronteira entre o quarto e a rua, na �noite de Inverno�. A presen�a da vela � a �ltima esperan�a, a da persist�ncia.


Todas as tempestades
Cobrem a terra.
A vela arde em cima da mesa
A vela arde.

Como no Ver�o, as tra�as s�o empurradas
Para a chama,
Os flocos de neve batem
Contra a janela.

No vidro, an�is brilhantes de neve
E fios de �gua escorrem.
A vela arde em cima da mesa
A vela arde.

No teto iluminado
As sombras oscilam.
Bra�os e pernas,
Cruzados pelo destino.

Duas botas caem no ch�o
Fazendo barulho,
E l�grimas de cera
Tombam no vestido.

O nevoeiro de neve
N�o nos deixa ver.
A vela arde em cima da mesa
A vela arde.

Um sopro vindo do canto
Faz tremer a vela,
Duas asas cruzam-se
Como num anjo.

Nevou muito durante Fevereiro
Como � costume.
A vela arde em cima da mesa
A vela arde.
 


VER�O ANTIGO

 


A CAT�STROFE DO DIA SEGUINTE � SEMPRE MAIOR DO QUE A DO DIA ANTERIOR

N�o obtenho qualquer informa��o dos notici�rios da comunica��o social, em particular nas televis�es, sobre os fogos. O mesmo j� acontecia nos anos anteriores. Desde que come�aram os fogos, os do dia seguinte s�o sempre piores do que os do dia anterior. � a �nica constante. Para al�m disso � sempre tudo uma �cat�strofe�, sempre tudo descrito de uma forma t�o hiperb�lica, t�o dram�tica, t�o excitada, que, a uma dada altura, as palavras est�o t�o gastas que n�o servem para nada. N�o h� dados objectivos, �reas, mapas, dimens�es, � tudo a olho. A combina��o entre a excita��o para o espect�culo, a ignor�ncia daquilo que se fala, e a l�gica do sempre novo, sempre maior, sempre mais dram�tico, destr�i qualquer conte�do informativo.
 


F�SICA E MATEM�TICA � NOVOS COMENT�RIOS ADICIONADOS NA 2� s�rie

H� novos coment�rios adicionados na 2� s�rie um pouco mais abaixo no blogue. O debate sobre a educa��o c�entifica � um dos mais importantes que se pode ter no Portugal de hoje e a qualidade e o conte�do das interven��es dos leitores do Abrupto demonstram essa necessidade. Os textos s�o mais longos do que o habitual para este meio, mas o seu interesse justifica o agrupamento numa entrada �nica.
 


VER A NOITE - INC�NDIO

Tenho um inc�ndio a quinhentos metros, atr�s de uma curva de estrada , numa ravina coberta com mato. N�o oferece perigo nem a pessoas, nem bens porque est� uma noite sem vento. Os bombeiros n�o ter�o dificuldade em impedir que atravesse a estrada. Com vento seria indom�vel e subiria sem tr�guas.

Um enorme clar�o vermelho vulc�nico ilumina a pr�pria nuvem que produz. Ouve-se crepitar e o cheiro intenso penetra em tudo. � ir�nico que este festival de destrui��o produza um cheiro magn�fico, � urze, ao mato queimado. Os carros de bombeiros passam sem as sirenes, desnecess�rias porque n�o h� tr�nsito. Uma agita��o silenciosa perpassa nas pessoas, apanhadas na sua maioria j� a dormir, pequenos grupos de vizinhos juntam-se a ver, a vigiar, inquietos.

Desci ao s�tio das chamas junto do local onde os bombeiros esperam que o fogo se possa combater. O poder do fogo � enorme, uma coluna de chamas sobe e desce em altura conforme os arbustos que apanha, atirando l�nguas de fogo para o pr�ximo ramo, para a erva seca. Atr�s fica um c�rculo negro do que j� ardeu, claramente delimitado por um risco de chamas.

� ainda um pequeno inc�ndio, sem perigo previs�vel, mas ajuda a perceber o que se tem passado.
 


VER A NOITE

n�o � poss�vel. O fumo dos inc�ndios espalha-se e tapa tudo. N�o h� estrelas, nem planetas, nem a jovem Lua se mostra. �Que farei quando tudo arde?� , perguntaria o meu mestre Miranda no canto superior esquerdo, no s�tio onde Marte se deveria estar a mostrar.

1.8.03
 


DE PARTIDA

 


F�SICA E MATEM�TICA � COMENT�RIOS - 2� s�rie (Actualizada)

NOTA: O Abrupto n�o tem coment�rios pelas raz�es j� expostas. Atrav�s do correio electr�nico recebe contribui��es dos seus leitores, que s�o muito bem-vindas. Em fun��o da economia geral do blogue e de regras editoriais de bom senso, ser�o aqui publicadas todas as contribui��es para o debate, independentemente da minha concord�ncia ou discord�ncia com o seu conte�do. Os textos est�o publicados em ordem inversa da data de recep��o.

"(...) o lan�amento dum debate sobre o assunto, num pa�s com reduzida tradi��o cient�fica, e com muito pouca vontade para a construir.

O pa�s em que Cultura-com-c-grande-nos-jornais-e-na-tv � sin�nimo de E�a, Emmanuel Nunes, Vieira da Silva (s� para mencionar alguns dos nacionais un�nimes), mas nunca de Arquimedes, Galileu, ou Newton. Um pa�s em que � escandaloso os alunos chegarem ao fim do 12� ano sem saberem quanto cantos tem "Os Lus�adas", mas n�o � escandaloso os mesmos alunos n�o compreenderem(!) que, desprezando o atrito, duas pedras de massas diferentes, lan�adas simultaneamente da mesma altura atingem o solo ao mesmo tempo. Um pa�s com uma intelligentsia que delira com Eduardo Prado Coelho ou Boaventura Sousa Santos mas ignora as calamidades pseudo- cient�ficas que estas "talking heads" propagam nos anfiteatros da ind�stria de professores do Ensino Secund�rio. Um pa�s que n�o compreendeu que Cultura Cient�fica �, antes de tudo, questionar, criticar, experimentar, verificar e compreender, atitudes fundamentais para a cidadania nas sociedades democr�ticas.

(�) existe concerteza uma defici�ncia estrutural no sistema educativo nacional, mas esta defici�ncia � mental, e do sistema social portugu�s. Em compara��es internacionais, os pa�ses asi�ticos lideram sistematicamente os rankings da F�sica e da Matem�tica. Nestes pa�ses, o conhecimento � fortemente valorizado socialmente. Aprender Ci�ncia, ensinar Ci�ncia, fazer Ci�ncia, s�o actividades com prest�gio social, que os pais incentivam os filhos a prosseguir, o equivalente nacional a "fazer" a capa de revista cor-de-rosa, participar no pr�ximo reality-show da tv, ou ser transferido para o futebol italiano. Os nossos valores s�o definitivamente diferentes dos valores sociais dos pa�ses que deram o salto do desenvolvimento cient�fico e tecnol�gico.

E os nossos governantes t�m tentado alterar esta atitude nacional? Numa l�gica contabil�stica tudo indica que sim: escolaridade obrigat�ria alargada, melhores condi��es f�sicas nas escolas, e mais alunos nas escolas (em todos os n�veis de ensino). Com que pre�o? Basta percorrer as escolas secund�rias e falar com os professores e com os alunos. O sentimento generalizado � desmotiva��o. O n�vel m�dio de exig�ncia dos programas � baix�ssimo, fruto da press�o massificadora, e a escola substitui a fam�lia de forma indiferenciada e uniforme. Sucessivas reformas baixaram os padr�es de exig�ncia e automatizaram a promo��o de multid�es de analfabetos conceptuais a detentores da escolaridade obrigat�ria. A nova reforma do Ensino Secund�rio mant�m esta bela tradi��o de inova��o, sendo poss�vel um aluno chegar a uma Escola de Engenharia sem ter tido F�sica e/ou Qu�mica nos tr�s anos finais do Ensino Secund�rio (ver parecer do Instituto Superior T�cnico sobre a reforma do Ensino Secund�rio). Todo este cen�rio torna-se ainda mais perturbador na F�sica ou na Matem�tica, em que a aus�ncia de docentes com forma��o cient�fica espec�fica nestas �reas � quase total.Pergunta JPP: porqu� estes resultados com a F�sica e a Matem�tica e n�o com as outras disciplinas? A resposta encontra-se subtilmente escondida no seu texto ("... o edif�cio da educa��o cient�fica ...").

A Matem�tica, a linguagem das ci�ncias "duras", � uma disciplina que exige um saber cumulativo, como bem descreveu Nuno Crato em interven��o televisiva recente. A sua aprendizagem n�o se compadece com lacunas na forma��o precedente e portanto sup�e continuidade e estabilidade, caracter�sticas que raramente encontramos na composi��o do corpo docente das escolas p�blicas. Como qualquer linguagem, � exigente: o seu dom�nio implica muito treino e muito trabalho. A F�sica � um pouco diferente: compreender a linguagem matem�tica � fundamental, mas n�o � suficiente. A F�sica, como ci�ncia experimental, obriga(-nos) a pensar e a confrontar a realidade, n�o se compadece com o saber sem compreender, o saber sem saber fazer, o saber-livresco-com-cheiro- a-mofo que impregna a nossa heran�a cultural franc�fona. Em qualquer dos casos, o n�vel de exig�ncia e rigor das disciplinas � elevado e a qualifica��o cient�fica dos docentes � crucial, sempre aliada � capacidade de transmitir o encanto e o prazer da Ci�ncia. Muito deste prazer n�o se aprende no dia-a-dia de um estudante universit�rio. Encantamo-nos quando fazemos Ci�ncia.

O contacto dos futuros professores com esta realidade �, em geral, reduzido e fortemente limitado: o estado, atrav�s das regras de financiamento, n�o incentiva as universidades que fazem Ci�ncia, n�o incentiva a integra��o dos alunos em projectos de investiga��o e penaliza o ensino experimental/ laboratorial. Incentiva o ensino massificado, "barato" e com muito papel e l�pis, a ant�tese da atitude que � necess�rio transmitir aos alunos do ensino secund�rio.N�o existem solu��es novas para descobrir a p�lvora.

A teoria � un�nime e do dom�nio p�blico. Subst�ncias t�o simples como trabalho, motiva��o, exig�ncia, responsabiliza��o, valoriza��o e recompensa s�o, regra geral, suficientes. Contudo, n�o � �bvio que Na��o/governantes/"opinion makers"/ professores/pais/alunos estejam preparados ou motivados para esta mistura explosiva. Citando um dos melhores conhecedores da psique lusa, Alexandre O'Neill, "Na pr�tica, a teoria � outra."Nem tudo est� perdido. Todos os Setembros encontro novos (e excelentes) alunos de F�sica � minha frente, acabados de sair do liceu, cheios de sonhos de cientistas e engenheiros, motivados para unificar as interac��es fundamentais, compreender os buracos negros, resolver o problema energ�tico da humanidade, desenvolver novos materiais, construir aceleradores de part�culas. E de Setembro a Julho trabalho em deslumbramento ("awe" � o termo correcto) com as quest�es (e com as respostas) destes 45. O seu segredo � simples: motiva��o e dedica��o. Como muitos noutros dom�nios cient�ficos e tecnol�gicos, acabam por percolar para o resto da sociedade e transportar consigo a paix�o pela Ci�ncia e valores t�o simples como a exig�ncia, o trabalho e o rigor. Ser� a� que encontraremos algumas das respostas para o futuro."


Lu�s O. Silva

*


"Sou professor de F�sica e Qu�mica h� cerca de 10 anos, neste momento frequento um mestrado na �rea da pedagogia de F�sica e Qu�mica. Lendo algumas opini�es, conhecendo a situa��o e vendo o estado dos actuais exames, aqui ficam algumas opini�es pessoais:

- Creio que a nota de matem�tica se deveu � cr�nica defici�ncia na �rea. A nota de f�sica sempre foi baixa, este ano os exames foram excepcionalmente mais dif�ceis, da� a nota ter baixado, e s� por isso deu nas vistas (at� agora era a segunda nota mais baixa e j� ningu�m falava dela). Apesar destas notas, gostava que se reparasse que as m�dias das outras tamb�m n�o s�o propriamente alta...

- Como ci�ncias de ponta, onde todos os factores t�m import�ncia, � natural que estas disciplinas revelem mais as defici�ncias do sistema que as outras. Creio, que enquanto uma disciplina como f�sica necessita de um bom acompanhamento de um professor e de um dom�nio mais completo da matem�tica, do portugu�s e da f�sica, outras disciplinas como a hist�ria ou a filosofia podem ser abordadas muitas vezes na solid�o da casa, com o estudante apenas munido de livros.

- Os m�todos de ensino existem, t�m resultados e s�o pass�veis de ser aplicados. Conhe�o colegas com graus de sucesso e que pretendem ensinar os seus alunos. Mas tamb�m conhe�o o contr�rio... e aqui reside um dos grandes problemas da estrutura excessivamente corporativa dos professores. Este ano fiquei a lecionar numa escola secund�ria em que me entregaram uma das disciplina mais f�ceis e menos influentes das qu�micas. Se l� continuasse iria lentamente a receber disciplinas cada vez mais complexas at� o dia em que poderia lecionar o 12�. Noutras escolas, colegas minhas com menos experi�ncia receberam desde logo os 12� anos porque os professores mais velhos n�o queriam ter �o trabalho� nem �a responsabilidade�. Esforce-me a ensinar os meus alunos, ou falte metade do ano, sei que vou progredir na carreira da mesma forma e ganhar o mesmo ao fim de x anos. � assim que o sistema funciona.

- Claro que os alunos n�o estudam, claro que � dif�cil a sua prepara��o. Mas talvez seja a hora de explicar que nem todos tem capacidade de serem neurocirurgi�es ou f�sicos nucleares. Quando o minist�rio fala de prolongar o ensino obrigat�rio para o 12� eu penso na via profissional, no regresso aos cursos de car�cter mais t�cnico. Espero que assim seja, porque sinceramente n�o percebo para que temos de obrigar os nossos alunos a ler os Maias ou a entender os campos magn�ticos, quando sabemos de antem�o que o futuro de muitos deles � ler �A Bola� ou trocar msgs de telem�vel enquanto esperam na fila para a entrevista de emprego, ou do autocarro.

H� muito para mudar e repensar, j� agora uma observa��o interessante: Num pa�s de maus estudantes e maus resultados, temos um f�sico como Jo�o Magueijo, uma pessoa que curiosamente n�o percorreu o caminho tradicional do estudante portugu�s para chegar ao fim do 12�. Mero acaso?"


Emanuel Ferreira

*

"Os fracos resultados obtidos a Matem�tica e a F�sica pelos estudantes do Ensino Secund�rio n�o se devem, obviamente, a um �nico factor. Mas antes de abordar algumas causas que me parecem estar por tr�s desse fraco desempenho, parece-me que � de real�ar um facto t�o ou mais preocupante do que este, nomeadamente que em testes feitos a n�vel da Uni�o Europeia (o Estudo Internacional PISA) os estudantes portugueses ficaram muito mal colocados. Temos ent�o que averiguar n�o s� porque � que os alunos do Ensino Secund�rio t�m, nos exames a n�vel nacional, classifica��es t�o inferiores �s que lhes foram atribu�das pelos seus professores, como tamb�m porque � que s�o os piores da Uni�o Europeia no que se refere � Matem�tica.

Creio que � melhor come�ar por descrever uma aula de Matem�tica do Ensino Secund�rio a que fui assistir h� sete anos atr�s. A aula foi de uma hora, era dirigida a alunos do d�cimo ano e tratou-se de uma aula normal dada a uma turma normal. A �nica coisa que foi feita na aula foi a resolu��o de uma s�rie de exerc�cios, todos do mesmo tipo, e que consistiam em aplicar uma t�cnica que j� fora dada na aula anterior. Durante uma hora a professora ia propondo exerc�cio atr�s de exerc�cio (todos iguais, com ligeir�ssimas varia��es) e, ap�s dar algum tempo aos alunos, mandava um deles resolv�-lo no quadro, corrigindo-o eventualmente em caso de necessidade. Foi-me explicado que ainda se continuariam a fazer exerc�cios do mesmo g�nero na aula seguinte.

Imagine-se agora toda a mat�ria de Matem�tica e de F�sica do Ensino Secund�rio a ser leccionada deste modo, anos e anos a fio. A que � que isto leva? A uma situa��o ainda pior do que a simples an�lise des m�dias dos exames nacionais pode levar a supor. De facto, o que acontece � que:

1) A percep��o com que a maioria dos alunos fica da Matem�tica e da
F�sica � de se tratar da uma mat�ria para a qual �conhecimento�
equivale a saber fazer uma s�rie de exerc�cios padr�o ou, pior
ainda, aplicar cegamente uma s�rie de f�rmulas. Naturalmente, isto
leva a alunos a quem se pede para calcular uma �rea, d�o como
resposta uma quantidade negativa e depois queixam-se a quem os
quiser ouvir que os professores descontam imenso s� por causa de
um erro num sinal.

2) Os alunos mais inteligentes e dotados de iniciativa intelectual
sentem muitas vezes repugn�ncia por esses assuntos precisamente por
causa da percep��o acima descrita.

3) Um grande n�mero de alunos fica com a impress�o de que at� t�m
queda para aqueles assuntos, ingressando por isso em cursos
universit�rios dessa �rea para depois terem um �despertar� muitas
vezes brutal. Tive uma vez alunas do primeiro ano de uma
licenciatura em Matem�tica a queixarem-se de que �a Matem�tica no
Secund�rio � t�o f�cil que at� � chata�!

Mas porque � que as notas dos exames nacionais s�o t�o inferiores �quelas que os alunos costumam ter no final dos anos lectivos? Porque cada vez mais o ensino � compartimentado em pequenas unidades estanques e as boas notas s�o devidas a testes que s�o feitos ao longo do ano para examinarem os conhecimentos obtidos nessas unidades. Mas h� uma causa mais profunda e mais perturbadora: � que os professores que reprovem um aluno t�m que elaborar um relat�rio a explicar detalhadamente porque � que o aluno em quest�o n�o teve aproveitamento e que m�todos alternativos de ensino foram empregues. Nestas circunst�ncias n�o deixo de compreeender (embora censure) os professores que optem por baixar a fasquia. Note-se que ningu�m incomoda os professores que d�em sempre notas muito altas nem muito menos os professores que n�o proponham exerc�cios mais estimulantes aos melhores alunos.

E isto leva-me a mencionar aquela que considero como a maior pervers�o de todo o sistema, que � aquela que consiste em chamar �insucesso escolar� � taxa de reprova��o. Ou seja, ter sucesso n�o � ter obtido novos conhecimentos, ter integrado os conhecimentos j� obtidos numa estrutura coerente ou ter desenvolvido novas compet�ncias. N�o: �ter sucesso� � �passar de ano� e nada mais. O s�mbolo torna-se na coisa em si. E esta � a linguagem empregue no Minist�rio da Educa��o.
"

Jos� Carlos Santos

*

"Infelizmente a Matem�tica e a F�sica s�o apenas a face mais vis�vel do problema.

O que se passa hoje em dia no sistema educacional � escandaloso. Quer no ensino liceal, quer no ensino superior. Antes de mais vejamos alguns exemplos ver�dicos: em 2002, no Instituto Superior T�cnico, � cadeira de An�lise Matem�tica I, base da forma��o matem�tica de todos os cursos daquela universidade, passaram 3% dos inscritos. Na mesma cadeira, mas na Faculdade de Ci�ncias e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, de cerca de 500 inscritos, s� 33 foram aprovados.

Estes s�o s� alguns exemplos de um panorama nacional ultrajante e degradante. Ser� que s� temos escolas que n�o servem para nada? A continuar assim, apenas nos andamos a enganar e a enganar os outros; s�o anos e anos da suposta prepara��o, em que se gasta tempo e muito, muito dinheiro, que de pouco vai servir. S�o recursos mal alocados, num sistema lento ineficaz e enganador.

Ora vejamos: em primeiro lugar est� a escolaridade b�sica e obrigat�ria que nada mais � que uma fantochada. Se por acaso tiv�ssemos como colegas, alunos interessados e trabalhadores e bons professores, talvez o sistema at� funcionasse. Por�m n�o podemos partir do princ�pio que todos os alunos s�o interessados e trabalhadores, principalmente quando a pr�ctica nos diz que s�o poucos. E quanto aos bons professores? Nem sempre os professores s�o bons, mas s�o injustas a maioria das cr�ticas que a opini�o p�blica e muitas vezes o pr�prio minist�rio faz aos professores. Um bom professor faz-se n�o s� por ele pr�prio, mas tamb�m pelos alunos que t�m. Que �nimo ter� ent�o qualquer professor, bom ou mau, se os seus alunos n�o se interessam minimamente e se n�o dispoem de um m�nimo de ferramentas que lhe permitam aumentar a exig�ncia? A verdade � que nos tempos que correm, � muito, mas mesmo muito raro algu�m chumbar at� ao 9� ano. V�em-se alunos passar com mais de duas negativas e muitas vezes at� com reprova��o �s disciplinas de Portugu�s e Matem�tica, que antigamente eram os dois monstros sagrados, a que ningu�m podia chumbar simult�neamente.

Que est�mulo ter� ent�o um professor que por t�o maus que sejam os seus alunos os v� passar para o ano seguinte, sem que pouco possa fazer? Sim, porque os procedimentos para se chumbar um aluno s�o t�o complicados, que a pr�pria burocracia se encarrega de o fazer passar. E que vontade de fazer um esfor�o extra tem o aluno que j� n�o � muito dado aos livros e que sabe que se n�o se esfor�ar passa na mesma? Que �nimo d� isto aos bons alunos que no fim de um ano de trabalho s�o apenas premiados com a aprova��o dos colegas que nada fizeram para a merecer? Com este sistema, s� as estat�sticas ganham e mais nada.

No ensino secund�rio, o percurso deixa de ser t�o facilitado, mas a base � a mesma: os n�veis de exig�ncia s�o um pouquinho superiores mas ainda assim os professores de hoje em dia foram amputados dos mais b�sicos meios de contolo e exig�ncia, como por exemplo os trabalhos de casa, que muitos alunos, simplesmente abst�m-se de fazer. Os liceus s�o hoje em dia uma salganhada, uma mistura de escola para os alunos que pretendem ir para universidade e de jardim-escola para uma grande percentagem de desorientados que n�o sabe bem o que h�-de fazer da vida, mas que por l� vai passando o tempo at� se decidir.

E chegando ao ensino superior? Bem de tanta liberdade h� alunos que se d�o ao luxo de chumbar todas as cadeiras do primeiro semestre. H� elevad�ssimas percentagens de reprova��es nos primeiros anos e tamb�m de alunos que nesses dois primeiro anos mudam de curso, universidade, ou que abandonam mesmo a vida de estudante.

Estes s�o apenas alguns dos problemas que afectam a educa��o nacional, a n�vel do percurso acad�mico e forma��o dos alunos. Concerteza haver� quem diga que tamb�m os encontramos no conte�do da informa��o fornecida aos estudantes, bem como nas sa�das profissionais, no acesso ao ensino superior e at� mesmo nas infra-estruturas. N�o digo que n�o, mas em minha opini�o grande parte do problema da educa��o nacional poderia ser resolvido solucionando os problemas cujas manifesta��es acima descrevi. Para tal apresento algumas solu��es, que, a meu ver, contribuiriam muito, caso fossem aplicadas.
Em primeiro lugar � absolutamente necess�rio exigir. Ningu�m trabalha se n�o se exigir, se n�o existirem patamares de qualidade e de obrigatoriedade. Exija-se e premeie-se os trabalhadores. Crie-se n�o s� uma cultura de trabalho e produ��o como de louvor e exalta��o desse mesmo trabalho. N�o se pode permitir o desleixo nem o eterno desafogo, que permitem aos alunos, mesmo n�o trabalhando, continuarem a progredir no seu percurso escolar. Notas negativas existem e s�o para se dar quando merecidas, assim como as notas elevadas, se os alunos o merecerem.

A cultura da mediocridade n�o pode continuar e portanto n�o se pode nivelar por baixo. Advogo a separa��o entre maus e bons alunos. N�o por descrimina��o mas pelo facto de que, em turmas mistas, ou se acompanha o ritmo dos bons alunos, o que torna ainda mais dif�cil a aprendizagem dos alunos mais fracos, ou se procede conforme as capacidades dos mais fracos, o que pode provocar o desinteresse dos bons alunos e um subaproveitamento das suas capacidades. Assim ningu�m aproveita. A meu ver, seria portanto favor�vel criar-se turmas adequadas ao n�vel de cada grupo de alunos.

A escolaridade obrigat�ria �, sem d�vida, uma conquista preciosa e necess�ria a toda a popula��o. Mas escolaridade obrigat�ria n�o � sin�nimo de infant�rio ad aeternum, ou de dep�sito de crian�as e muito menos de parque de divers�es. Sai muito caro ao estado manter um aluno quer no ensino b�sico, secund�rio ou superior e portanto n�o se deve permitir o aut�ntico estado de s�tio em que muitas institui��es vivem. Os alunos reprovam uma vez, duas vezes, tr�s vezes, at� quatro... e continuam a poder estudar como todos os outros. Tal n�o deveria acontecer: s�o permitidas um n�mero limitado de reprova��es e partir de ent�o, caso voltasse a chumbar o aluno deveria ser obrigado a financiar a sua pr�pria educa��o. Aconteceria uma de duas coisas: ou abandonavam a escola, - o que nunca � agrad�vel - ou acabaria o regabofe. Nos dias que correm ao permitir-se que os alunos reprovem como reprovam, permite-se que se roube ao Estado, que se roube aos pais e educadores que t�m de sustentar mais tempo os seus filhos em casa e permite-se ainda que as escolas e universidades sejam povoadas por ociosos que t�m exactamente os mesmos direitos que os trabalhadores.

� necess�rio compreender-se e fazer-se compreender que para se alcan�ar o sucesso n�o � obrigat�rio passar-se pela universidade, nem que seja s� pelo simples facto de que h� pessoas que n�o foram feitas para estudar. E para tal � tamb�m preciso criar alternativas dignas e de qualidade que permitam o acesso � via profissional e tamb�m o colocamento na vida activa do pa�s. Um pa�s s� de doutores � um pa�s que n�o sabe reparar canos furados, n�o tem pessoas capazes de construir casas, nem m�veis e que n�o cultiva os seus campos. E a educa��o tamb�m passa por apoiar e patrocionar (e isto n�o significa apenas dar subs�dios) jovens artistas, m�sicos, pintores, escultores, escritores e tantos outros necess�rios a uma boa sa�de cultural do pa�s.

Quem faz um pa�s s�o os seus habitantes. E um bom pa�s precisa em primeiro lugar de cidad�os e depois de cidad�os educados, cultos e bem formados. Isso n�o significa que todos necessitem de ir � universidade, nem que passem anos infind�veis sentados em carteiras de escola. Significa apenas e s� que lhes seja dado o direito de receberem uma forma��o �til, de qualidade e adequada �s necessidades futuras, sendo-lhes exigido um esfor�o, dedica��o e trabalho necess�rio � produ��o de um processo de aprendizagem de qualidade e exigente.

N�o podemos continuar a formar indiv�duos med�ocres, nem a enganar tudo e todos sob o bom nome da nobre ac��o de educar."


Francisco Delgado

 


PERCA

O Terras do Nunca lembra-me que no �EARLY MORNING BLOGS 22, onde est� a palavra perca seria prefer�vel estar perda. O primeiro termo � uma vers�o popular, mas a verdade � que, enquanto substantivo, corresponde a uma esp�cie de peixe.� Neste caso n�o era nem erro, nem gralha, era volunt�rio (no entanto, fiz a substitui��o pedida).

� daquelas palavras a que uma pessoa, uma escrita, se agarra h� tanto tempo que n�o sabe dizer certas coisas sem elas. Fa�o esta nota porque me permite recordar uma amiga que j� morreu, M.J.A., e que tamb�m nos idos da ditadura me lembrou que n�o se usava �perca�. Num texto qualquer clandestino , eu com o nome de �Rui� ou �Carlos� j� n�o me lembro, usei a palavra �perca� e M.J.A. que se chamava ent�o �Sa�l�. lembrou , em devida comunica��o ao �organismo superior� (que era eu) , que o uso dessa palavra poderia identificar o �camarada Rui��
� por isso que eu resisto em perder a perca.
 


F�SICA E MATEM�TICA � COMENT�RIOS (Actualizado)

"Algumas considera��es r�pidas sobre a quest�o do ensino da f�sica e da matem�tica:

1. O objectivo do ensino n�o deve ser preparar os alunos para um exame, mas ministrar os preceitos da ci�ncia em estudo. S� assim se cria o esp�rito cr�to t�o importante para o desenvolvimento intelectual e para o avan�o da pr�pria ci�ncia.

2. Os exames n�o t�m nem devem reflectir a qualidade do ensino. Um exame deve ser um seleccionador, ou seja, permitir distinguir os melhores, os que t�m maior aptid�o, os que consegu�m ir al�m da norma. S� assim se pode incentivar a meritocracia e a competi��o. Caso contr�rio, e considerando a pouca qualidade no ensino nacional, acabaremos por ter uma massa uniforme de alunos em que todos aparentam ter compet�ncias equivalentes.

3. O ensino nacional � de facto muito mau e est� completamente ultrapassado. O estudo de ci�ncias naturais ainda continua a ser feito � custa de tediosos manuais quando deveria recorrer cada vez mais � experimenta��o, ao trabalho de campo e � investiga��o. A f�sica � a ci�ncia que interpreta as leis da Natureza. Logo, o seu estudo deveria iniciar-se na experimenta��o, s� depois passando para a matem�tica. E a qu�mica? E a biologia?

Enfim... Pode ser que um dia algu�m fa�a uma reforma do ensino. At� l�, teremos que viver com remendos!"
(Olindo Iglesias)


Acerca das m�s notas nos exames de matem�tica, eu tenho uma teoria (baseada na minha experiencia de h� 11 anos atr�s, logo j� deve estar desactualizada):

Durante o secund�rio, os alunos fazem o teste, e depois o professor olha para o teste: se est� tudo bem, o aluno tem a cota��o toda; se est� quase tudo bem, mas, a dada altura, o aluno trocou um "+" por um "-", tem parte da cota��o; se o metodo de resolu��o de exercicio est� mal de partida, o aluno tem "0" (nessa quest�o).

N�o sei como � actualmente, mas h� 11 anos, os exames eram por escolha m�ltipla, o que faz com que qualquer erro anule a quest�o, j� que o aluno vai por a resposta no quadradinho errado. Inclusivamente, "trocas de sinais" acabam por ser mais penalizadas do que a ignorancia pura e simples, j� que, quem n�o sabe, pura e simplesmente, n�o responde, tendo "0" nessa quest�o; quem comete um engano, muitas vezes acaba por
responder no quadradinho errado (at� porque as "respostas alternativas" s�o feitas j� a pensar nos erros mais prov�veis), e logo, n�o s� n�o tem cota��o, como at� vai descontar nas outras respostas.

Talvez seja essa a raz�o pelo qual alunos que foram sendo aprovados no Secund�rio "afundam-se" nos exames (mas n�o me pergunte qual dos dois sistemas � o melhor que eu n�o fa�o ideia)
.� (Miguel Madeira)


Como professor que sou, embora de hist�ria, tenho por h�bito reflectir e tentar analisar o estado do ensino em Portugal.
Como se deve depreender, muito h� para reflectir e analisar. Em rela��o ao seu coment�rio sobre as causas desta situa��o, considero que as duas que aponta s�o verdadeiras.
Por um lado, o ensino da F�sica e da Matem�tica n�o prepara os alunos para os exames. Por outro, os exames e respectivos de crit�rios de avalia��o n�o t�m em conta as condi��es reais de ensino.
Este problema pertence a v�rios intervenientes, e n�o podemos dele retirar os alunos. Basta ver que h� muitos bons alunos, com �ptimos resultados. S� que estas disciplinas n�o se compadecem com a falta de disciplina e de m�todos de trabalho rigorosos e exigentes. Ora, por mais que os professores queiram, por mais qualidade que tenham, n�o conseguem motivar todos os seus alunos a trabalhar o necess�rio para atingirem os objectivos por todos pretendidos, os bons resultados.
Se � verdade que um professor tem que se esfor�ar ao m�ximo para que o maior n�mero poss�vel dos seus alunos atinja bons resultados, tamb�m � verdade que � praticamente imposs�vel que todos o consigam.
Onde est� a fronteira do poss�vel? Se a maioria dos alunos tem resultados positivos o professor pode dar-se por satisfeito? N�o.
Um professor nunca est� satisfeito com os resultados que os seus alunos conseguem obter. Mas o que � certo � que os resultados que eles conseguem obter tamb�m n�o dependem apenas dele.
Dependem ent�o de qu�? De m�ltiplos factores como o professor actual, os professores anteriores, o esfor�o dos alunos, a ades�o e motiva��o dos alunos ao ritmo de trabalho imposto, dos programas, dos crit�rios de avalia��o, enfim, de uma quantidade enorme de factores a que n�o podemos subtrair as condi��es familiares, financeiras, emocionais, e outras. Nenhum destes factores � determinante, mas h� uns mais determinantes que outros.
Na realidade, tudo gira, em �ltima an�lise, � volta do professor e do aluno. Porqu� ent�o subtrair o aluno como factor importante a ter em conta?

Por todos estes factores, e por n�o me querer alongar mais, considero que isentar os alunos das suas responsabilidades n�o � uma boa resposta
.� (Fernando Reis)


Jos� Carlos Santos chama a aten��o para esta mensagem que surgiu no newsgroup pt.ciencia.geral:

Assunto: Sobre o ensino da ci�ncia

Sou um aluno do ensino secund�rio e estou agora a preparar-me para os exames nacionais de f�sica e matem�tica (da segunda chamada). S�o duas disciplinas dif�ceis, � verdade mas tamb�m tenho consci�ncia que este ultima ano, o meu empenho foi m�nimo. E h� v�rias raz�es para isso.

Sempre tive um certo interesse por astronomia, magnetismo, electricidade quando isso era dado nas aulas ate ao 9�, i. e. eu gostava de f�sica, lia livros de divulga��o cientifica de qualquer da �rea. Arrastei me ao longo de 2 anos de f�sico-qu�mica do secund�rio. Apenas se davam for�as e movimentos mas l� ia fazendo a disciplina. Chegado ao 12� ano, estava ansioso, a mat�ria mais abrangente toda a disciplina um pouco mais desafiadora, julgava que ia ser interessante.

Estava enganado. Ao longo do 12� ano n�o tive uma �nica aula de f�sica! O que eu tive seria mais correctamente chamado de aulas de prepara��o para o exame de f�sica do 12� ano. Da primeira � ultima aula, com tend�ncia a aumentar a medida que nos aproxim�vamos do fim do ano, s� se falava no exame. Em vez de nos ensinar f�sica, explicaram nos como resolver "este tipo de exerc�cios de f�sica, pois s�o t�picos de exame!". A prof. l� alto do manual, prop�e uns exerc�cios que acaba por resolver, os alunos entram no esquema e sabem com que formulas jogar para obter o resultado, e pronto. Hordas de colegas meus, chegam ao extremo de decorar, i. e., p�r na cabula, todas as formulas de todos os exerc�cios que j� resolvemos na aula. Chegam ao teste e passam. E provavelmente repetem a proeza no exame. Isto faz me lembrar a ci�ncia do culto da carga de que Feynman descreveu. As pessoas sabem resolver os problemas com recurso �s formulas sem fazerem a m�nima ideia do que se esta a passar. Sabem as formulas de cor mas n�o sabem interpretar as formulas para explicar alguma coisa a luz daquilo que sabem. As pessoas SABEM mas n�o COMPREENDEM.

Dizem nos que h� disciplinas das quais nunca mais nos vamos servir para o resto das nossas vidas, mas que servem para desenvolver o racioc�nio. Mas, da maneira como supostamente se ensina a F�sica garantidamente n�o aprendemos a pensar, antes pelo contrario, ensinam nos a aceitar passivamente o que os profs. nos apresentam sem questionar sem perceber, afinal o que importa s�o os teste e um bom exame.

Quase tudo o que disse se aplica a matem�tica do 12�. As coisas caiem do c�u e n�s temos que as absorver para o grande exame.
-Para resolver este problema, que � t�pico de exame, usam este truque assim, assim...
-Mas st�r, qual � raz�o de isso funcionar?
-Ah isso n�o interessa, funciona e acabou-se.
De uma maneira geral a mat�ria ca� do c�u desconexa do resto da mat�ria.
-N�mero de Nepper serve para... para... t�m muitas aplica��es, n�o importa quais!

� assim que os professores respondem a muitas perguntas feitas por sincera curiosidade. Curiosidade essa que � frustrada, por que n�o contribui para fazer um bom exame. Como � que um sistema educacional assim quer cultivar o interesse pela ci�ncia? N�o � um paradoxo gastar dinheiro em projectos que aproximam os jovens da ci�ncia quando na escola esse interesse � sistematicamente destru�do?

Conforme se deduz do primeiro par�grafo o ano correu me mal. N�o estou a culpar outros por aquilo que s� eu sou respons�vel, estou a apontar um problema que penso ser grave. Numa sociedade onde um m�nimo de esp�rito critico � necess�rio para nos protegermos de aparelhos que supostamente curam recorrendo a feixes de neutrinos e outras tretas, � triste ver em que estado esta o ensino da ci�ncia que supostamente nos ensina a pensar. Corrijam-me se estou enganado
.� (David Asfaha)

 


F�SICA E MATEM�TICA

O problema das notas de F�sica e Matem�tica dos exames do 12� ano revela uma defici�ncia estrutural grav�ssima do sistema educativo portugu�s. S�o mat�rias em que n�o tenho qualquer capacidade de avalia��o pr�pria sobre os programas, mas em que entra pelos olhos dentro de qualquer amador que h� algo de muito errado. Acresce que F�sica e Matem�tica s�o disciplinas estrat�gicas para qualquer sistema de ensino que pretenda um m�nimo de qualifica��o e para a moderniza��o do pa�s. Sem elas todo o edif�cio da educa��o cient�fica cai.

O sistema educacional p�blico presta um servi�o fornecendo aulas de F�sica e Matem�tica aos alunos do ensino secund�rio. Depois o mesmo sistema avalia-os e chega � conclus�o que os seus resultados est�o estatisticamente abaixo dos crit�rios m�nimos. Segundo o P�blico, a m�dia em F�sica na 1� chamada � de 8,1 valores e 7 na segunda, e, em Matem�tica, respectivamente 9,3 e 7,4.

Uma de duas coisas est� errada, ou as duas. Ou o ensino de F�sica e Matem�tica � ineficaz para preparar os alunos para o exame, ou os crit�rios de avalia��o n�o correspondem � qualidade do ensino, mas a uma ideia abstracta de como ele deveria ser. Este � um dos casos em que claramente toda a responsabilidade est� a montante dos estudantes que s�o as suas v�timas.
 


EARLY MORNING BLOGS 22

M�rio Filipe Pires do Retorta escreveu-me sobre as horas de actualiza��o dos blogues nocturnos:

Acerca da entrada que fez com a imagem dos anjos, queria dizer-lhe que as apar�ncias podem iludir.
Embora pense que a maioria dos sistemas n�o o permite, no meu caso o Typepad permite definir a data de publica��o de uma entrada, quer no futuro, quer no passado.
No meu weblog visual Lumen, deixo as entradas programadas para serem publicadas por volta da uma e um quarto da manh�, quando eu j� estiver fora do computador.
� esse sistema que me vai permitir deixar entradas definidas quando for para f�rias. No meu weblog principal n�o conto fazer isso, mas tanto no Est�tica-metrica como no Lumen assim farei.�


Esta e outras quest�es sobre a manipula��o do real no virtual t�m uma dimens�o crescente pela cada vez maior import�ncia do mundo virtual, e pela maior efic�cia das ferramentas de manipula��o do real. Horas, lugares, fotografias, textos, identidades, autorias, personae, tudo pode ser manipulado no mundo virtual para parecer o que n�o �. Mas ser� que j� era aquilo que parecia? E como � que o nosso desejo se liga, �se linka� entre o real e o virtual? S� com perda? Talvez com ganho? Onde, em cada linha electr�nica, feita do �azul el�ctrico� de que falam os Reflexos est� escondida a �Hot babe� da Carta Roubada?

Exactamente porque esta fronteira ficcional � cada vez mais d�bil e entra cada vez mais para dentro do mundo dos �tomos, � que no mundo virtual se vai poder �escrever� (�ver�,�viver�) as mais absolutas das fic��es. A arte do futuro vai viver ali, naquelas dimens�es imateriais tornadas carne vis�vel pela fragilidade dos nossos sentidos. Para a arte n�o � novidade, para o homem que vive entre os signos tamb�m n�o, mas para as massas � a nova forma da Catedral. Raz�o tinha o sr. Naphta na Montanha M�gica � o mundo vai ser colectivo para os pobres, individual para os ricos. Cada vez mais.
 


ESTADO DO ABRUPTO (JULHO 2003)

Como todos podem ver o �ltimo contador, o mais recente mas o mais p�blico, passou ontem os 100000. De facto, o n�mero de �pageviews� desde 6 de Maio , ou seja h� tr�s meses, � bastante superior aproximando-se das 130000 ( pelo Bstats, o contador com a s�rie mais longa).

No dia 2 de Julho atingiu 3700, o maior n�mero de leituras registado. A m�dia actual de �pageviews� di�ria � de mais de 2200 ( mais de 100 do que no m�s passado) notando-se um decr�scimo de m�dias desde valores � volta de 2500, na primeira quinzena, � medida que o m�s de Julho entra na segunda quinzena. Tanto pode ser um efeito de f�rias, como uma perda de interesse dos leitores. Ver-se-�.

Nos outros elementos estat�sticos � distribui��o dos leitores no mundo por fusos hor�rios, dias, horas de maior aflu�ncia, e origem dos visitantes - n�o h� grandes variantes em rela��o a Junho.

As �ac��es� no Blogshares conheceram uma subida acentuada, seguida de um queda, seguida de uma outra subida vertiginosa (atingiram 432 d�lares) para depois ca�rem de novo, abruptamente, para 124 o valor actual. Parece haver alguma especula��o bolsista � volta do Abrupto.

Talvez a mudan�a mais significativa entre os dois meses seja a do n�mero de blogues e de refer�ncias que se ligam ao Abrupto : segundo o Technorati h� hoje 356 �inbound Blogs� e 492 �inbound Links� no blogosfera.

Estes n�meros revelam que o Abrupto tem neste momento uma dimens�o compar�vel a um pequeno �rg�o de comunica��o, com um n�mero regular e est�vel de leitores di�rios, muitos dos quais s�o exteriores � blogosfera. � uma compara��o que n�o recuso, embora esteja longe de esgotar para mim o sentido do Abrupto.

� Jos� Pacheco Pereira
In�cio
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