ABRUPTO

29.7.11


COISAS DA SÁBADO: RAZÃO, INTELIGÊNCIA, CONVICÇÃO E CRIME

Há muitos anos escrevi que, atrás de uma metralhadora, são mais perigosas as ideias do que os interesses, porque as ideias encarnadas num humano disparam sempre. E também quem conheça a história sabe que a razão, a inteligência e a convicção convivem melhor do que se pensa com a violência e o crime. Pode vir a verificar-se que o autor do morticínio norueguês é louco, mas duvido muito que o seja. Presumo que seja até bastante normal, e até acima do normal, no sentido em que combina qualidades que noutro contexto seriam bastante apreciadas. Por exemplo, no mundo empresarial: é um bom organizador, é determinado, toma iniciativa, é bastante capaz na prossecução dos seus objectivos. Parece uma cópia de Timothy McVeigh, que fez uma coisa semelhante e caminhou para o cadafalso sem arrependimento. (Já me parece menos parecido com Theodore Kaczynski, o Unabomber, mais para o lado do génio perturbado, que estava mais à esquerda e que tinha alvos mais selectivos do que o norueguês.) Calmo, frio, calculista e respondendo à mesma pergunta completamente racional quanto incómoda sobre a natureza humana: quantas pessoas tenho que matar para “marcar o meu ponto”? Só há uma resposta para esta pergunta: muitas, o maior número possível. O mal é mais natural do que o bem.

O norueguês está mais perto de nós do que nos agrada pensar. A nossa obrigação é colocarmo-nos bem longe dele e só o podemos fazer usando armas da cultura e da civilização. O direito, o respeito pela dignidade humana, a democracia, o repúdio da violência política. Mas nada disto cresce nas árvores, não vem da natureza. Vem da cultura, da civilização, coisas raras e frágeis.

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© José Pacheco Pereira
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