ABRUPTO

8.9.09


EARLY MORNING BLOGS

1635

Fez Deus ao sol príncipe do mundo: Luminare majus,ut praeesset diei — e desde o dia em que lhe deu este ofício até hoje não descansou um momento. Tão grande trabalho é ser sol, e tão grande a sua sujeição, posto que em lugar tão alto. Uma inquietação perpétua, um movimento contínuo, um correr e rodear sempre, e dar mil voltas ao mundo, sem descansar nem parar jamais. Quando dizemos que o sol se põe, é engano, porque então se parte a governar os antípodas. Não vamos buscar a prova da semelhança mais longe, pois a temos de casa, e nos nossos reis, mais própria que em nenhum outro do mundo. Quando os vassalos dormem e descansam, parece que um rei de Portugal faz o mesmo, depois do governo e trabalho de todo o dia, e não é senão que passou aos antípodas. Lá nada com o pensamento e com o cuidado pela China, pelo Japão, pelos reinos do Idalcão, do Samori, do Mogor, pelo Cabo da Boa Esperança, pelo do Comori, pelos Javas, pelos mares e costas da África, da Ásia e da América, visitando armadas e fortalezas, compondo pazes, abrindo comércios, e meditando sempre aumentos do reino de Deus e do seu, sem outra quietação ou descanso mais que aparente aos olhos, porque o sol não tem verdadeiro acaso. O relógio, que é o substituto do sol na terra, não soa, nem se ouve por fora, senão a certos tempos; mas nem por isso está ocioso ou quieto, sempre os pesos estão a carregar, sempre as rodas estão a moer: e tais são os cuidados do príncipe de dia e de noite. Para os súbditos, que obedecem e servem, há diferença de dias e noites; para o príncipe, que governa e manda, sempre é dia. Assim dizia Job dos seus cuidados: Noctem verterunt in diem.

(António Vieira)

(url)

© José Pacheco Pereira
Site Meter [Powered by Blogger]