ABRUPTO |
correio para
jppereira@gmail.com
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30.6.03
19:50
(JPP)
a prop�sito de alguns boatos que o davam como autor an�nimo de O Meu Pipi , VGM publica no Abrupto as seguintes "d�cimas de refuta��o". Agora digam l� se isto n�o � verdadeiro "servi�o p�blico". d�cimas de refuta��o j� num blogue o meu pipi? de um pipi, que caso estranho... eu vou ali e j� venho: d�, r�, mi, f�, sol, l�, si. � for�oso que eu desminta com vigor essa atoarda: por muito usar a espingarda e por gastar muita tinta, n�o se espere que consinta na falsidade que li e me ofende o pedigree: garanto que n�o fui eu o brejeiro que meteu j� num blogue o meu pipi. quer-se o pipi bem guardado para uso pessoal: nestas coisas afinal deve ser-se recatado. demais, quem seja versado nos tiques do meu engenho, das pros�dias que eu amanho j� saberia de cor que eu faria bem melhor de um pipi... que caso estranho! nem da lira tiraria maior gl�ria do instrumento quando ao pipi acrescento a minha morfologia. e decerto n�o cabia num blogue assim o tamanho do lenho ardendo no lanho. pipilar pipis na li�a muito engui�a e pouco ati�a... eu vou ali e j� venho... o que � de c�sar, quem jogue assim a c�sar o d� e se entender o porqu� deixe ent�o que eu desafogue: que n�o pus pipi no blogue nem pus blogue no pipi: ri melhor quem no fim ri por redondilha ou quiasmo, ou por m�sica de orgasmo: d�, r�, mi, f�, sol, l�, si. vasco gra�a moura
11:41
(JPP)
Ainda ningu�m se lembrou de fazer uma hist�ria de uma estrada moderna, como a EN 1 com a sua ascens�o e decad�ncia. Era interessante, quase que se podia fazer uma hist�ria de Portugal no s�culo XX com base na EN 1.
11:39
(JPP)
Como vivo numa aldeia, tenho que fazer parte da viagem para Lisboa por estradas e caminhos mais ou menos secund�rios, ou caminhos que foram importantes , como a antiga EN 1, e agora est�o um pouco abandonados de tudo menos de tr�nsito. � um espect�culo confrangedor a destrui��o da paisagem, a partir das estradas para dentro, para os campos que sobram. Restaurantes manhosos, casas, fabriquetas, uma nova praga que s�o uns stands de autom�veis, cami�es, m�quinas ao ar livre, crescendo todos os dias de uma forma an�rquica, tornando irrecuper�vel parte imensa de Portugal. Tudo mergulhado no lixo, na sucata, nos mel�es em tendas � beira da estrada, no p�, nos montes de entulho deixados por todo o lado. E cada vez � pior, e este � o sentido para onde vamos. Cada vez � pior. Agora vou apanhar mais um avi�o, fazer mais uma corrida, mais uma viagem, como nos carrinhos de feira e, com o c�u limpo, durante vinte minutos, ver a destrui��o por cima, sob a forma das pedreiras ferindo tudo o que � monte ou colina, alastrando de castanho amarelado no meio do verde, �s dezenas e dezenas entre Lisboa e Coimbra. Faz pena. Se algu�m fizer, ou se j� existir um movimento contra as pedreiras, contem comigo. 29.6.03
18:18
(JPP)
No Combate, �rg�o do PSR, o partido trotsquista membro do BE, Ant�nio Lou�� compara-me com Goebbels e prop�e que eu seja julgado como Milosevic no Tribunal Penal Internacional pelas minhas opini�es sobre a guerra do Iraque. N�o � metaf�rico, nem blague, � mesmo a s�rio � se ele pudesse prendia-me.
12:47
(JPP)
A semana passada deu-se uma pequena revolu��o na blogosfera, certamente fruto da maior exposi��o p�blica deste tipo de media: aumento do n�mero de blogues e maior n�mero de leitores para muitos blogues individuais. O Abrupto, como penso aconteceu noutros blogues, teve um incremento muito significativo, quase o dobro, de leitores e �pageviews�. Neste momento atingiu as 70.000 �pageviews� em pouco mais de seis semanas (dados do Bstats o contador com uma s�rie mais longa), sendo deste m�s quase 43.000, at� hoje. A m�dia actual de �pageviews� di�rias atingiu esta semana mais de 2.100, e mant�m-se consistentemente acima de mil h� v�rias semanas. O dia mais visto foi 23 de Junho em que houve mais de 3.000 �pageviews�, um efeito da reportagem do P�blico. Os dias com mais aflu�ncia s�o segundas e quintas, embora haja uma frequ�ncia muito regular durante toda a semana e uma quebra no fim de semana e feriados. As melhores horas s�o o principio da tarde, o principio da manh� e as horas da noite. O Abrupto � muito lido em Portugal, depois na Europa, a seguir no Brasil e nos EUA - Costa Leste e residualmente na �sia (talvez Macau) e na Costa Ocidental dos EUA. H� um pico num fuso hor�rio que deve ser dos A�ores e Madeira. Comparativamente, os Estudos sobre Comunismo s�o mais internacionais do que o Abrupto. Pela an�lise das �entradas� no Abrupto, an�lise mais dif�cil de fazer e s� indicativa, um n�mero muito significativo de visitantes vem de fora da blogosfera e chega ao blogue atrav�s de procuras no Google ou outros motores de busca ou entra directamente vindo da rede. H� cerca de 200 blogues portugueses e brasileiros com liga��es ao Abrupto. As �ac��es� do Abrupto no Blogshares subiram de 0.25 c�ntimos para 199.57 d�lares, � data em que escrevo esta nota. Obrigado a todos.
11:06
(JPP)
Existem muitos paralelos entre os blogues e o projecto da Microsoft de incluir no Windows um programa intitulado MyLifeBits, uma esp�cie de backup da vida toda. Sobre o MyLifeBits escrevi no principio do ano um artigo no P�blico em que chamava a aten��o para o modo como a vida afectiva podia ser afectada pelo MyLifeBits e pela manipula��o da mem�ria, em particular, pela obsess�o da mem�ria que o programa permitia. Agora vejo as similitudes entre alguns problemas suscitados pelo MyLife Bits e os blogues. Ambos os programas se desenvolvem num sentido comum, ao associarem a nossa percep��o do vivido com o seu registo em tempo quase real, seja sobre forma literal no MyLifeBits, seja sobre a forma de anota��es nos blogues. As anota��es �vividas� nos blogues representam bem o tipo de observa��es e divaga��es que o MyLifeBits permite associar aos eventos registados. No MyLifeBits cabem os livros e artigos que lemos, todas as fotos e v�deos, telefonemas e mensagens, mas o mecanismo de ordena��o e procura � um fio interpretativo, uma esp�cie de auto gnose, de conversa interior com que os �anotamos� e isso � a mat�ria dos blogues. O resultado � um confronto acrescido connosco pr�prios. Uma nota muito significativa do Monologo revela a estranheza com o nosso passado sentimental, com um �estado� irrepet�vel, uma esp�cie de oddity , de nostalgia perplexa que j� existe nos blogues e ainda existir� mais no MyLifeBits: �reler posts antigos tentar retirar posts que contenham refer�ncias a estados mentais agora parecem-me rid�culos reconstruir percurso bloguista significa o qu�? que me incomoda exposi��o de sentimentos, s� isso as emo��es e sentimentos polarizam a nossa agenda mental. quando o efeito se vai, o pensamento prevalece (eu acho)...� Os blogues e o MyLifeBits tem aspectos mais revolucion�rios do que se pensa, porque permitem um grau de exterioriza��o da auto percep��o � mesmo que efabulada � que nunca existiu e um tipo de confronto com o modo como �nos fizemos� sem paralelo no passado. Pode ser doloroso e infeliz, e na maioria dos casos ser� porque h� mais infelicidade do que felicidade, mas trar� novas formas de perturba��o interior. (Continua)
10:36
(JPP)
1. Realizam-se as comemora��es dos 150 anos do objecto que deu origem a esta s�rie de notas: o selo postal. O P�blico tem hoje um artigo sobre os primeiros selos portugueses, os �D.Maria�, um dos quais, novo, vale uns milhares de contos. Mas os selos est�o mesmo em extin��o e sobre o estado do e-postage saiu um artigo interessante no �ltimo n�mero do PC Magazine. 2. Outras sugest�es de objectos em extiin��o enviadas pelos leitores do Abrupto: - �a farinha 33 e �leo de f�gado de bacalhau, nunca mais os vi�(Pedro Figueiredo) - �um tabuleiro de glicerina que servia para um professor policopiar com a maior das boas vontades e alguma semelhan�a com os jornais clandestinos, os materiais que utilizava nas suas aulas. os ingredientes comprava-os na baixa, numa drogaria que n�o sei se tamb�m j� foi extinta e depois preparava-se ao lume. Parecia uma receita de culin�ria. Tudo tinha de ficar muito liso no fim para n�o haver "falhas" na impress�o. Porque � que eu tenho alguma saudade dos tabuleiros de glicerina? Porque era nova? sim, porque agora � tudo mais f�cil.� (Maria Pereira) - M�rio Filipe Pires comenta este �ltimo objecto, o gelatin�grafo: "Interessante a correspond�ncia sobre os objectos em extin��o, a refer�ncia que se faz ao tabuliero de glicerina chamava-se gelatin�grafo. No entanto � pena que isso n�o seja divulgado, j� que na falta de qualquer energia electrica ou solar permite fazer c�pias e pode servir num aperto. J� a no��o de a dificuldade ser um dos atractivos � sintom�tica. O facto de ser dificil implica que haja empenhamento e verdadeiro entusiasmo. A facilidade de relacionamento que as tecnologias de comunica��o permitem, tem levado � cria��o de rela��es de aparente proximidade que muitas vezes se revelam falsas. Projectos que se iniciam com um n�cleo de entusiastas verdadeiramente motivados e se v�o alargando, podem a m�dio prazo acabar por divergencias de empenho. O sindroma dos trabalhos de grupo de liceu onde apenas um ou dois fazem o trabalho e os outros se limitam a assinar vem-me sempre � ideia nessas ocasi�es." 28.6.03
22:55
(JPP)
Parte da equipa da ex-Psicossom�tica, que depois de acabar o blogue escreveu para o Abrupto, est� agora na Carta Roubada, de inspira��o lacaniana. Felicidades .
19:44
(JPP)
A minha caixa de correio no Hotmail encheu e v�rias mensagens foram devolvidas. J� a esvaziei e por isso est� de novo dispon�vel.
19:40
(JPP)
O primeiro t�tulo esteve para ser �os su��os j� n�o s�o o que eram�, mas, pensando bem, � exactamente o contr�rio. N�o � que um F�rum econ�mico prestigiado su��o se preparou para convidar o Presidente de Angola Jos� Eduardo dos Santos para falar de �transpar�ncia e bom governo�. Sem ironia? A s�rio? A s�rio. Jos� Eduardo dos Santos que tem fundos bloqueados na Sui�a por ordem de um juiz e � citado em processos em Fran�a sobre luvas do petr�leo devia ser o interlocutor ideal. Parece que acabou por n�o ir, mas o convite, se a esquerda n�o protegesse os seus, seria um magn�fico argumento contra o capitalismo � su��o. CONGRESSO DAS TRADI�OES ACAD�MICAS Parece que em �vora se est� a dar um �congresso� com este t�tulo. A televis�o anunciou-o apresentando umas cenas com uns meninos de cornos e umas meninas vestidas de �ndias, todos com abundantes pinturas de guerras, a fazer de tontos. N�o sei de s�o imagens de arquivo ou se foi a dan�a de guerra que abriu o Congresso. O interessante � que a maioria das universidades que participam s�o todas novas e nenhuma com �tradi��es�. Se calhar � por isso. 27.6.03
12:24
(JPP)
Dedicado ao Aviz Saiu em DVD o filme de Claude Lanzmann Shoah. J� escrevi imensas vezes sobre o filme, mas n�o importa. Quero mesmo fazer propaganda. � daqueles filmes que provocam um antes e um depois, antes era-se adolescente retardado, depois fica-se adulto, antes era-se indiferente, depois �-se comprometido, do pathos ao bathos e depois do bathos ao pathos Nunca vi melhor �document�rio�, e vai com aspas porque a palavra � pobre. Se houvesse apenas um �document�rio� sobre o s�culo XX era este que devia sobreviver. N�o h� uma palavra a mais, um sentimento a menos, uma paisagem que n�o seja esplendidamente calma e intensamente cruel. O filme � sobre o holocausto e percebe-se como ele vem das ideias e n�o das necessidades, como o holocausto demonstra o extremo perigo das ideias, a sua banalidade burocr�tica, a sua presen�a quotidiana entre n�s.
11:10
(JPP)
PMF do Mata-Mouros enviou-me o seguinte coment�rio ao "Horror ao vazio": "Existia, em tempos, uma express�o que, nos meios jur�dicos, era frequentemente utilizada para qualificar o excesso de zelo do Legislador: �diarreia legislativa�. A incompreens�o de que a ordena��o jur�dico legal � (dever� ser), por natureza, m�nima - apenas devendo intervir, regulando, aquilo que se mostra essencial (juridicamente relevante) e, consequentemente, debatendo-se, em perman�ncia, com a necessidade de encontrar um justo e efectivo equil�brio entre, por um lado, a auto-regula��o e a liberdade individual e, por outro, a interven��o hetero-reguladora, estatal e estatizante � leva a tal incontin�ncia legislativa. O Direito deve servir (tamb�m et por cause...) para preservar os �espa�os vazios� dos comportamentos e rela��es sociais, reconhecendo, por princ�pio, a sua natural legitimidade. Querer combat�-los, por regra e por reflexo condicionado (rectius, tamb�m por press�o de todo e qualquer �politicamente correcto�) � um primeiro e fatal ind�cio n�o s� de falta de reflex�o, mas tamb�m de uma atitude pr�-totalit�ria e, consequentemente, a-jur�dica! Infelizmente, muitas vezes, as Institui��es comunit�rias rivalizam com os legisladores estaduais, nesta mat�ria! (...) N�o ser�o s� a Comiss�o e o PE os respons�veis pelo injustificado �horror ao vazio�. No fundo, se tal medida �legislativa�, aludida no texto em causa, vier a concretizar-se, tamb�m os pr�prios governos ter�o que ser responsabilizados por tal ced�ncia imediatista ao �politicamente correcto�: ser�o eles, no Conselho, que aprovar�o tal eventual regulamenta��o comunit�ria... " Abel Campos lembra que "essa "doen�a" � comum aos legisladores nacionais e europeus. N�o me parece que se possa s� culpar os eurocratas. Embora me lembre sempre da indigna��o de um amigo meu quando descobriu que em Bruxelas queriam regulamentar o di�metro dos pepinos (nunca cheguei a saber se realmente queriam). Legislar-se-� demais porventura mas sobretudo legisla-se mal. E temos exemplos bastantes em Portugal, sem ser preciso ir a Bruxelas : n�o se lembra do "pormenor" da altera��o das condi��es de interrup��o da prescri��o do procedimento criminal, devido ao "esquecimento" de se alterar tamb�m o C�digo Penal quando se alterou o C�digo de Processo Penal, e que teve resultados catastr�ficos (mas convenientes) para milhares de processos? Quanto ao controle dos comportamentos, eu diria: isso � outro filme, que ter� mais a ver com a obsess�o PC que com a compuls�o legislativa (mas admito que estes terrenos sejam movedi�os e de fr�gil distin��o)"
10:06
(JPP)
Penso que foi o Jornalismo e Comunica��o ou o Ponto M�dia que citaram recentemente um artigo americano sobre a �pack mentality� dos jornalistas . � o que se est� a passar com os blogues � agora todos os jornais v�o ter que ter pelo menos um artigo sobre blogues. Agora � moda porque � novidade, depois passar� de moda porque j� foi moda, e seguir-se-� o sil�ncio que envolve a n�o-novidade. � muito interessante e revelador ver como os artigos da imprensa do mundo exterior, l� fora, s�o recebidos na blogosfera,. C� dentro recebem palmas ou assobios conforme agradam ou n�o �s tribos organizadas. � tamb�m "pack mentality".
09:57
(JPP)
Duas personagens, o umbiguista prim�rio e o umbiguista secund�rio, conversam numa esquina virtual. Conversam, aquecidos pelo sol virtual., muito excitados porque est�o nos blogues e nos blogues � s� sturm und drang.. Secund�rio - Em breve voltarei � discuss�o mais umbiguista dos blogues : a do umbiguismo. � uma discuss�o que te gera um pequeno inc�modo, n�o � Prim�rio , uma irrita��o � Prim�rio - � uma fermenta��o na alma, uma perturba��o nem sempre mansa. Mas para que � que eu quero discutir os blogues e o umbiguismo , para que � que eu quero saber isso ? Eu quero fazer como eu quero. Pronto. Esta � a minha liberdade. Eu quero, eu falo, eu digo o que me apetece. Pronto. Vem de dentro e chega. Pronto. Secund�rio � �s um rom�ntico pregui�oso � Prim�rio - � e tu, com a tua raz�o imperial, �s contra a espontaneidade, contra o talento que brilha na escrita, contra a liberdade interior, insisto, queres � disciplina. Secund�rio - Olha que n�o � a tua liberdade � s� parece . Olha que nem sempre � talento, �s vezes � s� jeito, essa coisa muito portuguesa do jeito transformado em g�nio Prim�rio � O que tu queres , Secund�rio, � dominar-nos a todos pela via da interpreta��o, porque toda a an�lise nos tira a liberdade de n�o saber . � um aborrecimento ter que discutir estas coisas porque nos tiram a inoc�ncia e n�s n�o gostamos de nos sentir atados pelo que sabemos e n�o podermos iludir que n�o sabemos o que sabemos. Depois em vez de parecer inoc�ncia, parece cinismo e isso � muito complicado. (Virtualmente continua)
00:13
(JPP)
n�o num sofisticado Moleskine , mas num caderno ex-sovi�tico, de capa grossa e papel a caminhar para o pardo. Pode ser humilde, mas se o trouxer � frente do cora��o n�o h� bala que o atravesse, porque as capas parecem blindadas. N�o � todos os dias que um caderno faz alguma coisa por mim. Em pot�ncia, como diziam os escol�sticos O HORROR AO VAZIO H� uma doen�a nos legisladores europeus, seja da Comiss�o, seja do Parlamento: uma forma particular de horror ao vazio que os faz cobrir imediatamente com leis, regulamentos, directivas, tudo o que pare�a espa�o vazio de legisla��o. Parece que acham que a inexist�ncia de uma lei numa actividade humana � um marco de barb�rie e procuram de imediato ocupar o espa�o com a civiliza��o do direito. Uma das �reas onde esta actividade tem crescido exponencialmente � no controle dos comportamentos. Com a ajuda do �politicamente correcto�, os legisladores descobriram que os comportamentos n�o est�o ainda suficientemente regulamentados e tem o h�bito an�rquico de mudar, o que torna as leis anteriores obsoletas e exige umas novas. E eles querem � fazer leis para tornar o mundo um lugar t�o desinfectado como uma morgue. � o que a Comiss�o Europeia se prepara para fazer, tendo a inten��o de proibir o que considera �imagens sexistas � na televis�o, em particular na publicidade. A obsess�o, muito para al�m do problema real, pelo ass�dio chegou aos limites da puni��o da sedu��o, agora est�-se no limiar da censura. SOBRE BLOGUES PELA �EQUIPA DE UM BLOG QUE EXISTE NA AUS�NCIA� De novo, enviado pela equipa da Psicossom�tica, e com uma semana de atraso (meu), um coment�rio sobre de onde vem a voz que se ouve nos blogues: �N�o fazemos ju�zos de valor sobre �tribos� ou orienta��es pol�ticas assim como n�o nos interessa (por enquanto) a quest�o da identifica��o que vai da assinatura atrav�s de nick at� ao uso do nome real. Interessa-nos assinalar e registar padr�es no mundo virtual, isso sem d�vida alguma. Interessa-nos muito essa desloca��o entre mundos paralelos onde temos verificado, precisamente, as simetrias de que come��mos por falar. O fen�meno big brother pode, perfeitamente, caber nesta discuss�o porque h� de facto uma dimens�o exibicionista que depende do voyeurismo e vice-versa. Se fosse poss�vel representar graficamente esta situa��o recorrer�amos a uma gravura de M. C. Escher ou ao mais comum exemplo do s�mbolo da Renault que n�o � mais do que a concretiza��o gr�fica de uma impossibilidade. E de que impossibilidade falamos afinal? Precisamente a da ideia m�tica de uma �livre� e diferente express�o em oposi��o � express�o constrangida e padronizada, ou seja, a que op�e o mundo virtual ao mundo real. Nada do que at� agora observ�mos nos indica que estejamos perante �linguagens� assim t�o diversas. Tudo parece apontar para a replica��o ou simetria. Apesar de tudo temos que registar uma importante diferen�a formal � qual o conte�do se adapta e que � o �link�. Este elemento �perturbador� � que cria a �nica e fundamental diferen�a deste ambiente virtual e que se prende com a leitura que � efectuada na vertical e que, aparentemente, ilimitada encontra a limita��o de quem produz os links. (O n�mero transcendente ainda n�o encontra no link a sua express�o f�sica!). Quanto ao �umbiguismo� temos verificado como essa � a express�o mais pr�xima da do div� de Freud onde cada palavra ou ideia esconde outra palavra ou ideia. H� uma vontade manifesta de falar. Posta-se para poder falar. Na maioria dos blogs podem ler-se posts que sugerem esta pergunta: Quem � que n�o esteve dispon�vel para ouvir esta pessoa? N�o consideramos o �umbiguismo� um fen�meno �natural� ou �normal� at� porque estamos habituados a duvidar do valor, com certificado passado e reconhecido, dessas palavras. O �umbiguismo� � a superf�cie do que lhe subjaz. E o que lhe subjaz? Nunca saberemos (de novo a impossibilidade), nem que, por hip�tese, os "posts" d�em origem a livros ou apare�am publicados na imprensa. Arriscamos uma �nica ideia: a da infelicidade que � mais ou menos genuinamente vivida. � 26.6.03
23:06
(JPP)
dizia Jack Nicholson enquanto agu�ava o machado no Shining (j� tenho o meu til ~~~ o resto segue dentro de momentos)
08:50
(JPP)
logo. Obrigado pela paci�ncia e a fidelidade. O mundo voltar� aos seus eixos, nas terras onde h� til e o nao nao � nao mas nao com acento. Nao se percebe pois nao? A gente s� d� por ela quando as coisas faltam, amado til. 24.6.03
10:17
(JPP)
No sit�o onde estou a frase escrita em cima demorou meia hora a sair direita. Entre a primeira letra e a segunda o cursor pisca cinco minutos .Posso ir ver o mar e voltar. J� descontando acentos e caracteres. Nao vale a pena . 23.6.03
00:02
(JPP)
H� muitas coisas interessantes para comentar na blogosfera. Tenho recebido correio com textos que justificariam ser colocados imediatamente em linha, e cartas que exigiriam resposta na �volta do correio�. Nada fica esquecido, mas tenham paci�ncia se o Abrupto andar mais devagar. Esta semana vou trabalhar para o Grande Norte, atr�s do frio, e n�o sei se terei m�quinas, teclados, caracteres, quanto mais acentos, para escrever. N�o � imposs�vel, mas � dif�cil. On va voir. 22.6.03
14:37
(JPP)
Como toda a gente, aju�zo pelo meu interesse. E blogues como Guerra e Pas , Portugal dos Pequeninos (grande texto do Cesariny !) , Dicion�rio do Diabo , Desactualizado e Desinteressante , valem bem a pena do nosso bem mais escasso, o tempo. N�o concordo de todo com o Complot : a blogosfera est� cada vez mais interessante, o que est� � diferente.
12:17
(JPP)
Na blogosfera, metade parece estar deprimida porque ainda n�o foi para f�rias, outra metade porque j� est� em f�rias e uma pequen�ssima minoria n�o consegue ficar deprimida. A mera exist�ncia desta minoria subversiva exige que se chame a Pol�cia do Pensamento. Eu tamb�m n�o concordo com o artigo do Pedro Rolo Duarte. Ali�s a express�o �n�o concordo� n�o � a melhor, porque o artigo tem pouco a ver com os blogues mas com as guerras tribais dentro dos blogues. Ele tem uma tribo que suspeito estar demasiado pr�xima no seu territ�rio de outra tribo, se � que n�o � o mesmo turf. Dizendo �n�o concordo� pare�o estar a levantar a bandeirinha de um lado contra o outro. S� o digo porque, como ele tratou a parte como o todo, e usou algumas raivas disfar�adas de argumentos, n�o concordo. Agora tamb�m h� algumas verdades no que ele diz, como h� nos que o atacam. Eu tenho uma velha mania que � tentar distinguir os argumentos, as informa��es, mesmo as boas frases, da ganga. E tenho um velho h�bito, aquele que � para mim o fundamento da sociedade liberal em que quero viver, de ouvir os outros. N�o, n�o � caridade crist�, nem dar a outra face, � curiosidade, gosto pela discuss�o, e uma palavra pouco ouvida neste universo de grandes excita��es � toler�ncia. Excluo da toler�ncia a estupidez e a ignor�ncia arrogante. �Tomar partido� � uma coisa muito s�ria , e s� se justifica para coisas muito s�rias. A gente na vida �toma partido� poucas vezes, n�o pode estar a viver sempre num estado de grande excita��o moral. Vejam l� o que � que esse permanente exibicionismo moral deu no Dr. Portas. H� pouca renova��o em muitos blogues ao fim de semana , ao domingo em particular. Quando se fizerem teses acad�micas sobre a blogosfera, este ser� um indicador interessante. Porque � que os nossos autores �trabalham� tanto � semana e descansam no fim de semana numa actividade que defendem, com unhas e dentes, ser �l�dica� e �desinteressada� logo prop�cia aos fins de semana ? Foi porque Deus Nosso Senhor lhes disse para descansar? Duvido. A resposta mais imediata tem a ver com a condi��o social dos autores dos blogues, em todos os sentidos � profiss�o, acesso � rede nos locais de trabalho, condi��o estudantil, tempo livre �arrancado� ao trabalho, o chamado �direito � pregui�a�, e a rela��o de solid�o urbana em frente a uma falsa m�quina de companhia , o computador, etc. Mas suspeito que h� uma outra raz�o indiz�vel que est� a trabalhar como a toupeira: h� quem olhe para as �audi�ncias� e saiba que o fim de semana n�o � grande coisa, e, como nas televis�es, n�o vai gastar os melhores programas quando h� pouca �audi�ncia�. Bem vistas as coisas � natural, os blogues s�o um meio de comunica��o, obedecem a l�gicas id�nticas.
10:07
(JPP)
Ando para colocar este fragmento de poema no blogue desde o primeiro dia. � uma parte de uma longo poema de esc�rnio e mal dizer de Airas Peres Vuitorom, sobre um dos meus primeiros parentes hist�ricos. Fala de Fern�o Rodrigues Pacheco, alcaide de Celorico, que ficou fiel a D. Sancho II e se recusou a entregar o castelo aos partid�rios do Conde, futuro Afonso III, numa das nossas mini-guerras civis. O poema de Vuitorom louva-o porque n�o traiu e escarnece dos outros que deram logo as chavinhas dos castelos. Todo o poema tem um sabor inimit�vel a outros tempos, o dos Tructesindos da Ilustre Casa de Ramires. S� que este alcaide existiu e a troca de insultos antes da batalha soa imenso � verdade, at� com o latim episcopal. Aqui vai ele com as notas integrais de Gra�a Videira Lopes , Cantigas de Esc�rnio e Maldizer, Lisboa, Estampa, 2002, que o publicou: � E quando o Conde ao castelo [ar] chegou de Celorico, Pachequ' entom o cuitelo tirou; e disse-lhe um bispo: - Mitte gladium in vagina, com el nom nos empeescas. Diz Pacheco: - Alhur, Conde, peede u vos digam: Crestas! Notas : - empeescas - impe�as, importunes. - A resposta do alcaide de Celorico, Fem�o Rodrigues Pacheco, � um pouco obscura. . Peede � certamente o imperativo do verbo peer (peidar-se). - Crestas - uma interjei��o medieval com o sentido de �ao ataque!�. O sentido da resposta ser� pois: �Desaparecei, Conde, e borrai-vos cada vez que ouvirdes dizer ataque!� A vantagem destes textos � mostrarem, numa s� penada, como era o mundo antes do dom�nio dos �estados de alma� e do div� do Dr. Freud. Porque houve um mundo antes dessa perniciosa inven��o dos dramaturgos n�rdicos e dos romancistas russos da mente atormentada. Este Pacheco, este bispo e o Vuitorom j� n�o se fazem nos dias de hoje. 21.6.03
18:44
(JPP)
A equipa da Psicossom�tica enviou para o Abrupto mais uma contribui��o para a discuss�o sobre os blogues, desta vez a prop�sito do artigo de ontem no DNA de Pedro Rolo Duarte. O tempo e o modo da sua carta (agora chama-se e-mail mas � uma carta) s�o pouco comuns para esta comunidade. A Susana ( com o acordo do Diogo e do Heitor) escreve-me dos �tempos mortos� de uma urg�ncia hospitalar, devido ao �descanso dos utentes (normalmente as urg�ncias s� costumam �animar� no domingo � noite entrando pela segunda-feira, agora � tempo de praia e o descanso dos utentes � o nosso descanso tamb�m e, ironicamente, dos mais idosos que ficam por aqui abandonados pelas fam�lias mais �ocupadas� com o lazer e que portanto se �desocupam� dos inc�modos pais e av�s �largando-os� nas urg�ncias antes das f�rias, das �pontes�, tantas vezes dando moradas falsas e telefones inexistentes!) �. O olhar, vindo de onde vem, ganha em dist�ncia: �O artigo de PRD me parece muito interessante e igualmente pr�ximo daquilo que j� lhe manifest�mos e que colheu nas nossas observa��es do movimento blog ao qual pertencemos durante o tempo que julg�mos necess�rio e que os azares inform�ticos tamb�m �ajudaram� a determinar (a nossa �deforma��o� profissional acrescentaria qualquer considera��o freudiana mas abstemo-nos de entrar por esse vasto e f�rtil campo!). PRD come�a por descrever o comportamento de um blogger de uma forma desassombrada e que julgamos corresponder, grosso modo, ao que temos observado na blogosfera e que se prende com outros problemas que v�o, cada vez mais, fazendo parte do dia a dia de qualquer psiquiatra e psicanalista que ouve queixas de mulheres cujos maridos as teriam �trocado� pelos computadores, homens e mulheres cujo �nico meio de contacto com o mundo real � atrav�s do mundo virtual, homens e mulheres que se servem da Internet para exprimir, exibir ou �resolver� patologias t�o diversas como diverso e imperfeito � o mundo que vivemos. Um mundo feito de solid�es, de infelicidade mal disfar�ada, de uma velocidade que tapa o sol com a peneira que �obriga� os profissionais da sa�de a um �upgrade� fundamental (Eduardo Prado Coelho escreveu, aqui h� tempos, um �fio do horizonte� que apesar de alguns erros punha o dedo na ferida do sofrimento mental) Observar, a t�tulo exemplar, as horas a que se �posta� � um dado curioso a juntar ao que vamos sabendo. A t�tulo de exemplo podemos assinalar estas horas que marcam os posts de um blogger num mesmo dia: o �ltimo post � feito de madrugada (3:54:03) e o da manh� marca 10:17:12 naquilo que � um padr�o desse blogger e da maioria dos bloggers. O que se retira desta observa��o � apenas este padr�o que, pensamos, deve corresponder a um outro padr�o de vida e comportamento destes bloggers. Julgamos que o mundo virtual � t�o rico em informa��o (a tal gigante biblioteca) como pobre no confronto real (corpo a corpo, olhos nos olhos) com a desilus�o que a realidade oferece e que, para muitos, � insuport�vel pelo que carrega de frustra��o. O mundo virtual, em que se incluem os blogs e at� o pensar dos blogs, � um mundo mais protegido e protector. Curiosamente, recebemos um mail de um blog �Bouvard e P�cuchet� que faz um apanhado humor�stico de posts (a que chamam postolos) dos blogs e n�o o vimos linkado em nenhum dos blogs (e foram muitos) que consult�mos (para uma comunidade que exibe tanto humor e que desmonta a imprensa escrita com gozos de todo o tipo ou at� an�lises s�rias, o sil�ncio em torno de blogs que criticam blogs tem um peso simb�lico que conviria analisar) Os estudos da psic�loga do MIT, Sherry Turkle, a prop�sito da comunidade hacker encontra nesta comunidade blogger um importante paralelo que se refere ao investimento de horas no computador e comportamentos do tipo compulsivo. Sublinhe-se ainda que a comunidade hacker, mais aparentada com a estrutura das seitas secretas, faz a sua passagem para a vida real, sem que esse seja o seu objectivo, atrav�s das empresas de software que v�o escolhendo os melhores elementos para cria��o de melhor produto comercial. A comunidade blogger transita da vida real para a virtual para, eventualmente, poder viver a vida real de outra forma, ou com outro tipo de ganhos. � igualmente curioso verificar como se organiza a comunidade blogger atrav�s de grupos de elite que se apoiam entre pares, atacam ou ignoram os considerados �corpos estranhos�. Recorrendo aos links, � express�o �amigo/a�, por exemplo, podemos �arrumar� os bloggers em grupos e sub-grupos sem dificuldade. H� um blog �Cruzes Canhoto� que o mostra sob o seu ponto de vista, subjectivo, mas que consideramos muito intuitivo e pr�ximo da realidade.� Obrigada � Psicossom�tica por participar num interesse que nos � comum, com o olhar mais desapiedado da "an�lise".
12:24
(JPP)
�Portugal � o est�dio da Europa�, dizem os reclames do Euro 2004. Os portugueses j� suspeitavam. Os estrangeiros j� sabiam. �N�o h� jornalismo p�blico e privado, mas h� bom e mau jornalismo� disse Rodrigues dos Santos . � uma absoluta verdade. Mas se � assim tamb�m n�o h� �televis�es p�blicas e privadas, mas boas e m�s televis�es�, e eu n�o vejo raz�o porque � que os portugueses t�m que pagar dos seus impostos uma televis�o que � t�o m� como as outras e, �s vezes, t�o boa como as outras.
11:19
(JPP)
Jo�o Nogueira no Socio[B]logue continua a discuss�o iniciada aqui com os �dois tempos� . Algumas notas complementares: 1. A quest�o dos �dois tempos� tinha para mim um duplo sentido. Um, � o da diferente percep��o psicol�gica do tempo prisional e do tempo �exterior�. Temos debatido esta parte. Mas h� uma outra dimens�o que tamb�m estava presente na nota inicial, que deliberadamente n�o referia Cunhal : o de como, na narrativa da biografia, se compatibiliza um tempo em que acontecia tudo e um tempo em que n�o acontecia nada. �Nada� n�o era para ser tomado � letra, mas significava o dom�nio de rotinas � uma vez descritas, repetem-se sempre e por isso n�o se prestam a uma narra��o . Ou seja: como � que se puxa um fio narrativo atrav�s de uma cont�nua e programada repeti��o de gestos, que em si n�o tem novidade. A resposta que dou no livro � a �bvia � atrav�s do que Cunhal l�, escreve, desenha e pinta na cadeia. 2. O caso de Cunhal � singular e por isso n�o se pode generalizar, mas tamb�m n�o pode considerar-se como adquirido que, enquanto preso, foi totalmente imune aos efeitos do encarceramento. Bem pelo contr�rio, alguns desses efeitos podem ser documentados e fa�o-o no livro: doen�as com uma componente psicossom�tica, tra�os de depress�o, etc. O principal testemunho de Cunhal da sua passagem pela Penitenci�ria � o Estrela de Seis Pontas que, como toda a fic��o de Cunhal, � puramente autobiogr�fica. Tudo o resto ou desapareceu, foi cuidadosamente retirado dos arquivos (por exemplo na Penitenci�ria existem registos herdados de Bocage, mas nada h� sobre Cunhal e Galv�o, �desapareceu depois do 25 de Abril�), ou est� indispon�vel. Por isso temos que nos ficar pela Estrela, onde existem, como nas Mem�rias do C�rcere de Camilo, elementos para descri��o do mundo prisional que apontam para os efeitos do encarceramento no autor. No entanto, o que � mais interessante no livro � o n�tido processo de identifica��o de Cunhal com os presos comuns. 3. O mesmo se pode dizer dos desenhos, a que dedico grande parte de um cap�tulo, onde tamb�m � n�tida a efabula��o de uma rela��o com um mundo exterior que contrasta com a est�ril �presen�a� visual do mundo prisional. Visitei a Penitenci�ria, refiz os trajectos poss�veis de Cunhal dentro da cadeia, olhei da sua cela para fora, e a pobreza e a tristeza de �vistas� � absoluta. 4. Quanto � cela como �espa�o de liberdade�, inteiramente de acordo. S�o os �outros�, como diria Sartre, que s�o muitas vezes o inferno. Por isso, a cela pode ser o espa�o da �solid�o desejada�, mas �-o certamente da �solid�o indesejada�. � talvez aqui tamb�m que a quest�o da priva��o sexual se coloca com mais agudeza. Cunhal na Estrela de Seis Pontas retrata a omnipresen�a da sexualidade efabulada e real na cadeia com bastante rudeza e realismo. 3. Depois h� outros efeitos da �dualidade temporal�, que neste caso s�o relevantes, como seja o atraso ou a ignor�ncia por parte do preso de acontecimentos fundamentais para a sua vis�o do mundo e, mesmo para a sua estabilidade psicol�gica. `Tudo indica, por exemplo, que Cunhal s� soube durante o seu julgamento da vit�ria dos comunistas chineses.
10:19
(JPP)
Paulo Agostinho escreveu-me de novo fazendo a liga��o entre a discuss�o sobre a hist�ria e o imp�rio do soundbyte, explicando porque � que a � hist�ria n�o cabe no Reino das Frases Curtas� : �Creio que o soundbyte est� bem assimilado pelo p�blico, pelo meu p�blico (infantil) e pelo grande p�blico (o que v� televis�o preferencialmente a ler os jornais). De tal forma que muitos pol�ticos o aceitam e orientam os discursos de forma a gerar um soundbyte, pois sabem ser esta a chave que lhes permite entrar em casa dos cidad�os, atrav�s da televis�o. A escola (que como todas as institui��es � conservadora), resiste a aderir ao soundbyte, mas � um esfor�o ingl�rio. Ao professor � dada uma escolha: ou entra no "Reino das Frases Curtas" ganhando a aten��o dos alunos e pondo de lado o rigor da explica��o fundamentada, as nuances, os cinzentos que sombreiam toda a realidade, ou recusa-se a aderir ao soundbyte e perde o seu p�blico. O tr�gico desta escolha � que em ambas as hip�teses o rigor da informa��o est� amea�ado e a fun��o de ensinar � substitu�da pela de entreter. As frases curtas ficam no ouvido, s�o facilmente repet�veis em segundos de notici�rio e insinuam uma realidade marcada por um dualismo reconfortante: h� os maus e os bons, a direita e a esquerda (a ordem n�o � arbitr�ria, se estivermos atentos aos notici�rios), os fumadores e os n�o-fumadores, os ortodoxos e os renovadores, os americanos e os inimigos da globaliza��o, Israel e os palestinianos... E a Hist�ria no meio de tudo isto? A um p�blico reconfortado por uma realidade a preto e branco e habituado � frase curta, como se pode pedir que goste de hist�ria, que pense sobre o seu passado e procure a partir dele explicar o presente? No "Reino das Frases Curtas" o tempo � ef�mero. � o tempo da palavra falada. Quando muito, � o tempo da palavra impressa em papel de jornal cujo eco, como todos sabemos, soa por um dia ou por uma semana, no m�ximo. Uma sociedade que tem esta no��o de tempo n�o pode, de modo algum, aceitar o conceito de tempo hist�rico. Recusa-se a aceitar que o passado seja a causa dos problemas do presente. Vejamos o exemplo do Iraque. A explica��o para a interven��o americana encontra-se no petr�leo (que � o presente, existe, est� l�, provavelmente prestes a cair nas garras das petrol�feras americanas) e n�o no terrorismo do 11 de Setembro (que � passado). A 12 de Setembro ainda se aceitava dizer "Somos todos americanos" (belo soundbyte), mas tanto tempo depois o eco j� n�o se ouve. Ou melhor, ouve-se, mas n�o no "Reino das Frases Curtas".
00:29
(JPP)
A linguagem, caro Pedro, at� � a forma principal das pessoas se esconderem. Sobre isso repito o que disse Pessoa "quando falo com sinceridade, n�o sei com que sinceridade falo". 20.6.03
16:55
(JPP)
Primeiro, � um grande t�tulo, Portugaliae Monumenta Frivola , parece um nome de blogue. Depois o livro de Eug�nio Lisboa, que j� saiu h� uns anos, e que, com a distribui��o err�tica das livrarias, � dif�cil de encontrar, tem uma liberdade de esp�rito rara nas nossas letras. Entre outras coisas est�o a� ensaios sobre o cruel mundo das invejas liter�rias portuguesas, sobre autores quase esquecidos como Domingos Monteiro, t�o rapidamente ignorados, uma pol�mica mais que actual com Ant�nio Barahona (Muhamad Rashid), e umas listas do tipo das que a Montanha M�gica sugeriu.
15:14
(JPP)
que n�o fala sempre do mesmo: o Socio[B]logue do Jo�o Nogueira, meu interlocutor sobre pris�es, solid�es, e tempos �rduos. Colocado sob a �gide da Marginalia de Poe : " sobre o seu fasc�nio pelas anota��es, apontamentos e coment�rios com que coloria abundantemente as margens dos seus livros. Essas notas an�dinas � nas suas palavras �scribblings�, �pencillings� e �marginal jottings� � constitu�am, em sua opini�o, lembretes imprescind�veis na reconstitui��o do texto; embora se tornassem desprovidos de significado e inintelig�veis se separados, isolados ou subtra�dos do seu contexto original. Este blogue �, tamb�m, ou sobretudo, de alguma forma, uma compila��o desses �scribblings�, �pencillings� e �marginal jottings� que tanto fascinavam Poe. Sociol�gicos, claro." O Socio[B]logue contribui, em conjunto com muitos dos blogues aparecidos no �ltimo m�s e com os melhores dos pioneiros que j� c� estavam, para que a blogosfera n�o tenha centro e funcione pela lei dos grandes n�meros, oscilando num e noutro sentido, exercendo o seu efeito nos que nela entram de muitas e variadas maneiras. Cintilando.
13:05
(JPP)
Os �dois tempos� da minha nota anterior eram obviamente sobre a pris�o de Cunhal, em cujo terceiro volume da biografia estou a trabalhar, e que cobre os anos da pris�o de 1949 a 1960. Jo�o Nogueira escreveu-me comentando os �dois tempos� na base do trabalho sociol�gico que nos �ltimos dois anos tem estado a fazer �sobre pris�es e encarceramento�. Levanta a seguinte objec��o � �dualidade temporal� : �O tempo �dentro� n�o � �linear� (ou, se quisermos, �linearmente lento�), quando se procura fazer uma �fenomenologia da vida prisional�. Com efeito, em boa parte das etnografias prisionais que li at� hoje, � not�ria a exist�ncia de diversas fases na percep��o da passagem do tempo por parte de reclusos (sobretudo, em reclusos com penas de longa dura��o). Veja, a t�tulo exemplificativo, o que me dizia um ex-recluso condenado a uma pena relativamente extensa (9 anos) em sede de uma �entrevista biogr�fica� (hist�ria de vida/ est�ria de vida). Segundo a sua �experi�ncia vivida� afirmava existirem tr�s fases distintas na percep��o da passagem do tempo: "O tempo na cadeia tem tr�s fases. Tem a fase inicial que custa muito... de adapta��o. O tempo custa muito a passar. Depois o do meio, passa-se num instante: 'O qu� j� passaram quatro anos...' Depois no final � a ansiedade, quando se aproxima a sa�da. A� o tempo volta a ser muito lento. Mas na fase do meio nem se d� por ela passar. N�o se vive, vegeta-se... A entrada custa a aceitar... A adapta��o �quele ambiente, os problemas, a vida c� fora, o que se deixou, os crimes, as perspectivas de vida... �s vezes pensa-se na evas�o. Depois pensamos: 'Isto � uma fase de passagem... vamos l� ver se me aguento c� dentro'. � a parte mais dif�cil. Depois uma pessoa mentaliza-se... Passa muito r�pido. Depois vem a �nsia de viver. A �nsia da liberdade." (Ex-recluso) Assim, no per�odo inicial, de adapta��o � pris�o, de assimila��o da cultura penitenci�ria e de internaliza��o dos tempos institucionais, o tempo custa muito a passar ["Voc� n�o imagina como � acordar a noite inteira, olhar para o rel�gio e ver que s� passou uma hora, �s vezes meia... uma pessoa pode enlouquecer � espera do dia seguinte. � um tempo muito lento... muito lento. E custoso, obviamente." (Ex-recluso). Na fase que se segue, pontifica o sentimento do tempo parado e inerte, onde os rituais quotidianos s�o incorporados e os dias passam sem se dar conta. Na �ltima etapa, regressa o tempo que custa muito a passar, devido � enorme ansiedade provocada pela proximidade da liberta��o. Ademais, esta percep��o do tempo n�o � universal (e �, na verdade, algo teleol�gico argumentar que todos os reclusos passam por estas tr�s fases) e muitos reclusos, apresentam diferentes maneiras de experienciar a passagem do tempo. As tempografias da experi�ncia de reclus�o s�o, por conseguinte, muito heterog�neas. Assim questiono-me porque tentar dar uma no��o de imobilidade �l� dentro�. Porque n�o dar uma no��o menos linear da evolu��o da percep��o do tempo l� dentro, com as suas flutua��es, muta��es, hesita��es, etc...? Fica a sugest�o.� O meu problema � que lido com um caso individual, n�o generaliz�vel, de um preso pol�tico, altamente motivado, numa cadeia de presos comuns, numa situa��o de isolamento sui generis, que tem que ser analisado como pol�tico, mas tamb�m como homem que est� preso, sujeito aos efeitos e pervers�es da vida carcer�ria. Tento faz�-lo em dois cap�tulos do livro, um dos quais intitulado provisoriamente �estrat�gias contra a solid�o�. Quando li a literatura sobre o encarceramento e os seus efeitos, era para mim claro que alguns dos efeitos de interioriza��o do regime prisional a� descritos, alguns inclusive de identifica��o com a institui��o prisional, n�o se verificavam dada a for�a de resist�ncia psicol�gica do preso, fruto da sua personalidade e da motiva��o pol�tica e ideol�gica. Mas, nem tudo era assim t�o simples. No entanto, mesmo aqui, tive que me defrontar com a diferen�a entra a situa��o dos presos pol�ticos numa cadeia onde s� h� presos pol�ticos (Peniche ou o Tarrafal por exemplo) e em que estes se defendem da institucionaliza��o criando uma �contra-sociedade� na pris�o (aulas, estudo em comum, caixa de solidariedade, actividades partid�rias, direc��o pol�tica das actividades, hierarquia pr�pria ), com o caso de Cunhal que permaneceu longos per�odos de pris�o isolado. A� n�o h� esse efeito de �contra-sociedade� limitando os efeitos da �institui��o total�. Por �ltimo, a percep��o do tempo vivido, sendo psicol�gica, � tamb�m neste caso, afectada pela import�ncia de uma filosofia individual da ac��o, impregnada pela hist�ria, que corre � c� fora.
11:54
(JPP)
Dedicado ao Posto de Escuta Luk�cs (cito de mem�ria) gabava-se dos seus textos serem dif�ceis de citar como se fosse um m�rito. Dizia ele que o pensamento racional, racionalista, como era argumentativo n�o se prestava � cita��o curta, precisava de espa�o para se explicar. Confrontava-se assim com Nietzsche, citado com facilidade exactamente por ser o paradigma da irracionalidade. O fulgor est�tico de Nietzsche quase que incitava � cita��o da frase curta, que aparentemente diz tudo, e, para Luk�cs, n�o dizia nada. Para o argumento n�o vale comparar a autoridade de Luk�cs com a de Nietzsche, ganha sempre Nietzsche. N�o sou da escola de Luk�cs, nem concordo inteiramente com ele (mas quem me manda citar Luk�cs nestes dias, j� era �passado� quando eu o li � e s� serve para confirmar as suspeitas do estalinista lurking inside me, like the Thing) mas , nestes dias de soundbyte, de �frases do dia�, vale a pena pensar no que �n�o passa� l� fora e aqui, no Reino das Frases Curtas. Do que n�o cabe.
10:57
(JPP)
A aus�ncia da hist�ria nos blogues, como ali�s no discurso corrente, foi um tema a que me referi logo nos primeiros dias do Abrupto. Comparado com o n�mero de coment�rios sobre os �objectos em extin��o� (que tinha um tra�o de hist�ria, mas era tamb�m directamente vivencial) e sobre a leitura, nunca houve grande resposta sobre a hist�ria, confirmando as suspeitas. Quando ontem comentei a aus�ncia de refer�ncias ao 11 de Setembro, mesmo apesar da sua relev�ncia para o debate pol�tico actual e da sua absoluta contemporaneidade, penso que tamb�m existe uma recusa � considera��o do tempo hist�rico como mecanismo de media��o. Escola e comunica��o social s�o hoje os principais factores de socializa��o, com a fam�lia, que nos �fazem�, por isso s�o insepar�veis. (Uma discuss�o acess�ria, que noutra altura desenvolverei, � a de saber a ordem de import�ncia da fam�lia, escola, e comunica��o como cultura de massas na socializa��o das gera��es presentes). Paulo Agostinho escreveu-me, relatando a sua experi�ncia de professor e de leitor, a prop�sito da hist�ria : "Esta �, pessoalmente, uma quest�o angustiante porque vivo da hist�ria, ensino-a (este ano) a noventa crian�as de Tr�s-os-Montes. Pe�o-lhes muitas vezes que o fa�am, que pensem sobre a hist�ria de que falamos nas aulas. Nos testes, arrisco uma ou duas quest�es que exigem essa reflex�o (naturalmente doseada face � idade). Qual o resultado? Um confrangedor sil�ncio. Confrangedor para mim, pois sinto que falhei. Sinto-o sobretudo quando crian�as (que se julgam bons alunos e t�m notas de bons alunos) apenas conseguem repetir o que encontraram no caderno e no livro. Em conversa com um amigo meu sobre este assunto, aventur�mo-nos a colocar algumas hip�teses. Eis a principal: na escola n�o se pede que os alunos fa�am reflex�es baseadas na realidade. Ou se pede uma memoriza��o dos factos, ou uma reflex�o apenas assente na imagina��o. Nas disciplinas de l�ngua portuguesa n�o se ensina a ler, a escrever, a compreender o que se leu e a expor o pensamento. Muitos dos alunos que tenho encontrado em seis anos de ensino n�o conseguem expor um pensamento pr�prio de forma clara, por isso defendem-se memorizando os pensamentos e as opini�es do professor e do autor do manual. Naturalmente, muitos n�o gostam de hist�ria. N�o os censuro. Eu tamb�m n�o gostaria, se o rosto da hist�ria fosse aquele que se v� nos manuais escolares, uma compila��o de dados, conceitos e explica��es ultrapassados, mal escritos, caoticamente organizados e mal ilustrados. Basta olhar para o programa do 9� ano para ver o caos daquela estrutura. Passo a alinhar as mat�rias seguindo a ordem do manuais (e do guia do minist�rio): 1-Partilha de �frica e Confer�ncia de Berlim; 2- I Guerra, com as alian�as, a guerra de movimentos e de posi��es, a entrada dos americanos e o armist�cio; 3- Participa��o de Portugal na guerra (com explica��es que ignoram totalmente os estudos de Vasco Pulido Valente); 4- As consequ�ncias da I Guerra; 5- A Revolu��o Sovi�tica, com um longo pre�mbulo sobre a R�ssia no tempo do �ltimo czar, o Domingo Sangrento, a Revolu��o de Fevereiro, a Revolu��o de Outubro, o Comunismo de Guerra, e a NEP; 6- Depois de tudo o que ficou para tr�s, deveriam os alunos estudar a Implanta��o da Rep�blica em Portugal. Regressa-se ao tempo do Ultimato, fala-se do regic�dio, da implanta��o da Rep�blica, e avan�a-se at� 1926. Tudo isto depois de, um m�s antes, de ter falado da participa��o de Portugal na guerra de 1914-1918. Existe uma l�gica nesta estrutura? Talvez haja, mas eu n�o a percebo (e os alunos muito menos, pelo que a hist�ria �, para eles, nada mais que um retalho feito de epis�dios soltos e sem liga��o entre si). Infelizmente, no secund�rio a falta de reflex�o mant�m-se e julgo n�o errar muito se disser que os alunos do ensino superior, salvo raras e honrosas excep��es, n�o diferem muito dos anteriores. Os nossos jornais e a restante comunica��o social tamb�m n�o reflecte sobre a hist�ria, sobretudo porque a desconhece ou porque possui delas ideias gerais (muitas vezes nada mais que ideias feitas por vezes mais pr�ximas do campo da lenda que da realidade hist�rica). Mas tamb�m porque d� trabalho, exige leituras e consultas, exige confirmar dados, cita��es, exige uma permanente actualiza��o sobre a produ��o historiogr�fica. Tudo isto consome tempo que os nossos jornalistas seguramente n�o possuem, ou se o possuem gastam em outras tarefas. Pensar a hist�ria implica conhec�-la bem e, para isso, precisamos de tempo, disciplina, vontade, gosto, precisamos de compreender a sua import�ncia. Este �ltimo aspecto parece-me essencial para se perceber por que raz�o n�o se pensa sobre a hist�ria. A escola, como se viu, � (quase sempre) incapaz de mostrar que a hist�ria � importante. Os alunos citam, sem saberem, uma das personagens amigas da Mafalda (Quino, claro), que exige que a hist�ria lhe seja ensinada para a frente e n�o para tr�s, porque o que passou j� n�o interessa. E os media tamb�m n�o usam a hist�ria para explicar o presente. N�o se lhes pede que o fa�am sempre, mas houve e h� situa��es que o exigem. A guerra da Jugosl�via pareceu a todos um acontecimento il�gico e a ro�ar o absurdo porque n�o se explicou o que eram os Balc�s e qual era o passado da Jugosl�via. A hist�ria do Estado de Israel tamb�m n�o � referida. E, para fazer refer�ncia ao caso da actualidade, para muitos a pedofilia e pr�ticas sexuais com menores parecem males dos tempos modernos e claros sintomas do fim dos tempos, quando s�o, na verdade, pr�ticas do in�cio dos tempos. Concluindo, a escola faz da hist�ria um relato sem sentido de factos passados e a comunica��o social d�-lhe o golpe final ignorando-a." 19.6.03
19:13
(JPP)
O general Ka�lza de Arriaga tinha uma teoria sobre a correla��o entre a intelig�ncia e o calor. Achava ele que, quando se caminhava para sul, o pensamento diminu�a porque estava mais quente. No norte, o frio agu�ava o esp�rito. Imaginem a ideia que ele tinha dos pretos. Mas nestes dias eu fico resolutamente kaulziano. Quero � ir para o Norte. Quero pensar e o term�metro n�o deixa. Por favor n�o me enviem correio a dizer que o frigor�fico chega para o refrig�rio, ou que nem a 0 Kelvin sou capaz de pensar. O que vale � que o C�rculo Polar �rtico me espera. Depois de publicado o que est� acima , Ricardo Coelho mandou-me a seguinte objec��o : "Quando escreve "...ou que nem a 0� Kelvin sou capaz de pensar...", n�o entendi o que tenciona dizer com isso. Penso que sabe que a temperatura 0� K, � a temperatura absoluta, e nunca foi atingida. � uma das grandes batalhas da f�sica experimental, tentar chegar a temperatura t�o baixa. A temperaturas t�o baixas (da ordem de algumas dezenas de graus Kelvin) muitos materias (supercondutores) t�m caracter�sticas f�sicas fora do vulgar. Como o pr�prio nome indica, n�o oferecem resist�ncia � passagem de electr�es, porque a esta temperatura, cr�-se a n�vel te�rico que os materias se encontram bastante ordenados... Logo creio que se atingissemos esta temperatura (claro que primeiro morr�amos...) as nossas ideias ficariam t�o organizadas, que qualquer um, independentemente de que factores nos pudessem distinguir, teria muito melhores capacidades de pensamento." Era uma ironia, mas a objec��o � excelente! Considere-se a temperatura acima mudada para 3 Kelvin , a temperatura da radia��o c�smica de fundo, o nosso f�ssil cosmol�gico, e a� sempre se pode garantir um pensamento pelo menos bizarro, mas que vem de todo o lado (talvez).
18:46
(JPP)
J� h� algum tempo que estou a ler o livro de Mike Davis, Dead Cities . � um conjunto de ensaios, pelo que umas vezes leio um, depois outro. Davis ficou c�lebre quando escreveu City of Quartz , um livro premonit�rio para compreender os tumultos de Los Angeles. O tema do livro � a destrui��o apocal�ptica das cidades, a �morte� das cidades, uma quest�o que me interessa e sobre a qual escrevi a prop�sito de uma introdu��o �s Lamenta��es, tidas como sendo de Jeremias. A destrui��o de Jerusal�m � o modelo dessas �mortes� reais e simb�licas, uma constante na nossa tradi��o ocidental. Vulc�es, inunda��es, bombardeamentos a�reos, tumultos, saques onde n�o fica pedra sobre pedra, terra salgada (Cartago), explos�es, hecatombes, ar envenenado, inc�ndios � s�o a mat�ria deste livro. O que se percebe muito bem � a adequa��o do nosso viver urbano � destrui��o apocal�ptica, como se percebeu no 11 de Setembro. Torna-se f�cil. Porque ser� que j� ningu�m se lembra do 11 de Setembro? Fiz uma r�pida pesquisa com o Google nos blogues de l�ngua portuguesa e contam-se pelos dedos de uma m�o os portugueses que se lhe referiram. Pelo contr�rio, nos brasileiros, s�o centenas e centenas de observa��es. Mesmo deduzindo-se que h� muitos mais blogues no Brasil e alguns contempor�neos do 11 de Setembro, n�o chega. � mesmo do que se pensa e do que se discute entre n�s. Aponta para um padr�o de interesses e desinteresses.
11:25
(JPP)
Estou a escrever um livro (talvez acabe estas f�rias) que tem um problema complicado a resolver. � um livro sobre um homem que est� preso onze anos, cuja vida no mundo carcer�rio � controlada ao mil�metro, e cujos gestos poss�veis e permitidos representam uma rotina imposta � for�a. Apitos, acender e apagar de luz, hor�rios impiedosos. A pris�o �, nos primeiros anos, uma materializa��o arquitect�nica de uma ideia filos�fica : o Panopticon de Bentham. Feita para tudo ser visto a partir de um olho central, o local �ltimo do poder. A �estrela de seis pontas�. Depois de quase um ano, em que n�o foi autorizado a fazer nada, o homem l�, estuda, escreve, desenha e pinta. C� fora h� uma guerra, fria , mas guerra. Acontece tudo. O tempo � solto, � r�pido, � o tempo da modernidade, acelerado. Como juntar num mesmo movimento tanta imobilidade e tanta rapidez?
00:55
(JPP)
O debate sobre a Constitui��o Europeia j� est� a come�ar a viciar-se. Est� a centrar-se nas quest�es institucionais, onde os resultados dependem dos arranjos entre os governos em Sal�nica, e a aceitar como adquirido tudo o resto. Ora tudo o resto contem muitas coisas que n�o deveriam de todo estar adquiridas, porque abrem caminho � tend�ncia de pensar a Europa como um pa�s. Num documento de trabalho que recebi de um defensor da Conven��o enumeravam-se assim alguns dos �sucessos� da Constitui��o : integra��o da Carta dos Direitos Fundamentais, como uma �legally binding part of the Constitution� ( o documento � em ingl�s ), uma ��nica personalidade legal para a Uni�o�, �primacy of the Constitution and Union law over the law of Member States�, extens�o das compet�ncias em mat�rias de neg�cios estrangeiros e defesa, incluindo um Ministro dos Neg�cios Estrangeiros da EU , vice-presidente da Comiss�o , e m�todo da Conven��o para futuras mudan�as constitucionais. Tenho muitas objec��es � necessidade deste salto qualitativo, e receio que com estas acelera��es constitucionais se crie uma situa��o em que qualquer crise pol�tica no futuro, semelhante � do Iraque, conduza a uma crise institucional com muito mais s�rias consequ�ncias na UE. Anda-se a brincar com o fogo e com a for�a do facto consumado, vai tudo atr�s. 18.6.03
21:22
(JPP)
1. Para quem pensa que as boas maneiras e o altru�smo s�o apenas o resultado da educa��o individual, vale a pena ler um not�vel artigo de Robert Levine, �The Kindness of Strangers� no American Scientist de Maio-Junho 2003 2. Chris Patten � o comiss�rio mais interessante, inteligente, vivo, c�nico, ir�nico, witty e um daqueles com que menos concordo. Como se costuma dizer, em bom portugu�s, �sabe-a toda�, mas a verdade � que quando ele vai ao Parlamento � sempre uma festa para a cabe�a, mesmo quando � um revolta para muita coisa que defendo. Comparado com Solana, com quem partilha as �rela��es externas�, � uma diferen�a abissal. Atacado pelos seus colegas conservadores euroc�pticos, respondeu num artigo no Spectator de 7 de Junho intitulado �I am a Tory to my toes� que mostra todas as suas qualidades e alguns dos seus defeitos. Percebe-se tamb�m que o seu objectivo � vir a ser Primeiro Ministro. Vale a pena ler.
13:48
(JPP)
Continua uma tend�ncia , que n�o posso deixar de saudar com palmas , para uma maior diversifica��o da blogosfera .Variam os interesses, as idades, as escritas , os locais, os olhares . Temos um di�rio senense , um Comprometido Espectador, um judeu alentejano muito especial , a somar ao nosso latinista, ao nosso editor, ao nosso frequentador de alfarr�bios e velharias liter�rias, come�am a aparecer arquitectos, temos a nossa jurista dedicada, dominatrix da regula��o, um caus�dico , etc. etc.. E ainda vai haver mais.
11:07
(JPP)
A partir de agora rendo-me ao neologismo passando de blogs para blogues . Tem sentido se se quer introduzir o nome e a coisa no portugu�s . A err�tica forma de colocar a pontua��o, com ou sem espa�o, tamb�m vai ser unificada . Por raz�es est�ticas, mais que subjectivas, n�o gosto de colocar a v�rgula ou o ponto logo a seguir � palavra. Perde espa�o, respira��o. Mas rendo-me aos correctores ortogr�ficos por onde os meus fi�is amigos passam os meus textos. Os erros de ortografia , mea culpa ,sem desculpa , uma vez assinalados s�o corrigidos. Obrigado aos assinalantes . 17.6.03
16:39
(JPP)
S� talvez para o fim de semana � que pegarei de novo no texto individual / "colectivo" que vai na vers�o 3.0 . O assunto continua a ser discutido um pouco por todo o lado , mesmo pelos que recusam a oportunidade ou o interesse da discuss�o, que � tamb�m um ponto de vista a ter em conta . Entretanto h� contribui��es muito interessantes que integrarei no texto , mas que ganham em ser divulgadas de imediato . Uma delas vem da equipa do psicossom�tica ( que est� em baixa , mas espero que volte ) enviada em e-mail de que transcrevo partes : "O que mais nos interessa nos blogs � a dimens�o da personae em desdobramentos de personalidade de uma intensidade que encontra na Internet um meio altamente prop�cio mas que nos blogs portugueses (pelo menos os que conseguimos ler) n�o vai muito al�m de relatos da vida real, os tais di�rios ou posts �umbiguistas� (no Brasil, por exemplo, o fen�meno blog encontra no dom�nio da fantasia casos absolutamente extraordin�rios!). " "Ao longo deste tempo em que fizemos parte da blogosfera (...) diz�amos, demos conta da replica��o de ideias e tiques que encontramos nos jornais e nos meios de comunica��o em geral. Aquilo que, na fantasia de alguns, podia ser uma alternativa �s vozes dominantes ou ao �princ�pio da realidade� revelou-se afinal o inverso ou o reverso dessa mesma fantasia, ou seja, cada blog exibia de uma forma regular a vontade expressa de chamar a realidade ou o desejo de uma identidade com �nome� (no sentido que Lacan lhe atribu�a). " "O que observ�mos na maioria dos coment�rios que fomos lendo nos blogs � imprensa escrita, nomeadamente, tem origem no desejo (leg�timo, diga-se!) de protagonismo dos que o assinam, mesmo dos que assinam com nicks. Para n�s este � que � o �princ�pio da realidade� da blogosfera, ou seja, o da passagem de um anonimato ou semi-anonimato virtual para a conquista de um nome no mundo real."
14:52
(JPP)
No �ltimo Os Meus Livros vem uma s�rie de depoimentos sobre os livros proibidos lidos antes do 25 de Abril . Os que dizem que os livros proibidos eram os do E�a (Carlos Reis , Helena Sacadura Cabral ) nunca leram verdadeiramente nenhum livro proibido e est�o a dar-se ares de "antifascistas" . A hist�ria de colar o Canto IX dos Lus�adas com fita cola tamb�m me parece lenda urbana ... Para quem viveu esses tempos , - e eu tive dois livros meus proibidos quanto mais ler outros sous le manteau - , percebe-se t�o bem quem est� retrospectivamente a inventar-se e quem de facto sabe do que fala . N�o h� volta a dar-lhe . S� agora reparei que a coluna habitual de Marcelo Rebelo de Sousa na revista se chama "Li e gostei" . Na lista dos "lidos" deste m�s est�o sessenta e cinco livros , mais de dois por dia , incluindo o Dicion�rio Pr�tico para o Estudo do Portugu�s e Gest�o de Servi�os . A Avalia��o de Qualidade . Isso � que � "ler" ! A coluna devia era chamar-se "Fa�o listas de livros e gosto" . Ele e Os Meus Livros . Depois queixem-se da banaliza��o da leitura . 16.6.03
19:02
(JPP)
O Intelligo � um blog que s� tem poemas , em bom rigor n�o � um blog . Mas vai-se l� e l�-se um , e depois outro e outro e outro , desses �Classici Scriptores� e mergulha-se na conversa interior da nossa fala ocidental , da B�blia para Cam�es , para Catulo e Hor�cio , do portugu�s para o latim , sempre num brilho das palavras sem limite . �Me transmitte sursum, caledoni !� Ou seja �Beam me up, Scotty! �. Todas as semanas que tenho de ir a Bruxelas , como eu gostaria de dizer isto ao �caledoni� ! O Latinista Ilustre � uma grande entrada nos blogs ! Divertido e culto , original e curioso . Um bom sinal da variedade dos blogs que est�o a nascer por todo o lado - Sit Vis vobiscum ! (E continuo a procurar resolver o enigma maurrasiano � ) Em Replicar esta descri��o do ensino prim�rio no Portugal profundo do s�culo XIX .
16:48
(JPP)
Sempre que algu�m escreva para o Abrupto , contribuindo para as discuss�es do blog , pedia o favor de indicar se autoriza a cita��o do conte�do dos e-mail . Por regra eu nunca publico nada sem essa autoriza��o e continuarei a faz�-lo , mesmo depois desta nota ,sempre que n�o haja uma autoriza��o expl�cita .
11:47
(JPP)
1. Nuno Mota Pinto do Mar Salgado lembra as suas duas leituras de Os Maias de E�a : "Li Os Maias pela primeira vez quando estava no liceu, com cerca de 15 anos. Voltei a l�-lo quando tinha cerca de 30 (h� dois ou tr�s anos). Talvez fruto de, da primeira vez, ter feito uma leitura conduzida pela professora (excelente diga-se) e pela aplica��o do programa liceal de Portugu�s, a verdade � que ent�o a impress�o que mais fortemente ficou inscrita em mim foi o car�cter tr�gico do romance entre Carlos da Maia e Maria Eduarda. A impossibilidade desse amor e a infelicidade gerada por esse encontro improv�vel impressionaram o meu esp�rito adolescente. Aquando da segunda leitura, toda a hist�ria de amor me pareceu apenas um pretexto para uma obra not�vel de caracteriza��o da sociedade da �poca. Admirei a ironia corrosiva das descri��es certeiras do conservador e mon�stico ambiente universit�rio coimbr�o e de uma burguesia e aristocracia lisboetas incultas e ambiciosas que vivem para e � volta do Poder (dois ambientes que conhe�o razoavelmente nos dias de hoje). Fiquei preso pela exposi��o detalhada e brilhante do estilo de vida da �poca. Dei por mim a pensar que muito do que ent�o foi escrito tinha actualidade (acho que n�o fui muito original neste pensamento). Estas diferen�as levaram-me �s seguintes reflex�es: - A mesma obra tem impactos diferentes e � lida forma diversa consoante o grau de maturidade do leitor. Um esp�rito adolescente, pronto a entrar nos jogos, manhas e imprevistos das sedu��es e das rela��es amorosas � provavelmente presa f�cil para uma hist�ria de amor simples e tr�gica. - A leitura orientada, que � o grosso da leitura dos portugueses (muitos deles n�o l�em mais do que aquilo a que s�o obrigados no liceu), pode dar uma vis�o truncada das obras, n�o permitindo a apreens�o de toda a sua dimens�o. Isto � ainda mais verdade quando o ensino do Portugu�s se centra talvez em demasia na compreens�o dos aspectos formais de uma obra. Gasta-se imenso tempo em desagrega��es e classifica��es das figuras de estilo usadas e na explica��o da inclus�o de uma obra em movimentos liter�rios, em vez de explica��es mais simples do impacto e da import�ncia do que l� est� escrito para a compreens�o do que somos. - O facto de se ler uma obra com mais maturidade n�o quer dizer que a sua compreens�o seja maior. Quando reli os Maias j� era mais vivido, mais viajado, tendo inclusiv� j� estudado no estrangeiro. Ora, esta condi��o pode ter-me feito embarcar com facilidade no estilo not�ria e declaradamente estrangeirado de E�a. A esta luz, o exerc�cio de transposi��o de descri��es dos Maias para os dias de hoje pode facilmente cair numa manifesta��o de snobismo intelectual que n�o me interessa e que tento contrariar. Isto � ainda mais v�lido para outras obras de E�a como a Ilustre Casa de Ramires ou o Conde de Abranhos. A experi�ncia aumenta a clarivid�ncia, mas tamb�m consolida e aprofunda v�cios de racioc�nio e de atitude mental. " 2. Jo�o Costa lembra as palavras de Peguy , citadas por Steiner, sobre o papel da leitura : "Une lecture bien faite...n'est pas moins que le vrai, que le v�ritable et m�me et surtout que le r�el ach�vement du texte, que le r�el ach�vement de l'oeuvre; comme un couronnement, comme une gr�ce particuli�re et coronale...Elle est ainsi litt�ralement une coop�ration, une collaboration intime, int�rieure...aussi, une haute, une supr�me et singuli�re, une d�concertante responsabilit�. C'est une destin�e merveilleuse, et presqu'effrayante, que tant de grandes oeuvres, tant d'oeuvres de grands hommes et de si grands hommes puissent recevoir encore un accomplissement, un ach�vement, un couronnement de nous...de notre lecture. Quelle effrayante responsabilit�, pour nous." ( Charles P�guy, Dialogue de l'histoire et de l'�me paienne (1912-13) citado por George Steiner , "The Uncommon Reader " (1978) , publicado em No Passion Spent, Yale University Press, 1996 ) Obrigada aos meus amigos Latinista Ilustre e Jaquinzinhos ( bizarra combina��o entre o latim e o peixe ) que me ensinaram a colocar a reprodu��o do quadro de Chardin, Le Philosophe Lisant (1734) , que inspira o ensaio de Steiner . ![]()
10:41
(JPP)
J� se notam os efeitos das f�rias: isto vai dividir-se entre as cigarras e as formiguinhas. E l� v�o as formiguinhas ganhar, como ganham sempre, ignoradas , gozadas , sem bronze , sem o sinistro toque dos Algarves , com aquela fome ancestral , de gera��es , que as leva a trazer mais uma pedrinha , mais um raminho , a n�o se dispersarem , a terem disciplina , a pouparem . Os outros levam os livros , mas depois h� tanta areia , e est� tanto calor , e deitei-me t�o tarde � E vai come�ar a silly season . 15.6.03
21:38
(JPP)
1.A defesa feita por Santana Lopes e Jos� S�crates do �estado� do Euro 2004 � inadmiss�vel. � uma defesa sem sentido e perigosa do laxismo do Estado , da megalomania das despesas com est�dios , da falta de rigor na gest�o dos dinheiros p�blicos . Tudo em nome de um pa�s atrasado subordinado ao Rei Futebol, que n�o se respeita a si pr�prio, nem ao dinheiro dos seus contribuintes . 2.A interven��o de Santana Lopes sobre F�tima Felgueiras mostra como � poss�vel n�o ter qualquer repugn�ncia �tica perante comportamentos absolutamente conden�veis. A gente olha para as imagens e as palavras e n�o sente nenhum inc�modo do pol�tico, nem sequer um esfor�o de fingimento, t�o habitual nestas coisas. Se se trivializam actos como da felgueirense , n�o vamos longe . 3.Quanto ao comportamento da RTP no caso de F�tima Felgueiras , Marcelo Rebelo de Sousa , pelo seu lado , disse o necess�rio , coincidindo com o que v�rios blogs escreveram de imediato , incluindo este . Na quest�o da Constitui��o Europeia foi muito superficial, e pronunciou-se apenas sobre a agenda institucional . Ora a Constitui��o Europeia est� longe de ser apenas uma �simplifica��o dos tratados� . Se fosse assim precisava de se chamar Constitui��o ?
13:18
(JPP)
Sobre os coment�rios de Rui Noronha e Daniel Oliveira no Blog de Esquerda ao F�rum Social Portugu�s 1. Noronha diz que �a forma como se reduz o f�rum ao mesmo de sempre, feito e dito pelos mesmos de sempre, apenas ilustra a incapacidade de compreender registos, discursos e pr�ticas, naquilo que eles t�m de fundamentalmente novo face ao passado recente�. Daniel Oliveira ainda vai mais longe e acha que h� um Portugal antes e outro depois do F�rum : �Gente que, na sua terra ou no seu sector, v� a democracia como um acto de participa��o permanente, de vigil�ncia c�vica, de exig�ncia cidad�. Mas gente que n�o se limita ao seu quintal e quer participar na constru��o do seu futuro. Este debate transversal entre todos os que, associando-se em torno de causas concretas, s�o capazes de pensar em conjunto, trocar experi�ncia, divergir e convergir, � uma absoluta novidade em Portugal.� 2. Novo? N�o h� um �nico tema, uma �nica quest�o no F�rum que seja nova, quanto mais �fundamentalmente nova� ou �absoluta novidade� . Desde Maio de 68 e desde os movimentos americanos de �single issue� na mesma �poca , que todos , sem excep��o , todos , os temas tratados no F�rum s�o conhecidos. Intitula-los uma �agenda pol�tica p�s-moderna� , como faz Oliveira quando diz que �Movimentos feministas, de Gays e L�sbicas e de minorias �tnicas h� muito que vinham construindo o que se pode designar como uma agenda pol�tica p�s-moderna. P�s-moderna porque se afirma na recusa das grandes narrativas pol�ticas da modernidade, nomeadamente o Marxismo, na recusa de toda a teleologia e de qualquer leitura totalizante da sociedade e da hist�ria� tamb�m n�o vai longe . Este conceito de �p�s-modernidade� tem pelo menos cento e cinquenta anos de hist�ria . Por exemplo , os anarquistas tinham a si associados movimentos a favor da contracep��o, anti-tabagistas , contra as touradas , naturistas e vegetarianos , a favor de uma l�ngua universal , etc. , etc , e tamb�m recusavam aquilo a que ele chama eufemisticamente �as grandes narrativas pol�ticas da modernidade.� Arrombar portas abertas e proclama-lo � muito arrogante . 3. Quanto � forma , o F�rum n�o � distinto de realiza��es t�o �burguesas� como o �Portugal que futuro ?� do Dr. Soares (acho que se chamava assim ) ou de algumas ac��es do Presidente Eanes e do PRD . Este tipo de realiza��es de �movimentos� fora dos �partidos� s�o tristemente semelhantes na forma e nos resultados . Esta teve talvez mais folclore., 4. � a refer�ncia � globaliza��o que faz a diferen�a ? Duvido , a globaliza��o na teoriza��o dos mentores do Forum � um outro nome para o capitalismo internacional em situa��o �unipolar� , ou seja , sem o �campo socialista� . Mesmo os que distinguem a �globaliza��o� boa da m�, retomam palavras e ideias conhecidas de Marx ou Rosa Luxemburgo . 5. Depois procura-se � lupa a �novidade� e nada se encontra fora de impress�es . O exemplo de Noronha � bem caracter�stico da vacuidade do F�rum , fora das �impress�es� existenciais de quem l� esteve : �Sentado numa oficina acerca da arte e as suas possibilidades de interven��o pol�tica � com a desorganiza��o pr�pria de algo incontrolado que d� os primeiros passos e procura caminhos � ou assistindo a uma mesa redonda acerca de document�rios, com o Eduardo Cintra Torres, o A. M. Seabra, a Diana Andringa, o Rui Leit�o (genial como sempre) e o Jos� Filipe Costa, apenas consegui pensar no potencial existente em pessoas que ainda tacteiam em busca de uma forma de fazer diferente. Encontrei gente que eu conhe�o de contextos completamente distintos e distantes e que nunca esperaria ver ali. E � precisamente essa caracter�stica de espa�o de contacto entre contextos habitualmente incontact�veis que faz a diferen�a.� Mas isto � um vulgar col�quio ! Onde � que est� a diferen�a ? Foi bom o col�quio ? Gostou ? S�o pessoas �que ainda tacteiam em busca de uma forma de fazer diferente� ?� For�a ! A �nica diferen�a entre isto e um col�quio � o seu enquadramento pol�tico � ou seja , para alguns h� aqui uma forma de poder , uma procura de poder . Os intelectuais de esquerda, quando perdem a sua fun��o oracular junto do poder sentem-se mal . O problema � que a democracia n�o lhes d� qualquer privil�gio �interpretativo� pela sua condi��o de intelectuais . 6. Sobre o car�cter dos auto-designados �movimentos sociais� do F�rum, Daniel Oliveira tem toda a raz�o nas compara��es que faz �Pacheco Pereira quer saber onde est�o os No Name Boys e os combatentes da guerra colonial. Acrescento mesmo: e o movimento Pr�-Vida? E as m�es de Bragan�a? E as Vicentinas? Pacheco Pereira confunde o F�rum Social com a C�mara Corporativa. O F�rum n�o representa o todo social. Representa o mundo social que luta por uma globaliza��o alternativa. � um espa�o de conflu�ncia pol�tica. � Todos os movimentos referidos , o �Pr�-Vida� , as �m�es de Bragan�a� s�o do mesmo tipo dos representados no F�rum . Daniel Oliveira acaba por admitir que n�o � o car�cter de �movimento social� que os distingue , mas o seu sentido pol�tico . Foi exactamente o que eu disse sobre o F�rum : � um movimento politizado , associado a partidos ou proto-partidos , com uma l�gica de poder pol�tico e n�o �social� . S� posso saudar a exactid�o da refer�ncia � C�mara Corporativa do salazarismo , porque o corporativismo de esquerda , com velhas tradi��es em Portugal , � o �nico programa esbo�ado no F�rum que � alternativo � vis�o marxista tradicional . 14.6.03
23:43
(JPP)
NOTA PR�VIA : In�cio de uma reflex�o sobre os blogs , feita de notas soltas que se ir�o acrescentar e completar umas �s outras . Isso significa que este "Discutir" poder� a vir a ser alterado - n�o no conte�do - mas na forma . Para manter a integridade da rela��o com os coment�rios dos outros blogs que incorporo no texto , essa rela��o ser� sempre referida . Para distinguir as vers�es umas das outras seguir-se-� um sistema de numera��o semelhante ao do software .Est� a bold o que � novo . NOTA PR�VIA 2 : Em muitos blogs apareceram coment�rios a este texto e sobre ele recebi imenso correio . Estou a tratar toda essa informa��o para a poder colocar numa nova vers�o do texto . Registe-se , de imediato , que no Modus Vivendi , no Epicurtas , no Tracejado e no Gato Fedorento se encontram coment�rios desenvolvidos a este texto . No Liberdade de Express�o est� uma f�bula sobre os blogs como "catedral" ou "bazar" com directo interesse para esta discuss�o . 1. Talvez seja a altura , � sempre a altura , de discutirmos o meio que usamos , os blogs , a comunidade dos seus utilizadores , a blogosfera , e os seus efeitos no �mbito mais vasto do sistema comunicacional . Infelizmente temo-nos centrado apenas na discuss�o do elemento do meio , a blogosfera , e desprezado o primeiro e o �ltimo . 2. Penso ser interessante identificar a novidade e especificidade dos blogs como meio de comunica��o , n�o apenas de forma te�rica , mas tamb�m testemunhal , dizendo cada um o que lhe interessa no uso de um blog , assim como chamar a aten��o para um trabalho que ainda est� por fazer sobre o �p�blico� da blogosfera . Quem nos l� , o que � que se procura nos blogs ( informa��o , opini�o , entretenimento , curiosidade pelo vizinho que tem um blog , namoro via blog , etc. , etc . ) , com que frequ�ncia , Vasco Colombo enviou-me um e-mail com a seguinte caracteriza��o dos blogs : "No caso dos blogs, � �bvio associ�-los quer �s cr�nicas de jornal, quer aos di�rios, dois dos mais populares suportes para textos de um certo tipo. Pessoalmente n�o os sinto dessa forma. Sigo alguns, poucos, com uma certa regularidade e por estranho que lhe possa parecer, a sua possibilidade de actualiza��o a qualquer momento, faz-me pensar nos blogs como qualquer coisa mais pr�xima de uma din�mica de r�dio do que da de um jornal. Um exemplo r�pido e simples: pouco depois da confer�ncia de imprensa de F�tima Felgueiras, fui espreitar o Abrupto para ver se havia colocado algum post sobre o evento. E n�o me enganei. H� uma aproxima��o entre os momentos de emiss�o e recep��o que s� na r�dio ou tv eram poss�veis. A novidade dos blogs � permitir essa aproxima��o num suporte escrito de grande difus�o. Possivelmente ainda estou na tal fase de dizer que os blogs s�o uma esp�cie cruzamento de dois g�neros. Confesso que n�o pensei muito sobre eles. Mas o tema dos cruzamentos interessa-me, ainda que como mero m�todo de abordagem. As reflex�es que fa�o sobre o meu pr�prio website s�o um exemplo: o website de um ilustrador, dever� ser, em princ�pio, uma declina��o do portf�lio cl�ssico. Questiono-me por�m se ser� essa a analogia correcta. Seria interessante, numa pr�xima vers�o, partir de outro paralelo: os cd's e os concertos ao vivo. Num concerto de rock ou jazz, o p�blico n�o pretende ouvir a reprodu��o exacta do que encontra no cd, mas sim ter uma experi�ncia suplementar para al�m da m�sica, que a actua��o ao vivo permite. Da� a improvisa��o, a cenografia, a interactividade com o p�blico. N�o ser� dif�cil imaginar a transposi��o deste conceito em abstracto, para o par portf�lio/website. (...) Estes cruzamentos, que decorrem quase sempre de avan�os t�cnicos, geram metamorfoses na natureza de algumas coisas e exigem um constante esfor�o de reclassifica��o. Seja a natureza do livro quando este deixou de ser executado por copistas e passou a ser impresso, seja a natureza da nossa rela��o com as imagens quando em todos os lares passou a haver uma c�mara fotogr�fica (ou agora, em que o imediatismo das digitais acabou com o �ltimo ritual ainda existente: o de mandar revelar e esperar, 45 minutos, pela misteriosa alquimia da revela��o qu�mica). " 3. Esta reflex�o em que alguns ( n�o todos , como � normal ) estar�o interessados � um instrumento essencial para se ultrapassar o �umbiguismo� como �nica forma de auto-refer�ncia da blogosfera .H� dois tipos de "umbiguismo" na blogosfera , e o termo , que escandaliza muitos , tem sentido . Objec��es � utiliza��o do termo "umbiguismo" em O Cr�tico . . Defesa da inevitabilidade do "umbiguismo" e refer�ncia ao mesmo processo noutros meios de comunica��o no Gato Fedorento . 4. Um � um "umbiguismo" natural , impulsionado pela forma do meio . O blog tem a estrutura de um di�rio e por isso �gera� di�rios . A exist�ncia de di�rios mais ou menos �ntimos , que s�o p�blicos � uma novidade permitida pela rede ( estes di�rios j� existiam antes dos blogs ) , mas potenciada pelos blogs . Tem muitos riscos porque a linha entre o �ntimo e o p�blico, sendo quebrada , pode ter consequ�ncias perversas . At� por isso o blog cumpre um papel pr�prio num sistema cada vez mais complexo de meios de comunica��o dispon�veis . 4.a. Nota : no DNA citado no Pastilhas , Miguel Esteves Cardoso teorizou sobre o tipo de escrita nos blogs : "Blogar � escrever num meio terrivelmente aberto - interactivo, instant�neo, esp�rio - a partir de um momento terrivelmente particular - o eu, o ser, a alma. � um lindo fogo posto que salta entre a fa�sca da intimidade e o inc�ndio p�blico de todas as coisas. A for�a do blogue est� no facto de n�o haver media��es; do salto ser puro; da combust�o ser total. N�o estou a falar apenas do editor, do director do jornal ou da editora, mas tamb�m do ardina, da bicha para comprar um livro, dos transportes, do tempo, de todos os obst�culos sociais e materiais que normalmente se interp�em entre um escritor e um leitor." Parece-me uma caracteriza��o redutora , mas justifica a discuss�o . Penso ali�s que corresponde �quilo que muitos que escrevem nos blogs tentam fazer . O modelo da escrita de Miguel Esteves Cardoso teve grande influ�ncia na primeira gera��o de blogs .Vale a pena ler o texto todo . Coment�rio no mesmo sentido do anterior , com refer�ncias � especificidade da escrita nos blogs e ao papel da "beleza" no Gato Fedorento 5. � a segunda forma de "umbiguismo" que � mais perniciosa : a de s� se discutir a comunidade , nalguns casos entendendo-a como a fam�lia , o c�rculo de amigos , o clube mais ou menos privado , ou a seita pol�tica ou jornal�stica . Isso faz implodir e � , a prazo , est�ril . Alguma depress�o dos �ltimos dias na blogosfera tem essa componente de �trabalho de luto� por uma fam�lia que est� a partir , a partir-se , porque est� a crescer . Conv�m lembrar que mesmo num jantar , se est�o mais de seis pessoas � mesa , j� h� dois grupos a conversar de coisas diferentes . Imaginem com quinhentos. 6. A prop�sito desta multiplicidade de conversas � preciso ouvi-las todas para entender a blogosfera . Ainda que de uma forma imperfeita , porque os bloguistas representam um sector social muito pouco representativo da sociedade , o que nelas se ouve n�o � alheio ao que se ouve �l� fora� , e ao modo como se fala �l� fora�. Veja-se o caso da pol�tica , uma parte pequena da blogosfera (Incorporo aqui uma objec��o de Ant�nio Granado no Ponto Media ) . 7. Contrariamente ao que se pensa , as diferen�as pol�ticas n�o s�o t�o importantes como isso na blogosfera que fala de pol�tica . Parece mas n�o s�o . Podem vir a ser , mas n�o s�o . Eu pr�prio tive essa primeira impress�o pelos discursos paralelos da Coluna Infame e do Blog de Esquerda em que ambos acentuavam o confronto direita-esquerda na blogosfera ( ainda hoje o Blog de Esquerda se queixa da despropor��o entre esquerda e direita dando continuidade a esta linha de pensamento ) . A exist�ncia de um grupo de blogs alinhado politicamente numa Uni�o de Blogs Livres tamb�m favorece essa impress�o . No entanto , se se consultam muitos outros blogs , para al�m dos �de servi�o p�blico� do Blogo , a realidade � mais complexa . Se se tratar a quest�o por �issues� , por exemplo vendo o que directa ou indirectamente se escreveu sobre a guerra do Iraque e quest�es conexas , mesmo que apenas com refer�ncias culturais ou �sentimentais� , a distin��o e a propor��o esquerda-direita j� n�o � assim t�o n�tida , nem os mecanismos de politiza��o t�o inequ�vocos . 8. O que se passa em alguns blogs pol�ticos � que existe uma forte tend�ncia auto-proclamat�ria , de auto-classifica��o , que acompanha quase sempre uma maior pobreza anal�tica , a dificuldade de pensar a pol�tica como uma actividade complexa , que , em territ�rios como estes , s� sobrevive se for associada a uma mais vasta perspectiva cultural e social . Quem chega assim tem a tenta��o de plantar a bandeira logo , marcar o territ�rio e escolher lado . Depois faz sempre batalhas de posi��o , e essas batalhas n�o nos ensinam nada . 9. Eu uso os blogs para todo o meu trabalho , sem qualquer fronteira com quaisquer outros meios de comunica��o . Uso os Estudos sobre o Comunismo , como um meio complementar de registo bibliogr�fico , de troca de informa��es com os outros investigadores , de divulga��o de notas , de pedidos de informa��o . A forma de blog permite essa parte do trabalho quotidiano , muito importante numa �rea de estudo em que toda a investiga��o � prim�ria e quase n�o h� bibliografia secund�ria . A forma blog no entanto n�o � suficiente e tem limita��es , pelo que necessita de ser complementada por um site que disponibilize informa��o mais "est�vel " e que divulgue alguns resultados de investiga��o . 10. Quanto ao Abrupto serve-me para v�rias outras coisas , algumas que posso fazer nos outros meios de comunica��o social , e outras em que a forma do blog � �nica . A facilidade de acesso imediato ao p�blico � uma delas - usei-a , por exemplo , com as hist�rias das perip�cias televisivas de F�tima Felgueiras , quase em tempo real , ou , noutro dia , com id�nticas perip�cias � volta de Hermann e dos Globos . 11. A esta vantagem da imediaticidade acrescenta-se o facto dos blogs serem neste momento o �nico meio de comunica��o alternativo em que se pode livremente criticar os meios de comunica��o social escrita e audiovisual . Por raz�es corporativas , os media tradicionais s�o muito avessos a essa cr�tica e esse � um espa�o livre para os blogs e , quando se l� os mais interessantes entre eles , esse espa�o j� est� a ser ocupado . O caso das declara��es de Wolfowitz � um exemplo de como escrever nos blogs tem efeito e deveria contrariar o efeito depressivo dos �ltimos dias . O mesmo tipo de press�o est� a ser feito com o caso felgueirense . S� a arrog�ncia da televis�o p�blica � que a impede de se explicar quanto ao tempo de antena de Felgueiras . Algu�m fa�a um print do que nos blogs se escreveu sobre isso e leve a quem manda na RTP , se h� algu�m que manda . 12. Por outro lado o blog n�o precisa de ser centrado num �nico tema . Ainda estou para perceber porque raz�o o Blogo me classifica em "Actualidade" , porque h� bastante menos "Actualidade" no Abrupto ( a n�o ser que a Alice no Pais nas Maravilhas seja actualidade por causa da pedofilia ... ) do que nalguns classificados de "servi�o p�blico" , uma classifica��o tamb�m um pouco "umbiguista" e sem qualquer nexo , com excep��o do Ponto M�dia e o Jornalismo e Comunica��o ( e incluir por exemplo o bloco-notas que foi pioneiro nas �actualiza��es� ) . Uma das vantagens do Abrupto � eu poder escrever sobre o que me apetecer sem ter as limita��es habituais da coluna regular num jornal . 13. Eu gosto de discutir , de confrontar opini�es e argumentos , e de ouvir e ponderar as cr�ticas dos outros . � um velho h�bito de quem escreve nos jornais desde os catorze anos , e de quem leu muito , estudou muito , trabalha muito , para ter a presun��o que tem direito a emitir as opini�es que entende , porque pensa que elas n�o ser�o meras �impress�es� . Nem sempre se consegue e tamb�m j� escrevi �impress�es� . Mas no essencial gosto de um clima �rduo e desenvolto de debate , como � comum na tradi��o anglo-sax�nica , e t�p�co das sociedades liberais e raro em Portugal . O que predomina por c� s�o os ataques pessoais , a m� l�ngua , o diletantismo ( o Modus Vivendi escreveu de forma certeira contra a nossa �facilidade em desistir� ) , a ignor�ncia presumida , o insulto an�nimo . A blogosfera tamb�m tem muito disto , mas penso que � poss�vel encontrar massa cr�tica para fazer diferente . Por isso quando para c� vim sabia exactamente o que me esperava , o que queria e estou para ficar . 13.a.Sobre coment�rios nos blogs Eu sei que esta quest�o � controversa , mas decidi desde in�cio n�o ter coment�rios . Este tipo de interactividade n�o moderada presta-se a um acumular de lixo que abafa qualquer opini�o ou coment�rio de jeito . A experi�ncia que tenho com o Flashback na TSF ou com a leitura do pt.soc.pol�tica � do car�cter contraproducente dos coment�rios , que servem quase sempre para trocas de insultos sem qualquer interesse . Polui��o de m� educa��o j� h� que chegue para se dar oportunidade a maior produ��o de lixo . Agora que paga o justo pelo pecador, paga . De qualquer modo o e-mail , que s� uso para o Abrupto , permite a quem quiser emitir a sua opini�o e eu , periodicamente, ap�s pedir autoriza��o para citar o que dizem , coloco essas opini�es em linha . Claro que � �totalit�rio� . 14. Seja em que circunst�ncias for , mesmo quando o motivo mais imediato da conversa que se mant�m nos blogs , � a pr�pria blogosfera , o meu destinat�rio � sempre o universo ideal das pessoas interessadas pelo "espa�o p�blico" . N�o escrevo para os amigos em p�blico , a n�o ser que eles precisem por raz�es que s�o elas pr�prias de interesse p�blico , nem me interessam inconfid�ncias ou intimidades, meio caminho andado para a "aldeia global" , esse s�tio pegajoso onde todos se conhecem demais uns aos outros . Sobre privacidade veja-se Modus Vivendi
12:39
(JPP)
Aderindo ao furor classificativo, abro uma nova s�rie no Abrupto . Uma vez por semana farei uma lista pessoal�ssima das �Coisas mais e das coisas menos �, cobrindo o que se passou na semana anterior ou o que me chegou ao conhecimento nessa semana. Haver� de tudo , pol�tica , cultura , jornalismo , livros , televis�o , etc. , etc. Algumas das coisas referidas corresponder�o a assuntos que tratei no blog , outras n�o . Nesses casos a entrada ser� mais desenvolvida . Como eu sou da escola dos argumentos, mesmo do �argumento do gosto� , que n�o se explica como os outros , farei o poss�vel para n�o apenas classificar , mas explicar a classifica��o . Como � obvio n�o � exaustivo, nem nada que se pare�a, mas apenas subordinado �s minhas viagens no �navio fantasma� . A ordem com que aparecem os itens tende tamb�m a ser arbitr�ria e sugest�es s�o benvindas . Coisas mais: - Haver referendo � Constitui��o Europeia . Ser� bom na condi��o de n�o se ir para ele na base da pol�tica de facto consumado , sob o diktat que um �n�o� significaria sair da Europa e todas as trag�dias poss�veis para Portugal . Vamos ver. - A tradu��o da Odisseia feita por Frederico Louren�o para os Livros Cotovia . - Artigo da Maria Filomena M�nica no P�blico sobre o F�rum Social Portugu�s . - Nova publica��o da �Filosofia de ponta� pelo Independente , uma das melhores bandas desenhadas dos �ltimos anos . Coisas menos : - A Constitui��o Europeia, resultado essencialmente de uma imposi��o por Giscard d�Estaing de uma pol�tica dos grandes e para os grandes e impulsionada pela ret�rica europe�sta que acha que o mais importante � haver um cont�nuo movimento para a frente , sem se preocupar sequer em consolidar o adquirido . Deviam ler mais Arist�teles e os cl�ssicos sobre o valor pol�tico da prud�ncia . Foi pat�tico o espect�culo do fim da Conven��o , em que aos seus membros s� faltou chorar de emo��o , imaginando-se a fundar uns proto-Estados Unidos da Europa . S� haver� Estados Unidos da Europa no dia em que houver um patriotismo europeu , como h� na Am�rica , e isso n�o se inventa, sente-se . Os membros da Conven��o n�o o sentem porque pouco cuidar�o dos europeus concretos, s� da Europa abstracta. - Tudo no F�rum Social Portugu�s : as declara��es de Saramago e Boaventura de Sousa Santos , e toda a s�rie de perip�cias ocorridas no evento . Um bom retrato da inanidade pol�tica e te�rica da nossa esquerda radical , da nossa extrema-esquerda . - A ambiguidade do PS face ao F�rum, manifestada , de muitas maneiras , entre outras no Pa�s Relativo , e no artigo de Augusto Santos Silva no P�blico . - O comportamento da RTP �p�blica� no caso Felgueiras . - O caos na distribui��o dos livros da Imprensa Nacional . Voltarei ao assunto porque � inadmiss�vel que continue a situa��o de dinheiros p�blicos pagarem uma editora do estado, com crit�rios editoriais err�ticos e que, como deve entender que o dinheiro que recebe � a fundo perdido , n�o se digna sequer distribuir condignamente os seus livros .
11:02
(JPP)
Hoje � dia de actualizar a agenda , quer do Abrupto , quer dos Estudos sobre o Comunismo . Durante o dia haver� novidades nos dois .
10:59
(JPP)
N�o se esque�am que era Borges que dizia (cito de cor) que a �erudi��o era uma forma moderna de fant�stico �. Os bibli�filos ainda tem esse tra�o do fant�stico, a ro�ar pela mania. V�o ao Almocreve das Petas para sentirem esse gosto autista e magn�fico pela acumula��o , pela colec��o , pelos pap�is velhos . 11.6.03
22:15
(JPP)
(Refiro apenas a RTP porque � �nica que posso ver fora de Portugal , e porque sendo p�blica , os seus crit�rios editoriais tem que ser analisados de forma distinta das televis�es privadas ) A RTP , como se n�o lhe bastasse o directo , continua com uma entrevista centrada na vitimiza��o de F�tima Felgueiras que diz o que quer , perante os sorrisos intimidados de Judite de Sousa . Ali�s , bastava , numa entrevista deste tipo , a jornalista esbo�ar um sorriso , para se passar para o lado de F�tima Felgueiras . O sorriso significa que n�o se toma a s�rio a gravidade do que se est� a passar . H� aqui um aspecto a que um dia voltarei . N�o sei se s�o apenas os partidos pol�ticos que atraem pessoas com personalidades como a autarca de Felgueiras (suspeito que o futebol tamb�m as atrai ) , mas a verdade � que eu j� conheci dois ou tr�s casos de pessoas deste tipo . que n�o s�o capazes de distinguir a verdade da mentira e s�o uma for�a da natureza pela sua concentra��o psic�tica em si mesmos . A gente a olhar para elas , sabendo que est�o a mentir , mas percebendo a for�a interior que os anima . S�o casos psicol�gicos interessantes , mas isso � para a literatura . Na pol�tica s�o um perigo , alimentam o populismo , instalam � sua volta um clima de amiguismo e vingan�a , e s�o capazes de tudo .
20:22
(JPP)
Que vergonha ! N�o por causa de F�tima Felgueiras , que faz o seu papel , pat�tico que seja e que , de h� muito , perdeu a vergonha . Vergonha � uma comunica��o social que lhe d� o mais nobre dos hor�rios , que muitas vezes n�o d� ao Presidente da Republica , um hor�rio em que ela manda , porque diz o que quer sem ser contraditada , num exerc�cio de populismo atentat�rio , apontando a dedo pessoas com nome , num apelo � vingan�a popular . Assim n�o vamos l� . Se a pr�pria televis�o , a come�ar pela p�blica , paga por n�s , lhe d� o melhor dos palanques , e a patrocina sem dist�ncia��o , sem repulsa �tica , que tra�o de separa��o podem as pessoas comuns , as que n�o s�o como n�s da elite que est� na rede , para distinguir entre procedimentos admiss�veis e inadmiss�veis , entre o que est� bem e mal .
15:43
(JPP)
Por que raz�o � que todos pensam ser natural que se transmitam as declara��es de F�tima Felgueiras em directo ? Por que raz�o a RTP gasta dinheiro para fazer - como est� anunciado - uma transmiss�o directa do Brasil do que a autarca em fuga ir� dizer ? Se pararmos para pensar , chegaremos facilmente � conclus�o que uma coisa � a opera��o medi�tica de interesse pr�prio de uma fugitiva � justi�a e outra s�o as not�cias que possam ser produzidas nessa confer�ncia . Por que raz�o � que n�o se grava o que ela diz , se retira a auto-propaganda que , neste caso , � tamb�m legitima��o ou de um crime ou de uma fuga � justi�a , e s� se passa o que tem verdadeiro relevo noticioso ? Isto na hip�tese de F�tima Felgueiras dizer algo de novo e relevante , o que , retirada a propaganda e a auto-defesa , ser� pouco . � isso que � o editing normal , preservar o conte�do noticioso , caso exista , o que n�o � certo , da utiliza��o dos media para actividades que tem uma componente criminosa . Mas n�o : a feira medi�tica , cansada da pedofilia e do Dr. Portas , l� ir� de rold�o � vassalagem brasileira , espevitada pelo estilo de dirigente futebol�stico de F�tima Felgueiras e dar-lhe o hor�rio nobre , permitindo que diga o que quer sem contradita . E depois , no dia seguinte , � capaz de nos vir mais uma vez dar uma li��o de moral , do g�nero dos coment�rios que Manuela Moura Guedes costuma fazer para mostrar que a sua opini�o � mais importante do que a informa��o que leu , quando l� uma informa��o e n�o uma intriga . 10.6.03
19:07
(JPP)
O primeiro blog que eu li sistematicamente foi A Coluna Infame . Sobre ele escrevi no P�blico , ainda a blogosfera n�o era moda , considerando-o o melhor blog em Portugal . Se o meu blog tivesse genealogia , A Coluna Infame faria parte dela . A Coluna Infame foi a principal respons�vel pelo facto da hegemonia cultural da esquerda (com todas as ambiguidades que tem este nome ) , t�o dominante nos sistema dos media , na educa��o , em todas as formas de comunicabilidade social , n�o o tenha sido nos blogs . Podia ter sido diferente , mas isso n�o � m�rito do meio, mas sim da influ�ncia dos autores da Coluna . Mas a blogosfera ( eu sei que o termo � discut�vel , mas n�o � mau ) tinha que mudar , como resultado do seu pr�prio sucesso . No cemit�rio da Internet est�o milhares de textos ut�picos apontando a rede como um instrumento de transforma��o do mundo pelas suas virtualidades tecnol�gicas. A Internet iria mudar a democracia , a sociabilidade , os consumos culturais , acabaria com a propriedade dos �tomos substituindo-os pela comunidade dos bits , etc. , etc . E , nalguns casos , essa possibilidade espreitou , revelou-se , mostrou-se poss�vel e , noutros , mostrou-se um caminho pior . Nunca nenhum meio , nenhum media muda qualquer coisa sem a sua interac��o com a sociedade . N�o s�o os inventos e as tecnologias que por si s� nos mudam � a sua rela��o com a sociedade , as suas literacias , os seus consumos , a sua riqueza ou pobreza . No fundo , as exclus�es sociais e culturais n�o ficam � porta da Internet , nem dos blogs .H� uma Internet pimba e da pornografia e outra do Livro Universal , da Enciclop�dia Total . Como nos blogs haver� de tudo . Os blogs n�o existem fora da sociedade portuguesa , das suas tens�es , dos seus h�bitos , bons ou maus , das suas pechas pol�ticas e culturais , mantidos num limbo pelas suas peculiaridades formais . H� novidade e caracter�sticas sui generis na forma blog , mas da� n�o decorre uma pureza essencial do seu uso . � porque os blogs est�o a deixar de ser elitistas que estas crises surgem . O clima de fam�lia, de grupo de amigos que se consideravam , independentemente das suas opini�es , que se elogiavam uns aos outros , o ambiente um pouco cosy , que j� em si mesmo excluia muitos outros blogs , tinha fatalmente que acabar , com o crescimento e a maior exposi��o p�blica . Haver� quem goste, e quem n�o goste , mas seria ing�nuo pensar que tudo iria continuar na mesma . Ventos mais agrestes atravessar�o a blogosfera e haver� quem aqui n�o se sinta bem . Mas os defensores de uma sociedade genuinamente liberal devem saudar este crescimento , esta maior exposi��o , esta esp�cie de crise de crescimento . O caso das declara��es de Wolfowitz foi talvez a primeira vez em que os blogs mostraram um papel pr�prio em �empurrar � os outros media convencionais , n�o o facto de haver frases escritas num blog e reproduzidas nas cita��es da imprensa . O segundo caso n�o tem em si novidade � as frases podiam ter sido ditas na r�dio ou televis�o � mas as falsifica��es de Wolfowitz dificilmente podiam continuar o seu curso sem uma explica��o devido ao clamor em tempo real nos blogs . Os blogs que continuaram ( e continuam ) a catalogar os artigos e declara��es feitas na base dessas declara��es falsificadas , prolongam esse �servi�o p�blico� e a forma blog presta-se para isso . Como se presta para publicar textos de qualidade liter�ria e est�tica , coment�rios quotidianos pertinentes e pol�micas e discuss�es num tempo mais r�pido . Mas , se do lado da produ��o h� um acesso total , do lado do consumo h� uma selec��o . A crise da Coluna teve componentes pessoais sobre os quais n�o me pronuncio mas foi amplificada porque se travou em p�blico . Os blogs s�o a� terr�veis , porque dilaceram , quase sem os pr�prios o perceberem , uma dist�ncia necess�ria , uma reserva vital para a identidade . Quem a ultrapassa acaba sempre por o lamentar mais cedo ou mais tarde , porque fica menos livre . Talvez tenha sido essa percep��o de perda de liberdade interior que tenha acabado com a Coluna . . Mas n�o tenho d�vida que os tr�s �infames� regressar�o aos blogs ou continuar�o noutros meios e por outros meios a escrever e a intervir e eu continuarei a l�-los pelos seus m�ritos . Boa sorte .
17:00
(JPP)
1. Um dos livros em que para mim maior foi a diferen�a entre a primeira e a segunda leitura foi a Alice no Pa�s das Maravilhas . Ali�s onde � mais evidente a diferen�a psicol�gica profunda , e a sensa��o est�tica distinta , ( ou o adquirido est�tico ) , entre leituras em idades diferentes � nos livros que se leram na inf�ncia , mais do que em qualquer outro per�odo depois . Foi por isso que os exemplos que eu dei � partida , a primeira vez que escrevi sobre ler duas vezes , eram livros lidos na inf�ncia e �baixa� adolesc�ncia . 2. Quanto � Alice , a minha leitura �ntima h�-de ser sempre a primeira . Recordo-me que n�o entendi nada do livro , em particular do Para Al�m do Espelho , mas nunca mais me esquecerei desse universo complexo e ca�tico (que hoje sei ordenad�ssimo pela partida de xadrez ) de personagens , ditos e incidentes . Agora , tenho a certeza , que a Alice nunca teria sido lida assim se na edi��o em que a li , uns livros praticamente a desfazerem-se duma edi��o brasileira (?) dos anos trinta ou quarenta , n�o estivessem l� as gravuras originais de Tenniel . Sem as gravuras eu n�o poderia �ver� o chapeleiro louco , o Humpty Dumpty , os g�meos Twedledum e Twedledee, a lagarta do cogumelo , o cavaleiro , o gato de Cheshire , a galinha ou o peru sem cabe�a a sair do prato , o grifo , a morsa , e � a Alice , a personagem que , junto com o coelho , menos me interessou . Ou a porta pequenina e a Alice grande , o coelho a correr , o narguil� da lagarta , ou os baralhos de carta feitos Sturmtrupper . Sem as gravuras , acho que a Alice n�o teria sido o que foi , porque o texto � demasiado complicado . Foi na Alice , mais do que em qualquer livro , que pela primeira vez percebi o caos e que senti o que � a imagina��o em acto . O mundo da Alice , diferente de outras hist�rias infantis , n�o era o do maravilhoso � como nas imagens iniciais dos antigos filmes da Disneyl�ndia se falava , em brasileiro , do �maravilhoso� � mas o do estranho . Tudo aquilo era estranho , eu aprendi o que era o estranho na Alice . Nunca mais precisei de livro nenhum nesta mat�ria . 3. Depois com o tempo , outras hist�rias , que n�o as que me impressionaram na inf�ncia , ganharam mais densidade . Foi o caso do encontro com o Cavaleiro , um dos epis�dios com uma rara e indefin�vel tristeza , que se acentua de cada vez que o Cavaleiro mostra a sua total inadequa��o ao mundo . O Cavaleiro � um pouco como o Quixote , uma esp�cie de personagem perdido no mundo errado , passeando pelas �inven��es� sem sentido em pleno apogeu vitoriano da t�cnica , inventando tudo de errado , numa trapalhada de gadgets que n�o funcionam e que traz dependurados nele e no cavalo . Alice , como os jovens , � cruel e irrita-se com ele , mas aqui Lewis Carroll est� do lado do Cavaleiro e quando ele canta a can��o �with a faint smile lighting up his gentle, foolish face,� permite-se um dos raros momentos l�ricos do livro : �Of all the strange things that Alice saw in her journey Through the Looking-glass, this was the one that she always remembered most clearly. Years afterwards she could bring the whole scene back again, as if it had been only yesterday--the mild blue eyes and kindly smile of the Knight--the setting sun gleaming through his hair, and shining on his armour in a blaze of light that quite dazzled her--the horse quietly moving about, with the reins hanging loose on his neck, cropping the grass at her feet--and the black shadows of the forest behind--all this she took in like a picture, as, with one hand shading her eyes, she leant against a tree, watching the strange pair, and listening, in a halfdream, to the melancholy music of the song. � 4. Outras contribui��es tem aparecido a este �ler duas vezes � na Montanha M�gica e na Linha dos Nodos . Tamb�m a Rita Maltez me recordou uma conferencia proferida em 1977 por Jorge Luis Borges sobre A Divina Com�dia , que trata deste assunto : "Quero somente insistir no facto de ningu�m ter o direito de se privar dessa felicidade, da Com�dia, de l�-la de um modo ing�nuo. Depois vir�o os coment�rios, o desejo de saber o que significa cada alus�o mitol�gia, o ver como Dante pegou num grande verso de Virg�lio e eventualmente at� o melhorou ao traduzi-lo. Ao principio devemos ler o livro com f� de crian�a, abandonar-nos a ele; depois ele acompanha-nos at� ao fim. A mim acompanhou-me durante muitos anos, e sei que mal o abra amanh� encontrarei coisas que n�o encontrei at� agora. Sei que este livro ir� para al�m da minha vigilia e das nossas vig�lias."
11:39
(JPP)
(na sequ�ncia das anteriores ) 1. N�o � s� a Conven��o que decide por �consenso� . Segundo Domingos Lopes, do Conselho Portugu�s Para a Paz e Coopera��o (uma organiza��o pr�sovi�tica , agora sem a URSS ) tamb�m o F�rum aprovou a �metodologia do consenso� . Estas �metodologias� politicamente significam que quem manda , quem define o que � �consensual� n�o se quer mostrar . Controla a organiza��o , controla o que � essencial nos documentos p�blicos , e , acima de tudo , define o sentido pol�tico do movimento , em particular no que ele n�o faz . Por exemplo , do F�rum Social nunca sairia uma manifesta��o contra Fidel ou contra Mugabe , ou uma mo��o apoiando o processo de paz israelo-palestiniano . Em tudo o resto , podem discutir muito , que � irrelevante . 2. Segundo o P�blico teria havido um debate terminol�gico sobre se se deveria colocar num texto final a express�o �anti-capitalismo� . A CGTP seria a favor , a Uni�o das Mutualidades Portuguesas seria contra . ( Mas o que � que est� l� a fazer a Uni�o das Mutualidades Portuguesas , de que faz parte o Montepio Geral . Ser� que quem vai ao �corporate web site� do Montepio , os seus depositantes , os seus parceiros do European Group of Financial Institutions , imaginam que o seu dinheiro serve para pagar reuni�es da esquerda radical ? ) . Parece que chegaram a �consenso� em falar contra o "capitalismo neo-liberal"., uma coisa que ningu�m sabe o que � . � mais uma palavra em ingsoc (veja-se nota anterior ) para designar �anti-capitalismo� . � nestas alturas que eu n�o troco a CGTP por estes manipuladores orwellianos , porque ao menos se toma mais a s�rio e � , como agora se diz , �mais transparente� , 3. A corrup��o tradicional � direita ( em bom rigor � direita , ao centro e � esquerda ) � mais f�cil de identificar . � esquerda ningu�m a v� onde ela est� , mas ela est� l� . Veja-se o Partido �Os Verdes� . �Os Verdes� foram uma inven��o do PCP , com o objectivo de ocupar o espa�o que temiam vir a ser tomado por qualquer partido mim�tico dos �Verdes� europeus (na �poca , os �Verdes� alem�es estavam em alta ) e um estratagema , na melhor tradi��o comunista , para cativar jovens interessados pela ecologia . Os �Verdes� foram criados do nada , por gente do PCP e da JCP , com as filhas e os filhos dos �amigos� e �amigas� , nas sedes do PCP , com fundos do PCP e assinaturas do PCP . Como depois se veio a verificar, a sociedade portuguesa n�o era especialmente �verde� (deve ser por ser �fascista� como diz o Prof. Boaventura ) , e o Partido ficou dependurado num vazio . Os �Verdes� nunca foram a votos sozinhos , mas acrescentavam uma sigla a mais � CDU , e pura e simplesmente , fora do PCP , n�o existiam nem existem . Onde � que est� a corrup��o ? Entre outras coisas nisto : este partido inexistente , de comunistas eleito nas listas comunistas , chega � Assembleia da Rep�blica e constitui-se como Grupo Parlamentar . Recebe ent�o fundos , funcion�rios , instala��es , tempo de interven��o pr�prio , num milagre de multiplica��o dos partidos que o PCP tamb�m j� fazia com a Interven��o Democr�tica . � para isso que servem os �Verdes� . 9.6.03
12:39
(JPP)
� pena que Nelson de Matos tenha desistido de continuar o seu blog Textos de Contracapa , e , se a sua decis�o pode ser alterada , fa�o-lhe daqui um apelo a que reconsidere . As suas raz�es , que exp�e numa nota chamada �Equ�vocos� , s�o duras ( e verdadeiras) para muito que se passa por aqui : �N�o h� d�vida, enganei-me. Onde julgava poder haver debate de ideias, critica, conversa, troca de informa��es - h� apenas, fora algumas honrosas excep��es, disparate, insulto, exibicionismo, parvoeira, perda de tempo. Da� que o que sobra � um espa�o estreito e desinteressante, n�o muito diferente das conversas dos mi�dos, trocando gracejos atrav�s da net, brincando �s escondidas com os computadores do pap�. De facto n�o h� tempo para isto, mesmo respeitando aqueles que procuram e insistem noutros n�veis de conversa. � N�o vi ningu�m discutir o que Nelson de Matos escreveu e a sua atitude , mesmo quando o mais pequeno psicodrama suscita intenso interesse �comunit�rio� . Este sil�ncio da blogosfera n�o conta comigo , at� porque se fosse assim o que ele disse ainda seria mais certeiro . Ora o blog de Nelson de Matos � (era ) um bom exemplo do melhor que se pode fazer com este meio e das suas virtualidades �nicas . Para al�m da discuss�o dos problemas dos livros por quem conhece bem do que fala , uma das notas que ele colocou ( e que penso depois ter retirado ) tinha uma descri��o das tentativas para �espiar� o conte�do do livro de Rui Mateus sobre o PS , que revelava testemunhalmente o underground de algum jornalismo nacional . � uma mat�ria tabu , de que ningu�m fala , porque pouca gente tem coragem para falar . Alguns sabem , muitos calam , Nelson de Matos contou-o . Se o tivesse feito num jornal , como Nelson de Matos poderia fazer com a maior das facilidades , teria sido not�cia , porque era not�cia . Mas ele f�-lo no blog n�o para que ningu�m desse por ela , mas porque contava encontrar um meio mais lento , menos espectacular , onde a permeabilidade do que se diz , testemunha ou opina ascende atrav�s de c�rculos cada vez mais qualificados at� ao conhecimento geral . N�o quis o esc�ndalo , mas sim a compreeens�o . Foi por pensar que afinal se enganara no meio que desistiu . Penso que fez mal , porque os blogs est�o a mudar e depressa e � preciso que continue a escrever o seu para que essa mudan�a seja mais r�pida .
12:08
(JPP)
A tradu��o que Frederico Louren�o fez da Odisseia ( Edi��o da Livros Cotovia ) � um grande acontecimento para os que gostam de ler, de ler os cl�ssicos , de ler Homero . E , lendo Homero , perceber como fomos feitos , como j� est�vamos feitos desde h� muito tempo , como naquela viagem � onde muitas vezes deve ter brilhado um sol como o de hoje � nasceu um conhecimento de n�s mesmos , fraquezas , terrores , d�vidas , tenta��es , coragens , cobardias , curiosidades , viol�ncias � tudo . N�o sei grego suficiente para julgar da tradu��o enquanto fidelidade e literalidade, mas li a Odisseia as vezes suficientes para saber se a tradu��o me restitui a irreprim�vel sedu��o de alguns dos seus epis�dios. Entre esses epis�dios est� o de Naus�caa ( sigo a grafia de Frederico Louren�o , embora estivesse habituado a outra para alguns nomes ) e o da morte dos pretendentes , dois momentos muito diferentes do livro . Veja-se a descri��o da morte de dois pretendentes, a de Ant�noo e a de Eur�maco . Quem escreveu isto viu morrer gente assim , porque , na enorme simplicidade da descri��o , est� a imagem certeira da convuls�o da morte . Estas n�o s�o mortes de filme , s�o mortes reais em combate . Antinoo , o primeiro a morrer , morre surpreendido , quase � trai��o . Ulisses n�o lhe d� combate, mata-o de surpresa , como se disparasse para as suas costas , fazendo juz � sua qualidade de �astucioso� . Ant�noo era de todos os pretendentes aquele que lhe poderia dar mais luta , e Ulisses n�o corre riscos : �Assim falou, e contra Antinoo disparou uma seta amarga. Ora Antinoo estava no momento de levar � boca uma bela ta�a, vaso dourado de asa dupla; pegara nela com as rn�os, para beber um gole de vinho. 0 mortic�nio estava longe dos seus pensamentos. Pois quem dos celebrantes do banquete pensaria que um homem, isolado entre tantos, ainda que forte, lhe traria a morte mal�vola e a escurid�o do destino? Mas Ulisses disparou contra ele e atingiu-o com a seta, cuja ponta lhe atravessou por completo o pesco�o macio. Inclinou-se para o lado; a ta�a caiu-lhe das m�os ao ser Atingido , e logo das narinas jorrou um jacto de m�sculo sangue . Depressa afastou a mesa com um pontap� e toda a comida foi parar ao ch�o, conspurcando o p�o e as carnes assadas.� Eur�maco , pelo contr�rio , n�o � apanhado de surpresa . Ele vira o que se passara com Ant�noo e reconhecera Ulisses . Pretende apazigua-lo, oferecendo-se, em nome de todos, para restituir os bens que roubara e repor a autoridade de Ulisses como rei de Itaca . Ulisses recusa �com sobrolho carregado� "Eur�maco, nem que me d�sseis todo o vosso patrim�nio, tudo o que tendes agora e pud�sseis reunir de outro s�tio, nem mesmo assirn eu reteria as m�os do mortic�nio, at� que todos v�s pretendentes pag�sseis o pre�o da transgress�o. 0 que tendes agora � frente � isto: combater, ou ent�o fugir, se � que algu�m pode fugir � morte e ao destino. Mas n�o penso que nenhum de v�s fuja � morte escarpada." E o combate inicia-se com o assalto de Eur�maco e , de novo a sua morte � uma morte real , pouco ficcionada : �Assim dizendo, desembainhou a espada de bronze afiado, uma espada de dois gumes, e lancou-se contra U!isses com um grito terr�vel! - mas ao mesmo tempo disparou uma seta o divino Ulisses, acertando-lhe no peito, ao lado do mamilo: a seta veloz atingira-o no f�gado. Das m�os Eur�maco deixou cair a espada; contorcendo-se por cima da mesa, dobrou-se e caiu, atirando para o ch�o a comida e a ta�a de asa dupla. Bateu na terra com a testa na agonia da morte; e esperneando contra a cadeira, f�-la abanar com ambos os p�s. Mas depois o nevoeiro lhe desceu sobre os olhos.� Est� intacto o brilho original com que , ao ler pela primeira vez estas p�ginas , a cena violenta me impressionou . Magnifica tradu��o . 8.6.03
12:44
(JPP)
�Os Movimentos Sociais estipulam como ponto central a ideia de que n�o h� democracia sem participa��o e sem direito de iniciativa e de associa��o. A rela��o entre o indiv�duo e o Estado ou � marcada pela participa��o ou n�o � democr�tica. A participa��o, como tal, n�o pode ser um direito formal que � respeitado pelas institui��es ao sabor dos seus interesses. Ou as opini�es participam das decis�es, isto �, ou s�o meios de poder; ou ent�o a participa��o � uma ilus�o. � ( Do projecto de declara��o da auto-intitulada Assembleia de Movimentos Sociais do F�rum Social Portugu�s ) Aqui est� uma interessante proposta , a que � manifestada pela �ltima frase . Presume-se , sen�o nada teria sentido , que essas �opini�es� n�o s�o as que se exprimem pelo voto regular para as institui��es democr�ticas . Ser�o �opini�es� �socialmente� expressas . Como sabemos quais s�o ? Como sabemos da sua relev�ncia no conjunto da popula��o ? Por sondagens ? Por manifesta��es ? Por quem as exprime ? Pelos programas pimba da televis�o , pelo F�rum da TSF ? Pelo activismo de quem as defende ? Quem � que escolhe entre as �opini�es� contradit�rias ? � o �anti-racismo� politizado uma opini�o melhor do que o racismo populista , mesmo admitindo que este �ltimo � muito mais �opini�o� ? E as �opini�es� a favor da pena de morte , da expuls�o dos emigrantes , da proibi��o dos partidos, contra a central de tratamento de lixos na freguesia , a favor do �progresso� que traz um empreendimento tur�stico , ou da liberdade de se construir como se quiser num parque natural , devem ter �poder�? A proposta � liminarmente anti-democr�tica e , se fosse tomada a s�rio , fortaleceria o populismo de direita . J� hoje , mais do que o que devem , os pol�ticos governam por sondagens . Infelizmente para os �movimentos sociais� as �opini�es� mais significativas s�o aquelas de que eles n�o gostam , mas , no fundo , eles s�o elitistas e vanguardistas e as �opini�es� que deveriam contar s�o as que eles defendem . N�o � uma �democracia de qualidade� que propugnam , � um regime n�o-democr�tico , em que activistas ilustrados , intelectuais de esquerda , com ou sem �l�der m�ximo� , governariam sem ter essa inconveni�ncia que � ir a votos e aceitar a lei . Eles n�o o querer�o admitir , mas � Ch�vez da Venezuela o modelo proposto .
11:37
(JPP)
1. Um dos aspectos revolucion�rios do 1984 de Orwell foi mostrar como o controle da linguagem, o controle da designa��o era uma das formas �ltimas do poder. O ingsoc , a linguagem do �english socialism� era a materializa��o desta ideia , e o seu poder vinha de chamar � guerra �paz� . Os que chamam � guerra �paz� ganham a guerra � e foi isso que durante d�cadas os �movimentos pacifistas� de inspira��o sovi�tica tentaram fazer . Hoje conhecem-se milhares de documentos, mem�rias , testemunhos , relatos que mostram como esses movimentos eram estritamente controlados pelo PCUS e como os seus objectivos serviam a pol�tica externa sovi�tica e os seus objectivos militares . Uma sobreviv�ncia desses movimentos, o Conselho Portugu�s para a Paz e a Coopera��o , � um dos participantes do F�rum Social Portugu�s , porque certamente � um significativo �movimento social� �. 2. Voltemos a Orwell , porque � o mundo orwelliano que encontramos no F�rum Social . Esta reuni�o que se est� a realizar em Lisboa e que se intitula F�rum Social � um bom exemplo de como os equ�vocos de todo o g�nero , com intencionalidade pol�tica tem sucesso na opera��o orwelliana de serem designados n�o em portugu�s mas em ingsoc . O modo como o F�rum Social e o seu principal mentor p�blico Boaventura de Sousa Santos � n�o necessariamente o que melhor representa a sua estrutura pol�tica real , que deveria ter como face Lou�� , mas n�o conv�m � pretendem apresentar a reuni�o � como uma ben�vola e pac�fica assembleia de pessoas interessadas na coisa p�blica , volunt�rios do social , ardendo de fazer participar todos os portugueses numa �democracia desertificada� que os afasta deliberadamente da participa��o pol�tica . Boaventura queria inclusive que membros do PSD e PP l� estivessem, desde que �obviamente aceitassem a declara��o de Porto Alegre� . E , se procurar um pouco , encontrar� alguns inocentes �teis para l� estar , at� porque parece que duas c�maras sociais-democratas , incluindo a de Lisboa , est�o representadas . Isto � um mecanismo conhecido desde a guerra fria : o sucesso da opera��o do ingsoc � exactamente que a face p�blica seja o mais poss�vel afastada da face real , ou , se se quiser ir a Salazar , que o que pare�a seja . 3. O F�rum deve ser descrito pelo que � , n�o pelo que diz ser . O que � � leia-se a lista das �organiza��es � que dele fazem parte (organiza��es v�o em aspas porque algumas n�o existem a n�o ser no papel e servem apenas para engrossar estas listas ) - � uma reuni�o da esquerda portuguesa , em que partidos como o PS e em parte o PCP , s�o arrastados pelas frac��es mais radicais dessa esquerda , em particular , pelo Bloco de Esquerda e a mir�ade de pequenos grupos �rf�os do comunismo e do �socialismo participativo� . O facto de dizer �mir�ade� n�o significa que englobem muita gente , muitas vezes os mesmos fazem parte de v�rias organiza��es , mas que geram o milagre da multiplica��o dos nomes . Estalinistas , pintasilguistas , trotsquistas , ex-comunistas e comunistas �renovadores� que aderiram � �anti-globaliza��o� , ecologistas anti-capitalistas , leitores do Le Monde Diplomatique , cat�licos progressistas ( um dos �ltimos alfobres do marxismo ) , etc. , etc. O que acontece � que o ingsoc impede de os nomear assim porque , pelo seu efeito de revela��o , desocultam o que se pretende ocultar debaixo da pac�fica , e auto-legitimadora , designa��o de �movimento social� . Ora um �movimento social� n�o se proclama a si pr�prio , ou � ou n�o �. (Continuar�, "penso eu de que" ...) 7.6.03
11:13
(JPP)
Nos Estudos sobre o Comunismo h� informa��es novas e elementos para a hist�ria do trotsquismo e do maoismo em Portugal . 6.6.03
23:41
(JPP)
O Abrupto tem um m�s . Teve nas �ltimas tr�s semanas trinta mil �pageviews� ( os contadores divergem um pouco para mais ou para menos , algu�m me pode dizer qual lhe parece o mais fi�vel ? ) , foi saudado , referido , comentado e atacado em dezenas de outros blogs , e , na bolsa virtual dos blogs , as �ac��es� subiram de 0.25 c�ntimos , para 20.86 d�lares . � certamente o efeito da novidade , e passar� , mas quem escreve ou d� a sua opini�o , gosta de ser lido . O resto � hipocrisia . A modo de agradecimento a todos , o Abrupto , f�-lo com mais um poema de S� de Miranda , sob cuja �gide come�ou : Comigo me desavim, Vejo-me em grande perigo; N�o posso viver comigo, N�o posso fugir de mim. Antes que este mal tivesse, Da outra gente fugia. Agora j� fugiria De mim se de mim pudesse. Que cabo espero ou que fim, Deste cuidado que sigo, Pois trago a mim comigo, Tamanho imigo de mim.
22:28
(JPP)
De vez em quando ajuda-me a organizar o blog fazer uma esp�cie de agenda. Ao mesmo tempo aviso os meus leitores do que a� vem , ou do que , com muito optimismo , me interessa vir a tratar . Depois se ver� se n�o h� demasiada fome � At� agora tenho conseguido cumprir a maioria das anteriores agendas, embora ainda haja mat�ria em falta : 1. Cinema franc�s : continua em falta, mas j� comprei alguns dos filmes que me foram recomendados e que n�o tinha visto . Como n�o quero responder aos meus cr�ticos sem conhecimento de causa, ter� que esperar . 2. Continua��o da conversa com a Montanha M�gica . 3. Notas sobre o jornalismo pol�tico em Portugal : falta uma nota sobre a �Escola do Independente�, a que acrescentarei uma adenda sobre a influ�ncia desta �escola� nos blogs. 4. Actualiza��o da s�rie dos objectos em extin��o e da �leitura duas vezes� com as contribui��es que tem chegado . 5. Uma nota sobre intimidade, privacidade e exposi��o p�blica . 6. Um texto sobre a utopia dos blogs, na sequ�ncia de outras utopias sobre a rede . 7. Voltar � an�lise do MyLifeBits , o programa da Microsoft que se destina a permitir o armazenamento da mem�ria , um backup da vida toda . Escrevi um artigo no P�blico que foi um dos que menor resposta teve, mas o assunto continua a interessar-me muito e tem rela��o com a quest�o do tempo . 8. Nota sobre a tradu��o de Frederico Louren�o da Odisseia � coisa magn�fica! 9. Continua a haver muito correio atrasado . Pe�o paci�ncia aos que esperam �
17:52
(JPP)
Acompanhei algum debate nos blogs sobre o artigo que escrevi para o P�blico de ontem sobre o Pre�mbulo do projecto da Constitui��o Europeia . Tive tamb�m uma animada conversa sobre o artigo com um grupo de meus colegas socialistas do PE , que a greve dos controladores a�reos franceses atirou � �ltima hora para o mesmo avi�o que tomei em B�le . O avi�o � um daqueles pequenos jactos brasileiros da Portug�lia pelo que viemos todos literalmente em cima uns dos outros , com o P�blico e o 24 Horas como food for thought . O que eu queria precisar era o seguinte : a refer�ncia ao papel hist�rico do cristianismo � indispens�vel num texto que parte da heran�a cl�ssica greco-latina para chegar ao S�culo das Luzes . Omitindo-se o cristianismo , a refer�ncia solit�ria ao S�culo das Luzes ganha um outro relevo e s� pode explicar-se numa l�gica de exclus�o . O que defendo � a inclus�o de uma refer�ncia hist�rica insubstitu�vel, t�o insubstitu�vel como a refer�ncia ao mundo greco-latino . Ora nestes termos esta refer�ncia n�o quer dizer que s� pode estar na Europa quem for crist�o . Bem pelo contr�rio , penso que nenhuma raz�o religiosa deve excluir pa�ses de maioria mu�ulmana e defendo a entrada da Turquia quando cumprir plenamente as condi��es de ades�o , principalmente em mat�rias como os direitos humanos e a protec��o das minorias . 5.6.03
12:37
(JPP)
De novo , continuam as falsifica��es deliberadas de declara��es e entrevistas de dirigentes americanos na lista negra dos anti-americanos europeus . De novo , continuam os exerc�cios de desonestidade intelectual . De novo , o que disse Wolfowitz � falsificado . Aqui est� o que ele disse e o contexto : "The United States hopes to end the nuclear standoff with North Korea by putting economic pressure on the impoverished nation, U.S. Deputy Defense Secretary Paul Wolfowitz said Saturday. North Korea would respond to economic pressure, unlike Iraq, where military action was necessary because the country's oil money was propping up the regime, Wolfowitz told delegates at the second annual Asia Security Conference in Singapore." "The country is teetering on the edge of economic collapse," Wolfowitz said. "That I believe is a major point of leverage." "The primary difference between North Korea and Iraq is that we had virtually no economic options in Iraq because the country floats on a sea of oil," he said. Wolfowitz did not elaborate on how Washington intends to put economic pressure on North Korea, but said other countries in the region helping it should send a message that "they're not going to continue doing that if North Korea continues down the road it's on." No P�blico , que tinha obriga��o de ser mais rigoroso , isto transforma-se nisto "N�mero dois" do Pent�gono Wolfowitz admite que petr�leo justificou guerra contra o Iraque Pedro Caldeira Rodrigues O "n�mero dois" do Pent�gono, Paul Wolfowitz, disse ontem que o principal motivo da ac��o militar contra o Iraque foi o petr�leo. O secret�rio de Estado adjunto da Defesa, que j� tinha fragilizado a posi��o do chefe do Governo brit�nico, Tony Blair, sobre a pol�mica em torno das armas de destrui��o maci�a (ADM) ao descrev�-las como "justifica��o burocr�tica" para a guerra, foi agora mais longe ao afirmar que a invas�o militar pode ser justificada pelo facto de o Iraque "nadar" em petr�leo. De acordo com a edi��o "online" do jornal "The Guardian", Wolfowitz emitiu estas declara��es quando discursava perante delegados numa cimeira sobre seguran�a na �sia e que decorreu em Singapura no passado fim-de-semana. Ao ser questionado pelo facto de uma pot�ncia nuclear como a Coreia do Norte merecer uma abordagem diferente do Iraque, o "falc�o" do Pent�gono admitiu que a principal diferen�a entre os dois pa�ses "� que economicamente n�o t�nhamos escolha no Iraque. O pa�s nada num mar de petr�leo". Parecido , n�o � ?
12:19
(JPP)
O avan�o do processo de paz entre israelitas e palestinianos s� pode ser saudado por todos os que genuinamente desejam a estabilidade , a paz e a justi�a naquela parte do mundo . N�o adianta ser optimista , mas talvez se possa ser menos pessimista , o que j� n�o � mau . Apesar disso , o tema do dia de ontem e do de hoje , na agenda dos jornalistas que aqui est�o era outro : o n�o aparecimento das armas de destrui��o massiva . Porque n�o ? Eu tamb�m penso que tudo deve ser esclarecido ; se existiram e ainda n�o foram encontradas , se existiram e foram destru�das , ou se n�o existiam e havia erros nas informa��es , ou se essas informa��es foram deturpadas para justificar os objectivos de guerra . S�o diferentes hip�teses e todas devem estar em aberto . Algumas tem s�rias consequ�ncias para a credibilidade dos EUA e Reino Unido . N�o adianta iludi-lo , mas ainda � prematuro tirar conclus�es . Mas porque carga de �gua este � o tema mais excitante na agenda internacional ? Tenho pouca inoc�ncia sobre a raz�o porque isso acontece : trata-se de esconder ou minimizar que a situa��o no M�dio Oriente est� bem longe de ser a que foi prevista por toda a esquerda portuguesa e a direita que se lhe uniu . � por isso que penso , que muita da indigna��o sobre o conflito israelo-palestiniano lhes serviu de pretexto , e que nem sequer contribuem para a esperan�a da sua resolu��o . Recordam-se de algu�m , dos opositores ao conflito iraquiano em Portugal , saudar o processo de paz ? N�o me lembro de ningu�m 4.6.03
09:48
(JPP)
1. O poema do Vasco que se encontra antes destas "breves" � quase de certeza o primeiro em portugu�s a usar a palavra blog no seu texto . O Vasco tem outros recordes e premi�res como o de ser o poeta portugu�s que mais decass�labos escreveu , contando com os mais de 14000 da tradu��o da Divina Com�dia e os cerca de 8000 da tradu��o ainda in�dita do Canzoniere de Petrarca . Mais do que Cam�es . 2. Epidemia do "arraso" . Estamos perante outra epidemia do verbo "arrasar" nos jornais , fen�meno peri�dico e altamente contagioso . "Jo�o Soares arrasa Ferro" deve ter sido o doente original deste novo surto . Depois foi "relat�rio de n�o sei de qu� arrasa pol�tica de n�o sei de qu�" , "relat�rio da UE arrasa agricultura portuguesa" , etc , etc. Eu conhe�o a doen�a porque tamb�m j� fui "arrasado" . Muito gostam eles de "arrasar" , do Di�rio de Not�cias ao P�blico , porque esta � uma doen�a da imprensa escrita . Ningu�m se interroga sobre o uso deste verbo t�o pouco descomprometido pelos jornalistas ? Porque raz�o n�o escrevem "criticar" , mesmo qualificando a dureza da cr�tica ? Agora "arrasar" implica um julgamento de valor , sugere a efic�cia ou a raz�o do "arrasador" . Para quem l� fica de imediato uma impress�o indel�vel de desequil�brio entre quem "arrasa" e quem � "arrasado" . 3. Seguindo a iniciativa do Valete Frates , tamb�m cito o texto original da entrevista de Wolfowitz � Vanity Fair , objecto de uma t�pica opera��o de desinforma��o , seguida depois por flagrantes exibi��es de desonestidade intelectual , Aqui fica citada a partir da transcri��o oficial da grava��o : "Q: Was that one of the arguments that was raised early on by you and others that Iraq actually does connect, not to connect the dots too much, but the relationship between Saudi Arabia, our troops being there, and bin Laden's rage about that, which he's built on so many years, also connects the World Trade Center attacks, that there's a logic of motive or something like that? Or does that read too much into -- Wolfowitz: No, I think it happens to be correct. The truth is that for reasons that have a lot to do with the U.S. government bureaucracy we settled on the one issue that everyone could agree on which was weapons of mass destruction as the core reason, but -- hold on one second -- (Pause) Kellems: Sam there may be some value in clarity on the point that it may take years to get post-Saddam Iraq right. It can be easily misconstrued, especially when it comes to -- Wolfowitz: -- there have always been three fundamental concerns. One is weapons of mass destruction, the second is support for terrorism, the third is the criminal treatment of the Iraqi people. Actually I guess you could say there's a fourth overriding one which is the connection between the first two. Sorry, hold on again. Kellems: By the way, it's probably the longest uninterrupted phone conversation I've witnessed, so -- Q: This is extraordinary. Kellems: You had good timing. Q: I'm really grateful. Wolfowitz: To wrap it up. The third one by itself, as I think I said earlier, is a reason to help the Iraqis but it's not a reason to put American kids' lives at risk, certainly not on the scale we did it. That second issue about links to terrorism is the one about which there's the most disagreement within the bureaucracy, even though I think everyone agrees that we killed 100 or so of an al Qaeda group in northern Iraq in this recent go-around, that we've arrested that al Qaeda guy in Baghdad who was connected to this guy Zarqawi whom Powell spoke about in his UN presentation. " 3.6.03
16:58
(JPP)
Quando , h� quinze dias , no Mil Folhas do P�blico , a Isabel Coutinho falou do Abrupto , escreveu : "s� me apetecia que o Vasco Gra�a Moura tamb�m aderisse � moda dos blogs" . O pedido teve eco nalguns blogs , na Janela Indiscreta por exemplo . Eu falei ao Vasco Gra�a Moura e pedi-lhe um poema "de resposta" no Abrupto . O Vasco n�o se limitou ao poema para o blog , mas faz a divulga��o "em premi�re mundial" de um poema seu trilingue . Aqui fica uma nota do Vasco , o poema para o blog e a " aretnap a pantera " . ____________________________ "H� meia d�zia de anos traduzi "A pantera", uma das pe�as mais c�lebres dos Neue Gedichte do Rilke, tendo-a inclu�do em ap�ndice � minha tradu��o dos Sonetos a Orfeu. H� poucas semanas, o Joaquim-Francisco Coelho escreveu-me de Harvard, onde � professor, a enviar-me a sua pr�pria tradu��o da mesma pantera. Achei que o facto de ele ser brasileiro e eu portugu�s tinha alguma influ�ncia nas nossas vers�es. E dias depois fiz o ciclo que lhe envio para o seu blog, em premi�re mundial (!!!), por me parecer que corresponde a algumas das solicita��es que recebeu a meu respeito... Trata-se afinal de um espelhar e contra-espelhar de ironias, em que �s tantas o pr�prio Rilke escreve a Lou Andr�as-Salom�, conversa com Rodin, engendra um soneto e "posa" para a pantera... A qual, se estivesse na Internet, por certo se poria tamb�m a fazer um soneto. Qualquer coisa deste tipo: n�o h� nada no mundo que me pague para aqui estar. n�o h� nada que jogue e nada que responda ou fa�a blague por eu, panteramente, estar no blog. n�o h� verso do rilke que me afague, por mais que o vgm aqui dialogue com o jpp, quer me embriague, quer passe fome, ou me espreguice e drogue. sou a pantera fora da internet. passo l� por acaso. depois saio e volto �s grades onde algu�m me mete. e rujo e rosno e mordo e n�o me ensaio nada nas piruetas da disquette de apag�-la depois. s� me distraio. Sauda��es ao seu p�blico bloguista. Vasco Gra�a Moura _____________________________ aretnap a pantera (para Joaquim Francisco Coelho, por termos ambos traduzido �Der Panther�, de Rainer Maria Rilke) 1. fomos os dois � ca�a da pantera que estava j� da jaula sob o tecto; na mesma l�ngua e em cada idiolecto, apanh�-la inteirinha, quem nos dera! mas clonado, que fosse n�o se espera dorso verbal em m�sculo inquieto, e ao l�-lo, eu me felino e me arquitecto, pois me pantero, e mais, se reverbera noutro registo a l�ngua subtil que, de cada vez que a dupla se faz frente, � jogo especular no abismo, acaso dev�amos levar a rainer rilke esta parelha opaca e transparente � trela, quando formos ao parnaso. 2. as tr�s irm�s, n�o digo as de tchekov, as tr�s panteras, sendo uma mais velha que sempre as outras duas v� de esguelha e a quem a semelhan�a n�o comove, v�m rosnar-me � cabe�a, sem que prove seu cora��o, nem musa, voz, centelha, c�u, ch�o, mar, bicho, flor, fruto, bodelha, nem quando faz calor, ou venta, ou chove. s�o pura indiferen�a que imagino sa�da da retina e da rotina que em ox�moro as veja e traga e leve, e afirme e negue o seu verbal destino que mesmo no que afina, desafina: panteras podem ser da cor da neve. 3. as feras vivem junto de um reboco sombrio de argamassa com o mundo e o seu pr�prio rugir � vagabundo, como se � noite fosse apenas troco de o cora��o, notado num bloco, a quente, a frio, f�nebre e jocundo, dever vazar o sangue at� ao fundo dos muros do sil�ncio. e o tempo invoco para que esse rugir, ao dar a volta, e ao rasgar-se nas farpas de uma vala, se fa�a um p� distante amortecido e volte a concentrar-se e, posto � solta, se transforme em ang�stia e a dispar�-la venha o seu cavo eco em meu ouvido. 4. atr�s das barras lia-se o felino, e eram catorze, pr�prias do soneto, entrecortando o �gil dorso preto, el�stico, estirado, repentino. depois, quando ao papel cabe�a inclino, alargo da pris�o o esqueleto e quando desarmado nela a meto, j� quase sem cautelas me rotino. por�m, n�o esperava ver, ap�s este preliminar de uma abordagem, que tanto pedigree ali se espere, a reunir pantera e albatr�s e tigre e cotovia, em homenagem, a rilke, borges, keats, baudelaire. 5. quando a pantera, liebchen, �s tu, feita dist�ncia concentrada em mim, e entre anestesia e frenesim n�o sei que te dizer em paris, lou, se nada de mim ponho agora a nu e dentro apenas quero, de marfim e arte nova, o ser que digo assim, em arabesco, opalas e bambu. talvez estejas farta, eslava minha, por isso que a pantera te recorde rel�mpagos da alma nas estepes e a pr�pria solid�o nadando asinha nas veias da pantera que te morde os tornozelos quando ao dorso trepes. 6. volto a fechar a jaula e n�o me iludo: tr�s panteras assim n�o s�o demais, geram-se umas �s outras nos sinais, podem multiplicar o seu veludo, e como no xadr�s, como no judo, jogo e real s�o sempre desiguais. a uma, � sorte, as frases cordiais: o que � para ela o nada? o que � o tudo? que deuses esmaltaram os seus dentes? mandando o seu leitor se faire foutre em mudos arremedos evidentes, de que carne da alma ent�o se nutre? ou acaso desfaz, como um abutre, um f�gado j� solto das correntes? 7. num pesadelo, quando a vi, ao calhas, pantera de palavras, traduzi-a e com o �leo de uma almotolia no p�lo, escorregou por entre as falhas; comeu na ida todas as migalhas que o sono em sobressaltos produzia autom�ticamente na teoria da tradu��o e em muitas outras tralhas. puta pantera, n�o abandonavas a l�ngua de partida e o lampejo com que na tua pele a recitavas, mesmo que a de chegada, em teu bocejo, n�o te poupasse ao oco das aljavas e dele te fizesse um quase arpejo. 8. ah, espreitar na selva entre lianas, para entrever o brilho amarelado de uns olhos que podia ter pintado rousseau, douanier cheio de ganas! ah, cora��o modelo para as manas bront�, ou para um petrarca desolado que exp�s da humana fera um bom bocado at� cam�es cantar tigres hircanas! e era o luto na vida, diz pessoa, que n�o sabia nada de panteras, nem de jaula que a luz furtiva acoite se na fenda das p�lpebras se coa, trazendo � nossa era as outras eras, assassinando e dando vida � noite. 9. vai-se a pantera em sombra, extravagando. secaram as palavras no seu fojo. ficaram s� as express�es de nojo de algu�m poder morrer, sem saber quando o bicho voltar�, agoniando as v�sceras e a alma. e havendo bojo, esconderijos, luras, silvas, tojo, que se usam para a ir camuflando, n�o se sabe em verdade onde ela est�: pode voltar ou n�o. pode rugir, fugir, morder o tempo atr�s das barras. pode vir pela noite. e oxal� n�o fique feita em pedra a encardir. e despedace a lira em suas garras. 10. - chez vous, la forme s'ouvre, mon cher ma�tre, au vrai insaisissable. je voudrais en faire autant, pourtant un coup de d�s ne perce ni les b�tes, ni leur �tre... - la post-modernit� avant la lettre, vos mots pourront peut-�tre en dire assez, laissez-les miroiter, p�trissez-les... - mais je veux m'effacer et dispara�tre pour n'exprimer que leur an sich dans leur existence pure et leurs �lans... - si un chat est un chat, mon cher po�te, il sera chatoyant, mais gr�ce � vous... - ich weiss, monsieur rodin, merci beaucoup. la panth�re! paris est une f�te! 11. Der Panther befand sich in der Leere tief des gesteinerten Herzens. Da verbrannte kein Blut mehr. Zwar nur die geahnte traurige Entt�uschung des Daseins rief. In seinen Augen langsam verschlief des Tiers Erinnerung, vielleicht die sogenannte Regenbogenwelt, vielleicht die gespannte Muskelkraft, die dann um nichts griff. Der Raum ist begrenzt und lautlos. Hast Du den Panther, o Gott, mit der Leier noch einmal gejagt und geschlagen? Ach, singe nicht mehr, mach die Augen zu, h�r mal dieses Ger�usch, der L�ge zur Feier: damit wird der �bertr�ger �bertragen. 11. no oco fundo onde a pantera estava do cora��o de pedra, n�o ardia o sangue j�. triste se pressentia o apelo do existir que se enganava. devagar em seus olhos se ensonava a lembran�a animal, talvez um dia o mundo do arco-�ris; dir-se-ia que a for�a muscular nada agarrava. o espa�o � limitado e mudo. tu, acaso o bicho agora com a lira, ca�aste, � deus, deixando-o aturdido? n�o cantes mais e fecha os olhos no ru�do que celebra tal mentira: assim o tradutor � traduzido. 12. farta de ver um homem de olhos claros e bigode mongol parado em frente �s grades, a pantera astutamente concebeu um poema. nos preparos foi notando de cor os termos raros, dando sinais que fossem passar rente, mas sem melancolia, ao vulto em gente, especado e mordido com aparos de poeta em cursivo. esse retrato, sem subjectividade de animal, no vulto atr�s das grades intuiu. e o ponto de vis�o dela era exacto: equidistante �s barras de metal era um e outro. e ela desistiu. 13. nunca ao p�lo das s�labas escape alguma malha feita pelas sete letras reordenadas: aretnap, panrate, terapan ou naparet, ou, se se preferir, mesmo etarnap: em anagramas v�rios se reflecte (j� agora samargana) o chape-chape em que o real no verbo se derrete. mas n�o sendo a pantera um leopardo, nem lince da malcata, quando n�o odrapoel ou ecnil seria, o arb�trio de seu nome � sem resguardo, �v palavra v� no espelho v�o, sonoridade a silabar bravia. 14. para encontrar oculta a simetria al�m do espelho, uivando pelas luas, n�o penses que a pantera individuas tendo em conta o que sabes. a ironia tecnicamente ruge e acrobacia n�o p�e � vista quando faz das suas, a devorar tamb�m as carnes cruas dos nomes �s avessas. sangraria o engano em trompe l'oeil, curto-circuito, rel�mpago inef�vel? o que for aqui perde o sentido. � s� fortuito. as outras qualidades lhe vai p�r, regulando a medida a seu intuito, e desmedindo-a, o pr�prio tratador. 15. e volt�mos da ca�a, remoendo efeitos de pros�dia e de sintaxe. cada pantera � assim: primeiro d�-se a ver, quando ningu�m a est� vendo. talvez deitar-lhe � pele algum remendo que a noite porventura facultasse, quando a palavra a mais a esburacasse mas buracos a menos fosse tendo... que importa? ficar� fotografia da expedi��o: armados de canetas e com um p� no dorso do animal. h� uma pantera tensa em cada dia, um ser que � de florestas e provetas, todo em literatura ocidental. dois subprodutos capriccio a �pan-pan-te-te-te-te-ra�, gaguejava um ep�-p�-p�-p�-p�-go-gono triste, �a con-con-di-di-��o es-cra-cra-cra-va, al-gu-gu-gu-ma vez sen-tis-tis-tis-te? ven-do o chi-chi-chi-co-co-tem ris-ris-te que o tra-tra-tra-tra-dor des-des-tra-tra-va? a tu-tu-tu-a fau-fau-ce bra-bra-va quan-quan-quan-tas ve-ve-zes a-bris-bris-te? � cer-to-to-to que eu ga-ga-gue-gue-jo, to-to-da-vi-vi-via pre-ve-ve-jo que-que vais mor-mor-der o en-go-go-go-do e � noi-noi-noi-te fi-fi-fi-car�s so-sob o bi-bi-co de ga-ga-g�s, pois ten-ten-tens o tem-tem-po-po todo�. capriccio b o verso errado, mar�lia, tem uma s�laba a menos, alguma a mais, ou, mesmo duas sendo, �s doze ou treze chega, e � sempre assim, quando ora escorrega de nove para dez ou onze e tamb�m se desmede das medidas em que por�m quando acerta fora do s�tio e sem saber t�cnicas her�icas que emprega, ou s�ficas, sem quarta, oitava s�laba, nega o verso regular que lhe conv�m. cruzes canhoto, que mais dif�cil � fazer mal do que fazer bem e aqui � tempo de desculpar a pantera, que assim desmelodiosa, posta � r�, n�o faz sentido nenhum e nem a vi, nem revi, nem trevi, nem tetr... (bolas!) como era. VASCO GRA�A MOURA
13:39
(JPP)
1. Ontem , � chegada a Estrasburgo, o tempo estava de tempestade . Quente e h�mido , denso . Estou feito , como os meus colegas, animal de carga puxando uma mala com rodas na transum�ncia para a Als�cia . � f�cil aos locais identificar os membros daquele grupo de mala de rodas que cai aqui uma vez por m�s e , s� cai � for�a , porque os franceses , prevenidos , colocaram nos tratados europeus a obriga��o de vir a Estrasburgo doze vezes ao ano e o Parlamento n�o tem o poder de escolher a sua sede . Imagino Sir David Attemborough , dependurado numa cornija , a gozar com a "exotic species" destas aves e os seus estranhos h�bitos. 2. � entrada do edif�cio estava um grupo folcl�rico alem�o ou austr�aco , dos muitos que visitam a "institui��o" . Como as bandas filarm�nicas portuguesas , vem da prov�ncia profunda , vestidos de azul e branco e chapelinhos tiroleses , com majoretes e cornos de ca�a , fazendo um grande fragor com os metais e percuss�o , enchendo de barulho o p�tio de entrada . Quem conhe�a o Parlamento em Estrasburgo sabe que � uma esp�cie de bunker prisional (parece que o arquitecto que o fez era especialista em pris�es ) e esse p�tio sem vistas � o centro de uma oval de bet�o e vidro , triste e cinzenta (castanha) . Apesar de tudo , a banda azul e branca ( parecia o FCP ) era a �nica alegria e o som marcial animava as paredes . Do mal o menos . 2. Hoje est� um sol radioso em Estrasburgo e estas cidades do Norte mostram uma capacidade para se virar para a luz , que n�o existe em Portugal . De repente tudo muda , tudo vem para a rua , tudo se solta . Passo pelos livros . Estrasburgo tem v�rias boas livrarias e alfarrabistas ; a Kleber � a melhor , a FNAC muito de prov�ncia , a Quai des Brumes forte na literatura , muito francesa , muito Tel Quel , a Oberlin , forte da sua idade , nascida em 1817 , e a Bouquinerie des Soeurs e L' Insomniaque , bons alfarrabistas . Nas rua h� tamb�m muitas bancas de livros . Eu e o Vasco fazemos verdadeiros saques , a mais das vezes nos alfarrabistas , porque a edi��o francesa � prolixa mas nem sempre interessante . 3. No entanto , h� especialidades estrasburguesas como a teologia , em que todas as livrarias e alfarrabistas s�o bons . Estrasburgo � uma cidade cat�lica , protestante e judaica , t�pica de uma "velha Europa" que , para os lados de l� da fronteira , Hitler destruiu . Tem uma c�lebre Faculdade de Teologia Protestante e uma tradi��o s�lida de pensamento protestante , mas h� muitos e bons livros de teologia judaica e cat�lica . Daqui a uns anos n�o faltar� a teologia isl�mica , se se tiver em conta que , em cidades como Mulhouse , onde trabalham muitos portugueses , a segunda religi�o � a mu�ulmana . A taxa de natalidade far� o resto . 4. Para c� chegar passei pela fronteira franco-sui�a , em p� de guerra por causa do G8 . Os manifestantes anti-globaliza��o vers�o "anarquista" (suspeito que esta designa��o � incorrecta e desculpabilizante , porque muitos s�o apenas esquerdistas radicais e membros das organiza��es anti-globalizadoras com face mais pac�fica ) entret�m-se a destruir lojas em Genebra e Lausana . A amplitude dos conflitos � grave , mas h� uma estranha complac�ncia com estes "casseurs" . Se fossem da extrema-direita , quantos editoriais inflamados se escreveriam , quantos gritos que a Republica estava em perigo se ouviriam ? 4. Se entrarmos num gabinete de um dirigente regionalista alem�o de um dos l�nder , estar�o tr�s bandeiras : da Alemanha , da UE e da regi�o , o mesmo na It�lia . Mas se fizermos id�ntica visita na Catalunha ou no Pa�s Basco estar�o apenas duas : da UE e da regi�o . � por isto que a ideia de uma "Europa das regi�es" , implicando uma rela��o directa das inst�ncias europeias com as regi�es , tem todos os riscos . Sublinhe-se de passagem , que o federalismo alem�o � muito aberto quanto � soberania nacional , mas n�o admite que se toque , com um dedo sequer , nos poderes dos l�nder . 1.6.03
19:10
(JPP)
Esta � uma hist�ria que ocorreu comigo em Moscovo, nos �ltimos anos da URSS e nos primeiros da R�ssia, uma hist�ria exemplar das atitudes das pessoas comuns, que usei a semana passada numa sess�o mais ou menos oficial, exactamente para ilustrar esse ponto de �bom senso� econ�mico. Com pequenas altera��es aqui fica. Vivia-se ent�o um per�odo de transi��o ca�tico. Uma parte da nomenklatura sovi�tica estava a apropriar-se dos bens que tinham qualquer valor e que controlavam enquanto burocratas. Ou seja a m�fia russa estava a formar-se. Num desses anos fui a um restaurante na periferia de Moscovo que tinha acabado de abrir, e que pertencia certamente a esse novo grupo social emergente, entre a criminalidade e o neg�cio. Funcionando numa antiga resid�ncia acad�mica, (no sentido russo de pertencer � Academia) de propriedade vagu�ssima, o espa�o tinha todos os sinais do novo-riquismo: veludos, baixelas de qualidade, um menu realista (o que era raro porque na URSS nunca havia qualquer rela��o entre o menu e o que se podia comer) e um servi�o garantido por antigos estudantes cubanos de engenharia nuclear, que tinham ficado desamparados em Moscovo quando o projecto sovi�tico de uma central nuclear em Cuba foi interrompido por Gorbachov. Era um s�tio curioso e uma popula��o curiosa . Quando me sentei , e durante quase todo o jantar , n�o estava ningu�m a n�o ser uma mesa long�nqua em que um homem taciturno comia ao mesmo tempo que tomava notas num bloco . � sua frente uma rapariga muito jovem e bonita comia tamb�m em perfeito sil�ncio . Apesar de ambos estarem em frente um do outro , n�o falavam . Periodicamente vinha o cozinheiro da cozinha e trocava duas ou tr�s palavras com o homem taciturno, a seguir um criado, depois outro e, frequentes vezes, uma senhora que fazia o papel de chefe de mesa. Os contactos eram brev�ssimos, regulares, reverenciais e discretos. Presumi e bem que quem mandava era o homem. Imaginem pois qual a minha surpresa quando a senhora que chefiava o servi�o das mesas se identificou, sem saber que falava com um conterr�neo, como portuguesa. Ali, no meio dos s�burbios moscovitas, j� na transi��o com a floresta russa, estava uma vianense, sa�da da sua Viana de Castelo para ir para Paris e de Paris saindo para viver com o georgiano que era essa a novel nacionalidade do taciturno. Este �possu�a� o restaurante e um ou dois casinos flutuantes em Odessa, um patrim�nio sobre o qual, o m�nimo que se possa dizer, � que era bizarro. Mas a hist�ria verdadeiramente come�a aqui. Contente como eu de encontrar um patr�cio no mais imprevisto dos lugares, sentou-se na mesa e come�ou a contar das suas dificuldades em gerir o restaurante e deu-me a melhor li��o que jamais aprendi n�o s� sobre a economia sovi�tica, mas sobre como as atitudes comuns, que nos s�o muitas vezes invis�veis, que n�s n�o nos apercebemos, porque n�o temos distancia��o, s�o as traves mestras do progresso ou do atraso econ�mico. Ao mesmo tempo, mostrava-me como era d�ficil mudar aquilo que chamamos habitualmente as �mentalidades�. Ela explicou-me primeiro a raz�o porque escolhera ter empregados cubanos e n�o russos. Os russos, dizia ela, habituados a trabalhar num contexto altamente burocratizado, sem qualquer incentivo para se esfor�arem mais ou melhor, faziam o m�nimo poss�vel. Os cubanos estavam numa situa��o dif�cil, sem dinheiro, e acima de tudo queriam voltar para Cuba. Presumo que trabalhavam � margem de qualquer protec��o social, mas isso era visto como trivial. Nessa altura, as leis em vigor eram apenas um meio suplementar e pretextual de rapina por parte dos burocratas que as aplicavam conforme o seu interesse pr�prio, os subornos que recebiam ou n�o. Como � volta da portuguesa n�o havia estado, era a m�fia que fazia esse papel. Depois, na conversa, somava pormenor sobre pormenor sobre o seu desespero em conseguir que a cozinha funcionasse bem. O cozinheiro que fazia as compras entendia que era irrelevante comprar produtos de qualidade � para ser mais barato comprava ma��s e batatas de fraca qualidade � e o restaurante pretendia ser um restaurante de luxo e caro e j� tinha de competir com outros do mesmo tipo. Batatas de m� qualidade n�o eram poupan�a eram desperd�cio, mas o cozinheiro n�o compreendia. Depois havia todo um conjunto de velhos h�bitos sovi�ticos muito dif�ceis de mudar � por exemplo o cozinheiro teimava em fazer caf� de novo somente quando acabava o anterior, o que significava que havia cerca de quinze minutos em que ningu�m tinha caf� para servir no restaurante. Os seus problemas n�o se limitavam ao restaurante. No mesmo edif�cio havia tamb�m um �hotel�, tamb�m uma antiga resid�ncia onde os acad�micos da prov�ncia podiam ficar quando vinham a Moscovo. N�o se sabia quem geria o hotel, embora eu suspeitasse que alguns dos acad�micos, que tinham deixado de receber sal�rios e perdido os privil�gios tinham naturalmente �privatizado� o edif�cio. Ora a nossa portuguesa tinha conseguido uns milhares de garrafas em miniatura de bebidas para colocar nos quartos (n�o havia frigor�ficos claro, mas havia uns arm�rios), s� que n�o conseguia, um ano depois de as ter conseguido, um acordo sobre percentagens de lucro. Ao lado, numas lojas que havia, n�o conseguia que as empregadas percebessem que as vitrinas se destinavam a mostrar os produtos para fora, para a rua, e n�o para servirem para serem pintadas com desenhos de pombas e cosmonautas, tornando tudo mais escuro. Assim mostrava-se para a rua apenas a parte de tr�s de arm�rios e estantes de exposi��o, virados para dentro. A ideia que uma loja comercial existia para servir os seus clientes era alheia � cultura local � uma loja destinava-se a ser um espa�o confort�vel para as suas empregadas e permitir-lhes com facilidade controlar a mercadoria, posta bem longe do cliente entre um balc�o a parede. Tudo eram facilidades para o pessoal, tudo eram dificuldades para o cliente. E por a� adiante. N�o sei onde estar� hoje a minha vianense moscovita, espero que bem, mas estou-lhe muito grato pela sua li��o, naquela noite que durava desde as quatro da tarde, no mais improv�vel dos lugares.
13:03
(JPP)
1. Comentando uma observa��o que fiz no dia 22 de Maio sobre as raz�es porque h� t�o pouca medita��o sobre hist�ria nos blogs , a Aurora do Da Prov�ncia avan�a com uma opini�o : �A natural estratifica��o da popula��o que acede � internet ( mais jovem, com elites menos cultas ); a Hist�ria ser um tema "frio", no sentido de se poder fazer menos aquilo que os portugueses tanto gostam: ser treinador de bancada; o "agora e j�" ser um fen�meno de "adi��o" do nosso tempo ( o tempo em que j� n�o h� Tempo) que n�o permite tert�lias pouco mais que superficiais na Internet ( do g�nero troca de cromos...); a esmagadora maioria dos portugueses (�) n�o ter a (�) informa��o (�) para - de forma construtiva - pronunciar-se sobre temas de Hist�ria; o Passado ser inamov�vel, no sentido de j� n�o podermos intervir - o que contraria o umbiguismo nacional.� As observa��es da Aurora tem um ponto que me interessa para o debate : o facto da hist�ria n�o ser �interactiva� torna-a desapropriada para um meio e para a cultura dos seus habitantes , essencialmente motivados pelas vantagens de este ter um car�cter opinativo e imediatista sobre os eventos do presente . H� outra raz�o e essa tem a ver com o diminuto papel que a hist�ria , enquanto percep��o do tempo e da cronologia , tem no actual sistema de ensino . A influ�ncia do estruturalismo em disciplinas como a literatura , a filosofia e mesmo a hist�ria , desvalorizou a componente cronol�gica do saber . H� um artigo recente de Luc Ferry sobre os efeitos devastadores do estruturalismo nos conte�dos dos programas escolares franceses. Logo que tenha a liga��o , caso esteja em linha , incluo-a nesta nota . 2. A Susana , o Heitor e o Diogo da Psicossom�tica responderam assim � pergunta : �Porque raz�o entre os temas dos blogs e das mensagens neles afixadas h� t�o pouca presen�a da hist�ria?� Porque Jo�o Benard da Costa escreve apenas uma vez por semana no P�blico, ou seja, porque para o ler � preciso parar, prescindir da pressa, virar para fora, para o que de dentro dele sai por palavras perfeitas. O que queremos dizer com este exemplo precioso � que n�o basta contar com a presen�a da hist�ria, � fundamental saber como cont�-la. Pensamos que raros s�o os que tendo o gosto pela hist�ria n�o caem no po�o seco dos factos sobre factos, datas e links sem acrescentar a forma liter�ria � �coisa� contada provavelmente por uma quest�o de tempo ou falta deste. � fundamental, cada vez mais, escrever muito bem sendo que escrever muito bem � muito mais do que estar de acordo com a gram�tica. Estamos a falar de literatura, sim! N�o recear as voltas que a l�ngua d� e dar mais do que aquilo que todos os manuais de hist�ria t�m dado aos estudantes. Por exemplo e que raio de exemplo t�o adequado. � que n�o h� manual de hist�ria que n�o seja um reposit�rio de textos sem chama, tristes e bisonhos como triste e bisonho � o ensino da hist�ria transformado em axioma sem vida. Que, de facto, a morte � o que temos de certo e o passado est� cheio de mortos que a maioria dos historiadores n�o desenterra, n�o mexe nem deixa mexer ou toca ao de leve. Levemente. � preciso, dir�amos, n�o recear o erotismo, a sensualidade que encontramos nos textos de Benard da Costa ou Agustina. Seria preciso conquistar os historiadores para a literatura e a disponibilidade que esta exige. Que a literatura come�a onde a cabe�a tem corpo e o mostra, ro�a, passa pelos factos e os agarra com as m�os. N�o h� nada de animal que os animais deixem passar ao lado. A hist�ria n�o deveria ter escapado aos sentidos. Contudo, l� foi escapando. Trata-se, portanto, de uma quest�o de vida e morte. A �pouca presen�a da hist�ria� n�o ser� s� a aus�ncia disto, das ding, dessa �coisa� estranha que n�o se entranha porque s� se procura por aquilo que se sabe e reconhece. Sem a pressa com que hoje todos falamos de tudo. Sem medo do ar do tempo que sopra a correr por todo o lado. E todo o lado � de mais. N�o?"
12:44
(JPP)
1) A Aurora do Da Prov�ncia ,lembra o �Ovo amarelo ( aquele autocolante com um 90 inscrito, que se colocava na traseira dos carros), a fisga, a combina��o ( aquele vestido fininho de al�as para colcocar debaixo da roupa de senhora). " e acrescenta , muito apropriadamente , a "vergonha na cara ", mas n�o � um objecto.� 2) Maria P. inclui o radiomadorismo �ontem, estava a ver um filme na televis�o sobre um radio-amador e comecei a pensar se isto das comunica��es na net n�o tem muito de radio-amadorismo, sem, no entanto, a magia da voz. S� espero � que a net n�o venha tornar obsoleta essa outra forma de comunicar � dist�ncia por ondas hertzianas, que eu nunca experimentei mas que sempre me fascinou. � 3) Pedro F. lembrou a exist�ncia de um Catalogue of Obsolete Entertainments referido numa nota do Salon 4) O Critico Musical inclui o soneto �por provoca��o� , e , talvez para provar que j� n�o se fazem destas coisas , no blog transcreve Petrarca �Mando-lhe por gra�a um objecto imagin�rio, do campo das artes, um objecto que ainda n�o existe porque � uma abstrac��o de algo que ainda n�o foi criado, uma obra que vai desaparecendo, porque ningu�m (ou quase) a pratica: o soneto. Claro que n�o me refiro � leitura do soneto, Shakespeare deixou-nos esse objecto, ali�s vivo, mais vivo que os garfos que vi no museu da idade m�dia, no Boulevard de Saint Germain.� 5) Roberto Trindade lembra o � tipo de chumbo e antim�nio, usado pelos tip�grafos, que serviu durante s�culos para se (re)produzirem grandes obras liter�rias.�
12:29
(JPP)
Ler duas vezes o Mau Tempo no Canal de Nem�sio por Rita Maltez �Por um lado, as sensa��es que temos ao relermos um livro podem ser diferentes consoante o nosso pr�prio estado de espirito do momento ou em fun��o de altera��es mais estruturais na nossa forma de pensar, ver, elaborar, problematizar e at� sentir . E at� em fun��o da nossa pr�pria abertura a novas sensa��es. Reli h� pouco tempo o Mau Tempo no Canal. Talvez 20 anos depois de o ter lido a primeira vez. E desta vez, mais do que a hist�ria, e sem prejuizo dela, dei comigo a admirar a forma como � contada, o modo como s�o magistralmente usadas as palavras. E ia pensando: "Bem .. a hist�ria, � vulgar, a pobre rapariga enclausurada na ilha, com sonhos e aspira��es, corajosa, voluntariosa, etc , etc.... . A forma de a contar � que � diferente. Isso � que marca a diferen�a deste livro." Quando, na minha primeira leitura, o que me agradou foi exactamente o enredo. E confesso que nem lembro de ter reparado na forma. Talvez nem soubesse reparar nela. Fui eu que mudei. (e reeditei, sem querer, o velho problema de saber se o que conta na arte � a forma ou ou conte�do)� Ler duas vezes Clareiras no Bosque da Zambrano , Rui Magalh�es Paix�es e Singularidades , Herberto Helder e Ruy Belo por Maria P. "Clareiras no bosque" da Zambrano (musa das minhas parcas escritas, o livro n�o a autora, claro!!) e o apaixonado ensaio do Rui Magalh�es "Paix�es e Singularidades" (Angelus Novus). Depois a poesia toda do HH e do Ruy Belo, a que volto e revolto e n�o esgoto. O acto de reler nasce daqueles livros que nos provocam a "entrar pela janela"; que nos deixam a sensa��o de haver v�rios graus de leitura a explorar; nesses livros, a primeira leitura � muitas vezes um retirar a tampa, sem, ainda, colocar a m�o no doce (ou no amargo). � fabulosa essa sensa��o de se estar a ler a mesma coisa e parecer que ela � sempre nova, que se renova aos nossos olhos. �
� Jos� Pacheco Pereira
In�cio |