ABRUPTO

13.5.09


COISAS DA SÁBADO: O BLOCO CENTRAL DO PRESIDENTE E DA LÍDER DO PSD

dsc09681dsc09680Falou o Presidente da República de Bloco Central? Falou Manuela Ferreira Leite de Bloco Central? Nem um, nem outra. Basta estar-se de boa fé e conhecer as personagens, que não são propriamente páginas em branco que nasceram em 25 de Abril de 2009, para perceber que eles estão a falar de outra coisa que está para lá e antes de qualquer arranjo governamental. Falaram de “problemas de governabilidade”, de “sustentação e estabilidade governativa”, e de “soluções em que acreditam” em que " a conjugação de interesses - interesses no sentido do País - são coincidentes”. Dou um bónus a quem me possa garantir de boa fé que o Presidente da República está preocupado com a sobrevivência do PS de Sócrates. Dou um bónus a quem me possa garantir de boa fé que Manuela Ferreira Leite acha que o PS de José Sócrates revela a " a conjugação de interesses - interesses no sentido do País” em que ela “acredita”.

Na verdade, Cavaco Silva e Manuela Ferreira Leite estão a falar da mesma coisa, da governabilidade do país numa crise profunda, e a dizer que são necessárias soluções para essa situação, mas não estão a propor qualquer fórmula governativa, nem a negá-la em abstracto. Todavia, essa não é sua primeira preocupação, mas sim a dimensão da crise no futuro imediato e o seu efeito em termos de instabilidade. E logo aí se distinguem do PS e estão na prática, pensamento e linguagem, a falar para além do governo e do PS tal como existe, do PS dos “grandes projectos” e da cornucópia da abundância do investimento público sem nexo e direcção, do PS de Sócrates.

Deste ponto de vista, então eu também teria legitimidade para interpretar as suas frases como traduzindo-se em “jornalistês” e “politiquês”: Cavaco e Manuela chamam a atenção para a necessidade de encontrar fórmulas de governo para além do PS, do PS de Sócrates. E porque não? Na verdade, sejam quais forem as fórmulas governativas possíveis, nenhuma de antemão garante hoje, insisto, hoje, a estabilidade por si só, mesmo que exista uma maioria absoluta parlamentar. O governo PSD-PP tinha uma maioria absoluta e caiu. E o governo Guterres teve um país de pasmaceira, e pode fazer as maiores asneiras possíveis, durante quatro anos sem maioria no parlamento. Olhando para o passado, houve estabilidade em governos minoritários e maioritários (Cavaco e AD), de um ou mais partidos e instabilidade em todas as fórmulas, incluindo maiorias absolutas e governos de Bloco Central. O problema não é formal, mas substancial, e hoje então é muito mais substancial do que formal. Eu sempre preferi e continuo a preferir governos de maiorias de um só partido, ou então, medidas, como defendi no parlamento, que baixem o número de votos para haver maiorias sólidas. Mas hoje, conjunturalmente, se houvesse uma maioria absoluta do PS, a instabilidade social e política estava tão garantida como dois e dois serem quatro.

Na verdade, pode haver governos do PS com maioria simples ou absoluta, governos do PSD com maioria, pode haver uma nova AD, podem haver múltiplos acordos de incidência parlamentar para diferentes soluções governativas, pode haver medidas de emergência especiais com acordos parlamentares alargados, pode haver de tudo inclusive novas eleições, mas o essencial é encontrar aquilo que Manuela Ferreira Leite disse que era fundamental: “Se perceber que o objectivo país não é propriamente aquele que está no centro das atenções, então com dificuldade haverá um Governo que possa contribuir para a melhoria do País."

Haja acordo em medidas para combater a crise, medidas que tem que ser duras e prolongadas, e qualquer solução assente nesse acordo, livremente aceite, é estável. O contrário, nem que seja a maior dos Blocos Centrais, é instável.

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© José Pacheco Pereira
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