ABRUPTO

15.6.13


A POPULARIZAÇÃO DA ECONOMIA
 
 Pnyx.
 
A primeira aquisição da crise no debate público foi uma popularização forçada da economia, incluindo processos macroeconómicos, condicionantes, contradições, mecanismos, desde a “economia caseira”, até à economia pública. Como de costume, há muita tralha de “economês”, ou seja economia politica e ideologia disfarçada de linguagem cientifica, quer em versões eruditas, quer populistas, mas mesmo assim, muita gente aprendeu mais de economia nestes últimos anos do que em toda a vida. É pena que não haja "crises culturais” (o mais perto disso é o debate sobre o Acordo Ortográfico) para se popularizar literatura, arte e cultura. É nas obras de alguns economistas, e não é por acaso que o são, que se encontram os textos interpretativos e programáticos que melhor penetraram no debate público e na sua versão de discussão comum entre pessoas comuns. Medina Carreira foi aí o percursor que popularizou muitos dos temas e explicações que se viriam a tornar virais na crise. Viu passar a sua voz solitária e apresentada como o apogeu do tremendismo, numa voz do mainstream, com uma forte componente de populismo. Hoje, não são os programas televisivos de Medina Carreira que contam, mas como acontece com os autores que são a face intelectual da crise, encontram-se as suas ideias e frases sob versão anónima ou quase no Facebook, nos blogues, nas cartas aos jornais, nas intervenções nos fora radiofónicos e televisivos. 

Outros autores representaram a mesma sintonia com a crise e as suas necessidades argumentativas. João César das Neves é o melhor representante de um grupo de economistas que deram ao “ajustamento” um argumentário de inevitabilidade, tirando daí consequências políticas para a governação. Começando em César das Neves e acabando em Camilo Lourenço, passando por dezenas de articulistas na imprensa económica e de autores de blogues que absorveram a mesma cultura que tem tido a classificação de “neo-liberal” (de que o Primeiro-ministro é também parte), tem sido a vanguarda da polémica do lado da direita, ou se se quiser do lado da troika. Hoje já não vivem o momento alto que tiveram há dois anos, e muitos se revelaram muito mais reacionários (sim, é uma categoria política) do que liberais, mas deixaram um rastro de argumentos que ainda mexe no debate público. 

Um caso sui generis de solidão no pensamento, a que se segue um enorme sucesso, e desse ponto de vista um dos autores que esta crise revelou como seu “intelectual orgânico” no sentido gramsciano, é o de João Ferreira do Amaral. A sua crítica à entrada de Portugal no euro, completamente isolada há uns anos, foi-se tornando um dos elementos explicativos da crise actual, que parece apostada a “dar-lhe razão”, como se diz. 

(Continua.)

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© José Pacheco Pereira
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