ABRUPTO

31.7.03
 


LUZES DO NORTE


 


PEDIDO DE AJUDA RESPONDIDO, PROBLEMA RESOLVIDO

Muito obrigada a Carlos F., Carlos Campos, Blog Notas, Jo�o Miranda, Paulo Carmo, Jiminy Cricket, Smaug, Nuno Mendon�a, Jos� Carlos Santos e ao Hipatia pela resposta ao meu pedido de ajuda que me permitiu resolver o problema e abriu caminho a outras melhorias gr�ficas.

30.7.03
 


UMA QUEST�O TABU DO JORNALISMO E DA POL�TICA

Um jornalista que tem fontes altamente colocadas na vida pol�tica, que lhe fornecem informa��es confidenciais que implicam quebra de segredo ou lealdade ou com o governo ou com o partido de que fazem parte, acaba por ter um ascendente sobre essas fontes. Por muito que exista uma troca de favores entre o pol�tico que assim fornece informa��es com intencionalidade (contra os seu advers�rios pol�ticos, contra quem lhe faz sombra na carreira) e o jornalista que v� o seu jornal aumentar as tiragens pelos �esc�ndalos� que publica e a pr�pria carreira de jornalista subir de cota��o , a verdade � que dada a natureza das suas fun��es e a distin��o entre a penaliza��o social dos dois comportamentos, � o jornalista que �manda�.

O que � que acontece quando o jornalista inicia uma carreira pol�tica e vai ter que partilhar o mesmo mundo com os pol�ticos que o informavam? Como � que ele pode iludir que sabe, no mesmo gabinete, no mesmo partido, quem informa os jornais? Como � que as �fontes�, que sabem que ele sabe que foram eles que denunciaram X, ou forneceram o documento que incriminou Y, o tratam? Podem ter liberdade para criticar o homem a quem passavam informa��es? Podem deixar de sentir uma potencial chantagem sobre eles? Mesmo na melhor das hip�teses � uma rela��o particularmente doentia e amb�gua.

 


AGRADECIMENTO E PEDIDO DE AJUDA

Como � que controlo a largura da p�gina do blogue , de modo a que os seus leitores n�o tenham que estar a deslocar o cursor para ver a parte de uma linha de texto que sai do ecr�?
Isto deve ser do ABC do HTML, mas queria resolver o problema com urg�ncia e n�o tenho muito tempo para o estudar como devia.
Obrigado antecipado.

Aproveito tamb�m esta oportunidade para agradecer a todos os leitores do Abrupto que me t�m corrigido os erros de ortografia, as gralhas, e outros lapsos do texto, com uma dedica��o e uma gentileza inexced�veis. Se n�o fossem eles a minha vergonha p�blica seria maior do que o que j� �.
 


DE NOVO SOBRE O RENDIMENTO M�NIMO GARANTIDO

A nota que publiquei ontem sobre o RMG suscitou muito correio e muitos coment�rios em v�rios blogues. Tratava-se de uma nota que fiz a partir de uma realidade que conhe�o directamente, com um inevit�vel elemento �impressionista�, mas que n�o tenho nenhuma raz�o para pensar que n�o seja significativa. Apesar de circunscrita a uma parte da composi��o social da popula��o abrangida, (admito que em Set�bal, por exemplo, haja realidades distintas que tenham que ser descritas doutro modo) , nem por isso deixa de existir e ter peso na avalia��o do RMG.

Por isso, mantenho-me firme na afirma��o da relev�ncia dos casos que referi. Os exemplos que dei e que conhe�o bem est�o longe de parecer excepcionais. Nem as pessoas, nem a terra, nem o contexto, t�m qualquer excepcionalidade para eu poder concluir que o mesmo n�o aconte�a em outras comunidades semelhantes. No fundo, � tudo t�o normal, e esse � que � o problema.

Nunca utilizei a palavra �fraude�, porque acho que descrever estes efeitos do RMG est� longe de poder ser assim classificado. As pessoas que se comportam como descrevi s�o condicionadas a faz�-lo n�o porque queiram enganar o estado, mas por que a l�gica do RMG as empurra a actuar assim, lhes �sugere� que actuem assim. Um sistema de subs�dios gera como efeito a adapta��o criativa dos putativos recipientes � l�gica desses subs�dios, tentando maximizar o que se recebe e minimizar o esfor�o. � uma estrat�gia de adapta��o inevit�vel.

Aqueles que v�em o RMG de um ponto de vista ideol�gico de �esquerda� � que acham que a esmagadora maioria o usa �correctamente� e s� uma pequena minoria desviante � que comete �fraudes�. Ora esta distin��o n�o tem sentido, dado que os comportamentos que descrevi s�o os comportamentos racionais, induzidos pelo sistema de subs�dios, e n�o uma pervers�o do RMG. O mal n�o est� nas pessoas, mas nas oportunidades que se lhes d� para se adaptarem a um limiar de apatia, que reproduz eficazmente a mesma exclus�o que se pretende combater.

O que se passa, e isso � patente em muitas das cr�ticas que vi sobre o meu texto, � que se fala do RMG a partir das suas boas inten��es � dar um �m�nimo� a todos de sobreviv�ncia, de dignidade � e n�o a partir da realidade econ�mica e social que a exist�ncia de um �rendimento garantido� gera. A isto soma-se a permanente oculta��o da conflitualidade social que o RMG gera �em baixo�, o que tamb�m tem raz�es ideol�gicas � que haja �pobres� contra os �ricos� , muito bem, que haja �pobres� contra �pobres� n�o � aceit�vel.

Nota: estou a preparar uma s�ntese das opini�es recebidas pelo correio.
 


EARLY MORNING BLOGS 21

Detalhe de um quadro de Stefan Lochner que est� na Alte Pinakothek de Munique

N�o, a pintura n�o est� aqui por engano. S�o mesmo os anjos a cantar � � m�sica o papel que t�m nas m�os � numa nuvem de madeira qualquer do para�so ou do topo de uma igreja. A voz dos anjos chega certamente a Deus e, como � m�sica que cantam, s� pode ser tamb�m para os homens porque a m�sica � uma d�diva.

N�o, a pintura n�o est� aqui por engano. Olhando para a lista nocturna das vozes electr�nicas que �s duas, tr�s, quatro, cinco, seis horas da noite se erguem do sil�ncio das casas, onde tudo dorme menos um, vozes am�veis ou zangadas, com esperan�a ou sem esperan�a, desejei-lhes uma qualquer virtual similitude com este coro, de uma inoc�ncia que j� n�o conseguimos ter.
N�o havia blogues se houvesse inoc�ncia, n�o �?


29.7.03
 


OBJECTOS EM EXTIN��O 18

A Ana escreve que �procuramos os objectos em extin��o � procura do tempo perdido..� Seguem-se mais alguns resultados dessa �procura�, enviados pelos leitores do Abrupto:

Uma imagem portuense, o Preto da Casa Africana, lembrado pelo Artur Carvalho:

Lembra-se de descer a Rua Passos Manuel e quase l� no fundo erguer a cabe�a para um piscar de olhos ao Preto da Casa Africana? Lembra-se dele, pintado l� no alto das traseiras do pr�dio onde est� instalada a loja? Pois saiba que a pr�xima vez que l� passar dar� pela falta dele. Pintaram a casa e pintaram o Preto.E apagaram assim uma imagem que j� fazia parte da hist�ria da Baixa. Algum esteta esclarecido deve ter achado, provavelmente com raz�o, que o edif�cio precisava de trincha e....z�s! foi tudo a eito, Preto inclu�do.
� mais um sinal da suburbanidade que assalta a Baixa do Porto, vai tudo na varridela da ditadura ZARA e afins. Apaga-se a mem�ria, e uma certa cidade n�o h�-de demorar a torna-se num "objecto" de saudade. Em desuso j� ela est� h� muito
.�

Outro portuense, o Paulo Pereira, lembra �O fiscal dos "troleis" que picava as senhas(aquilo fazia um barulho engra�ado), e ia eu, no 9 ou 29 para o marqu�s e para o bolh�o.

Da cidade para o campo, a Isabel do Monologo lembra �sem ser um "objecto", est� em extin��o por ter perdido a fun��o social que desempenhava: o burro dom�stico. J� n�o vai pertencer � "paisagem rural" do mundo meus filhos. Tenho pena.�

O Miguel Leal envia uma mem�ria dos �testemunhos recolhidos das vozes e dos rostos de Arlindo , Maria e Manuela Rosa , habitantes da Cabanas de Torres -Alenquer.

A planta do milho � um objecto em extin��o do ponto de vista do seu aproveitamento integral .Em tempos de pen�ria no vale da Serra de Montejunto, o fim do ciclo do milho denominava-se o TEMPO DA EIRA .Longe de se resumir � desfolhada ou descamisamento , esta actividade desenrolava-se em registos variados �parte a dimens�o do trabalho e subsist�ncia .Nele participavam todos os elementos da comunidade , com fun��es diferenciadas de acordo com g�nero e escal�o et�rio .
A ma�aroca do milho � envolvida por umas folhas que se chamam capelos .Depois da secagem nas eiras , onde eram dispostas em c�rculos concentricos ou espiralados , as ma�arocas eram "descamisadas", nome localmente atribu�do ao processo de separar os capelos da ma�aroca . Estes tinham v�rias camadas diferentemente aproveitadas conforme a sua textura . A camada externa , grosseira , servia como ra��o para os animais.A camada interm�dia , mais fina , destinava-se depois de "escarapelada" , a encher colch�es de pano onde as pessoas dormiam . Estes colch�es tinham uma abertura central unida por tr�s fitas , que era aberta todas as manh�s para comp�r e alisar a camada de capelos revoltos por ac��o dos corpos na noite de descanso. A camada interior , fr�gil , aproveitava �queles cujas posses eram insuficientes para o tabaco , servindo como mortalhas depois de desfiadas. O conte�do da mortalha era resultante do aproveitamento da "barba do milho" que sai do topo das ma�arocas maduras.Este expediente dos viciados era imitado como actividade l�dica pelas crian�as que colaboravam no "descamisamento ".� barba do milho eram tamb�m atribu�das propriedades curativas , pelo que servia para fazer ch� "para a bexiga".O milho era ent�o malhado pelos homens no sentido de o separar da camada a que estavam unidos chamada o carolo . A malhagem n�o era suficiente e as mulheres jovens "escarolavam" , isto � , retiravam manualmente o milho que restava nos carolos . Num registo inici�tico e conforme a cor do milho que lhes competia escarolar, assim teriam de beliscar ou beijar um rapaz � escolha do grupo . Ficava ent�o o carolo que era igualmente aproveitado de duas maneiras : ou como combust�vel para aquecer os fog�es ou , numa alquimia fumegante , juntamente com �gua e vinagre , transformado em pasta de sapateiro , fundamental para a ader�ncia da sola ao cabedal.O p� do milho n�o era desaproveitado e juntava-se �s camadas exteriores dos capelos como feixes para os animais.Aos jovens casadoiros , sedentos de aventura e afirma��o cabia a guarda da eira durante a noite. Construiam palhotas com vime e a� permaneciam o tempo que necess�rio fosse.
S�o mem�rias de um tempo em que o oposto do desperd�cio era sin�nimo de engenho , esp�rito inventivo e conv�vio solid�rio
.�

Francisco Delgado lembra a "licen�a de porte de isqueiro�, de que envia uma reprodu��o (ser� colocada no blogue que em Setembro se far� s� para os objectos) chamando a aten��o para �as regras de utiliza��o, autua��o e, sobretudo, dela��o �. Acrescento eu: quando queria explicar a um estrangeiro como era viver no Portugal de Salazar, a licen�a de isqueiro era o meu exemplo de espantar.

O nosso m�dicopara comemorar a recente fa�anha do Bloco de Esquerda que conseguiu institucionalizar a magia e o esoterismo (t�o na moda!)� envia �uma lista de pequenos objectos m�dicos j� extintos ou em vias de extin��o�:

"1) tr�s tipos de ventosas de vidro (extintas);
2) uma caixa de alum�nio porta agulhas (extinta);
3) uma seringa de vidro (extinta);
4) um term�metro de merc�rio (em vias de extin��o) e o respectivo utens�lio para repor abaixo de 37� (extinto);
5) uma "garrafa" de soro em vidro de soro fisiol�gico (substitu�do por pl�stico);
6) uma ampola de clorof�rmio e o seu inv�lucro em papel�o (em desuso);
7) frascos de vidro para transporte de urina e sangue com rolhas de corti�a (substitu�do por pl�stico e tubos de ensaio especiais);
8) caixa de alum�nio com uma ligadura engessada (inv�lucro extinto)�


(Manda tamb�m uma foto que acompanhar� estes objectos no blogue que em Setembro se far� s� para esta s�rie.)


No Blogal h� tamb�m uma lista suplementar de objectos em extin��o.
 


PARA A HIST�RIA DA FOTOGRAFIA EM PORTUGAL

Veja-se um excerto do trabalho de J. M. Leal da Silva sobre as fotografias da greve de 1943 nos Estudos sobre Comunismo. O autor, num trabalho dedicado de "detective fotogr�fico", identifica pela primeira vez com correc��o o local onde foi tirada uma rar�ssima fotografia de um conflito social no Portugal da ditadura. O fotografo que a tirou � desconhecido, mas a fotografia � um retrato �nico dos tempos da repress�o.

 


NA PROVEN�A

 


RENDIMENTO M�NIMO GARANTIDO

O Rendimento M�nimo Garantido (RMG) foi (�, mesmo revisto) uma das maiores pragas sociais que o governo PS deixou e que o governo PSD-PP n�o alterou como devia e n�o p�de alterar como queria, dado o modo como funcionam os mecanismos dos �direito adquiridos� para manter o stato quo. O RMG tinha este efeito de n�o retorno, de deixar um rastro de efeitos que muito dificilmente podiam ser corrigidos pela natureza de facto consumado que estas leis t�m.

O RMG � um mecanismo que agrava as desigualdades sociais, favorece a exclus�o, consolidando-a, e gera um clima de conflitualidade social, ou seja, tudo ao contr�rio do que as boas inten��es ret�ricas dos seus autores. Visto �por baixo� , numa pequena aldeia deprimida, sem actividade econ�mica, o RMG tra�ou um risco de separa��o entre os pobres, separando os mais �espertos� e que n�o trabalham e vivem do subs�dio, dos que, t�o ou mais pobres, procuram ter um emprego e se v�m com muito mais dificuldades e com uma vida mais pesada, por terem optado pela via de n�o viverem do RMG.

O �dio social, as trocas de insultos, as aprecia��es pejorativas, a hostilidade entre pessoas que t�m a mesma condi��o e que se dividem entre o grupo do subs�dio e o grupo do trabalho (ou � procura do trabalho), � muito n�tida, mas n�o chega aos gabinetes. O primeiro grupo � mais numeroso e organiza a sua vida de modo a maximizar o subs�dio, o �rendimento�. Uma estrat�gia comum � a constitui��o de fam�lias que em condi��es normais teriam como base o casamento, mas que s�o uni�es de facto para que as jovens m�es tenham o estatuto de �m�es solteiras� e assim possam receber o RMG. � uma estrat�gia comum, deliberada, constru�da numa base familiar est�vel, mulher, �marido�, filhos, apoiada por fam�lias onde muitas vezes j� h� outros recebedores do RMG. Grupos familiares inteiros criam-se assim � volta do RMG , com condi��es sociais que acabam por se tornarem melhores do que as dos que procuram trabalho , mesmo prec�rio. Numa pequena aldeia isto divide muito, mesmo muito.


 


EARLY MORNING BLOGS 20

Dizia-se de Kant que era t�o regular no seu passeio Koenisberguiano que os burgueses da cidade acertavam o rel�gio por ele. Parece que s� se atrasou no dia em que recebeu as Confiss�es (ou o Em�lio?) de Rousseau.

O meu rel�gio na blogosfera � o Almocreve das Petas, regular como um rel�gio, o verdadeiro �early morning blog�, que chega com a sua carga de livros e outras antigualhas, v�veres do esp�rito, dinamite cerebral, como diziam os anarquistas, alta madrugada quando j� raia a bela aurora. Altura para fechar a loja das palavras e ir dormir.


28.7.03
 


LUGARES DA DECAD�NCIA: ALEXANDRIA TROAS (TURQUIA)

Entre Assos e Tr�ia, fica Alexandria Troas, um desses s�tios que nunca se esquecem. Alexandria Troas n�o existe, existiu.
Alexandria Troas, uma das �Alexandrias�, foi um importante porto de mar, e vem citada na B�blia cinco vezes. As suas ru�nas est�o perdidas no meio de um campo, tendo sido apenas muito parcialmente escavadas. Esta parte da Anat�lia n�o tem turistas, que ficam das est�ncias � volta de Izmir para baixo, at� Antalya. As ru�nas est�o longe de tudo, menos de umas aldeias de pescadores junto ao mar, bastante mais abaixo.

Paulo esteve aqui, junto com outros ap�stolos, e fez milagres. Num deles, numa ironia pouco vulgar nos Actos dos Ap�stolos, ressuscitou um rapaz que se chamava �com sorte� (Eutychos) e que caiu de uma casa abaixo. A B�blia explica porque � que ele caiu:

"7 (�) Paulo, que havia de partir no dia seguinte, falava com eles; e prolongou a pr�tica at� � meia-noite.
(�)
9 E, estando um certo jovem, por nome �utico, assentado numa janela, caiu do terceiro andar, tomado de um sono profundo que lhe sobreveio durante o extenso discurso de Paulo; e foi levantado morto. "

(Actos dos Ap�stolos, 20).

Em Alexandria Troas, Paulo teve a vis�o que o levou da �sia para a Europa, quando lhe apareceu �um homem da Maced�nia� que lhe pediu:

"9 (�) Passa � Maced�nia, e ajuda-nos.

10 E, logo depois desta vis�o, procuramos partir para a Maced�nia, concluindo que o Senhor nos chamava para lhes anunciarmos o evangelho."

(Actos dos Ap�stolos, 16).

Hoje s� se percebe que existiu Alexandria Troas por um arco e meia d�zia de paredes. Quando a visitei s� se chegava l� por um caminho de terra batida fora da estrada secund�ria que bordeja o Mediterr�neo. Como aconteceu a muitos portos antigos, Alexandria de Troas est� hoje bem dentro de terra, com o mar ao longe. O que impressiona � ver este arco erguer-se no meio de uma vastid�o de erva alta e seca, de urze, das mil e uma flores, arbustos, e �rvores que cobrem os campos da �Gr�cia�, com o cheiro intenso, irreproduz�vel dos lugares mediterr�nicos. H� abelhas e o ru�do das abelhas, mais o vento do mar e o calor que faz crepitar o campo. Est� l� tudo, parece um estereotipo de um poema de Te�crito.

O trabalho do tempo � feito ali de acumula��es vis�veis. O porto foi-se afastando do mar, perdendo as suas fun��es e abandonado. A terra movida pelas chuvas, foi sepultando colunas, casas, muros e deixando apenas ver a parte de cima das constru��es. Com a terra vieram as plantas, e com a morte das plantas, mais h�mus, mais terra. O ch�o em que passamos hoje � o tecto dos alexandrinos. Sentei-me num dos muros, talvez o lintel de uma casa, e n�o pude escapar � sensa��o do �esp�rito de lugar�, do heimatgeist. . O que est� debaixo dos meus p�s? Est�tuas, moedas, cacos, mortos? � natural que tenha havido pilhagens durante todos estes s�culos, mas nem uma multid�o gigantesca pode ter pilhado tudo, nestas terras onde a J�nia est� sepultada.

Como seria Alexandria Troas � noite? Se houver fantasmas � aqui que est�o. O �homem da Maced�nia�, que chamou Paulo � Europa, ainda estar� l�? N�o sei. N�o paguei para ver.

 


TARDE

 


EARLY MORNING BLOGS 19

Mat�rias que n�o entram nos blogues: pobreza, desemprego, levar os filhos � escola �s oito da manh�, cozinhar (sem ser por prazer), trabalhos dom�sticos, trabalho de um modo geral com excep��o de algum trabalho intelectual, doen�as, quase todas as formas de escassez. Lugares que n�o entram: locais de trabalho fora de universidades, escolas, firmas de inform�tica, telecomunica��es, e jornais, nove d�cimos de Portugal e muito mais ainda.

Pelo contr�rio, os caminhos do Magn�lia � FNAC do Chiado, do Lux ao Algarve ou ao Alentejo, est�o t�o trilhados nos Moleskines que at� deixam um sulco como os carros de bois nas pedras antigas.Nesta mat�ria n�o h� distin��es nem pol�ticas, nem ideol�gicas, nem esquerda , nem direita.

N�o � um julgamento de valor, porque tamb�m n�o entram no Abrupto, � uma constata��o, chamemos-lhe assim, social. Para que n�o percamos a nossa (a minha) medida.

 


VER A NOITE

O Marte que est� hoje no c�u nunca o vimos assim e nunca mais o vamos ver assim, a n�o ser que se acredite na metempsicose ou na reencarna��o. Carpe diem.
 


MARGEM SUL

Dia na Margem Sul, assim mesmo, com mai�sculas. Porque n�o � a margem sul do Tejo, mas a Margem Sul da hist�ria social e pol�tica portuguesa, uma combina��o sem paralelo do �nico projecto industrial portugu�s do s�culo XX com dimens�o europeia, de uma cultura oper�ria que n�o existe em mais lado nenhum, de uma popula��o que forjou a sua identidade contra o salazarismo tendo sido primeiro anarquista e sindicalista e depois comunista.

No meio de uma vista de Lisboa de tirar a respira��o, est�o os restos de tudo isto em 300 hectares de terreno, uma vastid�o enorme. Est� um cemit�rio de f�bricas, linhas-f�rreas, oleodutos, cais, barca�as, guindastes, tubagens, dep�sitos, esc�rias, cinzas, sucata, est� um mausol�u (de Alfredo da Silva) que podia estar na RDA ou na Alemanha nazi, est� a casa humilde do patr�o mesmo no meio das f�bricas, est�o os restos dos bairros oper�rios, est� um quartel da GNR. E depois h� os velhos, os homens e, em particular, as mulheres, duros, face cerrada, com muita vida dif�cil atr�s, trabalhadores de profiss�es quase desaparecidas: corticeiros, caldeireiros, oper�rias t�xteis, ensacadores, serralheiros.

Para perceber o seu talhe, experimentem pensar no que � passar horas e horas numa grande sala a encher sacos de adubo, quando muito com uma m�scara rudimentar. Adubo no ar, adubo nas m�os, adubo na boca, adubo no corpo. Ou viver numa terra que tinha uma Rua do �cido Sulf�rico e onde se respirava uma emuls�o que picava nos olhos. Onde se �via� o ar.

Muitos destes homens e mulheres tiveram e t�m ideias terr�veis e, se alguma vez chegassem ao poder, era daqui que viria a �muralha de a�o� e essa �muralha� triturava-nos sem hesita��o. Muitos deles encarnavam o pior daquilo que Simone Weil chamava a �arrog�ncia oper�ria�. Mas hoje, perdida a hist�ria com H grande, atirados para um anacronismo que lhes deve ser cruel, porque � a derrocada da esperan�a da sua vida toda, sobra a hist�ria que eles pr�prios fizeram, e n�o a que desejaram fazer. E essa hist�ria � a do seu sofrimento, da sua coragem e tenacidade em dias em que o exerc�cio destas qualidades se pagava muito caro.


27.7.03
 


 


EARLY MORNING BLOGS 18

Os blogues de ci�ncia �organizam-se�, (contrariando o �hiato da complexidade� da formiga de langton, que espero que volte rapidamente ao �enxame�), no Ci�ncia na blogosfera portuguesa por iniciativa do Follow the White Rabbit. A julgar pelos nomes, entre mochos, coelhinhos e formigas, isto est� animado nos laborat�rios!

Esta noite dever� ser a grande noite marciana. S� que duvido que com os c�us portugueses se veja muita coisa. No Em Expans�o Vertiginosa est�o elementos interessantes para se olhar para Marte com olhos de ver.

Hoje des�o � terra do a�o, do �cido, do adubo. A n�o ser nos Estudos, o meu blogue hard, n�o encontro tra�os daquela parte de Portugal e dos portugueses, que t�o importante foi na nossa hist�ria real e m�tica, nesta atmosfera electr�nica. E , no entanto, parte de todos n�s foi mais feita ali do que na Academia das Ci�ncias. � um mundo p�stumo e hoje vou visitar os mortos.

26.7.03
 


VER A NOITE

Hoje n�o h� noite para ver. Na cidade n�o se v� a noite, nem Marte sequer. S� avi�es.
 


CR�TICAS QUE ME LEVAM A PENSAR DUAS VEZES

� uma nova s�rie no Abrupto que regista aquelas cr�ticas que me levam a questionar: �ser� que � assim, ser� que ele tem raz�o?�. Posso at� achar que n�o, mas tenho que pensar duas vezes e, �s vezes, acho que sim. Para n�o poluir as cr�ticas na sua fonte ser�o sempre reproduzidas sem coment�rio.

Ver no Mata-Mouros � A prova na pol�tica e no direito (JPP e a Justi�a)�

e numa carta de Rui Queir�s:

Porque � que antes de come�ar a ler o seu Coment�rio ao caso Berlusconi eu j� sabia que o senhor o ia defender!? � isto que me mete impress�o! N�o me leve a mal, mas caso o Sr.Berlusconi fosse de esquerda, ser� que o seu coment�rio seria id�ntico? Ou seja, porque � que mesmo as pessoas mais inteligentes e que pensam pela sua cabe�a, se sentem obrigadas a defender 'os seus', mesmo que sejam pessoas como o Sr.Berlusconi (n�o falo de casos perdidos como o Dr.Lou�� e etc. Falo de pessoas n�o fan�ticas, mas que se entricheiraram num campo, e que ficam inibidas de pensar, ou de se expressar com total liberdade).�

Ainda h� mais.

 


EARLY MORNING BLOGS 17

A amea�a de execu��o escrita nesta parede foi fotografada por mim em Gernika numa viagem de solidariedade que fiz com a luta dos bascos contra o terrorismo. Numa das primeiras notas do Abrupto, escrita num momento politicamente importante dessa luta para os bascos, reproduzi um apelo internacional de intelectuais a ac��es de solidariedade, que tinha subscrito, convencido que haveria resposta pelo menos neste meio. A blogosfera, que n�o tinha falta de causas entusiastas em tudo que era p�gina, permaneceu indiferente. Foi, se quiserem, a minha primeira desilus�o.



N�o era que n�o houvesse rep�dio do terrorismo basco, era que, quando n�o h� bombas, o aspecto pol�tico da luta contra o medo e pela liberdade no Pa�s Basco interessa pouco os portugueses, a come�ar pelos �rg�os de comunica��o social. Vem tudo isto a prop�sito do artigo de Helena Matos no P�blico �Nacionalismo Basco: o Medo Aqui T�o Perto� que analisa este mesmo tipo de sil�ncio e cujas conclus�es subscrevo inteiramente:

Habituados como fomos a associar a luta pelas independ�ncias � luta pela liberdade, esquecemos que � vis�o rom�ntica dos nacionalismos do s�culo XIX h� que juntar a experi�ncia dos totalitarismos do s�culo XX: estes usaram o nacionalismo e n�o raramente a Igreja para refor�arem o �dio ao estrangeiro e o desprezo pelas institui��es democr�ticas. � esta �ltima face do nacionalismo que, dia a dia, se imp�e no Pa�s Basco. � essa face que viram Savater, Gotzone Mora e L�pez de Lacalle. � essa face que �s vezes, em Portugal, fazemos de conta que n�o existe. Talvez porque seja demasiado perto.�

*

Leio os Estudos sobre a Ordem dos Pregadores, um blogue discret�ssimo, sobre �pregadores� , frades, freiras, ordens religiosas. � um mundo bem longe do nosso olhar e que conheci na minha inf�ncia e adolesc�ncia por causa de uma minha tia-av� que era freira Doroteia, �madre Pacheco�, e que era uma for�a da natureza. Come�ara a sua vida religiosa como enfermeira na I Guerra Mundial na frente belga, e depois, como tinha jeito para o desenho, ensinava nos col�gios das Doroteias e pintava �santinhos�. Dela resta a mem�ria e os �santinhos�, delicados e ing�nuos, com tons de ouro nas vestes como nos quadros de Fra Ang�lico.
Milhares e milhares de homens viveram assim, numa forma t�o estranha para a nossa contemporaneidade que parecem n�o ter biografia. Fizeram-se frades e freiras e desapareceram do �s�culo�. O que se retrata aqui � que eles t�m biografia, n�o s�o apenas �enxame�.

A segunda observa��o, lendo a SERIES MAGISTRORUM ORDINIS PRAEDICATORUM, � a confirma��o pela longa lista de nomes, do s�culo XIII aos dias de hoje, franceses, italianos, irlandeses, espanh�is, de como qualquer hist�ria da Europa sem uma refer�ncia ao cristianismo como elemento formador da identidade europeia, n�o tem qualquer sentido.


25.7.03
 


TRATADO DOS TELEM�VEIS � algum correio

Paulo Alves sugere que se substitua devices por "dispositivos".

M�rio Chainho fornece elementos suplementares e � mais prudente quanto a algumas previs�es:

"As evolu��es que preconizou para os telem�veis (prefiro chamar-lhes de terminais m�veis) s�o mais do dom�nio da fic��o cient�fica que do razoavelmente expect�vel nas pr�ximas d�cadas. O actual sistema utilizado em toda Europa e um pouco por todo o mundo (GSM) � das obras mais complexas feitas pelo homem, s� poss�vel devido a avan�os espont�neos e provocados em v�rios dom�nios, n�o sou na tecnologia mas tamb�m ao n�vel da investiga��o cient�fica feita em empresas e universidades de todo o mundo. No entanto, tudo parece ainda muito tosco. E tudo isto porque a tarefa de colocar uma rede de comunica��es m�veis a funcionar nos moldes actuais n�o � nada f�cil, parecendo mesmo uma tarefa imposs�vel de realizar. Ao contr�rio dos telefones fixos, em que tudo � est�vel e basta ligar um fio de um lado ao outro (n�o � bem assim porque a rede central pode ser muito complexa), nas comunica��es m�veis o suporte � o ar e tudo atrapalha: O n�vel de sinal pode cair de um instante para o outro cerca de 100 000 vezes, mas essa � apenas uma das milhares de dificuldades encontradas, e todas foram sendo resolvidas. As primeiras normas sobre o sistema GSM, h� mais de 10 anos, tinham mais de 5000 p�ginas, e apenas faziam refer�ncia aos interfaces entre os v�rios dispositivos da rede e suas fun��es. P.e., nenhuma das normas referia como se fazia um telem�vel mas apenas as suas funcionalidade e formas de interac��o com a rede - e a partir da� cada fabricante poderia fazer os terminais como queria. Parece-me que os devices integrados no corpo est�o t�o longe dos actuais terminais como um F-16 de um papagaio de papel - mas s�o bem conhecidas previs�es sobre o futuro feitas por grandes figuras que sa�ram completamente erradas, e de grande figura eu nada tenho.

Talvez os avan�os na tecnologia atinjam uma satura��o mais r�pida do que se julga. Fico por vezes com essa ideia porque para haver progressos lineares na tecnologia a quantidade de problemas a resolver aumenta geometricamente - assim me parece.

Em rela��o � "Sociologia do Telem�vel", trabalhando numa empresa de comunica��es m�veis tenho o privil�gio de ver algumas das melhores e piores utiliza��es do aparelho. Entre as melhores acho que se podem nomear: refor�ar din�micas de trabalho, criando novas oportunidades de neg�cio nas mais diversas �reas; Aproximar o pa�s, j� que uma liga��o A�ores - Lisboa � semelhante e custa o mesmo que uma liga��o Lisboa - Lisboa.
As desvantagens s�o tamb�m bem conhecidas. Muitas j� aqui foram apontadas. Existem mesmo casos doentios de utiliza��o dos telem�veis e s�o ineg�veis os condicionamentos sociais que eles podem provocar, melhor, o telem�vel � mais uma das vari�veis na luta pelo estatuto e pela felicidade - por si nada faz. O que prende as pessoas s�o os seus desejos e ansiedades e n�o um qualquer aparelho exterior a si - s� quem se deixa dominar fica dominado. "


Smaug comenta no Incongru�ncias as notas sobre telem�veis:

O nome que sempre dei aos telem�veis, e aos seus antecessores bips/telebips [estes j� podem ser acrescentados � lista de objectos em extin��o], foi �A Trela�. Estes malogrados objectos funcionam como uma trela sem fio, mas que se pode sempre, ou quase sempre, puxar.

�Onde est�s?!� � tornou-se pergunta inicial que quase todas as conversas telef�nicas, s� depois se pergunta �Como est�s?� (se se perguntar...). Uma coisa muito �til � a personaliza��o dos toques do telem�vel dependendo de quem nos est� a ligar, o meu s� toca para meia d�zia de n�meros, para o resto faz um discreto �bip� e deixa-se ficar caladinho.

Fa�o uma pequena correc��o ao texto de JPP, na parte do �2. Di�logos de um futuro muito imediato � ced�ncias de liberdade�. As redes de telem�veis, por motivos intr�nsecos ao seu funcionamento t�cnico, sabem sempre a localiza��o dos aparelhos com uma margem de erro relativamente pequena, a Optimus e a Vodafone comercializam servi�os que fazem uso dessa capacidade.



 


UMA CIDADE QUE SE CHAMA �INVICTA�

... n�o pode ser igual �s outras. E n�o � . Tem uma for�a interior enorme, escondida, tantas vezes desbaratada em querelas rid�culas quando � sua frente tem os que fazem do Porto prov�ncia.

O que h� de melhor no Porto � a liberdade, uma liberdade que n�o veio de comboio de Paris, uma liberdade que n�o era a dos carbon�rios, mas a profunda liberdade dos burgueses , a liberdade do trabalho, a liberdade do com�rcio, a liberdade das associa��es m�tuas dos oper�rios, a liberdade mais copiada dos ingleses do que dos franceses. � uma cidade onde podiam ter vivido os Buddenbrook e onde Thomas Mann poderia ter sido c�nsul. Mann gostaria do Porto.

A gente que l� nasceu sabe onde est� essa liberdade s�lida, presa ao granito, na Rua Mouzinho da Silveira, na rua das Flores, no Largo dos Poveiros, em S. L�zaro, nas fiadas de casas de granito e azulejo vidrado da rua D. Jo�o IV, na rua da Alegria, em Fernandes Tom�s, em Passos Manuel.

E depois naquelas ruas que j� n�o tem a fun��o que tinham desde a rica S. Catarina, at� � humilde e desconhecida Travessa da P�voa, nas ruas oper�rias onde se morria de c�lera e de tifo nas ilhas. � o Porto que foi a terra dos oper�rios e n�o Lisboa. Lisboa tinha Alc�ntara, mas o Porto tinha as grandes f�bricas , dos tabacos no Campo 24 de Agosto, de Salgueiros , no Graham, na Boavista , no Freixo, em Lordelo, nas conservas de Matosinhos.

J� disse isto vezes sem conta, inclusive em com�cios, quando se grita para que n�o nos ou�am o sentido, mas n�o consigo come�ar a falar do Porto sem estas primeiras palavras.

*

O Porto fez-me gostar de uma qualidade sem grandes elogios nos dias de hoje e tamb�m sem grande reconhecimento social, por muita ret�rica que � sua volta se ou�a, a integridade. Muita da vida p�blica portuguesa n�o seria o que �, se houvesse um pouco mais de reconhecimento social da integridade. Se os �ntegros n�o parecessem personalidades obstinadas, com mau feitio, �pouco male�veis�, como agora se diz.

O Porto fez-me gostar das pessoas simples, �ntegras, ainda n�o tocadas pela usura das palavras, ainda n�o ecl�ticas, ainda n�o dominadas pelo amor-pr�prio destrutivo, ainda n�o obcecadas pelas suas virtudes e pela sua facilidade, ainda n�o acumulando superf�cies como quem acha que a vida � um longo espelho, ainda n�o distra�das, ainda n�o impacientes, ainda querendo mais alguma coisa com uma tenacidade de absoluta dedica��o. Como o Porto � feito de granito em vez de calc�rio, selecciona a dureza, a persist�ncia, o trabalho, as boas contas, as �contas � moda do Porto�, e j� revelou na sua hist�ria que pega em armas quando � preciso.

Nunca mostrei a minha cidade, mostrar de mostrar, a quem eu n�o ache �ntegro. Sei de quem nunca l� ir� pelas minhas m�os.

 


O PORTO

� a minha maior injusti�a no Abrupto. Ainda n�o ter falado da minha cidade, da qual me sinto sempre em estado de heimatlos, esteja onde estiver, mesmo nos s�tios onde estou totalmente bem, entre as torres ou na terra onde �a l'ist� piove a contr�.�


 


EARLY MORNING BLOGS 16

And Now For Something Completely Different�, (grita o Hipatia, pela voz dos Monthy Python, metendo um susto aos desprevenidos) �

� a blogosfera est� a come�ar a assentar depois das turbul�ncias dos �ltimos dois meses. Est� muito diferente, muito melhor, muito mais plural, com muitas vozes falando de coisas distintas, com blogues novos com temas novos. Est� menos liter�ria, sem deixar de estar liter�ria, mais problem�tica, menos afirmativa e mais curiosa e, at� , mais engra�ada porque menos engra�adinha.

Blogues como a formiga de langton , o S�cio[B]logue, Companhia de Mo�ambique , o projecto do Metablogue, o Ret�rica e Persuas�o, Reflexos de Azul El�ctrico, Avatares de Desejo, M�dico Explica Medicina a Intelectuais e v�rios outros, fizeram a diferen�a. Para sermos justos vieram na sequ�ncia dos bons blogue pol�ticos � volta da dupla Coluna Infame � Blog de Esquerda e dos excelentes blogues sobre jornalismo que foram pioneiros como o Ponto Media e o Jornalismo e Comunica��o

Uma das melhores descri��es da blogosfera est� numa cita��o da Utopia Art Biennial, LX, 2001, feita pela formiga de langton , sobre o "enxame"

"Take any swarm. Take any collective natural system, where many parts are present. Study it. Identify which rules are prominent at local neighbours. The simpler the better. Understand if they are similar in any other natural system. You will probably be astonished. Now, collect them together in any computer. Mix them. Play it and let them evolve by their own. Soon, you will perceive organization. Any type of organization. What you will see is nothing more than the decay of entropy. But, don't stop it and feed the system with diversity. Re-inject knowledge if you think they will take profit of it. Memory among the whole is emerging. Even better than that: parts of the system at different locations can perceive the whole. Now, from time to time, allow the system to become slightly chaotic. Evaporation is one way. Oh, yes! Solutions found so far become more robust and flexible. Now, take this whole as a unit. And take any other whole. And another one. Take a lot of wholes and collect them in a computer, or in any other type of information structure. Put them in another layer of complexity. Mix them. Play it and let them evolve..., are you pleased?"

 


J� DO OUTRO LADO

 


META-LIVRISMO / OBJECTOS EM EXTIN��O 17

Para os amadores do meta-livrismo, livros sobre livros, parente pr�ximo do meta-bloguismo, a Bloomsbury publicou Lost Classics. Writers on Books Loved and Lost, editado por Michael Ondaatje / Michael Redhill / Esta Splading / Linda Spalding. � a reedi��o, acrescentada de novos textos, de um n�mero especial da revista Brick sobre os livros que gostamos muito de ler numa altura da vida e depois desapareceram. Desapareceram da nossa casa, das livrarias , est�o esgotados , ningu�m se lembra deles, foram para o gigantesco limbo dos livros. E , no entanto, o fantasma continua connosco:

A book that we love haunts us forever, it will haunt us, even when we can no longer find it on the shelf or beside the bed where we must have left it.".

A raz�o porque esta nota � dupla, como as estradas que se perdem nos mapas uma na outra, sendo uma, mas duas, � porque, num certo sentido, estamos a falar de �objectos em extin��o�, livros perdidos de que sobram �memories of reading

The dialogue with the mind of an absent other, that conversation both silent and shared, that moment when a reader seems to have found the perfect mate�.

Logo a abrir, Margaret Atwood fala do Doctor Glas de Soderberg e depois h� Lafcadio Hearn, e Kipling e Bulgakov, em t�tulos quase desconhecidos e muitos outros de que nunca tinha ouvido falar, �perfect mates".
 


VER A NOITE, de novo

Noite de mistura, nem negra, nem azul. N�o se v� nada de jeito, mas � a primeira em que ou�o os grilos. Talvez s� um, esfor�ado, enchendo a noite de sons. O barulho de t�o pequeno bicho � enorme, � preciso ouvi-lo para perceber como enche o espa�o, a noite toda. Hoje, em vez das estrelas, olho para a terra.

�N�o faz mal nenhum um pouco de gravitas�, diz o grilo.


24.7.03
 


VER A NOITE

A primeira �estrela� da noite foi um Airbus.

Volto mais tarde.
 


SCRITTI VENETI

Ele escreveu, a esta mesma precisa hora, diante do palladino Redentore: �Foge de mim. Eu sou insalubre como a �gua destes canais miasm�ticos. J� corro para outro lado, contra natura, terra dentro, levando a peste. Cuidado com o c�o, cuidado com os c�es. Est� uma guerra em curso.� (Phobos)


 


A M�O QUE PINTA

Algumas leitoras do Abrupto (e digo leitoras porque foram s� leitoras) tem perguntado sobre a origem dos fragmentos dos quadros , quase s� horizontes, aqui esporadicamente colocados. A origem � muito diversa, a maioria s�o de pintores do Norte da Europa, paisagistas do s�culo XIX, pintores relativamente pouco conhecidos e de colec��es pouco acess�veis. Por exemplo J. C. Dahl ( a maioria), William Bell Scott, etc.
As raz�es porque n�o identifiquei at� agora a sua autoria, s�o em primeiro lugar �narrativas�, n�o queria acrescentar qualquer refer�ncia que �distra�sse� quem os v� para um outro mundo que n�o fosse a sua presen�a e o que eles �dizem�. O seu uso n�o � o de uma cita��o, mas o de um s�mbolo. Na verdade, n�o s�o os quadros que c� est�o, porque eles n�o s�o assim, mas o meu olhar sobre eles que muitas vezes fica assim perdido num pequen�ssimo fragmento ignorado num canto da pintura.

Talvez, quando o tempo os tornar �narrativamente� in�teis, eu coloque um nome junto do horizonte.

 


CADA VEZ MAIS LONGE

 


OBJECTOS EM EXTIN��O 16

Pedro Robalo no Complot fala da mem�ria das casas :

"Na casa de praia dos meus av�s, onde me encontro, foram feitas, recentemente, algumas obras. S�o muitas as modifica��es que umas obras imprimem numa casa. Escolhas est�ticas aparte, existem pormenores t�cnicos que uma interven��o n�o pode deixar intactos.


Um dos que mais se faz notar � a coloca��o dos interruptores el�ctricos. Se se fizerem altera��es � instala��o el�ctrica principal, � muito prov�vel que os interruptores mudem de s�tio, sendo colocados a uma altura de menos de um metro do ch�o. Nas casas mais antigas, que � o caso, os arcaicos e barulhentos exemplares eram colocados muito mais acima: um metro e meio pelo menos. Desconhe�o as raz�es de ordem t�cnica que justifiquem um e outro caso.


O curioso nesta mudan�a � a sua interfer�ncia nos actos mais banais - o que nos faz reflectir acerca da profundas ra�zes dos h�bitos adquiridos. Trocando por mi�dos: agora, de cada vez que entro numa divis�o escura, levo pelo menos 20 segundos tacteando a parede em busca do interruptor. S� depois, chamando a raz�o a este acto irreflectido, realizo que ele se encontra noutro local. E, de cada vez que isto acontece, a casa que era e j� n�o � aflora-se � mem�ria, despoletando um misto de nostalgia e desconforto. Por muito boas que sejam as mudan�as, h� sempre nuances de saudade que s� o tempo consegue apagar. Por mais insignificantes que sejam."



Eduarda Maria da � bata da escola. Al�m dos uniformes nos col�gios (que ainda se mant�m), havia a bata, nas escolas p�blicas. Embora h� 30 anos pensasse o contr�rio, hoje em dia n�o consigo encontrar uma �nica desvantagem para o uso da bata. (Acho que j� cheg�mos todos � conclus�o que a liberdade n�o passa nada por a�).

Miguel Marujo do Cibertertulia lembra �os sinos das igrejas - ou as suas badaladas! - hoje em dia substitu�dos por ensurdecedores altifalantes a debitarem vers�es duvidosas do "Av�" de F�tima!�

Miguel Leal dos �el�ctricos�:

Os "El�ctricos " 25 e 26 , refer�ncia fundamental da minha inf�ncia . O bilhete , pequeno , fr�gil e cor-de-rosa - retirado de uma resma de bilhetes da mesma cor- obliterado por press�o manual com um instrumento tamb�m ele extinto , custava 13 tost�es. Os el�ctricos 25 e 26 , dizia , faziam o mesmo percurso mas em sentidos diferentes. O percurso era denominado "circula��o" e a carreira era indicada � frente e � rectaguarda dos el�ctricos com a designa��o de "Estrela - Gomes Freire " , atrav�s de um mostrador envidra�ado que era preenchido por uma esp�cie de papiro que se desenrolava e que ia indicando os diversos destinos que se praticavam na Carris desse tempo.
A minha av� e eu , "apanh�vamos " o El�ctrico na segunda paragem da Rua Ferreira Borges ", em Campo de Ourique .Segu�amos ent�o na direc��o da baixa pombalina - atravessada generosamente em toda a sua extens�o - atrav�s da "panifica��o " , Amoreiras , Rato e Conde Redondo , onde era feita por vezes a mudan�a de guarda-freio. Avan��vamos, junto ao rio, torneando o Cais do Sodr� em direc��o ao bairro chique da Lapa , com in�cio da subida em Santos. A rua Buenos Aires antecedia a descida para a "Estrela " que por sua vez antecedia a subida para a Rua Ferreira Borges onde nos ape�vamos na mesm�ssima segunda paragem.
Uma Lisboa abrangente , por 13 tost�es , em 45 minutos e com partida e chegada no mesmo local.�


Tito no Entre Pedras, Palavras colocou a seguinte nota:

"O pente religiosamente guadado no bolso de tr�s das cal�as".
Os homens j� n�o guardam, junto das cautelas, o pente. J� n�o fazem aquele gesto firme de colocar em ordem o cabelo, acompanhado pela suavidade da m�o, que suada conferia aquele estrutura una e circunspecta.
Os homens j� n�o param � porta das reparti��es p�blicas, dos consult�rios, dos caf�s, a olhar para um vidro e a desenhar a regra e esquadro a risca ao lado.

O pente, naquele pl�stico matizado de castanho, morreu.
Eu pr�prio j� n�o me penteio vai para uma vintena de anos. A �ltima vez que penteei foi no dia da comunh�o solene. Hoje junto � Esta��o de S. Bento j� n�o se vendem pentes, hoje � porta da "Adega do olho" j� ningu�m se penteia, amanh� entre uma e outra sande de presunto, no "Louro", ningu�m tirar� o seu pente e ser� mais homem. Hoje quando saio � noite e vejo os rapazinhos que habitam o estado novo, com a melena cuidadosamente despenteada � frente dos olhos, juro que rezo para que entre um qualquer paquistan�s e que em vez de rosas traga na m�o um bouquet de pentes para guardar no bolso de tr�s das cal�as
."


 


LIMITES (Actualizado)

Ontem referi a fus�o entre os devices cada vez mais bio e o nosso corpo, acentuando a �hierarquia e fragilidades� dos sentidos. Encontrei em A Pedra e a Espada um exemplo dessas limita��es:

O compositor Eric Satie tem uma obra para piano que demora 24h a ser executada na totalidade.
Isto implica que sejam necess�rios v�rios pianistas que se v�o revezando, por forma a que a pe�a possa come�ar e terminar sem interrup��es.
Conta-se que numa das raras execu��es dessa pe�a em Nova Iorque, quando esta terminou um dos elementos da audi�ncia se colocou de p� batendo palmas fren�ticamente e gritando: "Bravo! Bis ! BIS!".


Uma m�sica, Vexations, n�o pode ser tocada sen�o por v�rios pianistas, a n�o ser que algu�m queira entrar para o Guiness. Seria dif�cil, porque uma das coisas que Cage verificou quando se interessou pela pe�a, � que ela � tamb�m muito dif�cil de memorizar, mesmo quando fragmentada em partes a serem tocadas por diferentes pianistas. Satie revelou limites.

*

Jos� Carlos Santos acrescenta algumas precis�es sobre Vexations:

"Da primeira vez que esta obra foi interpretada, no Pocket Theatre de Nova Yorque, foram precisas apenas 18 horas e n�o 24. Um dos doze pianistas que participaram na estreia foi John Cage, que tinha tido conhecimento daquela obra em 1949 atrav�s de Henri Sauguet, amigo de Satie nos �ltimos anos da vida deste. Mais importante do que isto � o facto de as Vexations consistirem numa sequ�ncia de apenas 180 notas tocada 840 vezes (na estreia, Cage tocou-a 75 vezes)."

 


VER A NOITE

Noite sem brilho, ba�a. Nuvens, humidade. V�-se Marte, e meia d�zia de estrelas, soltas das constela��es pelos fios das nuvens.

L� longe, por cima das camadas inferiores da atmosfera, muito acima de n�s, os mesmos astros caminham perfeitos nas mil cores em que n�o os vemos. De novo me faz falta o par invernal de Orion , Alpha e Beta Orionis, Betelgeuse vermelha e Rigel azul.

Betelgeuse , a "yad al jauza," , a m�o da Mulher, a gigantesca estrela vermelha em que cabemos todos.

 


ABRA�O

Um grande abra�o mais que p�blico para o Carlos Andrade que � um homem bom, primeiro, e um bom jornalista, depois.

23.7.03
 


N�MEROS

O Abrupto ultrapassou h� uma semana as 100000 �pageviews� pelo seu contador mais antigo, o do Bstats. Ultrapassou hoje as mesmas 100000 pelo contador do Sitemeter, que se pode consultar abaixo. No entanto, ainda n�o o fez pelo contador mais recente, o do Bravenet que vai na casa dos 90000. Esperarei pelos 100000 neste �ltimo que � aquele que � mais vis�vel oara quem l� a p�gina. Seria um pouco estranho estar a festejar � sim festejar, porque na concep��o deste blogue � gratificante para o seu autor que seja lido � um n�mero que n�o � aquele que aparece diante dos olhos de quem l�. Nessa altura falarei um pouco mais da solit�ria orienta��o editorial deste blogue.

Gostaria que, quem tivesse mais experi�ncia destas coisas, me ajudasse a escolher o melhor contador, para, terminado este per�odo experimental, eliminar os outros.

 


TRATADO DOS TELEM�VEIS � a �biologiza��o dos devices� e notas dispersas (Actualizado)

O efeito dos telem�veis, que tender�o a perder este nome com o cada vez maior afastamento em rela��o quer aos telefones, quer aos nossos conceitos de mobilidade, ser� cada vez mais poderoso quanto o device se incrustar no nosso corpo. Passar� da nossa m�o, onde existe ainda como objecto aut�nomo, para a nossa roupa e da� para a nossa pele. Colar-se-� ao corpo, como a televis�o se colar� �s paredes da nossa casa ou aos nossos olhos.

Esta evolu��o, a que tenho chamado a �biologiza��o dos devices�, potenciar� um novo mundo de rela��es humanas e sociais. O prov�vel � que, quanto mais os aparelhos se aproximarem das fontes dos nossos sentidos, mais se moldar�o � sua hierarquia e �s suas fragilidades. Ficaremos cada vez mais presos � vis�o, o nosso mais enganador sentido, e � janela sobre o mundo que ele nos d�. Cada vez mais quem controlar o que vemos, controla o que somos.

Haver� um esplendor de imagens pobres � jogos, pornografia, superf�cies � no lugar da vida vivida, com o crescimento de uma virtualidade que funciona como ersatz dos prazeres reais caros, e o pensamento recuar� empurrado pelo automatismo dos gestos programados (permitidos). O tempo e o espa�o mudar�o significativamente a uma maior velocidade do que aquela em que j� est�o a mudar e que j� � muita.

As imagens sem s�mbolos ser�o o ��pio do povo�. N�o excluo que, para cada vez mais pessoas, a felicidade aumente porque a felicidade � a impress�o de estar feliz. � medida que a diferen�a entre a virtualidade e a realidade seja cada vez menor, e dependa de literacias hard e de posses (posse) no mundo hard, os pobres ter�o eficazes t�cnicas de felicidade virtual � sua disposi��o.

Este texto � experimental, explora apenas alguns caminhos, pela via do exagero como m�todo.

*

Uma nota: um pouco por todo o lado nos textos dos blogues o acto de ir para f�rias est� directamente associado ao abandono no n�o-f�rias dos mecanismos de comunica��o - televis�o, telefones, jornais.
Interessante esta percep��o de um afastamento do mundo pela recusa dos seus canais de comunica��o como sendo "f�rias". Como se o trabalho fosse hoje apenas receber, estar imerso em comunica��es, informa��es.

*

A Ana escreve :

N�o concordo que o telem�vel ponha em causa o direito de ignorar um telefonema. Esse � precisamente um dos direitos que apenas t�m as pessoas com telefone. O gozo bestial/ �s vezes o sofrimento de o ignorar.
Por isso, sugiro a elimina��o deste direito no projecto de Tratado dos Telem�veis. Ou ent�o a sua inclus�o num artigo aut�nomo com a ep�grafe Boa Utiliza��o do Telem�vel - Liberdades.
Pod�amos fazer uma Conven��o Preparat�ria do Tratado dos Telem�veis
.�

JPT escreve:

"h� tr�s meses que desliguei de vez o telem�vel, perdi direito a numero at�. Todos me olham algo estranhos como se alguma coisa meio-grave me tivesse acontecido. Ou entao refor�ando a ideia (talvez ja algo formada) de que tenho a mania que sou um bocado diferente, "a modos que quer parecer intelectual" ou quejando."

 


LONGE

 


TRATADO DOS TELEM�VEIS � primeiros fragmentos

Nota pr�via - Os telem�veis s�o a guarda avan�ada (ou a revela��o) de toda uma s�rie de mudan�as sociais em curso associadas a novas tecnologias. Como todas as mudan�as elas n�o emanam directamente das tecnologias mas sim das suas rela��es com o modo como socialmente s�o moldadas pelo mundo �exterior�. N�o � haver telem�veis, � o uso que as pessoas d�o aos telem�veis. O que se est� assistir � s� o princ�pio.

1. Carta dos direitos que o telem�vel amea�a (carta dos estilos de vida amea�ados) :

O direito de n�o ter telem�vel e n�o passar por mentiroso quando se diz que n�o tem.

O direito de n�o ter que andar com o telem�vel 24 horas por dia.

O direito de n�o ter o telem�vel sempre ligado.

O direito de n�o ter que fazer dezenas de telefonemas in�teis apenas porque se criou o h�bito de falar de cinco em cinco minutos.

O direito de ignorar um telefonema.

O direito de n�o responder a um telefonema. Telem�veis e atendedores de chamadas tornaram algu�m sempre presente, e obrigatoriamente informado de que outrem telefonou pelo que � socialmente inaceit�vel que n�o responda.

Deixou de se poder dizer � �desliguei os telefones� - porque o atendedor de chamadas regista tudo como se o telefone estivesse ligado. �N�o podes dizer que n�o sabias, deixei-te mensagem. Porque � que n�o respondes?�


2. Di�logos de um futuro muito imediato � ced�ncias de liberdade

�- O meu presente de anivers�rio � este telem�vel moderno que tem GPS e pode-se saber onde uma pessoa est� a qualquer momento.

- Pode-se saber?

- Pode

- N�o sei se quero�

- Tens medo que eu saiba onde est�s?

- N�o, n�o tenho medo�D� l� o telem�vel.


Outro:

� - Onde est�s?

- Estou aqui.

- Aqui aonde? Liga o v�deo do telem�vel.

- Para qu�? A chamada vai ficar cara�

- Para eu ver onde tu est�s.�


3. Mon�logos do presente � matar algu�m no telem�vel

�Ele tinha quatrocentos e vinte e oito mensagens gravadas. Recados, gritos, murm�rios, desejos, f�rias, calmas. Resolveu apaga-las a todas e, como era homem de mem�rias, o acto era importante. Ao apagar matava algu�m. Carregou no bot�o porque h� actos que nem o direito � mem�ria t�m. Pouco a pouco, come�ava a mem�ria a encher-se outra vez. De pessoas vivas.�

Outro:

�Ela dizia � o telem�vel � minha liberdade.

Enganas-te. � a tua servid�o.�


 


EARLY MORNING BLOGS 15

Tanto azedume � solta por a�. Olhem que s�o s� blogues, n�o s�o buldogues.

A Conversa da teta regista um aspecto interessante dos blogues: vivem sem subs�dios e n�o pagam impostos.

N�o h� assim tantas actividades em Portugal que se possam gabar de viver sem subs�dios. Mas sendo o pa�s como �, e as artes e as �culturas� como s�o, l� vir� o dia em que algu�m pe�a um subs�dio para fazer um blogue, �cultural� obviamente, e depois vir� outro e outro. E vir� um dia em que um governante �inovador� alargar� as bolsas para escritores a �novas formas de escritas�, ou seja aos blogues. E depois come�ar� o ciclo que � bem conhecido na �cultura�: fazer um blogue significa o direito natural a ter subs�dio, e os blogues gr�tis v�o sendo cada vez menos. E haver� declara��es zangadas que este blogue n�o pode continuar porque n�o sabe se vai receber o subs�dio, e haver� j�ris para julgar as propostas dos subs�dios e manifesta��es e abaixo-assinados e declara��es parlamentares sobre a mentalidade contabil�stica do governo da altura que corta o dinheiro para os blogues. Assim por assim j� houve um tempo que a ideia de subsidiar o teatro parecia bizarra, j� houve um tempo em que a maioria do teatro n�o era subsidiado. H� muito, muito tempo.

No Monologo a raz�o porque o MyLifeBits vai ser um sucesso : "queria ter-me fotografado todos os dias da minha vida. s� assim tinha a certeza que vivi cada um deles".

 


VER A NOITE

On the road . Um planalto elevado, horizonte sem limites, nenhuma luz, e hoje brilha, como nunca nos �ltimos dias, o campo das estrelas. Meia esfera celeste move-se, como sempre, com as grandes constela��es do Norte vis�veis. Ainda n�o � uma noite perfeita, a Ursa grande, virada para o lado do mar, est� um pouco apagada pelas nuvens. Falta-lhe uma estrela.


22.7.03
 


TRIVIA

Agora quando se quer um jornal em linha, P�blico ou Di�rio de Not�cias, o computador toca como o mais odiado dos telem�veis para fazer um reclame de uma coisa chamada sms. Deus sabe, como diria o homem das feiras e mercados, como deles fujo.
Fazer um tratado sobre os efeitos sociais da omnipresen�a dos telem�veis e seu toque que manda, ordena, lembra sem perd�o.

 


CONVERSA

Numa conversa com o senhor C.: �O meu av� morreu uma semana depois de minha m�e. Abismou com a morte dela�.

�Abismou�, caiu num abismo, caiu num abismo com ela, por causa dela. �Abismo� � uma daquelas palavras em que n�o se repara, at� um dia. � uma palavra com medo dentro.

 


SUDOESTE


J� me referi aqui a uma s�rie de edi��es da Sudoeste que me tinham surpreendido pela qualidade. Acrescento duas que ainda mais refor�am essa verifica��o. E que duas! Uma � uma tradu��o de Sete Odes de P�ndaro, de Maria Helena Rocha Pereira; outra, uma edi��o da Experi�ncia de Ler de C.S. Lewis.

Nos poemas de P�ndaro cada linha � imensa. Escritos para her�is que s� est�o longe de Michael Schumacher, pelo que faziam fora da arena ol�mpica, n�o pelo que faziam dentro da pista das corridas, como este Hier�o de Siracusa , vencedor da corrida de cavalos:

Um grande risco n�o arrasta
Um homem cobarde. Para quem tem de morrer,
Porque h�-de consumir em v�o, sentado � sombra,
Uma velhice apagada,
Sem provar quanto h� de belo?

 


VER A NOITE

Est� escuro, muito escuro, mas uma noite p�ssima para ver estrelas. Deve haver humidade, nuvens no alto.
Este escuro j� n�o se v� nas cidades em nenhuma altura, a n�o ser quando falta a luz.
Marte voltou para tr�s, nesse movimento dos planetas que mostra que n�o fazem parte da esfera superior e s�o mat�ria perec�vel. Mesmo Marte.

21.7.03
 


PERTO


20.7.03
 


OBJECTOS EM EXTIN��O 15

1) A campainha na sala de jantar, no meio do ch�o, para chamar a criada. A primeira vez que os meus pais mudaram de casa, na nova casa l� estava no meio, brilhante de metal, a campainha. Embora houvesse criada, a campainha nunca foi utilizada.

2) RIP do blog-notas sugere o tira-linhas:

Esse pequeno artefacto, indispens�vel � elabora��o de desenho geom�trico, podia ser montado num suporte vertical ou adaptado ao compasso, vivia em alegre concubinato com o tubo de tinta-da- china e constitu�a, quando manejado por m�os in�beis, o maior dos pesadelos para a alva pureza da folha de papel.

Foi substitu�do pela Rotring (marca que simbolizou os diversos suced�neos) e, o epit�fio que assinala a sua passagem � galeria da hist�ria, recorda-nos que

Aqui jaz o tira-linhas,
instrumento de terror,
que borrava as m�ozinhas
ao aluno e ao s�tor!

Mas o seu maior valor,
(pese embora o seu aspecto),
era p�ro desenhador
que elaborava o projecto!

Viveu em paz e alegria,
com a tinta, que da china,
tinha o nome, e se vendia,
em tubos de forma fina!

Deixou-nos como legado,
esta triste nostalgia,
que recordo, com agrado!
Mas num blog??? Que ironia!!�


3) Ricardo Ruano Pinto (RRP) do Hipatia lembra a "Mariconera"

essa malinha masculina, com pega ou pegas, de couro (embora tenha visto algumas em tecido), que se transportava debaixo do bra�o, que a par de outros equivocos da moda seventies, ainda hoje deixa muitos envergonhados e outros comprometidos.�

4) Jos� Carlos Santos lembra �os document�rios que passavam nos cinemas antes do in�cio dos filmes. Creio que desapareceram ainda antes do 25 de Abril, v�timas da televis�o.�

Tamb�m lembro, com alguma nostalgia, os momentos em que a sess�o do cinema tinha document�rios, "actualidades", desenhos animados, filmes an�ncios, reclames da Belarte, dois intervalos e o filme. A voz brasileira dos document�rios sobre a natureza � �voando sobre as altas montanhas dos Andes , o condor passa� �- ainda a ou�o e as montanhas e o condor cabiam na enorme tela.


 


EARLY MORNING BLOGS 14


� procura de textos pr�-blogue ando pelos di�rios de Tolstoy e pelo di�rio de Kafka. Na edi��o francesa de Pierre Klossovski, de Kafka, que agrupa debaixo do t�tulo �di�rio �ntimo�, textos de di�rio e grupos de aforismos com temas comuns s�o estes �ltimos que s�o mais parecidos com este tipo de escrita. Por exemplo, as �Considera��es sobre o Pecado, o Sofrimento, a Esperan�a e o Verdadeiro Caminho�, falando da �impaci�ncia� adaptam-se bem a este meio:

Todas as faltas humanas t�m origem na impaci�ncia, uma ruptura prematura do esfor�o met�dico: fixamos sobre um suporte aparente, o objecto aparente�

�H� dois pecados mortais humanos donde decorrem todos os outros: a impaci�ncia e a pregui�a. Por causa da sua impaci�ncia, foram expulsos do Para�so, Por causa da sua pregui�a n�o voltam para l�. �


O car�cter fragment�rio da escrita �cabe� na p�gina e favorece a cita��o. Retorno a uma nota minha, j� arquivada, de Lukacs sobre Nietzsche e as caracter�sticas do texto facilmente cit�vel.
Incluir os aforismos.

*

Para a Montanha M�gica e os seus leitores uma sugest�o, caso n�o conhe�am. Num magnifico livro , de meta-livrismo neste caso , editado por Dale Salwak intitulado A Passion for Books, Nova Iorque, St. Martins Press. 1999, agrupando uma s�rie de textos sobre o amor pelos livros , est� um ensaio de Jeffrey Meyers intitulado �Obsessed by Thomas Mann�. Meyers escreve como, desde os 16 anos, se foi enleando em Thomas Mann e, livro a livro, foi ficando �obcecado�. Conta como leu os livros, como foi modificando essa leitura � medida que sabia mais sobre Mann, as visitas aos lugares da vida de Mann, a Veneza, a Davos. Meyers critica os filmes feitos sobre obras de Mann, e a representa��o de Aschenbach na Morte em Veneza de Visconti.
Obrigat�rio para os �mannianos�. Se o autor da Montanha em blogue quiser posso mandar-lhe o texto.


 


VER A NOITE


N�o se v� a Lua. Marte l� est�, o pr�ncipe dos c�us por estes dias.
Olhando para Marte, virando 90� para a esquerda, a Cassiopeia. Faz-me falta Orion, a constela��o que enche o c�u, que lembra as noites mais brilhantes do Inverno.

Est� um vento fresco, ligeiro, leve, como para lembrar que h� ar.
N�o se ouve nada. Para onde foi o ru�do?


19.7.03
 


UM NINHO




Um ninho de �verdinhogo� , em cima de um livro, Feito com musgo e com �cabelos�, parece algod�o no meio. Resistiu a ventos muito fortes. Caiu intacto depois de tr�s p�ssaros terem seguido � vida, quando j� era in�til. No ch�o parece fragil�ssimo. Sei que n�o �.

Segundo V., o �verdinhogo� � um p�ssaro cinzento �esverdinhado�. �Canta melhor do que o �mandarim� que tem bico vermelho, cinzentinho, mas com riscas encarni�adas. Como o bico tem � como o corpo�.








 


"COM O TURISMO N�O SE BRINCA"

O que � exactamente o que est� a fazer quem encomendou os an�ncios com os bonecos da Contra�Informa��o que passam na televis�o? � dif�cil fazer uma coisa t�o feia, t�o repulsiva, t�o ineficaz como esses an�ncios. O que � que passa pela cabe�a de quem os encomendou, pensou e comprou? Qual � o �alvo�, como eles dizem? Qualquer pessoa que veja aquilo foge a sete p�s do pa�s que assim se representa, certamente porque � assim que �.

*

E os do Expresso, que n�o sabem absolutamente nada se estou em f�rias e onde as passo, se estou c� ou nos ant�podas, com a imagina��o de uma betoneira estacionada junto de um est�dio de futebol, colocam-me na praia junto da fauna, de toalhinha e computador �

 


DE LONGE PARA LONGE

 


OBJECTOS EM EXTIN��O 14 (Actualizado)

1. As vozes que n�o se ouvem mais.
S�o �objectos�? Como � que ficam na nossa mem�ria?
Como uma coisa?

A voz de Nem�sio, a voz de Villaret, a voz de David Mour�o Ferreira, a voz de Beatriz Costa, a voz de Salazar, a voz de Vasco Santana, a voz de Jo�o C�sar Monteiro, as vozes dos nossos, pouco a pouco desaparecendo.

As vozes que j� n�o se ouvem h� muito tempo, as vozes que deixaram de se ouvir. As que falam baixo � noite, as que se est�o a esquecer, as que gritam quando as queremos calar, as do sil�ncio.

Devia haver um cat�logo de vozes.

(A r�dio, cat�logo de vozes).

*

Miguel : "A voz da minha m�e � a �nica mem�ria dela que me n�o resta mais . Foi-se r�pida num vento sem retorno. Desfez-se. Num entanto acho que prescindiria de catalogar a sua voz , mesmo que tivesse tido oportunidade. O registo da voz �-me demasiado brutal face � irreversibilidade da perda."



2. Acabou a telescola. Portugal mudou.
 


EARLY MORNING BLOGS 13


Eu sou um adepto do meta-bloguismo, embora pense que o excesso do dito levaria a uma esterilidade completa. O meu meta-bloguismo vem de n�o conseguir usar um meio sem me esfor�ar por o perceber. Num primeiro tempo, este olhar �tira� liberdade, condiciona, �prende� e por isso o meta-bloguismo gera sempre um certo mal-estar. Mas h� um segundo olhar, que se calhar tamb�m vem com o primeiro, que acaba por nos dar uma ainda maior liberdade. Eu sou da escola de quem pensa que conhecer liberta. N�o h� provavelmente maior ilus�o nos �ltimos duzentos anos, do que achar que as �luzes� alumiam, mas eu prefiro um mundo em que se proceda (eu disse proceda e n�o acredite) segundo essa ilus�o.


Leitura de outra esp�cie de blogue: os di�rios de Tolstoy (numa edi��o de textos escolhidos � o conjunto dos di�rios � gigantesco e nunca foi traduzido integralmente para ingl�s - muito boa de R. E. Christian, Tolstoy Diaries , Londres, Flamingo, 1994).

Depois dos Cadernos de Camus fiquei com curiosidade de ver em que medida a mec�nica diar�stica, narcis�stica, seja l� como for, dos blogues aparecia noutros textos semelhantes. Os mais semelhantes s�o obviamente os di�rios, e os cadernos de observa��es e notas, que funcionam como instrumentos de trabalho para futuros livros, ou como textos para serem publicados.

N�o me interessava saber se os blogues prolongam os di�rios, mas se determinados mecanismos formais � a data��o cronol�gica, a fragmenta��o do texto pelo tamanho da p�gina, o esquecimento r�pido, a interactividade, o papel da cita��o e contra-cita��o, o di�logo dentro de uma comunidade e para fora dela � estavam tamb�m presentes, num outro contexto tecnol�gico, em textos semelhantes pela sua natureza aos dos blogues.

Dos que vi nenhum texto � t�o pr�ximo dos blogues como os Cadernos de Camus. Se as suas entradas tivessem sido colocadas, dia a dia, por algu�m que, como o Pierre Menard do Borges, o quisesse de novo escrever de forma mais perfeita �bloguisando-o�, ningu�m distinguiria a diferen�a a n�o ser pela qualidade. Os di�rios de Tolstoy j� s�o um pouco diferentes, mas tamb�m n�o tanto.

Tolstoy escreveu v�rios di�rios, durante praticamente toda a vida. Atribu�a-lhes grande import�ncia e chegou a dizer �o meu di�rio sou eu�. Disse �v�rios� porque, nalguns momentos, escrevia dois ao mesmo tempo, um dos quais intitulava de �secreto�. Esta classifica��o de per si coloca o outro di�rio como quase �p�blico� � Tolstoy falava dele aos seus pr�ximos e � prov�vel que estes conhecessem algumas entradas.

Quando algu�m escreve um di�rio para ser lido, o facto de as tecnologias de ent�o implicarem um tempo de espera e matura��o para as suas palavras virem a p�blico, n�o introduz uma diferen�a qualitativa com os blogues quanto ao dilema p�blico - privado. No entanto, a imediaticidade total da escrita dos blogues gera outras diferen�as sem precedente, talvez a mais importante das quais seja o efeito do texto ser p�blico e escapar ao seu autor mal ele o escreva, entrando numa rede que, ao mesmo tempo, o transporta para outros lados e o prende num presente circunstancial. Uma parte dessa rede � a cita��o e o coment�rio, o fio das palavras dos outros prendendo as nossas num efeito sem retorno. A etiqueta n�o escrita dos blogues, que �condena� a retirada de uma nota uma vez publicada ou a sua mudan�a significativa, tem a ver com a integridade dessa teia. Apagar uma nota, apagar um blogue rompe a teia.

Sem essa teia, sem essa escrita que implica sempre um hiper texto mesmo que virtual, da� os efeitos narc�sicos, n�o havia blogosfera. (� por isso que tenho que reavaliar em rela��o a textos que anteriormente escrevi, a rela��o entre o interior e o exterior da esfera). O di�rio ideal , escrito para ningu�m ler, n�o existe na blogosfera, nunca seria um blogue porque n�o era para ser publicado. A publica��o, mal � feita, faz pertencer o texto aos outros. Tolstoy n�o defrontava estes efeitos.

(Continua.
O �continua� dos blogues, onde n�o �cabem� textos longos, � parecido com o dos seriados, hist�rias aos quadradinhos, e filmes em epis�dios, s� que sem o suspense final).



18.7.03
 


VER A NOITE

Antes da Lua aparecer, o Escorpi�o domina a noite. Pouca luz, est� uma noite profunda, com tr�s dimens�es, todas negras.
A Lua mudar� a noite, mas ainda � cedo nesta parte do mundo.


 


DE LONGE PARA LONGE

 


NOTAS CAMUSIANAS 6

Um leitor pergunta, sobre o Dom Juan de Camus (neste caso sobre todos) :

�porque � que Dom Juan � feliz?"

Porque n�o espera.

*

Outro leitor, Salvador Santos, escreve esta outra interpreta��o das primeiras �notas camusianas� sobre Dom Juan e a trai��o � Dom Juan �el burlador� :

"Chamo, por agora, � cola��o, a multiplicidade de D. Juans que existe na figura m�tica do grande traidor. Assim, parece-me mais importante saber quem � D. Juan que divagar sobre a qualidade da sua trai��o ou at�, como o faz, como n�o traidor.

Comecemos por afirmar que D. Juan seria arrogante, cruel e traidor por convic��o ou natureza. Em �ltima inst�ncia n�o seria este D. Juan o pr�prio representante da decad�ncia social que tanto contestava? � ele quem o afirma em El Burlador de Sevilla:

Sevilla a voces me llama
el Burlador, y el mayor
gusto que en mi puede haber
es burlar una mujer
y dejalla sin honor.
Viva Dios, que le he de abrir,
pues sal� de la plazuela!
Mas, �si hubiese otra cautela?...
Gana me da de re�r (Tirso, I, 1448-57).

Ei-lo, o �bermensch.

(�) recordo e cito de mem�ria Nietzsche cuja ideia matriz se aplica a D. Juan. Dizia o pensador que ao indiv�duo nunca o elogio o sacia, uma vez atingido o seu objectivo, a paz significa para ele uma nova guerra e a vida deve ser um nunca mais acabar de aventuras cada vez mais perigosas. Ele n�o procura a felicidade mas apenas o gozo que o jogo lhe proporciona.

N�o ser� por aqui que D. Juan, o traidor, tem ou n�o esperan�a. Ou sequer que se consiga avaliar do grau de trai��o em valor menor ou valor maior, no caso dele ou de outrem. Trata-se, outrossim, de verificar que at� os traidores t�m esperan�a depositado a juros num futuro em que nunca o jogo pare, nunca a guerra acabe."
 


EARLY MORNING BLOGS 12

Nos blogues �

� as pessoas zangam-se muito, s�o muito piegas, s�o malcriadas, s�o gentis, s�o espertas, s�o espertinhas, s�o parvas, copiam, fazem de conta que n�o copiam, irritam-se, reconciliam-se, cuidam muito da sua identidade, d�o-se todas aos estranhos, representam, representam-se, s�o azedas, s�o poucas vezes alegres, s�o tristes, s�o tristonhas, s�o f�teis, s�o totalmente f�teis, t�m interesse, t�m interesses, t�m egos gigantescos, t�m egos pequeninos, t�m que �dizer-qualquer-coisismo� , deixam cair muitos nomes, deixam cair muitos livros, parece que l�em muito, l�em muito, n�o l�em quase nada, nunca v�em televis�o, tem gra�a, s�o engra�adinhas, t�m tribos, t�m f�rias, t�m territ�rios, est�o sozinhas, est�o tanto mais sozinhas quanto mais acompanhadas, t�m alguns pais, come�am a ter filhos, t�m maridos, n�o t�m amantes, t�m �o que escrevo � para ti�, t�m �o que escrevo � s� para ti�, t�m �o que escrevo � s� para ti�, mas � s� para mim , ou para o outro(a), n�o t�m muita paci�ncia, t�m pressa de chegar a algum lado, t�m a esperan�a de chegar a qualquer lado, est�o convictos que n�o v�o chegar a lado nenhum, t�m quereres, t�m birras, s�o meli-melo, s�o assim �

� porque se calhar � assim na vida toda.

Como os blogues n�o t�m editor, a vida aparece sem ser editada.
Engano, puro engano. Funciona aqui um gigantesco editor, o monstro que est� dentro.
 


LUA DIMINUINDO, MARTE AUMENTANDO

Ver a noite.
Marte adianta-se e passa para a frente da Lua. Soltou-se.
 


T�O, INFELIZMENTE, PORTUGU�S (Actualizado)

No ptBloggers, o seu autor escreve �vi-me ontem for�ado a suspender as vota��es e os coment�rios� . e explica porqu�:

al�m das manipula��es das vota��es (que por serem de conhecimento p�blico, n�o eram relevantes), come�ava a observar-se outro fen�meno, consequ�ncia dos referidos abusos. O facto da esmagadora maioria das pessoas dar �1 estrela� aos weblogs que achava sobre-avaliados e �5 estrelas� aos weblogs que julgava sub-avaliados, teve como resultado uma aproxima��o aos valores m�dios em todos os weblogs. Ou seja, em mais de 500 weblogs avaliados, a quase totalidade tinha 3 estrelas. A tend�ncia aparentava ser a continua��o deste sistema. Quando um weblog conseguia subir para 4 ou 5 estrelas, aparecia algu�m que lhe dava �1″, para o fazer descer, acontecendo tamb�m o mesmo no sentido inverso ."

A descri��o � eufem�stica. N�o � bem o "julgamento" que est� em causa, mas a niveladora inveja, a pecha nacional de que vale mais serem todos med�ocres e quem sobe acima da mediocridade, solta uma multid�o invejosa que faz tudo para o colocar no lugar.

*

Jos� Carlos Santos conta esta hist�ria verdadeira:

"O texto do autor do ptBloggers, (�) fez-me lembrar um acontecimento que teve lugar quando eu fui aluno universit�rio. A Associa��o de Estudantes da minha faculdade organizou um inqu�rito � qualidade do ensino. Para cada cadeira na qual um estudante estivesse inscrito, havia um conjunto de caracter�sticas (�facilidade de acesso � bibliografia�, �prepara��o pedag�gica do docente�, etc) que ele deveria classificar numa escala de 1 a 5. Uma determinada cadeira era particularmente detestada e os alunos n�o estiveram com subtilezas; todos, sem excep��o, classificaram com 1 valor cada uma dessas caracter�sticas da cadeira. Deveriam ter pensado um pouco mais no que estavam a fazer, pois um dos t�picos a classificar era �grau de dificuldade da cadeira�..."

Aviso: qualquer coment�rio que apare�a assinado �Abrupto� ou JPP ou qualquer variante (com excep��o de um colocado a dizer isto mesmo no ptBloggers, ) � falso. N�o uso as caixas de coment�rios para escrever sobre seja o que for.



17.7.03
 


DE LONGE PARA LONGE


 


OS ESPI�ES DE CAMBRIDGE

Li refer�ncias elogiosas � s�rie Cambridge Spies de que vi um ou dois epis�dios, o suficiente para perceber como � idealizado o que aconteceu. � verdade que, mais do que o costume, a s�rie mostra o �estilo de vida� do grupo dos �ap�stolos� transformados em espi�es sovi�ticos. Mas a idealiza��o, neste caso, � particularmente mistificadora porque prolonga a mesma complac�ncia snobe que permitiu a longa sobreviv�ncia do grupo. Esta gente matou � a lista dos agentes albaneses entregue aos sovi�ticos matou-os um a um, ou mandou alguns e as suas fam�lias para campos de concentra��o toda a vida.

Fossem eles nazis e a complac�ncia seria nula. Mas a verdade � que se os �ap�stolos� eram genu�nos comunistas na sua juventude, em breve se tornaram c�nicos que prezavam acima de tudo a snobeira de serem contra o establishment de uma forma irresponsavelmente perigosa. Entre as bebedeiras, o �catalogue raisonn� de Poussin, as gravatas certas, o tom upper class da m� l�ngua e os encontros clandestinos com o KGB, tudo parece f�cil e exerce nos espectadores o mesmo efeito de atrac��o das fotografias do jet set em f�rias ou das casas dos ricos e poderosos. Olha-se para cima , quando se devia olhar para baixo.

� um tra�o sinistro do �comunismo� das classes altas inglesas, que se encontra tamb�m nas manas Mitford, levarem o ar blas� das conversas dos clubes de Oxford e Cambridge a um elevado grau de imaturidade social e politica. A idealiza��o dos Cambridge Spies � isso mesmo: o elogio da irresponsabilidade.
 


EARLY MORNING BLOGS 11


Guerra e Pas tem uma delicadeza humana que eu aprecio. Nem piegas, nem c�nico, uma combina��o muito dif�cil e nada dessa irrita��o t�o � flor da pele que se encontra em muito blogues disfar�ada de convic��es. N�o concordo com muita coisa que l� se escreve, mas ontem h� duas notas, a 108 e 109, que mostram esses m�ritos.

Sobre a �Vergonha� vale a pena ler uma nota do Icosaedro com o mesmo t�tulo , e dois apontamentos em sentido diferente do S�cio[B]logue e do Terras do Nunca. Eu n�o quero acrescentar mais coment�rios ao que j� disse porque penso que a partir de agora � contraproducente. Mas a nota do S�cio[B]logue intitulada �Os Anormais, o Humor e os Estados-de-Esp�rito: Apontamentos Breves � mostra um risco que, h� dias, o Pedro Mexia levantava de passagem sobre o papel dos meta-discursos. Eu penso que h� ainda outro aspecto mais complicado que � a inerente justifica��o do real a partir da sua explica��o, que � um problema muito pr�prio do discurso sociol�gico. Presos na explica��o do real, que j� explica tamb�m como a ele reagimos, que valor �tico tem o que fazemos? O Terras do Nunca apercebeu-se disso e diz:

"Eu sei que talvez esteja a problematizar em demasia. E que o momento talvez exija o contr�rio, o da simplifica��o. S� ela conduz � ac��o."
 


LUA

Subiu agora, vinda do lado direito (esquerdo), ainda lua de haikai. Antes estava noite escura, Escorpi�o � frente.
 


OBJECTOS EM EXTIN��O 13

Alguns leitores desta s�rie (o Paulo Querido do uuh o vento l� fora e o M�rio Filipe Pires da Retorta ) sugeriram que ela se torne aut�noma e colocada num outro blogue, incluindo fotografias dos objectos referidos, e ofereceram gentilmente a sua ajuda. De novo, insisto, � bem vinda. O material que recebo � tanto, que , a continuar assim , afogaria o Abrupto s� de extin��es, ( n�o deixem de mandar sugest�es l� porque eu disse isto�) e por isso justificaria um tratamento pr�prio . Se estivessem de acordo poder�amos tentar faz�-lo em Setembro.

Vamos aos �objectos� em risco de se irem embora na mem�ria:

1) �aquelas capas de pele que h� uns anos serviam para levar livros ou blocos dentro. N�o sei se tinham um nome espec�fico. Recordo-me que, por foram tinham relevos com bustos do E�a, Herculano, Cam�es, etc. As melhores eram de pele, em cor natural, ou tintadas. Depois surgiram umas imita��es em cart�o a imitar pele. A �ltima que vi, h� uns cinco anos, era dessas. N�o sei se o objecto est� em extin��o ou extinto. Sei que gostava imenso de reencontrar essas capas para lhes meter livros dentro.� (Terras do Nunca )

(acho que tenho uma , quando a encontrar envio-lhe)


2) o amplificador a v�lvulas ( e Jos� Victor Henriques acrescentava �s�bado, 13 de Julho, no DNA, vai perceber porqu�.� J� percebi.)


3) "Coisas que se perderam
- as visitas ao zimb�rio da Bas�lica da Estrela;
- o sossego do litoral alentejano;
- as lagoas de Albufeira e �bidos sem polui��o

Coisas que ainda resistem
- as viagens de el�ctrico (carreira 28) dos Prazeres � Gra�a;
- alguns jardins (ditos p�blicos) de Lisboa;
- o �encher dos olhos� em alguns miradouros de Lisboa
"

(M. Ribeiro Santos)

4) �a proposito de objectos desaparecidos:-o "ring" de borracha t�o em uso nas praias! ; ainda joguei com um fabricado com "cabo" e forrado a lona no convez do "royal mail" "arlanza" numa viagem, no in�cio dos anos 60, de de Londres para Lisboa.. tambem j� passou � hist�ria,e. at� era a op��o mais barata.�

Mas o oposto, ideia que parece ter abandonado o Abrupto, que objectos continuam a ser usados numa mesma forma, parece um tema muito mais interessante para uma hip�tese museologica. A referencia ao livro The Libraries of..lembrou-me The book on the bookshelf do Henry Petroski onde se faz a hist�ria das estantes...- aquele t�o desejado acess�rio dos bibli�filos" (Abel Rold�o)

5) a "Plateia"

"revista de cinema, ou antes de artistas, femininas, � claro. Que pobreza, dir�... mas que riqueza, naquele tempo! � (Jose)

6) �O "rio Tejo como fonte de sustento"
.
Imortalizados por Alves Redol no seu livro Avieiros, estes n�madas do rio, como lhe chamou na �poca, deixaram de existir, por volta dos anos setenta, com a chegada da polui��o industrial.
Desde o in�cio do s�culo XX que grupos de pescadores oriundos da Praia de Vieira de Leiria se deslocavam no Inverno para a borda d'�gua para a apanha do s�vel e da enguia. A minha fam�lia f�-lo durante quase meio s�culo, garantindo assim o sustento dela. Hoje, mais de uma dezena de aldeias "palafitadas" de extraordin�ria beleza (antropol�gica se se quiser) permanecem desde Salvaterra de Magos at� Vila Franca de Xira. H� meia d�zia de anos, fiz o caminho e fui conhec�-las. Encontrei velhinhas sentadas a olhar o rio que me disseram: "O meu pai era da Vieira, mas eu nunca l� fui, n�o queria morrer sem l� ir uma vez que fosse
". (Jo�o Paulo Feteira)


7) "um link com uma exposi�ao online sobre o mesmo tema "things that don't want to die" do Pablo Garber "(Maria Sousa)


16.7.03
 


LUZ

Ele escreveu a esta mesma precisa hora:

A terr�vel luz do fim da tarde quando trabalham as andorinhas e para o vento e come�a a correr agua pelos infinitos e pequenos canais verdes.

Na ilha feita pela peste
.�
 


UMM KULTHUM

Vi, pelo Portugal dos Pequeninos, que passou na p�tria um document�rio sobre Umm Kulthum (os franceses chamavam-lhe Oum Kolsoum ), uma das vozes mais extraordin�rias do s�culo passado. Escrevi sobre ela um dos textos que era de facto pr�-blogue, como outro sobre Mohamed Abdelwahad, al Mousiqar quando ele morreu, h� uns anos atr�s. � natural que nas sec��es de �world music� encontrem discos de ambos. Mas n�o � folclore, � grande, grande m�sica.

Encontram aqui uma p�gina sobre Inte Omri, uma das mais belas can��es da dupla Kulthum, a cantar, e Abdelwahab a compor.

S�o quarenta minutos de emo��o pura, com toda a representa��o quase oper�tica, que este tipo de m�sica pressupunha. Kulthum, de p�, com um len�o na m�o, � frente de uma orquestra de cabaret ( depois de concerto), tudo trajado a rigor, abrindo com a longa introdu��o orquestral, precedendo o momento culminante da primeira linha do poema, �Ragaa�ouni a�einaik el Ayam illi rahou� , �os teus olhos levam-me para os dias que j� n�o voltam� .

Nestas can��es este tem que ser o momento perfeito, a entrada da voz, �s vezes precedida de pequenos sons anunciadores. A voz tem que se abrir na sala como um profundo lamento, vinda , no caso de um poema como este, de uma dor muito intensa, magoada. O poema � importante, linha a linha repetido, uma longa lamenta��o triste e nost�lgica.
 


EARLY MORNING BLOGS 10

Seria ingrato se n�o referisse o Desesperada Esperan�a , que se inspirou num livro meu.

Alguns dos melhores blogues que conhe�o s�o de jornalistas, e esses blogues tem contribu�do para um dos debates que mais falta na sociedade portuguesa: o da qualidade da comunica��o social. � um debate para que os blogues s�o particularmente apropriados (levantei esta quest�o h� um m�s, h� um s�culo na blogosfera, no texto �Discutir os blogues� ) n�o s� pela sua imediaticidade, como pela liberdade de discuss�o dos constrangimentos corporativos, que s�o fortes. Pouco coisa h� de mais violento do que uma pol�mica entre jornalistas ou entre jornais sobre o que cada um faz e n�o faz. Sei tamb�m por experi�ncia pr�pria, e por t�-lo proposto nos �ltimos vinte anos v�rias vezes a amigos jornalistas que me pedem sugest�es, e a quem respondo sempre � fa�am espa�os de cr�tica sobre a imprensa como os jornais acham natural fazer sobre a televis�o. Sim, muito bem, � muito interessante e nunca avan�ou.

A imediaticidade, com todos os seus riscos, � importante neste caso porque a mem�ria activa da comunica��o � hoje muito curta e percebe-se melhor o que se est� a discutir se tiver ocorrido ontem, ou anteontem. Blogues como o Ponto M�dia e o Jornalismo e Comunica��o fornecem depois a dist�ncia reflexiva necess�ria. Imediaticidade e dist�ncia, s� nos blogues.

Veja-se sobre este debate o Terras do Nunca , Guerra e Pas , Outro, eu e Donos da Bloga


Escrevi umas �Notas sobre o jornalismo pol�tico� que ainda est�o incompletas, falta a nota sobre o Independente. A raz�o porque est�o incompletas � que ainda n�o encontrei um texto que queria publicar antes de o actualizar, porque, contrariamente ao que acontece com outros jornais , o Independente ( de Portas e MEC) teve muita influ�ncia na fase inicial da blogosfera e merece um tratamento mais aprofundado.

15.7.03
 


REMEDIAR A VERGONHA


Os protestos contra a explora��o de um ser humano com problemas mentais no �ltimo programa Herman SIC est�o em dezenas do blogues. Muitos jornalistas e pessoas com acesso a outros meios de comunica��o n�o podem ter deixado de os ler, pelo que s� por indiferen�a moral � que a quest�o n�o chega amanh� ao p�blico da comunica��o em geral. Eu sei que n�o existe essa indiferen�a e que h� muita gente incomodada e indignada.

Ficava bem a Herman no pr�ximo programa come�ar por calar o p�blico, e dirigir-se aos espectadores dizendo uma coisa t�o simples como isto : �na semana anterior ultrapassamos neste programa um limite que deve ser inultrapass�vel e tratamos mal um amigo nosso que tem problemas. Pedimos-lhe desculpas e pedimos desculpa ao p�blico. N�o se torna a repetir. " E depois segue o programa.

N�o precisa de o nomear, e se o nomear use o seu nome normal e n�o uma alcunha qualquer. Francisco Balsem�o se dissesse alguma coisa tamb�m lhe ficava bem.

Eu n�o tenho muito jeito nem para campanhas destas, nem para filantropias p�blicas. A �ltima coisa que me passa pela cabe�a fazer s�o campanhas moralistas e n�o voltarei ao assunto porque j� disse o que tinha a dizer. Mas se um gesto deste tipo fosse feito talvez fic�ssemos todos um pouco melhor.
 


SOBRE A TORTURA

Miguel Pinheiro , a prop�sito das �Notas Camusianas� sobre a trai��o, enviou-me este texto:

"Elio Gaspari est� a publicar v�rios volumes sobre a ditadura brasileira e,
no segundo, intitulado A Ditadura Escancarada, toca ao de leve nesse tema,
com um ponto de vista interessante (ali�s, deixe-me dizer-lhe, a
desprop�sito, que ele escreve onze p�ginas (da 20 � 31) brilhantes sobre a
tortura e suas consequ�ncias na ditadura, na oposi��o e na sociedade).

Na p�g. 267, Gaspari fala da morte do guerrilheiro Carlos Marighella: ele
foi assassinado pelos homens do regime com base em informa��es dadas,
debaixo de tortura, por frades dominicanos. Ali�s, os religiosos foram
obrigados a estar fisicamente presentes durante a armadilha, servindo de
isco.

Escreve ele: �A presen�a dos padres na cena da cilada contra Ernesto
(um dos nomes de c�digo de Marighella) adicionou ao epis�dio uma ideia, t�o
falsa quanto perversa, de trai��o degradante da figura m�tica dos
guerrilheiros. �Beijo de Judas�, comentou o jornal O Globo dias depois�.

Numa nota de p� de p�gina, Gaspari explica por que � que acha essa ideia
�falsa� e �perversa�: �Os dominicanos teriam tra�do Marighella se o tivessem
atra�do para a cilada por terem mudado de opini�o a seu respeito, ou ainda
se, ante alguma promessa de recompensa, visassem algum proveito pessoal ou
pol�tico. Um acto praticado diante do medo do retorno a supl�cios
sistem�ticos s� pode ser considerado uma trai��o se o uso da tortura como
forma de extrac��o de confiss�es � aceite como parte do acervo moral e �tico
da pessoa que declara traidor o preso submisso�.

Ser� que mesmo quem fala sob tortura pode, mantendo a sua integridade moral,
n�o trair � mesmo tendo tra�do? Pode haver uma trai��o efectiva (com
consequ�ncias como, neste caso, a morte do �tra�do�) sem haver uma trai��o
moral? E ser� que isso serve de consolo ao �traidor�?
 


VERGONHA

A vergonha da explora��o de um jovem atrasado mental no Herman Sic tem sido denunciada por v�rios blogues. Esta � uma mat�ria que deve ultrapassar a blogosfera para chegar ao mundo exterior. Se continuarmos todos a fazer barulho, chega.
 


EARLY MORNING BLOGS 9

Quando se l� um n�mero suficiente de blogues e, esfor�ando-me por sair da rede mais densa do mainstream, � aquele c�rculo de blogues que est�o intensamente �linkados� uns com os outros e tem uma massa cr�tica suficiente para impor tem�ticas e aparecer como a face da blogosfera fora dela � apercebem-se as tend�ncias e apercebe-se, acima de tudo, a enorme revolu��o do meio em Portugal nos �ltimos meses. Por isso � que o meta-bloguismo � natural, � uma reac��o de auto-compreens�o e auto-defini��o compreens�vel em tempos de tumulto.

V�rias coisas aconteceram ao mesmo tempo como � habitual numa revolu��o. Cito Lenine, j� que os nossos amigos � esquerda tem grande pudor em o fazer, - e permito mais umas brincadeira humor�sticas comigo inteiramente previs�veis - porque a frase aplica-se bem ao momento actual da blogosfera :

S� quando os "de baixo" n�o querem e os "de cima" n�o podem continuar vivendo � moda antiga � que a revolu��o pode triunfar.�

O que se est� a dar � a democratiza��o da blogosfera com a entrada de muita gente no duplo sentido: novos blogues e novos leitores. Por outro lado, a exposi��o exterior dos blogues introduziu diferentes crit�rios de avalia��o que n�o coincidiam com os dominantes no seu interior.

Este efeito acabou com a blogosfera cosy , fortemente estratificada entre blogues a quem ningu�m ligava nenhuma e blogues que atrav�s de um permanente di�logo, do auto-elogio, de um esp�rito de elite que ultrapassava claramente qualquer barreira ideol�gica, se apresentavam como primus inter pares. A distin��o esquerda - direita era menos importante do que a distin��o entre os amigos e os desconhecidos, entre �n�s, os bons� e eles a turba ignara de mau gosto. A lista de �blogues de servi�o p�blico� no Blogo era o retrato desse mundo fechado que explodiu.

Era tamb�m natural que a maioria das pessoas se conhecessem umas �s outras e fossem amigos. Quando, num meio de comunica��o qualquer, todos se conhecem, ou todos tem a mesma idade, ou todos tem a mesma forma��o, ou todos l�em os mesmos livros, ou frequentam todos os mesmos restaurantes, � porque esse meio est� na inf�ncia.

Tudo isto gera muitas tens�es e uma certa irrita��o era inevit�vel (�os "de cima" n�o podem continuar vivendo � moda antiga�). Nalguns blogues mais antigos h� uma clara evolu��o do blogue-optimismo para o blogue-cepticismo, que nada justifica, porque s� um cego � que pensa que a blogosfera est� pior porque n�o � um clube de vinte amigos. � natural que tenham vontade de migrar e para isso, por raz�es psicol�gicas, desvalorizam o que deixam para tr�s.

Um dos aspectos mais saud�veis da democratiza��o da blogosfera � que hoje � mais dif�cil �competir� (tomem a palavra com a latitude que quiserem), ter influ�ncia, j� h� muitas vozes qualificadas, muito saber em muitas �reas, uma diversifica��o tem�tica, de opini�es e de escritas, que a capacidade para se afirmar j� n�o depende do elogio m�tuo, mas de se ter ou n�o uma voz pr�pria e persist�ncia. Este �ltimo factor � o que mais falta na blogosfera, onde um m�s � um s�culo e se chega a conclus�es taxativas lendo cinco ou seis blogues de um dia para o outro.

Eu sou liberal no sentido antigo, prezo a chuva e o mau tempo, a f�ria e a calma das discuss�es, e gosto de ouvir muitas vozes diferentes. Como j� disse e repito, na blogosfera, a �m�o invis�vel� est� dentro da cacofonia e para exercer o seu efeito positivo � suposto ser mesmo �invis�vel�. A blogosfera portuguesa passou de ter uma m�o �vis�vel� para ter uma �invis�vel� e foi, em primeiro lugar, o n�mero que provocou esse efeito. Mais gente, mais vozes, tudo mais �rduo. Esta � a revolu��o.

 


M�S DE MARTE (Actualizado)

O pr�ximo m�s � o m�s de Marte nos c�us e no Abrupto. Marte est� mais pr�ximo da terra do que jamais esteve em muitos milhares de anos, e os telesc�pios caseiros v�o poder ver melhor o nosso vizinho planet�rio do que em qualquer outra altura.

No Abrupto haver� notas sobre a cor vermelha, a guerra, o sangue, a viol�ncia, a �pica, os marcianos, os homenzinhos verdes, Percival Lowell , o Mars Global Surveyor, H. G. Wells. Tudo junto ou em separado. Podem come�ar a fugir.

*
R. P. do Hipatia teve a gentileza de enviar algumas indica��es quanto � observa��o de Marte :

"o m�s em que Marte estar� mais perto da Terra ser� Agosto (pelas minhas contas, mais precisamente no dia 27, com uma magnitude -2,9 e a cerca de 56 milh�es de kilometros). Para complementar, � a dist�ncia mais curta dos �ltimos sessenta mil anos, mais coisa, menos coisa. De qualquer maneira � mais f�cil v�-lo em Julho, pouco acima da Lua, no sentido do quarto minguante, e com uma magnitude -1,8/-2,3. Em Agosto basta procurar a constela��o de Aqu�rio para ver o dito em todo o seu esplendor vermelho, passe a express�o."

SOM

O som da laguna � noite � regular, pequenas ondas sempre a bater como um rel�gio. �s vezes ao longe, um breve vapor, algu�m que chega tarde, regressa sobre as �guas. Algu�m diz: n�o venhas tarde. A lua levanta-se sobre Il Redentore, lua de haikai, entre novas nuvens. Amanh� deve chover.


14.7.03
 


NOTAS CAMUSIANAS 4 � SOBRE DOM JUAN

Sobre o Dom Juan, a pretexto da pe�a n�o escrita de Camus.

O que todos esquecem � que Dom Juan � feliz. � a felicidade de Dom Juan que � subversiva.

Como todos os homens felizes, Dom Juan transporta consigo uma porta aberta.

Est� algu�m � porta. �Entra� diz Dom Juan.


NOTAS CAMUSIANAS 5 � SOBRE A TRAI��O

Os traidores sofrem de logomaquia.

Os traidores fogem dos espelhos, n�o se podem ver ao espelho.

Nos filmes italianos, as mulheres cospem nos traidores. J� vi acontecer isto uma vez.


*

As hist�rias de trai��o s�o muito curtas e muito duras. Cortantes.

Uma, verdadeira, ocorrida no in�cio da d�cada de cinquenta .

Dois presos encontram-se na cadeia, um intelectual e um oper�rio. Ambos comunistas. O intelectual tinha falado, o oper�rio era funcion�rio do PCP. O oper�rio disse-lhe:

�Ent�o filosofo? Filosofo de merda! Filosofo da trai��o! Est�s bem?�

� assim que s�o as facadas. Sentiram?

 


LUGARES DA DECAD�NCIA 2

Livraria Aurore , �antiquaire marxiste-leniniste�

A livraria �Aurore�, do nome do coura�ado, � uma das �ltimas sobreviv�ncias de uma esp�cie em extin��o: a livraria marxista-leninista. Havia v�rias em Paris, uma atacada � bomba em 68 ou 69, uma em Londres muito conhecida a Banner Books and Crafts em Camden Town, etc.

Esta � em Bruxelas , no meu bairro, e foi uma grande surpresa encontr�-la nas minhas primeiras explora��es pedestres. Fica em frente de outro alfarrabista com o nome curioso de Ecrit Vint, que, n�o tendo muitos fundos antigos, � boa para comprar mais baratos livros relativamente novos.

A livraria � pequena, pouco mais do que uma sala com uma pequena bancada inacess�vel. A porta � s�lida, recorda��o dos tempos em que era suposto uma livraria destas ter portas blindadas. A sua montra, h� muito tempo por pintar, est� praticamente coberta de livros e s� uma pequena parte deixa passar a luz para o interior. J� de fora se tem a impress�o de um espa�o muito pequeno, literalmente coberto de livros e outra parafern�lia pol�tica, discos, cartazes, revistas, pins, bandeiras, etc. Depois, l� dentro, h� pouca luz e muito p�.

H� pouco espa�o livre e quando se entra, � esquerda, o que sobra, � dominado por uma secret�ria antiga, s�lida, atr�s da qual est� o dono da livraria, t�o robusto e s�lido como a secret�ria. � um flamengo atarracado e muito encorpado, (pode ser maior mas nunca o vi de p�), com uma enorme barba ruiva, talvez com mais de cinquenta anos um pouco disfar�ados . Est� muitas vezes de cal��es, n�o parece um intelectual, mas talvez um antigo oper�rio. Espero que ele nunca leia isto, mas � muito parecido com um dos b�er que foi morto no Bophutatswana, num incidente nos �ltimos dias do apartheid sul-africano. O homem cumprimenta os seus raros clientes e recebe com frequ�ncia amigos, �camarades�, com quem conversa longamente sobre reuni�es, com�cios, manifesta��es, e outros �camarades� . Uma vez estava a falar de um encontro em que estiveram os �camarades portugais�, que deviam ser da UDP. Eu vou l� algumas vezes, quando os hor�rios s�o compat�veis, porque a livraria est� quase sempre fechada, compro bastantes coisas e ele deve achar que eu sou ou grego, ou espanhol e talvez portugu�s, as tribos emigrantes do bairro. Os �rabes n�o v�o l�, concentram-se nos caf�s � volta.

A livraria foi �marxista-leninista�, mas h� muito deixou de o ser. Hoje tem publica��es anarquistas, conselhistas, �revisionistas�, e um n�mero consider�vel de obras de Trotsky, o que nenhuma livraria dos bons tempos ultra-sect�rios sonharia ter . Depois h� aquilo que se pode esperar. as obras de Lenine, os velhos livros da Maspero, Gorki, publica��es sobre o movimento oper�rio belga em flamengo, Henri de Man, discursos de Fidel, cartazes do Che, discos com a Varsovienne , a Carmagnole e a Internacional.

O que para mim tem mais interesse s�o as publica��es anteriores aos anos sessenta. Para o meu trabalho s�o exactamente esses livros e folhetos os mais interessantes, porque praticamente nunca chegaram a Portugal. Textos de Thorez , Duclos, Garaudy do imediato p�s-guerra, publica��es peri�dicas dos partidos comunistas franc�s , belga, da Internacional nos anos trinta, livros sobre a Resist�ncia, e as revistas liter�rias e �culturais� comunistas como as Recherches Internationales � la Lumi�re du Marxisme ou a Litterature Sovi�tique .


O tempo gerou este ecletismo, � medida que o coura�ado foi saindo do Museu da Revolu��o e entrando para o museu dos navios antigos. S�o apenas livros? N�o s�. � uma hist�ria terr�vel que est� l� dentro, com um rastro de milh�es de mortos, e o flamengo a vel�-la, na sua pequena sala bruxelense, onde quase ningu�m entra.

(Na s�rie dos �lugares da decad�ncia� est� a 12 de Julho um texto sobre um casino em Baku)
 


LUA

Lua japonesa, lua de haikai. Algu�m a v�?
 


VERGONHA

A utiliza��o no programa de Herman de um jovem atrasado mental, � mais um degrau que se desce numa escada invis�vel para o vale tudo. O problema � que h� quem ache engra�ado. Estou mesmo a ver algum engra�ado a fazer o coment�rio que h� muitos �atrasados mentais� piores que l� v�o e eu n�o protesto. A diferen�a est� nas aspas e � uma gigantesca diferen�a. Experimentem trocar.

13.7.03
 


NOTAS CAMUSIANAS 2 (Actualizado)

Paulo Azevedo faz a seguinte pergunta a prop�sito das anteriores considera��es sobre a trai��o:

JPP : "Pedro parou � porta da trai��o. Como muitos dos homens do Novo Testamento mostrava a sua humanidade pela queda. Mas se continuasse a abjurar cairia na trai��o e a trai��o deixa uma mancha moral indel�vel."

Paulo Azevedo: �O que � que entende, neste caso, por 'continuar a abjurar'? 'Alargar' a ren�ncia ou insistir na abjura��o feita? Por outro lado; ser� que a insist�ncia na abjura��o tem sempre como consequ�ncia o alargamento da ren�ncia e � isso que pode situar o abjurador �s portas da trai��o?�

Vamos a um caso concreto que tem a ver com os interrogat�rios da PIDE. Como em todos os casos concretos por detr�s est�o terr�veis dramas pessoais. � uma coisa que conv�m n�o esquecer nunca, e que impede qualquer arrog�ncia moral.

A PIDE (ou a Gestapo, ou a NKVD, ou o KGB) cometia viol�ncias sobre os presos para obter confiss�es. N�o interessa agora saber de que tipo eram essas viol�ncias, se eram muitas ou poucas, se eram f�sicas ou psicol�gicas, - eram viol�ncias. Os presos, se confessavam, isso significava fornecer informa��es que ajudavam a pol�cia que fazia parte do regime que se pretendia combater. .Dessas confiss�es resultavam novas pris�es e novas viol�ncias, muitas vezes sobre amigos e pessoas pr�ximas. Isto durou quarenta e oito anos e destro�ou muitas vidas.

O PCP teve desta situa��o uma experi�ncia �mpar. Quem tiver curiosidade de ir mais longe encontra algumas reflex�es na an�lise do texto, Se Fores Preso Camarada.. , na minha biografia de Cunhal, volume segundo.

A estrat�gia do partido face a esta situa��o evoluiu grosso modo assim:

- enganava-se a PIDE com uma historieta qualquer (esta era a atitude comum nos anos trinta) ; a pol�cia, como todas as pol�cias, n�o tinha dificuldade em perceber que estava a ser enganada e ia mais longe na viol�ncia, conforme lhe interessava e conforme a origem social do preso:

- o preso contava o que sabia e incriminava-se a si mesmo, ou confirmava o que a policia sabia , mas n�o dava elementos novos ; nos anos trinta este comportamento era aceit�vel e mesmo depois admitia-se como razo�vel, ainda que n�o se considerasse publicamente ser aceit�vel;

- a partir dos anos quarenta ou se falava ou n�o se falava ; podia n�o se falar negando toda a veracidade �s acusa��es da PIDE, na maioria dos casos oriundas em confiss�es arrancadas a outros presos , ou afirmando-se a qualidade de comunista ou de opositor, seguida de uma negativa taxativa de fazer quaisquer outras declara��es.

Aqui � que entra a quest�o da abjura��o. Quando um preso seguia uma t�ctica de negar a sua qualidade de comunista ou opositor, afirmando nada ter a ver com as acusa��es, sendo inclusive obrigado a fazer declara��es anticomunistas e ofensivas daquilo que realmente pensava, abria-se um espa�o de colabora��o com a pol�cia, uma situa��o de promiscuidade que levava, mais cedo ou mais tarde, a maioria dos presos a dizer tudo, a trair. Se o preso se dizia t�o ferozmente anticomunista como podia ele recusar esta ou aquela pequena dela��o, esta ou aquela pequena colabora��o com a pol�cia no local de trabalho. Era um terreno movedi�o e a pol�cia estava na m� de cima,

Quando um preso dizia, como os funcion�rios do partido eram aconselhados a fazer, �eu sou funcion�rio do PCP n�o tenho mais declara��es a prestar� , a integridade psicol�gica do preso permanecia intacta e depois era apenas uma quest�o de resistir �s viol�ncias. A PIDE quando j� tinha torturado algu�m e o preso tinha mantido o sil�ncio, muitas vezes aceitava a declara��o e passava adiante sem repetir as torturas. Por isso era muito importante n�o fazer sequer uma declara��o, por pouco importante que fosse, porque a partir da� a PIDE continuava a pressionar. Falar um pouco era apenas garantir mais torturas.


N�o se caia aqui na simples dicotomia entre coragem e covardia. Esta era uma situa��o limite, em que o preso n�o tinha qualquer defesa, como dizia a PIDE �a lei n�o chegava l� , estava solit�rio numa cela , acordado a qualquer hora, isolado, espancado, n�o sabendo o que tinha acontecido �l� fora� , insultado, com os seus familiares e amigos numa situa��o de risco.

Mas, como o PCP ( e Cunhal no seu texto percebeu), a abjura��o era uma porta aberta � trai��o e quando mais se abjura mais perto se est� de trair. A persist�ncia na abjura��o gera a promiscuidade com o inimigo, leva a uma identifica��o com ele. H� excep��es , mas confirmam a regra.

*

Posteriormente Paulo Azevedo enviou-me o seguinte coment�rio:

"Penso que a contextualiza��o que d� ao seu racioc�nio � muito espec�fica; sendo que o mesmo tema levantar�, provavelmente, outras possibilidades de an�lise quando referidas a outras situa��es.
A identifica��o ao agressor de que fala no seu coment�rio �, na minha opini�o, uma observa��o muito pertinente. Ao mesmo tempo que o agredido se identifica com o poder omnipotente do agressor para assim tentar controlar a ang�stia derivada da humilha��o ou da constata��o da sua fraqueza; tenta ainda neutralizar de forma eficiente o conflito moral gerado pela trai��o anterior, atrav�s do investimento num novo (suposto) v�nculo de confian�a. A catadupa de den�ncias que se seguem (e de que nos fala no seu post) servem perfeitamente estes dois prop�sitos (poucas vezes conscientes)."



NOTAS CAMUSIANAS 3

Noutros planos, noutras trai��es, deixando agora estes exemplos reais para passar aos irreais.

Vale a pena analisar o �al�vio do traidor� . O traidor pensa que escapa �s circunst�ncias da sua trai��o e ao que (ou a quem) traiu, aprofundando a sua trai��o, identificando-se cada vez mais com o objecto da sua trai��o, com as suas novas fidelidades. Puro engano. A trai��o n�o � mudan�a, n�o � evolu��o, mina por dentro. Manifesta-se pelos sentimentos larvares, pela melancolia do cansa�o, pela nostalgia impotente, pela recorda��o constante de quando se era limpo e sem culpa e com esperan�a. Os traidores n�o t�m esperan�a, porque desmereceram da que tinham. O passado persegue-os comendo-lhes as entranhas. Deixam de ter futuro, s� passado e este � insuport�vel.

Falo dos grandes traidores, os pequenos passam bem.

Estudar os n�o traidores. Por exemplo Bo�cio e Dom Juan.

Dom Juan nunca traiu, permaneceu fiel a si mesmo, cantando a caminho do inferno.

O facto de Dom Juan n�o abjurar nem trair era o que mais incomodava os franciscanos. No projecto de pe�a de Camus, nunca terminada, os monges matavam Dom Juan e culpavam o Comendador. O objectivo era poderem dizer �Dom Juan converteu-se� .

Comentar aquilo de que Dom Juan n�o se queria �converter� .

O pai franciscano. - V�s n�o acreditais ent�o em nada Dom Juan?

Dom Juan. - Sim, meu pai, em tr�s coisas.

O pai. - Pode saber-se quais?

Dom Juan. - Creio na coragem, na intelig�ncia e nas mulheres.

O pai. - Torna-se ent�o necess�rio perder as esperan�as em v�s.

Dom Juan. - Sim, caso suponham necess�rio lamentar um homem feliz. Adeus meu pai.

O pai (j� na porta). -Rezarei por v�s, Dom Juan.

Dom Juan - Agrade�o-vos muito meu pai. Pretendo ver nisso uma forma de coragem.

O pai (suavemente) - N�o. Dom Juan, trata-se apenas de dois sentimentos que v�s vos obstinais em desconhecer, a caridade e o amor.

Dom Juan. - Eu apenas conhe�o a ternura e a generosidade que s�o as formas viris dessas duas virtudes f�meas. Mas adeus, meu pai.

O pai. - Adeus, Dom Juan.


(Camus, Cadernos, Lisboa, Livros do Brasil , s.d.)
 


EARLY MORNING BLOGS 8


Abro com a nota que o Huuuu�. O vento l� fora do Paulo Querido fez sobre a Abrupto. Agrade�o-lhe as palavras e as cr�ticas �t�cnicas� que s�o tamb�m de conte�do, visto que isso � insepar�vel neste caso. A riqueza das cr�ticas e sugest�es obriga a ler a nota original.

Eu dou muita import�ncia a estas mat�rias at� porque um dos aspectos que me interessa nos blogues � a sua novidade formal, o �di�rio� imediato e o modo como essa forma molda a escrita. Interessa-me tamb�m o aspecto comunicante que tem com outros mecanismos medi�ticos: os artigos , os livros, etc. . Tenho estado a estudar HTML, o que nunca tinha feito, e visitado diferentes blogues , com diferentes plataformas, e apercebi-me das m�ltiplas possibilidades de melhorar. Mas aqui � que o tempo me limita.

Tenho usado no Abrupto de algumas experi�ncias que t�m mais a ver com o conte�do do que com a forma, embora saiba que esta distin��o �n�o tem conte�do�. Experimentei fazer agendas regulares, textos in the making com contribui��es interactivas, seriar as notas de modo a dar-lhes continuidade, usar um sistema como o do software para numerar os textos que v�o mudando (1.0, 1.1, 2.0, etc.) , utilizar c�digos com o sublinhado para distinguir modifica��es nos textos , puxar para a p�gina vis�vel, de forma recorrente, notas ou textos � como a preven��o sobre o correio do Hotmail - que queria que funcionassem como avisos, etc.

Mas em muitas delas encalhei na forma do blogue, na tend�ncia irreprim�vel de atirar para um esquecimento r�pido o que eu queria que ainda ficasse na lembran�a, ou num esquecimento lento, na dificuldade em dar-lhe uma mem�ria activa (passiva tem nos arquivos), e em manter a inter rela��o entre os pr�prios textos do blogue. J� para n�o falar da lentid�o com as imagens, e as dificuldades de acesso ao Blogger que limitam a �imediaticidade� do meio.N�o tenho d�vidas que � poss�vel melhorar em todos estes aspectos, continuarei a estudar as possibilidades e agrade�o e aceito a disponibilidade de Paulo Querido para me ajudar.


Dois blogues produzem uma escrita mediada, reflexiva, de leitura obrigat�ria n�o s� sobre a blogosfera, como sobre a sociedade sem a qual nada se entende do que se passa por aqui: o S�cio[B]logue, que saudei desde o in�cio, e o Avatares do Desejo . Vejam-se as �ltimas notas dos �avatares� que valem a pena.


Voltou o Latinista Ilustre que ningu�m queria perdido nos c�rculos exteriores. Ainda n�o descobri o enigma maurrasiano, mas j� pedi a um amigo que tem um amigo que tem um amigo que � especialista na direita francesa para saber o que s�o as enigm�ticas iniciais.

 


ADULA��O BEATA POR LULA

Um caso de adula��o beata por Lula � o artigo de Paulo Cunha e Silva , "Lulofilia" no Di�rio de Not�cias de hoje. � um exemplo t�pico de "culto de personalidade", esp�cie que sobrevive � esquerda mais do que se pensa. Ali�s lembra o que se escreveu sobre Fidel de Castro, antes deste ter ca�do do pedestal da "Revoluci�n". Uma amostra da "Lulofilia" :

"Lula tem a dimens�o do Brasil. � grande, embora baixo. � generoso. Tem piada. Tem ritmo. Tem samba. Tem um charme completamente desarmado e desarmante. � atarracado, mas irradia confian�a. � o contr�rio de uma pop star ou de um top model. E todavia � uma pop star e um top model. � uma estrela popular e � um modelo de topo. Como se diria no Brasil, Lula � fashion. Ou ent�o, � gente fina. Fica bem no sal�o mais sofisticado e no mais miser�vel bairro social. A sua dignidade � t�o transbordante que d� para dar e vender. Lula empresta dignidade a qualquer espa�o ou situa��o. E, ao faz�-lo, inaugura uma nova modalidade de fazer pol�tica. "

Mais nada? E o que � que sobra para Nosso Senhor?

 


NOTAS CAMUSIANAS

Escrever umas considera��es sobre a trai��o.

A rela��o entre a abjura��o e a trai��o. Porque � que a abjura��o � mais importante do que a trai��o. Ou porque � que a trai��o come�a na abjura��o.

A trivialidade da abjura��o. � no momento em que quem abjura o faz com trivialidade, com sentimento de trivialidade, porque n�o � importante, que se abre o caminho da trai��o.

Abjura��o de Pedro :

Depois de terem cantado o hino, foram para o monte das Oliveiras. Ent�o Jesus disse aos disc�pulos: "Todos v�s ficareis desorientados, pois est� escrito: 'Ferirei o pastor e as ovelhas se dispersar�o'. Mas, depois de ressuscitar, eu vos precederei na Galil�ia". Pedro, por�m, lhe disse: "Mesmo que todos fiquem desorientados, eu n�o ficarei". Respondeu-lhe Jesus: "Em verdade te digo: ainda hoje, esta noite, antes que o galo cante duas vezes, tr�s vezes tu me negar�s". Mas Pedro repetiu com veem�ncia: "Ainda que tenha de morrer contigo, eu n�o te negarei". E todos diziam o mesmo.�

� nesta frase que est� a chave : : "Ainda que tenha de morrer contigo, eu n�o te negarei". E todos diziam o mesmo.�

Todos diziam o mesmo� . Cristo nunca lhe disse �n�o me traias� , mas sabia que ele ia neg�-lo.

Pedro � dos poucos que abjurou e depois n�o traiu, mas Pedro era �um homem de Pedra�. O Padre Ant�nio Vieira no Serm�o de S.Pedro explica a diferen�a :

Primeiro lhe chamou homem de pedra e depois lhe entregou as chaves, porque as chaves do Reino s� em homens de pedra est�o seguras. Os homens de barro quebram, os de pau corrompem-se, os de vidro estalam, os de cera derretem-se; t�o duro e t�o constante h�-de ser como uma pedra, quem houver de ter nas m�os as chaves do Reino: Tu es Petrus, tibi dabo claves.

Pedro parou � porta da trai��o. Como muitos dos homens do Novo Testamento mostrava a sua humanidade pela queda. Mas se continuasse a abjurar cairia na trai��o e a trai��o deixa uma mancha moral indel�vel.

A principal destrui��o da trai��o � a do car�cter. N�o h� car�cter que sobreviva � trai��o. O traidor pode ser tudo, ter todas as qualidades, ter mesmo virtudes, mas, na volta da trai��o, perdeu a integridade, perdeu, mesmo que n�o o saiba, o respeito por si pr�prio.

Outro sinal da trai��o � o excesso de explica��es, essa voz doentia de auto justifica��o, uma esp�cie de engano para consumo pr�prio. Todos os traidores sabem que tra�ram. Pedro salvou-se porque se arrependeu. N�o se justificou.

*

Para al�m do caso de Pedro, a excep��o.

No meu trabalho sobre a hist�ria portuguesa contempor�nea, a quest�o mais delicada que se encontra � a da trai��o. Trai��o for�ada pela viol�ncia, mas sentida como trai��o. � uma ferida que atravessa, invis�vel, muitos portugueses. N�s n�o os consideramos traidores, mas eles sentem que o foram. Talvez a maior viol�ncia que a PIDE jamais fez em Portugal foi exactamente gerar traidores, fazer de homens e mulheres �ntegros, gente que se sente assim . Sobre este tabu, ainda ningu�m escreveu.


12.7.03
 


CONTRA O EF�MERO

L� atr�s est�, esquecida da p�gina vis�vel, uma bela pintura.

O ef�mero � da natureza do meio, mas pode ser combatido. Pode-se sempre puxar a imagem para a frente, para que n�o entre aqui a maldi��o dos �quinze minutos � da fama.

 


LUGARES DA DECAD�NCIA

Casino em Baku ( ou foi em Ashkabad ?)

N�o � uma cave, mas parece uma cave. Neons a brilhar na rua escura : Casino Las Vegas ou semelhante. Las Vegas em Baku, a descer para o porto, cheirando a petr�leo, passando pelos pal�cios escalavrados dos magnates do in�cio do s�culo, estuque a cair, passando pela �pera, uma torre otomana, no meio do lixo e dos retratos do presidente Aliev.

� uma sala pequena, poucos metros, quatro ou cinco mesas de roleta, um bar da Moviflor, em bom rigor � tudo da Moviflor, de alguma Moviflor turca. Predomina a napa preta e vermelha. Vidros, espelhos, reflexos. Junto �s mesas da roleta a napa est� brilhante. Mesas de pl�stico para pousar os copos. Muitos cinzeiros que isto � terra do Marlbourough man, para onde se retiraram as firmas de tabaco .

Mais sil�ncio do que seria de esperar em terras onde est� sempre a tocar qualquer coisa. A televis�o turca. A lambada. Outras lambadas de que j� ningu�m se lembra, mas sobrevivem aqui uma vida post-mortem. Sil�ncio, ocasionalmente algum universal �oh!� dos que ganham ou perdem. O barulho de uma slot-machine, o rolar da bola na roleta, �rien ne va plus� em azeri, em ingl�s.

Nunca est� muita gente, mas est� sempre gente. A gente da casa: os homens em fato preto gasto, as armas bem vis�veis por baixo da roupa. As mulheres, nas mesas da roleta, ou servindo, ou estando em grupos silenciosos numa mesa do canto, russas, ucranianas, uma ou outra azeri, turcas, vestidas de er�tica de motel dos anos cinquenta.

Bebidas ocidentais escuras numa terra dominada ainda pelas bebidas brancas, aguardentes e vodkas. Whisky, cocktails coloridos para as senhoras, Cuba livre, misturas. Baku � uma terra de misturas.

A moeda que entra e aquela em que se joga � o d�lar, a moeda em que se recebe �s vezes n�o � o d�lar, qualquer cup�o fotocopiado local que passa por moeda e que se recebe em sacos, liras turcas, rublos, etc.

Os jogadores n�o s�o muitos. Trabalhadores ocidentais das companhias de petr�leo, muita coisa vista, muita coisa vivida, rugas, pele dura, corpos enormes que manobrar um po�o de petr�leo n�o � brinquedo. Orientais, porque h� sempre um chin�s, um coreano, um japon�s, junto de uma mesa de roleta. Pequenos, intensos, parecendo ter decorado as �ltimas cem jogadas da mesa, colocam as fichas de s�bito, sem d�vidas. Depois a fauna local , masculina, de bigode otomano, fato completo, brutalidade � flor da pele, m�os grossas empunhando um rolo de notas de d�lar, centenas, milhares de d�lares . S�o os que fazem mais barulho e movimentam-se em grupo
 


EDITORIAL M�NIMO

O Abrupto foi pensado, � escrito e � publicado a pensar naqueles que o l�em e n�o em primeiro lugar no circuito da blogosfera. Por muita gente que �entre� nos blogues cada semana, est� mais gente l� fora que n�o quer saber dos meios, s� lhe interessa o que eles transmitem. Num certo sentido, como diriam as m�s-l�nguas, tem uma l�gica de audi�ncia. S� que � uma l�gica de uma voz s�. E uma l�gica da liberdade.

CORREIO EM DIA

O Abrupto � para durar, por isso uma certa ordem interior e algumas regras acabam por emergir. A dura��o implica uma arquitectura, n�o � compat�vel com mudar as paredes da casa todas as semanas, nem com arroubos quotidianos. Se essas regras ajudam a l�-lo � s�ries numeradas, actualiza��es em anexo �s notas e liga��es a outros blogues que comentaram a mesma mat�ria, etc. � s�o bem-vindas.

As cartas dos leitores s�o uma forma qualificada de coment�rio. O blogue n�o tem coment�rios livres pelas raz�es j� explicadas, mas quem tem alguma coisa para dizer usa o e-mail e tem sempre voz. Aqui coloco as cr�ticas, em privado agrade�o os elogios. Quando nas cartas � tenho neste momento cerca de 100 atrasadas e outras 100 ficaram perdidas no Hotmail � h� alguma coisa que interesse a um p�blico mais geral e os seus autores n�o pediram reserva, estas depois de �moderadas� do seu conte�do pessoal, e organizadas por tema, ter�o aqui o mesmo lugar da fala do autor do blogue. Nalguns casos s�o integradas no texto das notas, noutros ter�o leitura � parte.

Eis algum do correio recente e atrasado.


Leonardo Ribeiro, a prop�sito do Liceu Alexandre Herculano, lembra que n�o h� uma verdadeira edi��o de Alexandre Herculano dispon�vel fora das edi��es escolares �com letra muito pequenina, sem a dignidade merecida pelo autor�.


Lu�sa Soares de Oliveira, a prop�sito do busto de Vespasiano, fala da � perplexidade dos primeiros homens medievais perante um realismo romano, j� para eles ultrapassado, que n�o compreendiam nem queriam imitar.�


Rui Oliveira comenta a nota sobre os notici�rios televisivos

D� a impress�o (mas se calhar � mesmo assim) que o alinhamento das not�cias � feito na hora e � alterado de acordo com a not�cia que est� a ser apresentada na concorr�ncia. Se est�o a apresentar o crime de faca e alguidar de Cebolais de Cima, ent�o � essa not�cia que passa logo a seguir para os outros perderem o efeito da novidade (tamb�m deve ser por isso que est�o a passar constantemente as not�cias em roda-p�). J� estou a imaginar um t�cnico da regie cuja �nica fun��o � controlar os notici�rios da concorr�ncia e a quem o realizador recorre para decidir qual vai ser a pr�xima not�cia a alinhar no teleponto. S� escapa o Jornal 2. Se calhar � por n�o haver nenhum outro notici�rio a essa hora��

N�o imagine um �t�cnico da r�gie� , � uma equipa, com o realizador, de olho na �concorr�ncia� , para introduzir o caos nas not�cias.

V�rias cartas (Sofia, Rui Silva, etc.) retratam a mesma impress�o sentimental e ��ntima� da leitura do Adriano de Yourcenar. Nem todos os livros deixam este rastro. Rui Silva lembra-se tamb�m dos

temas em que Adriano reflectia e que continuam actuais s�culos depois. Como o facto de se andar mais depressa a p� do que no meio do caos de carro�as existente nas ruas de Roma.�

Josef Malot pergunta-me se ponho a �hip�tese do seu blog vir a ser editado, e vendido nas grandes superf�cies ? � Qual � o problema ? Do meu ponto de vista nenhum.

Rui Viana Jorge manda-me a hist�ria de �Z� e do �Fritz�, uma f�bula sobre a condi��o do trabalho e a deslocaliza��o. � certamente uma hist�ria que merece �perder 10 minutos com ela�, bastantes mais minutos ali�s, e � por isso que registo a recep��o e adio a publica��o da hist�ria e o coment�rio. Um dos aspectos da composi��o social da blogosfera revela-se na quase total aus�ncia (salvo uma ou outra excep��o de blogues de �desempregados�) de textos sobre aquele que � certamente o principal problema social de muitos portugueses � o desemprego.


Para terminar por hoje com uma carta de Lu�s Vieira a apelar � reedi��o dos Cadernos de Camus e �a transcrever de "O primeiro homem" a curta carta que Camus escreveu ap�s ter sido galardoado com o Nobel em 1957:

19 de Novembro de 1957

Caro Monsieur Germain:

Deixei extinguir-se um pouco o ru�do que me rodeou todos estes dias antes de lhe vir falar com todo o cora��o. Acabam de me conceder uma honra excessiva, que n�o procurei nem solicitei. Mas quando me inteirei da not�cia, o meu primeiro pensamento, depois de minha m�e, foi para o senhor. Sem si, sem a m�o afectuosa que estendeu ao garoto pobre que eu era, sem os seus ensinamentos e exemplo, nada de tudo isso teria acontecido. N�o imagino um mundo com essa esp�cie de honra. No entanto, constitui uma oportunidade para lhe dizer o que foi, e ainda � para mim, e assegurar-lhe que os seus esfor�os, o seu trabalho e o cora��o generoso que sempre empregava ainda se encontram vivos num dos seus pequenos alunos que, apesar da idade, n�o deixou de ser o seu grato estudante. Abra�o-o com todas as minhas for�as.
 


EARLY MORNING BLOGS 7

O Comprometido Espectador prop�e substituir a s�rie dos objectos em extin��o pela dos �Objectos que (felizmente) n�o se extinguiram� e d� como exemplo os �chocolates Jubileu� que teriam vindo a acabar com o reino mal�volo dos Regina. Depois fala sobre os ditos chocolates com a mesma mistura de mem�ria e nostalgia � o �espectador� j� n�o comia os �Jubileu� h� algum tempo � como se fossem um objecto em extin��o. N�o h� de facto muita diferen�a entre os que est�o em extin��o e aqueles que n�s n�o queremos que se extingam. No fundo, s�o s� chocolates. No fundo somos s� n�s.

Visitem a formiga de langton para terem a apaixonante ideia de como tudo � complexo, t�o simplesmente complexo.

Nos escritos do dia, l� longe na p�tria, continua uma adula��o beata de Lula. Tantas palavras que v�o ter que ser engolidas! S� a ignor�ncia das coisas terrestres, da vulgar hist�ria, da comezinha pol�tica, da gigantesca �luta de classes�, do Brasil, da Am�rica Latina, � que pode justificar esta rever�ncia. Parece que o pa�s todo resolveu ir ao F�rum Social Portugu�s e olhar para a pol�tica latino-americana, no seu melhor estilo populista e demag�gico, como se fosse um modelo. A gente distrai-se e l� volta tudo ao �terceiro-mundismo�.

� uma pena deixar para tr�s o quadro que fica atr�s.

11.7.03
 


DE LONGE PARA LONGE



Pormenor de um quadro de Kitty Kieland (1880) de uma colec��o privada em Oslo.
 


PARA A FRENTE, PARA TR�S, PARA LADO NENHUM

v�o os notici�rios de televis�o. Todos, mas com destaque para a RTP e TVI. Come�am com um tema, interrompem, arrancam com outro, interrompem, regressam no fim, agora � o �crime do dia�, depois desporto, depois pol�tica, depois sociedade, depois a �doen�a ou o doentinho(a) do dia�, depois a queixa dos moradores, depois volta o desporto, a hora do Guiness, outra vez pol�tica, outra vez o directo, etc. , etc. Uma hora disto e n�o h� paci�ncia.
 


EARLY MORNING BLOGS 6

Continua a manter-se uma acentuada diminui��o dos blogues nictalopes.

O Dicion�rio do Diabo voltou � produ��o nocturna naquele tom em que Mexia � melhor quando , numa mesma frase, faz um upgrade ( de um facto ou m�rito alheio) e um downgrade (na apropria��o pr�pria do facto ou observa��o). Exemplos recentes a dois tempos:

Upgrade : HOMENAGEM A JVP: Gosto muito do Jos� Vaz Pereira, cin�filo e bibli�filo de extremo bom gosto e boa educa��o. Mas ontem a minha admira��o pelo Jos� aumentou: encontro-o numa livraria e reparo que os funcion�rios ao passar dizem: �bom dia, sr. Vaz Pereira�.

Downgrade : N�o me importava de ter uma l�pide no meu t�mulo que rezasse assim: P.M. Nas Livrarias Conheciam-no Pelo Nome.

Upgrade: FASHION: As �ltimas tr�s raparigas realmente bonitas que avistei traziam todas roupa da Mango.

Downgrade: Como n�o percebo nada do fen�meno, pe�o �s leitoras versadas em roupinhas um coment�rio: ser� isto por acaso?

Resulta porque produz fragilidade e um v�cuo e a natureza tem horror ao v�cuo.


O Monologo � um dos raros di�rios genu�nos em blogue, em que o que aconteceu, o trivial, o aborrecido, o quotidiano fatigante, rompe � for�a pelo meio do que se quer dizer, quando nem sempre se quer dizer o que aconteceu.


NO TEMPO EM QUE O PENSAMENTO ERA TODO INCORRECTO

Sa�ram uns livrinhos (o diminutivo, uma praga portuguesa, aqui justifica-se porque s�o pequenos) muito bem feitos, traduzidos, anotados, escolhidos, exemplo como deve ser uma colec��o, editada por Elementos Sudoeste. Nunca os tinha visto no caos actual da distribui��o livreira. que obriga a visitar v�rias livrarias muito diferentes para ter uma vaga ideia do que est� a sair e mesmo assim, de vez em quando, encontra-se alguma coisa de obrigat�rio que j� saiu h� um ano e n�o apareceu em lado nenhum.

Comprei as edi��es de Max Scheler, A Concep��o Filos�fica do Mundo , Pascal, Do Esp�rito Geom�trico e da Arte de Persuadir, e Maquiavel, A Vida de Castruccio Castracani da Lucca.

Este �ltimo, organizado e traduzido por Carlos Eduardo Soveral, colecciona alguns pequenos textos de Maquiavel sobre o poder como praxis e n�o theoria , ou seja pela ast�cia, pela intriga, pela espada, pelo veneno, pela for�a, uma lembran�a preciosa da origem do poder, do poder pol�tico. A biografia de Castruccio tem aquela virtude dos textos cl�ssicos que � o de nos poder dizer com a clareza inicial, coisas que repetimos depois sempre muito pior.

Veja-se, como li��o preciosa para os nossos snobes que andavam embevecidos com as virtudes do �velho dinheiro� e gostavam de apoucar os �de baixo�, como Maquiavel lembra que

todos ou a maior parte dos que neste mundo levaram a cabo grand�ssimos feitos e , entre os demais do seu estado se tornaram excelentes , tenham tido principio e nascimento baixos e obscuros, ou fora de todo o favor da fortuna ; porque todos ou foram expostos �s feras ou tiveram pai t�o vil que, na vergonha disso, se fizeram filhos de Jove ou de qualquer outro deus

Castruccio dizia que se pudesse �vencer por fraude�, o preferia a �vencer por for�a� , �porque dizia que � a vit�ria, n�o o modo dela, o que traz a gl�ria�. Quanto ao politicamente incorrecto aqui vai um exemplo referido ao pr�prio Castruccio :

Nenhum foi mais audaz a entrar nos perigos, nem mais cauto a sair deles: e costumava dizer que devem os homens tentar todas as coisas e com nenhuma se atemorizar, e que Deus � amador dos homens fortes, porque se v� que sempre castiga os impotentes com os potentes.�

10.7.03
 


DE NOVO DE VOLTA A CAMUS (Actualizado)

Contrariamente �queles que pensam que me distraio muito com os blogues, que �perco tempo� , ou at� que n�o cumprirei as minhas obriga��es por causa dos blogues, nada disso acontece. Escrever (e ler) � uma parte t�o constante do que fa�o que n�o me custa nada manter o Abrupto. O �nico pre�o que �pago� � o tempo que ganho por n�o achar muito interessante a vida social, nem o exerc�cio da m� l�ngua colectiva, actividades que passam por �divers�o� nos nossos dias . Eles n�o sabem, nem sonham como me divirto.

Mas hoje distrai-me. N�o fiz o que queria e a culpa � do blogue, do blogue de Camus. Peguei nos Cadernos, que tinha lido, segundo uma nota a l�pis que l� estava num deles, bem dentro do s�culo passado , em Fevereiro de 1968 em Braga, e n�o os consegui largar. N�o h� p�gina que n�o seja fascinante, que n�o tenha mil ideias para andar para a frente, umas que Camus desenvolveu, por exemplo no Mito de S�sifo e no Estrangeiro , outras que ficaram pelo caminho como seu projecto de escrever um D. Juan . A minha tenta��o era criar um novo blogue e p�r os Cadernos em linha.

Depois lembrei-me de melhor. Que eu saiba, os Cadernos est�o esgotados h� muitos anos e n�o h� vers�o portuguesa acess�vel. N�o sei como � com os direitos de autor. N�o querer� o nosso editor fazer uma nova edi��o com os textos integrais ou uma antologia, ou excertos seguidos de coment�rios por gente dos blogues liter�rios, filos�ficos, religiosos, pol�ticos , que poderiam escolher determinadas partes e fazer uma esp�cie de hiper texto? O tipo de escrita de Camus e dos blogues � comunicante. Dava um grande livro e at� podia ser feito em linha, com um respons�vel, ou uma equipa e um blogue dedicado e moderado e depois ser publicado em papel.Penso que seria uma experi�ncia in�dita.

*

Nelson de Matos j� respondeu nos Textos de Contracapa.
Jose Carlos Santos que me descobre as gralhas ( e os erros) todas, verificou que faltava um ponto de interroga��o (j� l� est�) e lembrou um texto de Woody Allen chamado �Reminiscences: Places and People� que termina com esta passagem:

"Maugham then offers the greatest advice anyone could give to a young author: "At the end of an interrogatory sentence, place a question mark. You'd be surprised how effective it can be."

Obrigado.

 


H� SEMPRE UM BLOGUE DESCONHECIDO

Leia-se este magnifico blogue :

Eisenstein e as Festas da Morte no M�xico . As mascaras macabras para divertir as crian�as, as cabe�as de mortos em a��car que eles terrincam com delicia. As crian�as riem com a morte, acham-na divertida, acham-na doce e a�ucarada. Assim os pequenos mortos. Tudo termina em �Nossa amiga a Morte.�

*

A mulher do andar de cima suicidou-se atirando-se do p�tio do hotel. Tinha 31 anos, diz um locat�rio, � suficiente para viver e, se ela viveu um pouco, podia morrer. No hotel, a sombra do drama continua ainda a pairar. Ela descia �s vezes e pedia a dona da casa para a deixar ficar para jantar. Beijava-a bruscamente - por necessidade de uma presen�a e de um carinho. Aquilo acabou com uma ferida de seis cent�metros na testa. Antes de morrer, ela disse: �Enfim!�

*

Paris. As �rvores negras no c�u cinzento e os pombos cor do c�u. As est�tuas na relva e aquela eleg�ncia melanc�lica.. O voo dos pombos corno um bater de roupa que se desdobra. Os arrulhos entre a relva verde.

*

Halles - Paris. Os pequenos caf�s as cinco horas da manh� - o nevoeiro nas vidra�as - o caf� a escaldar ��



Foi escrito por Camus e s�o os seus Cadernos (cito da edi��o em que os li na Colec��o Miniatura dos Livros do Brasil). S�o tr�s volumes sempre assim , sempre em tom de blogue. Algu�m , de que n�o me recordo, citava Camus como desejando escrever um blogue, mas a verdade � que ele escreveu um. Se o pud�ssemos ler hoje, ningu�m notaria a diferen�a para al�m da qualidade.
Talvez isto contribua para responder � pergunta de Manuel Alberto Valente - "n�o ser� que todo este mundo das novas tecnologias nos rouba tempo para outras coisas que, apesar de tudo, continuam a ser mais importantes?".

� como em tudo, mais o conte�do do que a tecnologia. Ou h� alguma coisa para dizer ou ent�o � o "o n�o-ter-nada-para-dizerismo e o ter-que-dizer-qualquer-coisismo e o julgar-que-o-que-dizemos-tem-algum-interessismo" . como diz o opiniondesmaker..
 


LER DUAS VEZES 5

N�o � bem ler duas vezes, � olhar para o mesmo livro a partir de uma enorme dist�ncia. O livro � o Adriano de Marguerite Yourcenar, antes de ser o Adriano da Yourcenar.
Durante muitos anos um dos livros que oferecia aos mais int�mos , como uma oferta especial porque reveladora, era o Adriano. Era barato, estava numa edi��o esquecida da Ulisseia que se encontrava nos monos da Feira do Livro do Porto. Tinha uma capa castanha de Sebasti�o Rodrigues, fora publicado numa colec��o que se chamava �Vidas Apaixonantes� e o livro tinha o t�tulo A Vida Apaixonante de Adriano. Reparo agora, com alguma surpresa, que a tradu��o era de Maria Lamas.
Era um livro em que ningu�m reparava, os leitores comuns da �poca, que seriam hoje leitores incomuns, desconheciam completamente a senhora e o livro. Por isso oferec�-lo era oferecer muito. Lendo-o o meu entusiasmo n�o � novidade para os dias de hoje e, movido por esse entusiasmo, escrevi a Yourcenar. O Eug�nio de Andrade tinha-se correspondido com a Yourcenar e ofereceu-me um envelope manuscrito com o m�tico endere�o. Yourcenar respondeu-me com bastante afabilidade e paci�ncia.
Algu�m imagina Yourcenar no limbo dos livros?
 


SOBRE PEDREIRAS (Actualizado)
Descontando um v�cio que ocasionalmente tenho verificado na blogosfera, a tend�ncia para tomar tudo � letra e responder a coisas absurdas que ningu�m disse, a minha nota sobre o abuso das pedreiras motivou alguma discuss�o. Na verdade, n�o me passa pela cabe�a �acabar com as pedreiras� (embora tivesse falado de �movimento contra as pedreiras� o que n�o deveria ter feito), mas chamar a aten��o para alguma coisa de selvagem e irrecuper�vel que destr�i um pouco de Portugal todos os dias. Se a maioria dos blogues n�o fossem lisboetas, estou convencido que a discuss�o seria maior.


Repito. As pedreiras quando vistas por cima de avi�o s�o impressionantes. O topo dos montes entre Leiria e Lisboa, onde n�o h� uma aldeia e �s vezes mesmo quando h�, � sua volta, tem um buraco amarelo que se estende como um tumor. Um leitor do Abrupto, Jo�o Miguel Amaro Correia, identifica o mesmo problema e no mesmo local :

h� um tro�o, na nacional 1, que me incomoda mais que todo o resto da estrada por ser aquele que acho paradigm�tico da forma como olhamos para o territ�rio (todos: cidad�os, autarquias e governo centra): nem mais nem menos que o percurso entre a Batalha e Rio Maior. Este tro�o coincide com o maci�o calc�rio das serras de Aires e Candeeiros. Donde, na l�gica do "aproveitamento dos recursos naturais" se foram escavando buracos de pedreiras ao longo de d�cadas. Sem o menor controlo, umas activadas outras desactivas, e estas a deixarem a paisagem como se nada fosse. N�o sei se ser� uma quest�o de respeito ou sequer de se lembrarem que o buraco que lhes deu riqueza pertence a um recurso que se esgota, do qual � preciso cuidar... � de facto exasperante a imagem que lemos da nossa paisagem.

De avi�o podem-se ver as pedreiras em actividade e as que est�o abandonadas. H� v�rias que se percebe estarem abandonadas e nenhuma est� recuperada. Pode ser que haja, n�o se v� nenhuma. Fica o buraco, as perigosas lagoas de aguas pluviais, a fealdade � volta.

Do ponto de vista da paisagem, j� destru�da por mil e uma aberra��es e continuando a ser destru�da todos os dias, o que acontece � irrecuper�vel. Dou um exemplo que conhe�o bem de uma s�rie de colinas para l� de Rio Maior que se v�em de uma grande dist�ncia e que s�o parte da paisagem de muitos milhares de pessoas � volta. Funcionam como o horizonte vis�vel, pela sua eleva��o. De repente, o topo do monte, mudou de cor, ficou amarelo e castanho em vez de verde e rapidamente alastra como uma ferida pelo monte a baixo, ramificando-se como uma met�stese. Todos os dias aumenta e milhares de pessoas, umas indiferentes outras desgostosas, passam a ter uma ferida � vista. Contrariamente ao que algu�m disse num blogue, as pedreiras n�o est�o em s�tios escondidos, est�o muitas delas � vista de toda a gente.


Parece que, numa das suas viagens de avi�o, o eng. Guterres teve a mesma impress�o de devasta��o ao ver a paisagem e incentivou legisla��o regulamentadora da �extrac��o de inertes" que hoje estaria a ser considerada demasiado severa e n�o estaria a ser aplicada. (esta e outras informa��es estavam numa carta que se perdeu e a que gostaria de ter respondido). Que o que devia ser aplicado, esteja ou n�o esteja na lei, n�o est� a ser aplicado entra pelos olhos dentro,

N�s n�o somos t�o grandes assim, t�o ricos assim, que nos demos ao luxo de nos empobrecer, segundo a segundo, apenas porque � mais f�cil e mais barato ir tirar pedras naquele s�tio ou noutros semelhantes. O valor do monte para as actividades econ�micas da regi�o � muito maior sem a pedreira do que com ela. Adam Smith falou da �m�o invis�vel� e n�o da garra vis�vel.

*

Sobre esta nota ver coment�rios de A Causa Liberal .

 


EARLY MORNING BLOGS 5

Continua a diminui��o sazonal dos blogues nictalopes.

Um deles, precioso , voltou. O Almocreve das Petas fala de livros e de livros sobre livros, noticiando a sa�da do Boletim Bibliogr�fico do Livreiro-Antiqu�rio Lu�s Burnay . Para quem gosta dos ditos � uma festa.


O opiniondesmaker , mas que nome mais complicado ! , tem a frase mais certeira de ontem na blogosfera :

"Pior que o umbiguismo e o Pipismo, s�o o n�o-ter-nada-para-dizerismo e o ter-que-dizer-qualquer-coisismo e o julgar-que-o-que-dizemos-tem-algum-interessismo."

9.7.03
 


VESPASIANO



Nas est�tuas os romanos olhavam para os homens, os gregos para os deuses. .Este busto � uma das minhas est�tuas romanas preferidas. Retrata o imperador Vespasiano, um bom imperador.

Se olharmos para o m�rmore est� l� o homem todo, o soldado, o administrador, uma face forte mas plebeia. Vespasiano tinha origens mais humildes do que os outros imperadores. N�o s� nunca o escondeu, como o apresentava com orgulho. Suet�nio conta que mantinha intacta a casa de sua fam�lia, com os objectos todos no mesmo s�tio, para n�o se esquecer da sua inf�ncia. N�o tinha pros�pias e era de uma seriedade sem extravag�ncias. O homem � forte que nem um touro, mas desprovido de ambi��o e de crueldade.


Vespasiano p�s em ordem os conflitos militares e civis, restaurou as institui��es e era bom nas finan�as, tendo mesmo fama de avarento. Tamb�m era supersticioso. Mas a sua face apesar de marcada pelo tempo, continua aberta, serena, pac�fica, quase bondosa. Suet�nio dizia que andava sempre com ar de preocupado, mas neste retrato h� um vago rictus que pode tamb�m ser um sorriso.
Na sua morte, ironizou: �devo estar a tornar-me um deus� � Estava.
 


OBJECTOS EM EXTIN��O 12

Mais contribui��es dos leitores do Abrupto para a lista dos objectos, h�bitos, experi�ncias em extin��o, que s�o elas pr�prias retratos da nossa mem�ria. Infelizmente algumas perderam-se com o desastre da caixa do correio do meu endere�o em extin��o no Hotmail.


1) �O chocolate "Coma com p�o", em cuja embalagem se via um tablete metida dentro de uma carca�a. Sempre achei inusitada a sugest�o de comer uma sandes de chocolate. Com ou sem p�o sabia-me muito bem.� (M�rio Filipe Pires)


2) R�gua de c�lculo:

Este maravilhoso e extinto? equipamento de c�lculo, composto por duas r�guas fixas e uma deslizante entre elas, antecessor pr�ximo das vulgares m�quinas de calcular ( que todas pessoas usam sem saber como se desenvolvem os c�lculos para os resultados apresentados), permitiam elaborar projectos de engenharia disponibilizando ��bacos� para as quatro opera��es aritm�ticas, c�lculos de tangentes, senos e cossenos relativamente a �ngulos e, tantos outros. Era, porque creio caiu em desuso, aquela �m�quina�. (Rui Silva)


3) V�rios objectos da mem�ria de Jos� Paulo Andrade


Os marcos quilom�tricos das estradas de Portugal (eram muito mais informativos que os actuais; ainda se podem ver bastantes nas estradas menos percorridas).

Associados a estes, os marcos dos 100 metros. Em crian�a divertia-me nas viagens de Guimar�es para o Porto, via Santo Tirso a contar estes pequenos marcos e confirmar o quil�metro nos grandes marcos.

As barreiras de pedra nas estradas, fazendo a vez dos actuais "rails" met�licos.

As casas dos cantoneiros da estrada. Na estrada Braga-Arcos de valdevez existe uma curva particularmente perigosa que toda a gente conhece como "curva do cantoneiro". J� n�o passo por l� desde que abriu a auto-estrada at� Ponte de Lima...

Os sinaleiros com a sua farda caracter�stica. Lembro-me deles no cruzamento da Areosa, � entrada do Porto...

Os pneus dos carros que estavam sempre a furar!

Os motores simples dos carros que toda a gente sabia mexer e consertar (ou n�o!).

O gesto de "fechar"(ou "abrir") o ar no man�pulo respectivo, quando se ligava o carro, at� ao motor "aquecer".

O comboio a vapor que ainda vi a passar no ramal Fafe-Gumar�es (j� inactivado h� muitos anos). Lembro-me de uma vez um turista, algures nos anos de 1973-74 numa paragem de passagem de n�vel, a sair apressadamente do carro para fotografar um destes exemplares. A refer�ncia do ano decorre da crise petrol�fera que levava a minha m�e a tentar meter gasolina nas esta��es de servi�o nas redondezas de Guimar�es.

Os sinais de tr�nsito em que os pe�es s�o representados por um "senhor" com chap�u com um design arcaico
!�

 


POR ONDE COME�AR � (Actualizado)

Pelo Companhia de Mo�ambique outro blogue que tem o m�rito de n�o falar sempre das mesmas coisas.

Pelo m�rito do Picuinhices que faz um trabalho precioso de liberal contradi��o com os lugares comuns e mentiras circulantes.

� por tudo isto que concordo com o Blog de Esquerda, a blogosfera est� a melhorar :

"� um sentimento estranho. Volto a casa, ap�s duas semanas noutra cidade (com um acesso mais limitado � internet), e parece que n�o reconhe�o a minha pr�pria casa. Leia-se: a blogosfera. Algu�m mudou os m�veis de s�tio, deitou fora a pilha de jornais que estava ali no canto e trocou a ordem dos talheres nas gavetas da cozinha. O corpo da casa � o mesmo, claro, mas est� diferente. Foi ampliado. Tem mais caves, mais s�t�os, in�meros acrescentos, projec��es, anexos no quintal. Algu�m deitou paredes abaixo, construiu novos corredores e mobilou quartos vazios que nunca tinha visto antes. H� muito mais portas que apetece abrir todos os dias, essa � que � essa. E eu vou precisar de um porta-chaves maior. Al�m de uma b�ssula."

Pela crise do primeiro m�s: v�rios blogues t�m uma crise do primeiro m�s. Come�am com grande entusiasmo e, ao fim de um m�s, interrogam-se. � natural que uns acabem e outros mudem. Mas � interessante saber se os blogues mais antigos tamb�m tinham essa crise ao fim de um m�s ou se era mais tarde. Ou se n�o tinham. Saber se a data em que se entra para a blogosfera conta para a dura��o do blogue ou para a sua "crise exist�ncial".

O que � que aconteceu � Piolheira ? Pelos escassos dias em que existiu percebia-se que sabia o que estava a fazer.

Pela censura. Um aspecto interessante de algumas reac��es ao que escrevi sobre os incidentes com Berlusconi � a clara, evidente, quase explicita, sugerida vontade de censura. Aquilo que escrevi irritou muita gente que preferia que o incidente Berlusconi n�o fosse conhecido no contexto, mesmo quando eu nunca o justifiquei pelo contexto. Que bom que seria, que c�modo, se eu n�o tivesse escrito o que escrevi, ainda por cima citado pelo P�blico.

H� um aspecto sinistro de algum debate em Portugal que � a vontade de censura do outro. N�o se trata de critica-lo, de discordar, de at� irritar-se com o que ele diz, trata-se de ter uma vontade indisfar��vel de que ele n�o fale, de que ele n�o possa falar. H� gente que muito mais do que irritar-se com o que eu digo, irrita-se por eu o poder dizer. H� muita gente, demasiada gente, que n�o gosta mesmo da liberdade, que se d� mal com a liberdade.

 


JE REVIENS

como no perfume.
Essa excelente m�quina para mostrar o sentido do tempo: abre-se o frasco e as mol�culas saem alegremente, nem a energia de um tornado as faria voltar taciturnas ao frasco. Entropia.

7.7.03
 


ATEN��O AO CORREIO - MUDAN�A DE ENDERE�O

Durante uns dias esta nota encabe�ar� o Abrupto, as novidades v�m a seguir.

Existe um problema com o meu endere�o do Hotmail. Pedia a todos que me escreveram nos �ltimos dias que enviem de novo a correspond�ncia para este endere�o : jppereir@mail.telepac.pt e cancelassem o endere�o do Hotmail.

� prov�vel que tenha tamb�m perdido a correspond�ncia n�o respondida para o Abrupto. Quem tiver paci�ncia para me enviar de novo as cartas mesmo mais antigas, agrade�o. (Entretanto j� recebi algumas, mas poucas).

Perderam-se contribui��es para os "Objectos em extin��o", para o debate sobre pedreiras e estradas, e muito mais - cerca de 150 cartas. Fica-me de li��o sobre a seguran�a do Hotmail.



 


TEXTOS PR�-BLOGUE

Ter um blogue, j� o disse, era uma coisa que eu queria ter no meu liceu. A express�o �no meu liceu� mostra j� como � hist�ria antiga e o Liceu foi o Alexandre Herculano no Porto. No meu liceu havia um jornal , que formalmente pertencia � Mocidade Portuguesa (n�o podia haver quaisquer publica��es que n�o fossem da Mocidade) e que tinha pretens�es liter�rias, o Prel�dio. R�gio tinha escrito um elogio do jornal e um dos seus directores antes de mim fora o Manuel Alberto Valente que agora tamb�m tem um blogue. .

Quando eu fui director do Prel�dio aconteceram as mais bizarras conversas de censura feitas pelo reitor. O reitor era um professor de alem�o que estudara na Alemanha nazi, e digo isto sem estar a sugerir que era pior ou melhor do que qualquer reitor de um liceu importante da �poca - o Alexandre Herculano era um liceu importante. Vistas bem as coisas, tendo em conta o que pude fazer, o homem at� devia ser muito liberal. Na altura n�o achava nada disso, a personagem era tenebrosa e quando me �chamava� � reitoria e tinha que atravessar os corredores onde era proibido um aluno passar, para entrar para a sala por baixo das instala��es onde ele vivia � o reitor vivia no Liceu com a fam�lia - n�o achava gra�a nenhuma.

Esses incidentes com a censura do reitor s�o hoje inimagin�veis para qualquer pessoa nascida depois da d�cada de setenta. Recordo-me de tr�s.

O primeiro era habitual e comum: publicara no Prel�dio uma �Homenagem a Lopes Gra�a� e o reitor protestou porque Lopes Gra�a era comunista e n�o se lhe podiam fazer �homenagens�.

A segunda j� era mais interessante e reveladora. Publicara uma reprodu��o de um quadro do per�odo azul de Picasso que tem um rapaz nu e um cavalo. O reitor explicou-me que isso era inadm�ssivel porque o jornal tamb�m era lido pelas meninas do Liceu Rainha Santa, que era ao lado, e isso era �indecente�. Eu fiz que n�o percebia e perguntei-lhe se era porque o cavalo estava nu. P�s-me na rua com amea�a de uma suspens�o, que felizmente n�o se concretizou.

A terceira � ainda mais interessante porque tinha a ver com a experi�ncia alem� do reitor e na altura n�o a percebi. Tinha publicado uma p�gina um pouco pedante com �prosopoemas� , alguns dos quais s� em min�sculas , � e. e. cummings , percebem ? O reitor disse-me que isso tamb�m n�o era poss�vel porque �desrespeitar as regras que obrigam �s mai�sculas era uma manobra dos comunistas� . Eu sabia que os �comunistas� faziam coisas inomin�veis, como comer criancinhas, mas comer mai�sculas desconhecia.
S� muitos anos depois vim a perceber o que ele estava a dizer. O reitor estivera na Alemanha na altura do ataque nazi contra a �cultura degenerada� e um dos alvos foi a Bauhaus. Um dos aspectos do grafismo da Bauhaus, repetido em muitas revistas liter�rias e mesmo pol�ticas da �poca, era o uso de min�sculas. O bom povo alem�o que estima os seus nomes pr�prios e que escreve alto os seus substantivos estava a ser atacado pelos �degenerados� das min�sculas.

Era por estas e por outras que eu gostava de ter tido um blogue, preparei-me toda a vida para ter um blogue, mesmo quando eles n�o existiam e trago essa ancestral vontade intacta, sem um desvio de um mil�metro. Por isso v�o saber o que significa persist�ncia, teimosia, purpose. Quem quer l�, quem n�o quer n�o l�. � a beleza da coisa.

(Este texto introduz uma selec��o espor�dica de textos que publicarei no Abrupto e que foram escritos para um blogue imagin�rio, alguns j� publicados, outros n�o. Como este monstro est� sempre com fome, alguns alimentar�o a fome quando o autor estiver na vagabundagem por cima das nuvens. )

 


EARLY MORNING BLOGS 4

Mas que surpresa! Um pouco mais de Sul � escrito por JCB , um homem de Boticas, que me escreve sobre o �destino dos meus alunos�:

Eu n�o fui seu aluno (a minha irm� foi, e fala �s vezes disso). Mas, para este efeito, � como se fosse. E por isso aqui estou a dizer-lhe que vivo no Algarve. Imaginava isso dos seus alunos de Boticas? Que pudessem um dia viver no Algarve? Pois � assim. Mas essencialmente escrevo-lhe para lhe dizer que, a oitocentos quil�metros de dist�ncia, n�o posso deixar de ir a Boticas de tempos a tempos, em intervalos curtos, como quem precisa de regressar a casa para n�o morrer com falta de ar. N�o sentia isso - que os seus alunos eram dali, e n�o poderiam j� ser de mais lado nenhum?
(�) O jogo � este: os textos assinados jcb t�m qualquer coisa ainda de quem � de Boticas? Ou j� n�o? �s vezes temo que j� n�o...
"

Os alem�es tem uma palavra para isto: heimatlos.


Mas o JCB diz uma coisa perigos�ssima no blogue:

PRIMEIRO DOMINGO DE JULHO Se n�o fosse o Algarve, o que seria desta gente? E cabiam aonde?�

Donde cabem n�o sei, mas por favor n�o lhes diga onde � Boticas, arranja-se a� um bocado mais de espa�o, uma plataforma no mar como os japoneses fazem , ou uma coisa assim do g�nero para os manter no Algarve.


A descri��o do jantar da Uni�o dos Blogues Livres em v�rios blogues foi feita ao modelo de uma coluna social, ao estilo do 24 Horas e da Caras (espero que sejam os exemplos certos). Ningu�m obriga ningu�m a ter jantares s�rios e aborrecidos e com conversas profundas, bem pelo contr�rio, mesmo no �mbito da luta contra os �comunas� e pela �liberdade�. Mas tamb�m tanto Carlos Castro n�o favorece l� muito a causa.

V�, n�o se zanguem. Faz parte do nosso bom liberalismo que quem anda � chuva molha-se. � uma coisa de que eu tenho muito treino. Da chuva.


Acabou o fim de semana, aumentaram os blogues nictalopes.
 


ENGANO



Este � um quadro antigo e n�o moderno . Foi pintado no s�culo XVII por Cornelius Norbertus Gijsbrechts , especialista em trompe d�oeil, ou naquilo que se chamava �betriegertje �, os pequenos truques para o olho. O quadro n�o foi feito para estar dependurado numa parede, mas sim deixado ao acaso num mesmo s�tio onde um quadro de costas poderia ser deixado. O quadro apela a uma fun��o � enganar. A pintura �realiza-se� quando algu�m a vira por engano e descobre que a verdadeiro reverso est� do outro lado.

Como se v� nos dias de hoje, o olhar � o sentido em que mais confiamos. Acreditamos no que vemos, como S. Tom�, e � por isso que a televis�o nos engana t�o facilmente. � tamb�m por isso que um mundo assente na imagem, na imagem a tr�s dimens�es movimentando-se na quarta, dentro do nosso c�rebro ou nas paredes da nossa casa, produzida por devices cada vez mais pr�ximos da nossa biologia, p�e seriamente em risco a individualidade, a possibilidade da individualidade. Este mundo, num futuro muito pr�ximo, estar� na nossa casa, no nosso corpo quando as televis�es forem as paredes da casa, os telem�veis estiverem no nosso ouvido ou colados aos nossos olhos, ou recebamos imagens directamente no c�rebro. Tudo tecnologias actuais, s� ainda n�o comercializadas.

O nosso olhar � constru�do pelo que vemos, pelo que sabemos e pelo que desejamos ter. O nosso olhar depende vitalmente da nossa experi�ncia e das nossas literacias. Quando olhamos para o quadro de Gijsbrechts e o vemos como moderno, nesse olhar est�, por exemplo, Magritte, os hiper-realistas, uma parte da hist�ria da pintura dos nossos dias que lhe d� �modernidade�. Para o seu autor podia ser uma brincadeira, um virtuosismo elegante e engra�ado, para n�s � uma met�fora sobre a realidade, � mais s�rio. Provavelmente para Gijsbrechts tamb�m o era, dado que ele, como os seus contempor�neos, usava as naturezas mortas para prefigurar a ilus�o do mundo e da vida. Um tema recorrente era o da Vanitas, o da decad�ncia de todas as coisas por detr�s do engano da eternidade. No meio das mais opulentas imagens de frutas, c�lices de cristal, ca�a, p�o, colocavam, meia escondida, uma mosca. Para compreendermos.

6.7.03
 


MESTRE HEGEL SOBRE A QUANTIDADE E A QUALIDADE

Mais importante que o n�mero de blogues �de direita� ou �de esquerda�, s�o melhores discuss�es. Por isso sejam bem vindos os que vem da esquerda, da direita, de todo o s�tio, do c�u ou do inferno, � trituradora de palavras.

Esfrego as m�os e mantenho a p�lvora seca � espera da Causa Nossa, o blogue da Cosa Nostra Neo Socialista Independente e Intelectual. S�o normalmente aqueles em que d� mais gosto bater (metaforicamente claro), Nem sabem no que se v�o meter. Crestas !
 


PROBLEMAS T�CNICOS

fizeram com que os "early morning blogs" e o resto ficassem dependurados no vazio at� agora.
 


JORGE LUIS BORGES

devia gostar de blogues.


Parece um haikai. Ou o principio de um limerick.
 


EARLY MORNING BLOGS 3


No Terras do Nunca , como � que eu podia n�o ser quem sou ?
� um bocado a hist�ria do n�meno e do fen�meno.

Como o Conta Corrente

"Preocupa-me a aus�ncia do Vasco Pulido Valente, no DN. �Por motivos pessoais, Vasco Pulido Valente n�o escrever� a sua cr�nica habitual nas pr�ximas semanas�. � o que se l�, h� semanas. Temo que seja a puta da sa�de (para n�o falar na puta da idade). Esperemos que n�o. Volta Vasco. Fazes muita falta."

A Carta Roubada mudou de cor , est� mais alegre. Ainda bem. Fala da fala/dan�a. Mas quando n�o se dan�a como � que se fala?

A Montanha M�gica, a quem ainda devo parte de uma conversa, � para mim o prot�tipo do blogue calmo. Fala das coisas da cultura de forma calma, contrastando com os blogues culturais excitados que s�o a regra. E com a mesma placidez anuncia que o Di�rio de Not�cias vai publicar esta semana por 4,25 euros, o primeiro livro da tetralogia que Thomas Mann escreveu sobre Jos� filho de Jacob, Jos� e Seus Irm�os.

As f�rias come�am a fazer os seus estragos. Regista-se uma diminui��o acentuada dos blogues nictalopes.


5.7.03
 


DEC�NCIA


O Abrupto incita-me a continuar. Fala-me do macro e tem raz�o em falar dele, do macro. Infelizmente para mim � e para lhe responder tenho de pessoalizar � este pa�s que temos e fazemos, d� cabo de mim todos os dias, encarrega-se sempre de me fazer amochar. C�, o comportamento respons�vel � um comportamento freak. (�.) Percebe, n�o percebe?
(�)
A discuss�o que tenho comigo mesmo � sobre a educa��o que devo dar aos meus filhos. Devem eles ser educados segundo o princ�pio do respeito ao outro e das regras mais elementares da civiliza��o, ou, devem eles aproveitar a maneira portuguesa de fazer as coisas e estacionar no lugar dos deficientes se � s� para ir comprar fiambre?
(�)
Mas n�o deixo de me perguntar se este macro vale a pena. Quer dizer, eu sei que n�o vale a pena, o que quero mesmo saber � bem mais simples. A saber, se alguma vez o meu modus vivendi ser� caucionado pelas circunst�ncias como mais correcto. Duvido e aguardo que, pelo menos, os meus filhos saiam mais � m�e, igualmente exigente, mas bem menos angustiada
.�


Caro ignoto amigo do Guerra e Pas como eu o percebo.

Nestas coisas s� se pode responder em bens, em cash como agora se usa. Aqui vai o meu �nico cash, palavras, sob a forma de um fragmento de um texto que j� escrevi h� uns anos, antes de me meter numa daquelas actividades que j� se sabe irem correr mal, em que se despendem in�meros esfor�os que se antev� in�teis, para tentar fazer as coisas bem e ningu�m absolutamente quer saber se as coisas se fazem bem ou como de costume., mal.

S�o dez horas da manh� do dia de Natal . Escrevo este texto no Porto, frente � Foz do Douro , numa cidade fechada e deserta . N�o h� vivalma nas ruas. Est� um dia cinzento e chove aquela chuva que no Norte at� � Corunha se chama morrinha. A morri�a da nossa irm� galega Rosalia .
Para quem conhece o s�tio , a Foz do Douro � um local tr�gico , local de mortes , suic�dios e naufr�gios . Basta olhar , como estou agora a olhar , para as vagas cinzentas que se abatem sobre a margem , sobre o molhe e que entram rio adentro . Aqui as vagas puxadas pelo vento rebentam contra o rio , como se o rio fosse s�lido , feito de rocha , como ali�s suspeito h� muito que o Douro � . Os pescadores da Afurada tem muito medo desta barra e , l� longe do outro lado , escondem-se tamb�m em casa , deixando os barcos em terra . No meio da espuma e da rebenta��o, oscila perdida um boia vermelha marcando o estreito canal entre a margem do Douro e o Cabedelo . No Cabedelo matou-se pelo fogo um companheiro meu dos anos 60 que n�o sabia viver nos anos 80 .
Na margem de c� , sobrevivem pescadores , gente dos estaleiros com profiss�es que est�o a morrer : carpinteiros de navios , conhecedores do cavername do �N. S. da Agonia� , do �Maria Luisa� , do �Cravos de Abril� . � noite h� aqui namorados , carros de namorados onde o rio tamb�m roubou algumas vidas . E, se � verdade que os pardais s�o psicopompos , transportadores das almas dos mortos , tamb�m h� aqui pardais , � chuva , pousados na erva a comer abstractos insectos , enquanto por cima voam baixas as gaivotas . Est� tudo demasiado certo, parece fic��o , mas � assim que est� . A natureza porta-se bem de mais quando resolve fazer paisagens para o esp�rito.
Mas � o mar e o rio que aqui mandam tudo . N�o h� mar como este e este � o �meu� mar, o resto � um lago onde se toma banho l� no fundo do pa�s. � o mar dos pescadores, que acontece na Nazar�, na Ericeira , em Peniche , em Sesimbra , o mar c�o , o mar maldito , o mar que h�-de �comer� Espinho , o �nico mar que � como o Mar do Norte . Que � o mar do Norte. � com este mar que sempre me aconselhei, falho de querer dos homens respostas que o mar d� com mais dureza, cruel como um cristal, certo como tudo est� agora . Com ele me aconselho para saber que esp�cie de hubris transviada me faz fazer o que eu fa�o , neste mundo do poder desprovido de qualquer milk of human kindness , feito do pior da pequenez , sem grandeza nem dimens�o , poeira da poeira , mas que � o da imperfei��o da democracia sem o qual � eu sei � os homens seriam servos .
N�o , meus caros cr�ticos , pela intelig�ncia que essa me aconselharia prud�ncia . N�o � pela prud�ncia, que essa me aconselharia dist�ncia. N�o � pela emo��o que essa me aconselharia recato. N�o � pelos proveitos que esses aconselhariam melhor uso dos recursos. N�o � pela fama que essa eu sei ser f�cil e de pouca valia. N�o pelo poder, que esse eu sei ser v�o , pequeno e fugaz . N�o � pela grande moral , que essa eu sei ser intima , indiz�vel e imponder�vel . N�o � pelo que se ganha, porque n�o vale o que se perde.
Mas continuarei. Porque � pela dec�ncia, pela simples moralidade dos homens comuns, pela moralidade que nasce da intima convic��o de que h� coisas certas e outras erradas . Eu sei que isto hoje parece arrog�ncia, autismo , intoler�ncia , mas isso � fruto dos tempos que os homens est�o a habituar mal
.�
 


EARLY MORNING BLOGS

No Guerra e Pas faz-se uma pergunta que, mesmo que de uma forma diferente, aflora num ou noutro blogue:

Este blog come�ou h� um m�s e duvido que dure outro. (�) Mais do que tudo, n�o ser� um blog, (�) , uma manifesta��o essencialmente ef�mera? Uma paix�o de Ver�o? Um brinquedo que se recebeu no Natal? Come�amos entusiasmados, conseguimos atrair aten��es o que nos refor�a a estamina, amadurecemos e n�o come�amos imediatamente a murchar? Estando ganho o microdesafio, que mais resta?�

O macro. O mundo continua l� fora e quanto mais vozes se ouvirem melhor. Eu sou um liberal, acredito na lei dos grandes n�meros, na �m�o invis�vel�. H� virtudes na cacofonia, cada voz a menos empobrece.

� BLADE RUNNER

Tenho uma imagem, � Blade Runner admito, que tanto pode ser uma utopia , como uma distopia, da terra como um enorme campo em que das casas sai, como no passado em que havia fogo em casa, um fio de fumo, direito ao c�u, sem vento. No meu Blade Runner do mesmo campo, das mesmas casas, da mesma lonjura a perder de vista, em vez de fumo saem fios de voz, linhas de letras, solit�rias, t�o prec�rias como a �alminha� do �animula vagula blandula� , dizendo tudo ou dizendo nada, procurando tudo e n�o encontrando nada. � isto que � a nossa esfera.

Na utopia essas vozes falam do mundo, mesmo quando falam de n�s. Na distopia, falam s� de n�s, produto de uma mesma m�quina de solid�o que, invis�vel, atravessa esse momento em que algu�m sozinho, �s quatro da manh�, olha para um ecr� de computador. N�o � simples, porque o ecr� � um espelho e �s vezes responde �s perguntas.

Se deixar a imagina��o trabalhar n�o custa antever como John Le Carr� faria um bom livro policial sobre um blogue estranho, escrito por algu�m que usa os escrit�rios da China Traditional Rugs and Crafts, em Xangai, uma empresa sem registo em lado nenhum, e que parece conter instru��es cifradas, �em linguagem comum� (os cript�logos sabem o que �), para construir uma bomba biol�gica. O leitor de blogues do MI5 fez uma nota de servi�o que passou despercebida�
Ou um livro nocturno como o Crash, e, onde est�o os acidentes e o seu culto sadomasoquista, est� uma comunidade hard que se re�ne algures num canto da Internet para tornar real o que escreve nos blogues �
Ou um livro de fic��o cientifica sobre um blogue obscuro, lido por um obcecado professor de filosofia de Oxford, especialista no idealismo alem�o, e que descobre que Salomon Maimon autor dumas apreciadas Kritische Untersuchengen �ber den menschlichen Geist oder das h�here Erkenntnis- und Willensverm�gen, dito de outra maneira umas �Investiga��es Cr�ticas sobre o Esp�rito Humano ou a Faculdade superior do Conhecimento e da Verdade� , publicadas em 1797 , tinha a �faculdade superior� de estar vivo em 2003 e por isso n�o podia ser humano �
Ou, se Borges fosse vivo, encontraria a� um �sendero� �

Aposto dobrado contra singelo que tudo isto vai ser escrito.

4.7.03
 


SOBRE A GUERRA CIVIL DE ESPANHA

Saudei nos Estudos sobre o Comunismo a apari��o dos Estudos sobre a Guerra Civil de Espanha. No entanto, tenho s�rias objec��es a que seja compat�vel �uma perspectiva cient�fica mas n�o academicista�, como diz o seu autor, com a ideia que a guerra civil de Espanha foi �o elemento enformador do combate hist�rico entre fascismo e socialismo� .

Do mesmo modo � contest�vel a sua descri��o , mesmo como elemento de uma �mem�ria colectiva�, da �romantiza��o �ltima

do derradeiro confronto � face a face, corpo a corpo, bala a bala � entre a express�o totalit�ria das velhas for�as conservadoras e a precurs�o vision�ria do cunho libertador da �Guardia Roja

Esta �romantiza��o�, ali�s presente nos textos escolhidos no blogue, � incompat�vel com uma aprecia��o e o estudo cient�fico da guerra civil espanhola. Hoje, que j� se tem acesso a uma massa documental consider�vel, em particular com os arquivos ex-sovi�ticos entretanto abertos, � imposs�vel ter qualquer vis�o rom�ntica da guerra - um conflito cruel entre as grandes ideologias totalit�rias do nosso s�culo, se se quiser , para utilizar um conceito pol�mico, um epis�dio da "guerra civil europeia" .S� no dom�nio da pura imagina��o ou da ret�rica pol�tica � que se pode falar �da precurs�o vision�ria do cunho libertador da �Guardia Roja�. N�o era �vision�rio�, nem �libertador�, mas um projecto de poder igualmente totalit�rio, num certo sentido ainda mais totalit�rio porque mais moderno, mais din�mico e mais globalizante, do que o das �velhas for�as conservadoras�.
 


APRENDENDO

Com os meus alunos de Boticas, (que hoje devem ser homens e mulheres feitos, trabalhar na agricultura, de donas de casa, em empregos p�blicos no estado e na autarquia, na f�brica � o que significa nas Aguas de Carvalhelhos - , guardas florestais, comerciantes, etc. ) aprendi que as p�ginas tem �coroa� .

�Senhor professor posso escrever na coroa da p�gina?
Onde?
Na coroa da p�gina. Aqui.
Podes. �

E aprendi sobre a autoridade absoluta:

�Senhor professor, posso virar a p�gina?
Podes.�

*

Com os pedreiros, aprendi que a pedra tem �cora��o�. Nas pedras h� a pedra e o �cora��o da pedra�, onde ela � mais dura. O n�cleo duro da pedra, dizemos n�s, estragando tudo.
Eu conhecia a �Educa��o pela pedra�, mas n�o a pedra.
 


VALE A PENA : EARLY MORNING BLOGS


O Comprometido Espectador acrescenta novos elementos sobre a situa��o italiana por quem a conhece em primeira m�o.
E prop�e um �Ver outra vez� a acrescentar ao �Ler outra vez� . Primeira men��o : o Pin�quio de Disney .

Os Jaquinzinhos , coisa que eu n�o sabia o que era antes de descer � capital, faz um exerc�cio revelador de como a mesma not�cia pode ser dada no �jornal independente rosa� e no �jornal independente laranja� com cor e tudo. � a teoria da garrafa meia cheia, meia vazia ou da senhora de Toulouse-Lautrec , a vestir-se ou a despir-se. Um exemplo:

"No Jornal Independente Rosa: "Sem conseguir descolar definitivamente para a maioria absoluta, Dur�o tenta um �ltimo esfor�o para convencer o eleitorado ainda indeciso."
No Jornal Independente Laranja: "A um passo da maioria absoluta, o l�der do PSD Dur�o tenta um �ltimo esfor�o para convencer o eleitorado ainda indeciso
."


E a Esquina do Rio mostra uma outra peculiaridade dos blogues que entra na discuss�o sobre os ditos � a sua continuidade, em certos casos, com a imprensa escrita. Leia-se �hoje est� impresso�, que reproduzo com v�nia, para que fique registado na discuss�o sobre os blogues :


O que me agrada nesta solu��o (articular uma coluna de opini�o semanal com um Blog) � o car�cter de bloco-notas que o blog assumidamente tem, que possibilita que todos os dias partilhe temas que descubro, sensa��es que vivo, ideias que me v�m � cabe�a. Por outro lado � curioso o exerc�cio mental a que um blog obriga. Dantes as coisas aconteciam e, ou duravam o espa�o de uma semana e ganhavam corpo suficiente para serem escritas, ou nunca apareciam. Com o blog tudo pode aparecer porque, como j� disseram muitos que escreveram sobre este assunto, o crit�rio editorial dos media tradicionais, baseado na relativiza��o entre o espa�o dispon�vel e a import�ncia do tema e mediado pela figura do editor, n�o se aplica aqui. A decis�o editorial passa exclusivamente para o plano pessoal - escrevo o que �, para mim, naquele instante, relevante escrever. Publico quando quero, consigo ter uma ideia muito aproximada de como sou lido. Na generalidade dos casos procuro colocar-me como intermedi�rio de informa��o: prefiro n�o transportar sobretudo opini�es e reflex�es pessoais, opto por sugerir links, alinhar assuntos, partilhar informa��o. � este lado - o partilhar constante de informa��o de diversos n�veis, que � ali�s o factor mais interessante dos blogs, mecanismo que � potenciado por cita��es rec�procas, e que leva a uma cascata de descobertas que � em grande parte a respons�vel pelo car�cter viciante e obsessivo que a escrita dos blogs tem e que a procura constante por novos blogs e novas actualiza��es alimenta.!"

3.7.03
 


CARTA DE TIMOR

Uma amiga minha, a "Z." , foi para Timor e l� leu o Abrupto. Os cliques vem de l�, no pequeno espa�o asi�tico do contador, e, conhecendo a "Z.", devem ser suficientes para elevar o long�nquo pico. De Timor, escreveu-me uma carta com o olhar das inglesas na �ndia, da Passage to India , medido pela dist�ncia de ser portuguesa e n�o inglesa. Mas � um olhar "colonial" muito especial, que talvez s� agora os portugueses possam come�ar a ter. Aqui ficam, dos ant�podas, as palavras:

"Estou em Timor. Nem me lembro se houve alguma raz�o que me fez escolher Timor para os pr�ximos anos. Nem demorou mais do que se tivesse feito rodar um globo e apontado com um dedo de olhos fechados, para onde imaginei acertar nos tr�picos. Abruptamente...
(...)
A �sia � fabulosa. Size matters. Mais um planeta. Uma sensa��o de que vivo mais uma vida do que aquela a que tenho direito.
Eu estou nas sete quintas... Nada funciona numa l�gica linear de maneira que estou no meu habitat preferido. � t�o f�cil viver aqui. Um imenso calor dia e noite, uma humidade acima dos 85%, o som dos helic�pteros que chegam directamente de Han�i e esta coer�ncia arquitect�nica neo-realista tipo Beirute em 1985. E nem tenho que pagar o pre�o de um "cen�rio de guerra". Parece um dos lugares mais seguros do mundo. Ando aqui de um lado para o outro a qualquer hora sem problema nenhum. At� a guerra no Iraque ficou l� para outro planeta onde ainda h� guerras e para outro tempo que n�o aquele em que vivemos aqui.
As not�cias que acompanhei em directo na BBC e na CCN mais pareceram document�rios do que notici�rios.
S� cheguei em Janeiro de forma a que o 4 de Dezembro para mim nunca aconteceu. Apesar de bastar uma pequena fa�sca para isto virar um enorme fogo de artif�cio (que � o que vai acontecer no segundo imediatamente seguinte � retirada dos militares) parece quase imposs�vel que esta gente se transforme t�o facilmente em monstros furiosos. Mas isso seria compreender a pr�pria �sia, que � t�o fabulosa. T�o diferente de tudo. Size matters.
Pois �, seja a nostalgia que me fazem os helicopteros Puma, o peso do calor dos tr�picos, ou o simples facto de n�o estar em Portugal ou na Europa, a verdade � que daqui s� saio por motivos de for�a maior. E mesmo assim�
Neste momento estou c� s�zinha, mas a situa��o corriqueira � com parte da fam�lia que agora est� a� de f�rias. (...) Tamb�m temos Bridge e gin t�nico. (...) At� tenho c�es! Tr�s c�es. Isto deve soar � India do tempo colonial...
Pouca coisa me liga ao nosso pa�s. Ainda me ligo a pessoas. (,,,)
Nos �ltimos seis meses estive t�o actualizada sobre os debates do estado da na��o, os disparates dos do costume ou sobre o que vai sair nos jornais do dia seguinte, como quando estava em Lisboa. � igual conversar ao telefone de Lisboa para Lisboa ou entre Berlim e o Suai.
Impressionante as linhas que ainda dedico a este tema, n�o �?
Farto-me de viajar. Por aqui. Pela minha �rea. Para a semana vou para Java. Espero apanhar um banho de verdadeiro caos em Jacarta. Imagino que incompreens�vel para si.
Quando me perguntaram em mi�da qual era a colec��o que eu fazia, eu respondi de monstros. Perguntaram-me de seguida se eu tinha pesadelos, disse que n�o. Mas que os meus monstros tinham muitos pesadelos...
Em rela��o aos lugares, provavelmente, tamb�m me apaixono pelos seus defeitos. Ou pelo contraste dos dois lados da mesma moeda, isto �, do mesmo objecto."
 


BERLUSCONI (Actualizado)

N�o era minha inten��o falar do que aconteceu ontem no PE com Berlusconi, mas j� li relatos e coment�rios em diferentes blogues e alguns leitores do Abrupto pediram-me para comentar os eventos. Penso que tem sentido aqui descrever testemunhalmente o que se passou, por parte de um observador comprometido. N�o � jornalismo, mas esfor�o-me por ser o mais rigoroso que posso nos factos. O resto � opini�o.

Sabia do que se preparava, assisti ao que aconteceu e , por raz�es que tem a ver com as minhas fun��es, tive e tenho um papel nas sequelas poss�veis do evento. Sobre esta �ltima parte compreender�o que n�o fale, como tamb�m n�o falarei dos aspectos de debate interno e das conversas em que participou Berlusconi.

A parte dos incidentes que tem sido divulgada � a que envolveu Berlusconi e Schultz , com a hist�ria do "capo". � apenas uma parte do que aconteceu e n�o pode ser tratada isoladamente se queremos ter uma apreens�o informativo e opinativa do que aconteceu.

Pode no entanto esta parte dos incidentes ser validada isoladamente e n�o � dif�cil faz�-lo: a "piada" de Berlusconi � de mau gosto, ofensiva , completamente desapropriada e em nenhuma circunst�ncia devia ter sido dita. Quando instado pelo Presidente do PE a retirar o que disse, Berlusconi recusou-se, o que ainda mais agravou a situa��o. Berlusconi � o PM italiano, Presidente da UE e nessa dupla qualidade tem obriga��es de comportamento institucional que prejudicou com o incidente.

Incidentes deste tipo , exactamente deste tipo, s�o comuns em todos os parlamentos. O confronto parlamentar favorece-os e declara��es absolutamente inadmiss�veis e ofensivas , abundam. S� para dar um exemplo do parlamento portugu�s : Gama a chamar Bokassa a Alberto Jo�o Jardim. S� que na maioria dos casos, quando h� uma admoesta��o do Presidente, os autores de ofensas ou as retiram ou declaram que a sua inten��o n�o foi o insulto pessoal. Berlusconi teve essa oportunidade e desperdi�ou-a.

Dito isto com clareza, vamos ao resto. O que descrevo a seguir n�o justifica, nem legitima o incidente, porque o �nus da maior obriga��o de comportamento recai em Berlusconi. Quando decorreu o incidente do "capo" j� Berlusconi estava h� mais de uma hora no PE numa situa��o muito dif�cil : sujeito a uma manifesta��o agressiva por parte da esquerda parlamentar, em particular os comunistas , os verdes e uma parte dos socialistas. Estes prepararam uma manifesta��o no interior do hemiciclo com cartazes contra Berlusconi , manifesta��o essa em que, de forma institucionalmente inadmiss�vel, participaram funcion�rios do PE e dos grupos pol�ticos da esquerda, levantando cartazes e vaiando-o enquanto falava. N�o � irrelevante a circunst�ncia do lugar que ocupa o Conselho no hemiciclo ser encostado ao lado dos comunistas e dos verdes, de modo que a proximidade f�sica dos manifestantes com Berlusconi era grande. Talvez se ele estivesse do outro lado nada acontecesse. A hist�ria � assim.

Este comportamento � simult�neo com o decorrer da sess�o, ou seja Berlusconi est� a falar e mal se ouve, tal � o barulho, os risos e as vaias, vindos da mesma parte da sala. A Mesa tinha dificuldade em controlar a situa��o e n�o quis interromper a sess�o. Infelizmente situa��es deste tipo s�o comuns, embora com menos gravidade da que ocorreu ontem, no plen�rio, onde os verdes, os comunistas e uma parte dos socialistas costumam fazer manifesta��es dentro da sala com exibi��o de cartazes. Quem dirige a sess�o e a maioria dos deputados, incluindo muitos socialistas tem condenado estes procedimentos, mas lacunas do regimento impedem uma actua��o clara da mesa . Nas actas do PE est� um caso de um incidente, em que eu pr�prio estava a dirigir a sess�o, com um deputado basco ligado � ETA.

O que aconteceu na sala n�o se limitava � manifesta��o. Berlusconi estava permanentemente a ser insultado em v�rias l�nguas, mas com predomin�ncia do italiano, de "ladro", "capo", "mafioso" e outros ep�tetos do mesmo teor por alguns deputados, com predomin�ncia dos verdes e comunistas. Um dos verdes que habitualmente toma a lideran�a destes incidentes e que funciona como uma esp�cie de buf�o (com grande efeito e aplauso jornal�stico) � Cohn Bendit. Acham-lhe gra�a.

Por fim, o discurso do deputado Schultz contem igualmente partes ofensivas para Berlusconi, e referiu-se a quest�es de pol�tica interna italiana violando uma regra t�cita do PE. Isto obviamente n�o justifica as palavras ofensivas de Berlusconi.

Por �ltimo, uma observa��o quanto ao "caso Berlusconi" e que tem a ver com a duplicidade do tratamento que lhe � dado. Digo isto para que se compreenda que a selec��o dos "esc�ndalos" que s�o graves e os que n�o s�o, � politicamente motivada. A esquerda europeia nunca "engoliu" os resultados da verdadeira revolu��o que Berlusconi fez no sistema pol�tico italiano (mat�ria sobre que podemos falar depois) e que a tirou do poder.
Berlusconi n�o � o �nico dirigente pol�tico europeu com problemas com a justi�a, mas parece que �. N�o � preciso ir mais longe do que o presidente Chirac. Mas, como os pol�ticos n�o est�o acima da justi�a , depois de terminar o mandato ir�o a tribunal.

Depois, no caso italiano, � preciso uma prud�ncia diferente no julgamento dos "casos de justi�a" dada a acentuada politiza��o da ac��o judicial. Neste mesmo parlamento est�o algumas personalidades c�lebres de juizes "acima da pol�tica" que, usando a sua credibilidade como juizes, entraram numa carreira pol�tica e s�o hoje deputados. D� que pensar.

Por �ltimo, Berlusconi � empres�rio e os an�temas contra o dinheiro, contra o capitalismo e a economia de mercado tendem a descrever essa actividade como uma forma superior de roubo. Lembram-se de Proudhon que dizia que a "propriedade � um roubo..." ?

De qualquer modo, quem mais perdeu com tudo isto foi Berlusconi.

*

Coment�rios a esta nota em O Comprometido Espectador , A Esquina do Rio , De Esquerda , Pa�s Relativo , Linhas de esquerda , Valete Frates ! , Linha dos Nodos , O Intermitente . Estes blogues foram os que encontrei, para j�, com refer�ncias ao "caso".

2.7.03
 


DISCUTIR OS BLOGUES - EDI��O / N�O EDI�AO

O aspecto dos blogues n�o terem editor, e haver uma comunica��o n�o mediada entre quem os escreve e quem os l� � relevante para a sua caracteriza��o. Em teoria, deveria ser um dos elementos de distin��o com o jornalismo, embora n�o sendo o elemento prim�rio de distin��o, que permanece o aspecto factual da not�cia como mat�ria prima do jornalismo. O jornalismo existe para nos informar, o resto vem por acrescento e � volta disso. Conv�m lembrar.

No entanto h� que reconhecer que esta distin��o edi��o / n�o-edi��o tem cada vez menos sentido.
Primeiro, porque o jornalismo se tornou ficcional , uma esp�cie de "creative nonfiction" nos seus melhores e raros momentos. Nos piores, ou seja na maioria dos casos, produzem-se apenas redac��es opinativas, mais ou menos escolares, que,a �ltima coisa que querem � que l� dentro entrem factos. � o que acontece nalguns blogues .
( Quando colocar as "notas sobre o jornalismo pol�tico do Independente" , que tem como principal caracter�stica n�o ser jornalismo, falarei destas quest�es )

Segundo, porque uma das coisas que enfraqueceu o seu papel no nosso jornalismo, com a dissolu��o da autoridade nas redac��es e o igualitarismo, foi a figura do editor.

Nota final: h� tamb�m blogues que mant�m formas de edi��o. No Abrupto, que � um "blogue totalit�rio", no sentido em que n�o tem coment�rios, faz-se a edi��o da correspond�ncia enviada, eliminando repeti��es, coment�rios pessoais e reorganizando-se fragmentos das cartas por tema. Como num jornal.

*
Coment�rios com interesse a esta nota em Liberdade de Express�o .
 


OBJECTOS EM EXTIN��O 11

A s�rie dos "objectos em extin��o" � a que tem tido mais sucesso no Abrupto. Todos os dias recebo sugest�es novas e novas formula��es de sugest�es antigas. Um ar de nostalgia, uma vaga tristeza, uma "pena" pelo tempo j� passado, acompanha os textos, todos muito pessoais. Percebe-se a import�ncia que tem os objectos como sinais do tempo e como marcadores quase impercept�veis da sua passagem. Mudam-se os objectos - e temos usado uma defini��o muito ampla de objectos de maneira a incluir h�bitos, comportamentos ligados ao uso das coisas ou ao consumo de "experi�ncias" fixado no tempo ( como na nota de Luis Miguel Duarte em baixo s�o os "hor�rios") - e envelhece-se.
As p�ginas que a Carta Roubada podia escrever ...

Luis Miguel Duarte recorda uma vida nocturna menos nocturna

"Hor�rios aventureiros de juventude: quando em f�rias, nos junt�vamos no caf�, depois de jantar, entre as 9 e as dez. Quando �amos em carros colectivos, t�xis ou boleias, para discotecas, nas quais entr�vamos antes das onze, e que fechavam �s duas. Quando regress�vamos a casa excitad�ssimos com a noitada, que custava uma ressaca de quinze dias. Agora, em muitas discotecas entra-se �s quatro da manh�, a n�o ser que se chegue mesmo �s cinco ou �s seis. E o que est� a dar �, numa noite, correr v�rias. Ficar-se por uma � 'cota'. "


S�rgio Faria tamb�m faz quest�o de dizer que, ao falar "de coisas extintas" (...) guardo alguma nostalgia." E n�o � por acaso que "as coisas extintas" s�o quase todas recorda��es de adolesc�ncia :


"Kalkitos. Eram umas "transfer�ncias", muito engra�adas, que permitiam que defin�ssemos a posi��o e a distribui��o de um lote de personagens num cen�rio previamente estampado numa folha.


Livros da colec��o �Falc�o�. Eram livros de BD, tamanho de bolso. Os t�picos tratados n�o eram muitos, oscilavam entre est�rias sobre a II Guerra Mundial e cowboiadas. Fui a�, pela primeira vez, que me cruzei com o Major Alvega. Com uma personagem que representava um "aristocrata" envolvido na resist�ncia francesa na luta contra os invasores nazis. Com o Buffalo Bil. Ou com o David Crocket.

Cadernetas e cromos. Em particular sobre futebol. Com cromos daqueles que necessitavam que, nas costas, se lhes colocasse uns pontos de cola, para os fixar na caderneta.


Pastilhas el�sticas �Pirata�. Existam dois tamanhos, cada um com a sua forma de embrulho. O embrulho das mais pequenas era tipo rebu�ado. Uma outra maravilha, associada a estas pastilhas, eram os blocos de impressos para jogar � batalha naval.


Pirulitos. Eram uns refrigerantes, tipo gasosa, mas sem carica. Para se abrir tinha de se empurrar um berlinde para dentro da garrafa.

Cassetes de cartucho. Quando comparadas com as actuais cassetes-audio, as cassetes cartucho parecem uns aut�nticos pacotes. Ali�s, parecem muito mais pr�ximas das cassetes-VHS do que das cassetes-audio.

Telefonias a v�lvulas. Ligavam-se e, antes de se conseguir ouvir o som, era necess�rio esperar algum tempo, at� que as v�lvulas aquecessem. As suas caixas eram pesadas e, muitas delas, de madeira. � frente, por norma, um tecido forte, rugoso, frisado ou n�o, servia de adorno e de protec��o � "coluna" da telefonia.


M�quinas de copiar a stencil. Funcionavam � manivela. E as matrizes eram uns impressos com tr�s ou quatro vias, com um cheiro pestilento, que se riscavam, para produzir um efeito tipo papel qu�mico.


Papel qu�mico. Quando ainda eram d�ficil conseguir c�pias, o papel qu�mico era tamb�m uma solu��o. Usava-se recorrentemente nos livros comerciais e de contabilidade. E nas m�quinas de escrever, para permitir o arquivo da c�pia da correspond�ncia emitida.


M�quinas de calcular e m�quinas registadoras a manivela. Ap�s a marca��o de cada n�mero desejado, carregava-se na tecla da opera��o desejada e, depois, para processar, era necess�rio puxar ou rodar a manivela. Imagine-se aquelas somas com in�meras parcelas...


Telefones de baquelite, pretos, com disco. Eram uns telefones pesad�ssimos. A marca��o dos n�meros era feita por disco. Colocava-se, por ordem e � vez, o dedo nos algarismos que compunham o n�mero e, depois, rodava-se o disco at� ao batente existente, por norma, pr�ximo da posi��o do 5 nos rel�gios.
"


 


NOTAS EUROPEIAS (FRANCESAS NESTE CASO) 3 (Actualizada)

CLOSED SHOP

A Fran�a, um dos pa�ses mais centralistas e culturalmente chauvinistas da Europa, pro�be, em nome da "excep��o cultural", a publicidade de filmes na televis�o, para que n�o se corra o risco dos franceses quererem ver mais filmes americanos do que os que j� querem ver.
Este dirigismo cultural, verdadeira manuten��o do proteccionismo mais cedi�o, mostra at� que ponto a tradi��o jacobina � pouco liberal. N�o admira que conduzam todos os dias uma batalha cada vez mais perdida pela l�ngua e pelo que resta da influ�ncia da cultura francesa, n�o por causa de qualquer conspira��o global dos est�dios de Hollywood, mas porque o closed shop faz definhar o que "fecha".

*

Acrescenta o "Cidad�o Livre" em e-mail: "sugiro a leitura da seguinte not�cia da BBC: "Pela primeira vez, a lista dos livros mais vendidos na Fran�a � encabe�ada por um livro em ingl�s � Harry Potter e a Ordem da F�nix"
 


NOTAS EUROPEIAS (FRANCESAS NESTE CASO) 2

COMO SE FAZ UMA TEMPESTADE POL�TICA

Foi em Fran�a, mas podia ser em Portugal.- a cria��o de uma tempestade pol�tica completamente artificial. Esta assisti a um metro e meio de dist�ncia e por isso posso testemunhar. Num encontro comemorativo do anivers�rio do PPE falaram v�rias pessoas incluindo os Primeiros Ministros da Eslov�quia e da Fran�a e Helmut Kohl. O PM eslovaco citou uma frase atribuida a Churchill : "Socialism is workable only in heaven where it isn't needed and in hell where they've got it." Houve risos. A frase � , como se diz, bem apanhada e os socialistas at� devem achar merit�ria a refer�ncia ao facto do "c�u" ser governado por um governo da Internacional Socialista.

Em seguida falou Jean-Pierre Raffarin, o PM franc�s, que � o prot�tipo da bonomia, pequeno, encorpado, com a cara t�pica de um boulanger de prov�ncia, bem disposto , nada snob nem altaneiro, ir�nico e senhor da sua boutade. E re-citando a frase, que tinha ouvido h� minutos, lembrou-se de dizer na brincadeira que, a julgar pelo que pensava Churchill, a Fran�a devia estar no Purgat�rio, visto que "ainda h� os socialistas". Depois passou adiante, num discurso de circunst�ncia em que nada havia de pol�tica interna. A assist�ncia sorriu, at� porque j� tinha rido da frase de Churchill, e ningu�m ligou nenhuma ao Purgat�rio.

Eis sen�o quando, olho mais tarde para uma televis�o e vejo a Assembleia da Rep�blica francesa num verdadeiro pandem�nio com os socialistas a exigir desculpas p�blicas, a instar o Presidente a colocar na ordem "Matignon", perante o "grave insulto, pior do que os de Le Pen" e por fim, socialistas e comunistas a abandonarem em protesto a Assembleia interrompendo o importante debate sobre as reformas. O "grave insulto' foi a hist�ria do Purgat�rio.
Tudo isto, fossem quais fossem os partidos envolvidos, mesmo que fosse ao contr�rio, � de tal modo rid�culo que mostra como est� a vida pol�tica europeia.
 


NOTAS EUROPEIAS (FRANCESAS NESTE CASO)


Est� a ocorrer em Fran�a uma greve de um sector que se intitula de forma bizarra "intermittants du spectacle" e que se auto-designam de "artistas" : bailarinos, cabeleireiros, montadores de palcos para espect�culos, "animadores culturais" , etc. � na Fran�a um n�mero significativo de pessoas, o que mostra os frutos a prazo da pol�tica de Malraux de constitui��o de um forte sector estatal da cultura, entendida como um instrumento da propaganda e da legitima��o do estado. Era na sua origem uma pol�tica de direita, gaullista, feita em nome da "grandeur de la France" e emigrou para a esquerda com Lang ( e para Portugal com Santana Lopes e Carrilho, ambos disc�pulos de Lang). A "cultura" � vista essencialmente como alta propaganda, indiscut�vel pelo seu estatuto e excelente como mecanismo de influ�ncia pol�tica. Uns fizeram-na com as vanguardas est�ticas, outros com o teatro de revista e o Pedrito de Portugal, mas � o mesmo mecanismo.

A greve, que est� a abater todos os festivais de Ver�o, Avignon, Montpellier, etc., mostra a dimens�o de ind�stria que hoje a "cultura" tem nas sociedades contempor�neas, o seu peso econ�mico, a sua intimidade com o estado (grande em Fran�a, menos nos pa�ses anglo-sax�nicos), assim como a confus�o essencial de tratar esta "cultura" como associada � cria��o, retirando da� uma intangibilidade face �s mesmas cr�ticas que, por exemplo, escrutinam uma pol�tica de turismo, ou de anima��o urbana , ou a propaganda pol�tica. � por isso que jornais como o Le Monde noticiam a greve na sec��o de "cultura" , junto com os livros e os filmes novos. � tamb�m por isso que n�o h� maior equ�voco do que a exist�ncia de Minist�rios da Cultura, que, com excep��o do patrim�nio, pouco mais fazem do que gerir ind�strias culturais e serem, nos tempos fastos, minist�rios da propaganda. A "cultura" devia ir para os minist�rios da educa��o, da ind�stria, do com�rcio externo, onde as suas virtualidades em cada uma destas �reas deveriam ser maximizadas, e haver apenas um Minist�rio do Patrim�nio.

1.7.03
 


ARRUMA��O DA CASA

Muito de interessante para mim e todos os leitores do Abrupto chega-me pelo correio. Nesta sec��o "arrumo a casa", sem desprimor, bem pelo contr�rio, para as sugest�es e coment�rios mais avulsos.

IMPACTOS DA INTERNET

Jos� Carlos Santos chama a aten��o para

"um aspecto do impacto da Internet na vida das pessoas que me parece que ainda n�o come�ou a ser estudado. Refiro-me ao impacto que tem na vida das pessoas que t�m algum problema mental que lhes cause sofrimento e que, gra�as � Internet, descobrem que n�o s�o as �nicas a t�-lo. Quem fizer uma busca na Internet por Prosopagnosia ou por S�ndroma de Asperger, por exemplo, encontrar� imensos relatos de pessoas que se sentiram muit�ssimo aliviadas por descobrirem que o seu problema n�o s� � partilhado por muitas outras pessoas como, ainda por cima, � algo que j� se encontra diagnosticado. "

"E EU TAMB�M TENHO DIREITO A UM MOVIMENTO SOCIAL?"

"Luhuna C." transcreve um "panfleto anarquista" que teria sido "distribu�do" no FSP. N�o sei se � verdadeiro ou falso, pode ser aquilo que antigamente se chamava "provoca��o", mas tem o tom certo e merece registo.

"Os jovens perguntam ao f�rum:

O que querem os movimentos antiglobaliza��o? A utopia do p�s-tardocapitalismo? O capitalismo da utopia? Porque � que agora s�o alterglobaliza��o e n�o anti? Porque � que se sujeitam assim aos jogos de linguagem e de conceitos do poder? Porque � que agora o Euromarche se chama Carrefour? O que � a alterglobaliza��o e onde a posso comprar? No palmeiras ou no vit�ria? E n�o me estar�o a vender gato por lebre? Ou anti por alter e alter por anti? E quem � o director de marketing? � aquele brasileiro? E onde come�aram? Num editorial do Ramonet nas selec��es do reader�s digest? Num editorial do bibi no Le monde diplomatique? Ou nas ruas escondidas e pra�as destru�das de outras cidades (muito antes de a SIC noticias vos avisar ou o BE/PC vos autorizar)? A attac det�m agora os direitos de autor e de concess�o de franchise? Posso arrotar � mesa e comer com as m�os e continuar a ser cidad�o? E os movimentos sociais o que s�o? Existem para l� de hist�rias que nos contam bardos? Ser�o um o�sis ou S. Sebasti�o multiculturalizado? E o que querem os movimentos sociais? A sua fatia do tardocapitalismo? A sua tarde ao sol na fatia do capitalismo? Um outro capitalismo � poss�vel? Uma outra possibilidade � capitaliz�vel? E eu tamb�m tenho direito a um movimento social? E a um blog? Ser�o os movimentos sociais anjos da guarda reificados? E aquilo que se faz assim para frente e para tr�s, pimba pimba, tamb�m pode ser considerado um movimento social? Ser� (seria) o f�rum social uma gigantesca orgia? Ou uma passerelle da esquerda gourmet el corte ingl�s? H� after-hours no Lux? Vai haver t-shirts � venda? E qual � o quociente de paternalismo e de sentimentos de culpa presente nesta cena toda? Dado a sua contribui��o ao melhoramento da sociedade dever� o estado come�ar a subvencionar os soci�logos e historiadores presentes? E poder�amos aplicar uma taxa tobin �s transfer�ncias de jogadores de futebol para pagar aos soci�logos e historiadores presentes? O Deco estar� presente no FSP? E os �violentos�? Destruir�o eles o movimento? Criaram eles o movimento? Qual � m�nimo de horas que tenho de estar no FSP para depois me poder assumir enquanto participante nele? Uma tarde chega? Poder� o lugar deixado vago por Carlos Cruz e Herman Jos� ser ocupado pelo Boaventura e pelo Carvalho da Silva? Poder� o Boaventura apresentar a roda da sorte? E quem seria a Rute Rita? (eu sei, voc�s sabem?) E quem � que poderia ocupar o lugar do Paulo Pedroso (eu tamb�m sei, voc�s tamb�m sabem?) E se n�o fosse a ingenuidade dos jovens e a velhaquice dos velhos existiria FSP? E o FSP quer um piquenique ou uma revolu��o? Poderei dan�ar o electroclash no FSP? Poder� afinal a revolu��o aparecer na televis�o (no m�nimo no �acontece�)?
Paremos este mundo, uma outra guerra � poss�vel. Todos os n�os, um �nico sim.

Os filhos de Bragan�a.
"


DISCORD�NCIAS V�RIAS COM NOTAS DO ABRUPTO


JBC sobre o "Horror ao vazio"

"Atrevo-me a escrever-lhe para lhe lembrar que os seus amigos liberais norte-americanos n�o s�o menos "regulamentadores" que os legisladores europeus e quando fala de controle de comportamentos penso imediatamente nas disposi��es legais da Administra��o, seja local, estadual ou federal, sobre o controle do tabagismo."

Jo�o Correia discorda do que escrevi sobre futebol:

"A sua luta contra o futebol � antiga mas ser� infrut�fera, porque o lazer � um bem que os humanos sabem desfrutar. A sua campanha contra o Euro 2004, assim como a do governo, n�o convence e tem como base uma fal�cia, o custo que o or�amento do Estado suporta.
Devo-lhe dizer que n�o sou nenhum entendido na mat�ria, nem especialista em contas do estado, mas acompanho a actualidade e gosto de assistir a um bom jogo de futebol.
Pelo que tenho sido informado dos cerca 600 milh�es de contos que foram assinados nos contractos-progama dos 10 est�dios para o Euro 2004 s� cerca de 130 milh�es � que ser�o comparticipados pelo governo. Como os empreiteiros v�o pagar ao governo s� dos contratos-programa cerca de 115 milh�es de contos � cabe�a de IVA, restam cerca de 20 milh�es de contos que ser�o cobertos pelos cerca de 95 milh�es que o governo (70%) ir� receber da comparticipa��o dos fundos da Uni�o Europeia.

Pelo que me parece o neg�cio � para o governo e n�o para os Clubes. Isto sem contar com efeito alavanca que a economia sofre com o desenvolvimento destes investimentos assim como o efeito do evento quando este tiver lugar com os milh�es de pessoas que se deslocar�o pelo pa�s.
Quanto aos desvios aos contratos-programas parte deles j� estavam previstos, porque estes foram calculados com base no n�mero de lugares dos respectivos est�dios, mas de qualquer forma ser�o suportados pelos Clubes.
"

Filipe Figueiredo escreve sobre a "presen�a (ou aus�ncia) da hist�ria" :

"L� diz que: "Os nossos jornais e a restante comunica��o social tamb�m n�o reflecte sobre a hist�ria, sobretudo porque a desconhece ou porque possui delas ideias gerais". Posso concordar em parte mas n�o na totalidade. � que existe uma revista na imprensa dedicada apenas � hist�ria e que tem esse mesmo nome: Hist�ria. De seguida existe todos os dias no jornal de noticias( e noutros) um pagina/meia pagina dedicada a algu�m ou algum acontecimento Hist�rico importante. Na revista do Expresso e do P�blico (ao Domingo) h� tamb�m sempre uma folha/duas dedicadas ao mesmo. Inclusiv� na revista m�xima � colocada um biografia em todas as revistas. Al�m disso, existe um canal na TV Cabo ( e cada vez mais a popula��o portuguesa adere � TV Cabo) sobre Hist�ria. Na TV2 passam excelentes document�rios Hist�ricos (Sinais do Tempo e o Lugar da Hist�ria) mais o programa semanalmente transmitido pelo Professor Hermano Saraiva. Muitos destes artigos e programas n�o s�o de ideias gerais mas de estudos por vezes profundos, o que prova que eles conhecem. E mais exemplos poderia dar mas penso principalmente que quem mais deve reflectir sobre hist�ria s�o as pessoas e n�o a comunica��o social, especialmente no seguinte sentido:

Em certas situa��es que aconteceram no passado e que �s vezes nos confrontamos novamente, ela (comunica��o social), deve fazer esse exerc�cio de recordar o que fizemos e as ac��es que tomamos "da outra vez" , para agora reflectirmos e voltar a decidir. Em muitos casos deve mostrar mas nunca deve determinar o caminho.

Quando diz: "Pensar a hist�ria implica conhec�-la bem e, para isso, precisamos de tempo, disciplina, vontade, gosto, precisamos de compreender a sua import�ncia" , penso que a "vontade" e o "gosto" partem quase sempre de cada um e n�o � a escola (pelo menos esta) que consegue impor ou despertar a vontade. Ela pode despertar para aprendermos mais sobre ela. Mas se n�o desperta......acontece o debitar nos exames aquilo que se ouviu e os alunos tiram uma boa nota. E mesmo quando desperta, n�o � esse despertar que faz tirar uma boa nota.
"

A Maria Jos� Vasconcelos acha que no "Estado do Abrupto (Junho 2003)" o "pico" asi�tico � de Timor e n�o de Macau, e deve ter raz�o.

ESTRADAS, PEDREIRAS E BLOGUES

suscitaram muito correio que ser� tratado � parte.
 


OBJECTOS EM EXTIN��O 10

Acrescento eu agora quatro, de tipo muito diferente:

1) O programa Lotus Magellan, o melhor programa que jamais tive para "viajar" no computador. Para al�m de ter o nome do nosso Magalh�es, era de uma simplicidade e efic�cia absolutas e s� o deixei de usar quando o n�mero de ficheiros ultrapassava a capacidade do programa, que ainda estava na era do MSDOS. At� hoje nenhum o substituiu.

2) O programa Lotus Agenda que foi uma tentativa da Lotus de fazer um misto entre uma base de dados e uma agenda, ou um programa do g�nero do MS Outlook. O programa era muito inovador e acabou por ficar num limbo do software, sem continuidade. O Agenda permitia fazer anota��es em texto corrente, n�o formatado e uma �nica entrada podia ser organizada por diferentes categorias que, uma vez definidas, eram automaticamente reconhecidas. Na altura usava o DBase III ou IV, e j� fazia quase todo o meu trabalho de investiga��o usando bases de dados. Tentei adaptar o Agenda a uma esp�cie de cronologia complexa, remetendo para bases de dados biogr�ficas e por organiza��o e o programa , apesar de alguns erros, mostrava que tal era poss�vel de uma forma bastante criativa. Infelizmente a Lotus n�o fez mais nenhuma vers�o e deixou cair o Agenda.
Depois mudei-me para o MS Access, que � o que uso hoje, experimentei de passagem o Asksam, mas continuo a n�o ter algumas vantagens do Agenda, a n�o ser atrav�s de artif�cios complicados e pesados na mem�ria.

3) A experi�ncia do Sud Expresso ou do antigo "comboio da noite" Porto-Lisboa e vice-versa. Voltarei � "experi�ncia" enquanto "objecto".

4) As livrarias "marxistas-leninistas". Em breve acrescentarei aqui duas notas sobre a Banner Books and Crafts , em Londres, que desapareceu , e a Aurore, que ainda existe, minha vizinha em Bruxelas, transformada numa categoria �nica "antiquariat marxiste-leniniste".

e o Jos� Carlos Santos , sugere-me um quinto objecto, mais as mem�rias associadas:

5) "a r�gua de c�lculo, outrora instrumento de trabalho indispens�vel para engenheiros. No que me diz respeito, este objecto est� ligado a uma recorda��o bastante agrad�vel. H� bastantes anos atr�s, um amigo do meu pai dotado de uma grande curiosidade intelectual resolveu comprar uma r�gua de c�lculo e perceber como se trabalhava com ela. N�o tendo alcan�ado �ltimo este objectivo e sabendo que eu me interessava por Matem�tica, prop�s emprestar-ma para que eu aprendesse a trabalhar com ela e depois poder ensinar-lhe. Quando percebi o seu funcionamento, o meu pai combinou com o amigo que almo�ar�amos juntos para ent�o eu explicar o funcionamento da r�gua de c�lculo. Aquele almo�o foi a primeira recompensa material que tive em compensa��o pelo trabalho de realizar uma tarefa ligada � Matem�tica".


� Jos� Pacheco Pereira
In�cio
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