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semper idem Ano XIII ...M'ESPANTO ÀS VEZES , OUTRAS M'AVERGONHO ... (Sá de Miranda) _________________ correio para jppereira@gmail.com _________________
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15.6.09
NUNCA É TARDE PARA APRENDER: ESPIÕES NA AMÉRICA
Alexander Vassiliev / Harvey Klehr / John Earl Haynes , Spies: The Rise and Fall of the KGB in America, Yale University Press, 2009. O que este livro revela é que se sabe praticamente tudo sobre a espionagem russa nos EUA, pelo menos até aos anos cinquenta. O que faltava saber nos casos mais controversos, em particular sobre o dossier "Enormous", de espionagem nuclear, e o caso de Alger Hiss, está no essencial esclarecido. Já se sabia muito, pela conjugação de várias deserções de membros do KGB para os serviços americanos, canadianos e ingleses, e da decifração das mensagens "Venona", um dos maiores feitos da criptologia americana. Conhecia-se o modo como os soviéticos penetraram o programa "Manhattan", e os detalhes das redes ligadas aos Rosemberg, mas permanecia uma controvérsia feroz sobre a culpabilidade de Alger Hiss, um alto funcionário do Departamento de Estado que sempre negou ter espiado para os soviéticos, Essa polémica envolveu académicos e jornalistas, em artigos de acusação e defesa inflamados que, nalguns casos, terminaram no tribunal, em processos de difamação. O que de novo traz este livro é a utilização dos cadernos de Alexander Vassiliev, um antigo membro do KGB, que se demitiu sem desertar na época de Gorbachev, e que, enquanto jornalista, foi convidado nos anos de Yeltsin a consultar os ficheiros do então extinto KGB, no âmbito de um programa negociado com uma editora americana. Esta oferta parece estranha aos olhos de hoje, em que seria completamente impossível, mas foi feita numa época em que havia gente na Rússia a defender a criação de um serviço comum EUA - Federação Russa, dado que ambos os países eram "aliados". Durante algum tempo, Alexander Vassiliev pode pedir documentos originais, incluindo correspondência operacional entre os responsáveis do KGB na América e a sede em Moscovo, assim como documentos, perfis, etc. Vassiliev conta que os documentos que lhe eram facultados variavam conforme as decisões dos diferentes responsáveis pelas secções do KGB, mas que pôde mesmo assim copiar um número considerável de originais e fazer a síntese dos que lhe pareciam menos relevantes. Daí resultou um numeroso grupo de cadernos que, quando foi impedido de continuar a investigação, foram escondidos e depois enviados para fora da Rússia. Na base dessas informação e cotejando-as com a enorme massa documental já conhecida (Harvey Klehr e John Earl Haynes já tinham escrito em detalhe sobre as redes do KGB na América e sobre o envolvimento do PC dos EUA ) , foi possível fornecer uma narrativa detalhada da espionagem soviética. Não há por isso muitas novidades, mais alguns nomes e detalhes que completam o conhecimento das redes, um ou outro nome de políticos, cientistas e jornalistas que se desconhecia, e, sim, a confirmação de que Alger Hiss espiava para os soviéticos desde os anos trinta. * A prova irrefutável da culpabilidade de Alger Hiss veio também liquidar o principal leit-motif do ódio inquebrantável da esquerda americana para com Richard Nixon. De facto, foi como membro da Comissão para as Actividades Anti-Americanas da Câmara dos Representantes (“House Un-American Activities Committee”) que Nixon se tornou famoso, no final dos anos ’40. O prazo para uma condenação de Hiss por espionagem já prescrevera, mas não se livrou de uma condenação por perjúrio. Como Hiss era um membro da elite político-intelectual da Costa Leste, essa difusa comunidade nunca perdoou a Nixon, e, tal como o próprio Hiss, sempre manteve a inocência do homem, tentando fazer dele uma vítima do supostamente tenebroso Nixon, especialmente após o caso Watergate. A queda da URSS e a abertura, pelo menos temporária, de certos arquivos russos, veio demonstrar quem tinha razão. Richard Nixon foi um dos grandes vencedores da Guerra Fria. (url)
© José Pacheco Pereira
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