ABRUPTO

13.5.09


UM COMBOIO PODE ESCONDER OUTRO

De facto, um comboio pode esconder outro. Neste caso, um daqueles comboiinhos, via reduzida, colorido, "fracturante", turístico, cheio de sinos e sininhos, com actores de casting, muita publicidade e milhões de palavras, pode esconder um daqueles comboios de carga, duas locomotivas, metros e metros de vagões negros, daqueles que não se sabe o que vai dentro, carvão, matérias tóxicas, produtos químicos ou nucleares, daqueles que aparecem nos filmes-catástrofe de Hollywood, correndo sem controlo por uma via errada para ameaçar uma idílica cidade em que a velocidade entra em colisão com as leis da física e os carris. Nos filmes há sempre um herói que salta de helicóptero para salvar a cidade, onde está a sua namorada ou a filha, mas no caso do comboio negro que falo não é líquido que haja alguém para ter esse papel. Ou os habitantes da cidade percebem que o comboio turístico não é nada, comparado com a composição destravada, ou ele bate mesmo, se é que não bateu já.

Nestas últimas semanas, tudo quanto é órgão de comunicação social andou no comboiinho colorido, numa discussão puramente escolástica sobre o Bloco Central, distraindo-nos do outro comboio, o da gravidade da crise que Portugal atravessa, que já existia antes da "crise" internacional, que é obviamente agravada por esta, e que nos vai bater com a violência de duas locomotivas, cinquenta vagões, mais a carga, quando já clarear o sol lá fora nas outras cidades. O mais espantoso é que muita gente admite que algures está o comboio negro, mas embarca feliz no comboiinho.

A discussão sobre o Bloco Central, alimentada pela agenda jornalística, é um puro exemplo de como se pode colocar mal o problema. A razão principal por que a discussão nominalista, formalista, é errada é por isso mesmo: ignora o conteúdo quer dos problemas que é suposto resolver, quer das soluções políticas capazes de serem eficazes para os resolver. Não é o único discurso corrente que se desenvolve deste modo, o dos empresários "apolíticos" tem aspectos comuns, mas é o único que associa os dois elementos que fazem falta para a discussão não ser o que é, escolástica.

Expliquemo-nos melhor, porque o assunto não é simples. Quando se ouve um empresário ou muitos economistas que se colocam no terreno dos "problemas" da crise e que insistem em declarar que estão acima dos partidos, e que são muitas vezes seus críticos ferozes, eles enunciam bem a situação muito difícil do país e o seu aparente beco sem fácil saída. Eles vêem o comboio negro vir, mas depois mostram uma completa ingenuidade, quando não uma grande desconfiança pouco democrática, quando se trata de encontrar soluções políticas. Aí oscilam ou por se colocar ao lado do poder que está, ou propor uma espécie de "consensualismo" fora dos partidos, ou fórmulas de "governos de salvação nacional", quando não sugestões de "governos fortes" para "pôr o país em ordem". Este discurso que se ouve cada vez mais ignora e é indiferente a um facto que para mim é essencial: em democracia, as soluções políticas para as crises, por maiores que sejam, por terminais que pareçam, passam pelos partidos e pelo voto. Repito, para se ouvir bem: em democracia, ou se procuram soluções políticas, de governabilidade e não só, naquilo que muitas vezes se chama pejorativamente o "sistema", ou sai-se da democracia. Isso pode significar um conjunto de soluções muito vasto, mas todas têm em comum dois factores: têm de ter apoio dos portugueses no voto e têm de encontrar tradução nas instituições da democracia, Presidência, Parlamento, partidos, sindicatos, etc.

Aqui é que surge a questão do Bloco Central. Para o discurso que corre hoje nos media (que neste caso não é inteiramente coincidente com o discurso político), o Bloco Central seria a panaceia para a solução governativa nas próximas eleições, em que parece só haver uma unanimidade, o facto de o PS não ir ter de novo a maioria absoluta. Este tipo de obsessão de cenários é muito típico do jornalismo político português e tem origem num dos mestres desse jornalismo, Marcelo Rebelo de Sousa (o outro mestre foi Paulo Portas, que esteve na origem do jornalismo justiceiro e populista). O problema aqui é que com a obsessão dos cenários, e o comboio colorido transporta vários, se esconde o comboio negro.

Antes dos cenários está uma realidade dividida e que não se resolve com "consensos" assentes numa soma aritmética de dois partidos "centrais". Pelo contrário, ir-se-ia agravar. E ir-se-ia agravar porque um Bloco Central como pretende a escolástica jornalística, seria hoje na prática apenas uma coisa: um governo PS com apoio PSD, para prosseguir em linhas gerais a mesma política do actual governo PS, a que acrescentaria apenas um duro programa de austeridade conjuntural. Os resultados do prosseguimento da mesma política do actual PS agravariam todos os problemas da economia portuguesa e unidos apenas por aquilo que interessaria ao PS: um "consenso" para a austeridade, que atiraria para a conflitualidade social muitos milhares de portugueses.

A razão por que a discussão actual sobre o Bloco Central é puro "cenário" é que ignora os muito complicados facts of life. Primeiro, com que PS se faria? Talvez com o de José Sócrates, se o PSD aceitasse uma hegemonia política do PS e um papel muito menor na coligação. Há um PSD disposto a isso, que veria com felicidade a partilha de lugares que ser servente do PS traria, mas esse PSD não é o PSD de Manuela Ferreira Leite. O actual PSD fornece aos eleitores aquilo que muitas vezes não existiu no passado: um programa alternativo face à "crise". Os actuais defensores do Bloco Central ignoram que, poucas vezes como hoje, existe alternância de posições. A crise mostrou um PS interventor na economia, dominador do espaço público, estatista, e que usa uma justificação keynesiana para uma espécie de jacobinismo político cada vez mais vincado e autoritário. E mostrou também, olhando-se para o discurso e as estatísticas, desde Guterres, um PS indiferente à dívida e aos desequilíbrios estruturais da nossa economia. O PSD de Manuela Ferreira Leite tem uma política consistente (como é em muitos aspectos a do PS) e diferente. Como, aliás, tem o Presidente da República, cujo olhar é próximo do de Manuela Ferreira Leite, não porque o Presidente queira "ajudar o PSD", mas porque a visão do país e dos seus problemas é comum.

Acrescem mais factores que tornam a actual discussão muito irreal. Um é que, mais do que a bipolarização política, existe uma bipolarização na pessoa do primeiro-ministro. Metade do país é a favor, metade é contra. Nessa metade contra junta-se esquerda e direita, mas a fractura tende a agravar-se e a radicalizar-se. Uma das razões por que penso que uma solução de maioria absoluta do PS seria hoje muito instável socialmente é que o país, que já está muito dividido, voltar-se-ia uma metade contra a outra, a favor de Sócrates e contra Sócrates, mais do que a favor de PS, PSD, PCP ou BE. Uma das razões por que é difícil encontrar soluções políticas é que a bipolarização social não corresponde a uma bipolarização política: a fragilidade do PSD impede-o de imediato de servir de alternativa, embora haja sinais nas sondagens que esse processo possa estar em curso.

Dito tudo isto, e ainda havia muito mais para dizer, é natural que se possa passar por um período de instabilidade política antes de se encontrar uma solução de governabilidade estável e com força. Pode ter de haver mais do que um processo eleitoral, o que não é nenhum drama se isso significar que os eleitores possam escolher por soluções alternativas claras. Isso agrava bem menos os problemas do país do que falsas soluções como um Bloco Central de contrários que só se podem entender pelos piores interesses.

É por isso que o mais importante é clarificar os caminhos, que são muito diferentes, e trabalhar para que os eleitores escolham para além do protesto e da zanga. Isso é que traz estabilidade governativa e políticas consistentes. Perder os nervos nesta altura faria uma mistela de sabores, que deve ser o sorvete que se serve no comboiinho turístico. O que temos é de deitar uns milhões de portugueses para cima do comboio negro para desengatar os vagões, desligar as locomotivas e salvar a cidade. Pelo caminho haverá mortos e feridos, até porque não é um filme.

(Versão do Público, 9 de Maio de 2009.)

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© José Pacheco Pereira
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