ABRUPTO

23.1.09


COISAS DA SÁBADO: AS DISTRACÇÕES IRRESPONSÁVEIS

Escrevo este artigo fora de Portugal, onde verdadeiramente ninguém liga ao nosso país, cuja irrelevância no contexto da actual crise financeira e económica é total. No entanto, muito de passagem, ouvi e li duas coisas que representam o modo como nós somos vistos, quando, muito de passagem, somos vistos. Uma tratava Portugal como uma das "ovelhas negras" da Europa, um problema de má performance na Europa comunitária, que ninguém sabia (nem estava especialmente interessado) como tratar. Outra, complementar desta, é que Portugal era um dos países que punha em causa a solidez da moeda única também pelo mesmo motivo, a fragilidade da nossa economia, muitos milhões de euros comunitários depois.

Para mim, ouvir estas coisa custa, mas é obrigatório ouvi-las como mais um sinal da gravidade da nossa situação, quer pela "crise de dentro", porque eles não estão a falar apenas dos últimos meses mas de muitos anos de má governação, quer pela "crise de fora". E é também uma lembrança cruel da necessidade de verdade e lucidez no meio do irrealismo propagandistico em que vivemos, em que se especializou o governo Sócrates. O que vem aí é muito mau e a crise portuguesa será longa e penosa, e é por isso que seria péssimo embarcar nas "distrações" que Sócrates e o governo se preparam para lançar a pretexto da moção do PS: o casamento dos homossexuais e um futuro referendo à regionalização.

Destas propostas, a primeira é hoje bastante inócua nos seus efeitos reais, embora seja socialmente mais perturbadora do que se pensa, porque abrirá a porta à próxima causa "fracturante", a adopção de crianças pelos casais homossexuais e levanta questões sobre a "fábrica" da sociedade que ninguém quer ver ou discutir com medo de ser politicamente incorrecto . Mas a segunda proposta, é exactamente o contrário do que precisamos nos anos de crise que vamos atravessar. Dividir ainda mais o país, gerar uma nova camada de poder político e burocrático, tornar tudo mais caro e complicado, aumentar o potencial de reivindicação centrada no poder local e regional, é péssimo de per si e ainda mais péssimo nos tempos de escassez que vamos conhecer. O país pagaria caro estas "distracções" irresponsáveis, caso fossem para a frente.

(url)

© José Pacheco Pereira
Site Meter [Powered by Blogger]