ABRUPTO

6.9.09


DEBATE LOUÇÃ - JERÓNIMO: O IMPASSE DA ESQUERDA REVOLUCIONÁRIA



E a cidade näo necessita de sol nem de lua, para que nela resplandeçam, porque a glória de Deus a tem iluminado, e o Cordeiro é a sua lâmpada.
E as nações dos salvos andarão à sua luz; e os reis da terra trarão para ela a sua glória e honra.
E as suas portas não se fecharão de dia, porque ali não haverá noite.
E a ela trarão a glória e honra das nações.
E não entrará nela coisa alguma que contamine, e cometa abominação e mentira; mas só os que estão inscritos no livro da vida do Cordeiro.
(Apocalipse, 21. 23-27.)

O debate entre Francisco Louçã e Jerónimo de Sousa não suscitou nenhuma atenção especial, foi considerado mortiço e pouco interessante. Nenhum se atirou à jugular do outro e como já ninguém presta atenção às posições do PCP e do BE que não seja para responder pela enésima vez àquilo que é a agenda simplista do jornalismo político - vai-se coligar com o PS ou não?, vai ficar à frente do BE ou não? - o evento passou para a fila do esquecimento rápido. Anos de deterioração do debate político, culpa dos políticos e dos jornalistas, acabaram por desembocar naquele modelo burocrático e rígido de confronto, em que, se cada um resolver falar para a câmara sem sequer se aperceber que o outro está à frente, sai de lá tão bem como entrou.

E, no entanto, o debate mostra algumas coisas que a voragem da desatenção aos conteúdos faz passar despercebidas. O debate mostra a profunda vacuidade e a pura retórica das posições dos dois partidos da esquerda mais extrema, ambos no ofício de parecer que são hoje o que não foram no passado próximo. Na verdade, embora o PCP e o BE sejam muito diferentes entre si, pela história, pela composição social, ambos estão como que presos num corpo sem cabeça. O corpo move-se bem, mas a direcção que é suposto ser a cabeça a dar está ausente, porque ambos perderam os "objectivos finais", perderam a grande estratégia, ou não a podem enunciar porque isso pareceria inaceitável em democracia.

Ambos desvalorizam as eleições "burguesas", mas estão transformados em partidos eleitorais; ambos são antiparlamentares e suspeitam do "cretinismo parlamentar" e acabam por se centrar no Parlamento; ambos são anti-reformistas e não podem senão falar em reformas; ambos apontam para uma sociedade sem classes, e não o podem dizer a não ser pelo epíteto moral da "justiça"; ambos são a favor da destruição da economia de mercado e não podem senão bramar contra as "grandes empresas", o "capital financeiro", os "ricos"; ambos são hostis à propriedade privada, mas não podem dizer-se anticapitalistas (mais o BE do que o PCP); ambos são marxistas e mais ou menos leninistas (mais o PCP do que o BE); mas têm que esconder os retratos dos pais e dos avós; ambos se pretendem "revolucionários" e nenhum pode falar da revolução.

Fazem tudo isto por dolo, para nos enganar, para nos esconder a verdadeira agenda? No essencial, penso que não. Fazem-no porque ficaram perdidos no meio de uma história que os condenou ao "movimento", como dizia Rosa Luxemburgo, e lhe retirou os "objectivos", os "fins", que não só não sabem como não podem enunciar. Ficam por isso a meio de tudo se excluirmos as suas funções de protesto (importantes no PCP e no BE), tribunícias (o populismo demagógico de Louçã é um bom exemplo) e de representação social (mais importante no PCP, cuja "clientela" sindical, operária, rural é mais homogénea na sociedade do que os "jovens" do BE). É esta condição de ficarem a meio de tudo, enterrados num "movimento" que não podem definir como um "fim", que os condena à pura retórica e à condição de grupos de protesto e pressão, cujos programas não podem ser avaliados (se exceptuarmos as "causas fracturantes" do BE) ao mesmo nível dos do PS, do PSD e do CDS.

Eles estão condenados a serem, na prática, "sociais-democratas" de má consciência, sem admitirem, como faziam os verdadeiros reformistas, que aceitavam o abandono da revolução e do mito da sociedade sem classes. Por isso, não apresentam às eleições nenhum programa viável, mas apenas uma retórica "social", no caso do PCP, e proto-religiosa, utópica e milenar no caso do BE. Em tempos de crise isso faz do BE uma organização que, por onde passa, deixa as sementes de um populismo, que começa na recolha de um voto de protesto radical mas que introduz agressividade e violência na vida política portuguesa. Brinquem e achem graça ao BE e depois queixem-se.


Vale a pena ampliar: a "Terra da Felicidade"... no teatro.

Ouvindo Louçã, sem nos embalarmos com o tom bíblico das suas palavras (ele usa a palavra "justiça" como o profeta Jeremias), não se pode discutir uma única das suas "propostas" sem irmos ter à cabeça que falta e não está lá no corpo do BE. No caso de Louçã, eu acho que a cabeça está lá na cabeça dele, porque com Louçã há dolo deliberado - ele sabe muito bem o que quer e não o diz -, mas não me parece que o mesmo aconteça com os eleitores do BE.

Tudo o que ele diz é vago, mas produz vacuidades com uma intensidade verbal que parece que aquilo significa alguma coisa: nós somos a "esquerda fiel à esquerda", a "esquerda que não tem vergonha de ser esquerda", a "esquerda que quer mudar", "a esquerda que não se vende", a "esquerda que vai à luta", slogans que já vêm do PSR. Depois os outros slogans são enunciações de truísmos, do género "pão, paz, habitação", etc.: o "direito a ter direitos", "trabalho para quem precisa", "justiça para quem trabalhou", etc. Em que é que isto é "esquerda"? Qualquer boletim paroquiano da Santa Igreja Católica Apostólica Romana diz o mesmo, com a diferença que a digna instituição faz alguma coisa pelo "pão", pela "habitação", e pela "paz", só que no contexto daquilo que Louçã acharia ser "caridadezinha", ou seja, sem encontrar inimigos, nem contestar o sistema capitalista que é o que ele pensa ser a dimensão da "esquerda socialista". É por isso que os outros slogans são mais explícitos de um discurso sobre o Estado e a política entre o estatismo anticapitalista ("quem tem lucros não pode despedir") e o comunismo, a que ele chama de "democracia económica" ("a todos o que é de todos"; "entregar aos privados, tirar a todos aquilo que é de todos e entregar só a alguns"). Este último aspecto, que não pode ser enunciado com clareza, leva a piruetas verbais como a de propor "desprivatizações" para evitar a palavra "nacionalizações".

(O profeta Jeremias por Repin.)
Na verdade, quando Louçã usa a palavra "privado" a sua fúria vem ao de cima como se estivesse a falar do Diabo e começa a cheirar a enxofre. A palavra é imediatamente associada aos "banqueiros" ("o Governo protege os banqueiros e quem protege as pessoas?"; "para os banqueiros o Natal é todos os dias", etc.), aos "ricos" ao "polvo dos negócios", ao "roubo", e outros epítetos igualmente demonizadores. Depois, traduzidas em bom português, todas as "propostas" do BE se reduzem ao aumento dos impostos para os "ricos", a "banca", as "seguradoras", os "grandes interesses financeiros", à expropriação e "desprivatização" de bens, a ir "buscar o dinheiro que vai para os off-shores", aos "lucros astronómicos", aos especuladores bolsistas, e distribuí-lo, dando de graça quase tudo a toda a gente em nome da "justiça". Ou seja, o BE não tem outro programa que não seja pura e simplesmente confiscar o que está na mão dos "ricos" (que se veria depois que é quase toda a classe média) e distribuí-lo. Claro que com um programa destes não adianta falar da realidade, do que isto significaria em termos de destruição de empresas, de fuga de capitais, de desemprego imediato (ficaria o Estado a pagar os salários ou vende-se a casa dos patrões?), de pobreza socializada. E depois, numa sociedade destas, a repressão em nome da "justiça", dos "pobres", da "igualdade", da "revolução", é inevitável para se manter o "movimento". Perguntem a Chávez.

Por tudo isto, foi uma pena que o cartaz do BE que para aí está afixado se tivesse ficado pelos 18 anos para trás, um número sem qualquer nexo que não seja acrescentar a cara de Manuela Ferreira Leite mais uns anos no último Governo de Cavaco Silva e disfarçar o papel do PS. Mas por que é que não colocaram 34 ou 35 anos, de modo a incluir o chamado PREC, em que algumas destas propostas foram levadas à prática conduzindo à mais completa destruição da riqueza nacional dos tempos mais recentes e aos milhões e milhões e milhões que nos custaram as "desprivatizações" da altura? E não teriam aí que colocar Louçã também no cartaz, mesmo que fugazmente, em 1975?

É este debate que Louçã nunca faz, e também não se esperava que Jerónimo de Sousa o fizesse. Talvez os jornalistas, na terra de Oz.

(Versão do Público de 5 de Setembro de 2009.)

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© José Pacheco Pereira
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