Há alguns dias atrás, numa das edições do Frente a Frente da Sic Notícias, o ex-Presidente da CIP Ferraz da Costa afirmou que a administração Clinton tinha criado o mercado de alto risco imobiliário conhecido por subprime. Isto despertou a minha atenção. Perante a demonização do mercado e propaganda demagógica feita pela esquerda numa atitude de desonestidade mental ou ignorância, resolvi fazer uma pequena pesquisa. De facto o mercado estava regulado, não pelo Estado, mas pela eficiência económica. As pressões da administração Clinton sobre a empresa pública Fannie Mae desregularam o mercado de crédito imobiliário ao abrirem este a minorias étnicas (negros e hispânicos) que numa conjuntura económica de juros baixos e excedente orçamental seriam sustentáveis, mas que há mínima alteração da conjuntura seriam dificeis de cumprir. Devido à quota de mercado que esta empresa tem, è claro que as empresas que não seguissem estas condições de acesso ao mercado sairiam dele. Estava armada a bomba-relógio. Com o brutal aumento do preço do petróleo e consequente importação de inflação, os juros subiram como não podia deixar de ser. A bomba demorou nove anos a explodir. É perigoso fazer ideologia com a economia.
P.S. Junto a notícia publicada no New York Times.
(Rui Nogueira Padinha)
Fannie Mae Eases Credit To Aid Mortgage Lending
By STEVEN A. HOLMES
Published: September 30, 1999
In a move that could help increase home ownership rates among minorities and low-income consumers, the Fannie Mae Corporation is easing the credit requirements on loans that it will purchase from banks and other lenders.
The action, which will begin as a pilot program involving 24 banks in 15 markets -- including the New York metropolitan region -- will encourage those banks to extend home mortgages to individuals whose credit is generally not good enough to qualify for conventional loans. Fannie Mae officials say they hope to make it a nationwide program by next spring.
Fannie Mae, the nation's biggest underwriter of home mortgages, has been under increasing pressure from the Clinton Administration to expand mortgage loans among low and moderate income people and felt pressure from stock holders to maintain its phenomenal growth in profits.
In addition, banks, thrift institutions and mortgage companies have been pressing Fannie Mae to help them make more loans to so-called subprime borrowers. These borrowers whose incomes, credit ratings and savings are not good enough to qualify for conventional loans, can only get loans from finance companies that charge much higher interest rates -- anywhere from three to four percentage points higher than conventional loans.
''Fannie Mae has expanded home ownership for millions of families in the 1990's by reducing down payment requirements,'' said Franklin D. Raines, Fannie Mae's chairman and chief executive officer. ''Yet there remain too many borrowers whose credit is just a notch below what our underwriting has required who have been relegated to paying significantly higher mortgage rates in the so-called subprime market.''
Demographic information on these borrowers is sketchy. But at least one study indicates that 18 percent of the loans in the subprime market went to black borrowers, compared to 5 per cent of loans in the conventional loan market.
In moving, even tentatively, into this new area of lending, Fannie Mae is taking on significantly more risk, which may not pose any difficulties during flush economic times. But the government-subsidized corporation may run into trouble in an economic downturn, prompting a government rescue similar to that of the savings and loan industry in the 1980's.
''From the perspective of many people, including me, this is another thrift industry growing up around us,'' said Peter Wallison a resident fellow at the American Enterprise Institute. ''If they fail, the government will have to step up and bail them out the way it stepped up and bailed out the thrift industry.''
Under Fannie Mae's pilot program, consumers who qualify can secure a mortgage with an interest rate one percentage point above that of a conventional, 30-year fixed rate mortgage of less than $240,000 -- a rate that currently averages about 7.76 per cent. If the borrower makes his or her monthly payments on time for two years, the one percentage point premium is dropped.
Fannie Mae, the nation's biggest underwriter of home mortgages, does not lend money directly to consumers. Instead, it purchases loans that banks make on what is called the secondary market. By expanding the type of loans that it will buy, Fannie Mae is hoping to spur banks to make more loans to people with less-than-stellar credit ratings.
Fannie Mae officials stress that the new mortgages will be extended to all potential borrowers who can qualify for a mortgage. But they add that the move is intended in part to increase the number of minority and low income home owners who tend to have worse credit ratings than non-Hispanic whites.
Home ownership has, in fact, exploded among minorities during the economic boom of the 1990's. The number of mortgages extended to Hispanic applicants jumped by 87.2 per cent from 1993 to 1998, according to Harvard University's Joint Center for Housing Studies. During that same period the number of African Americans who got mortgages to buy a home increased by 71.9 per cent and the number of Asian Americans by 46.3 per cent.
In contrast, the number of non-Hispanic whites who received loans for homes increased by 31.2 per cent.
Despite these gains, home ownership rates for minorities continue to lag behind non-Hispanic whites, in part because blacks and Hispanics in particular tend to have on average worse credit ratings.
In July, the Department of Housing and Urban Development proposed that by the year 2001, 50 percent of Fannie Mae's and Freddie Mac's portfolio be made up of loans to low and moderate-income borrowers. Last year, 44 percent of the loans Fannie Mae purchased were from these groups.
The change in policy also comes at the same time that HUD is investigating allegations of racial discrimination in the automated underwriting systems used by Fannie Mae and Freddie Mac to determine the credit-worthiness of credit applicants.
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Foi apenas ontem que me apercebi de que vivemos um momento histórico.
Interessante porque no fundo, a nossa atitude para com a História enquanto a vivemos é feita de extremos: ou todos os momentos são históricos, ou nenhum deles o é. São raros aqueles em que dizemos "Espera, ISTO é um Momento Histórico". O 11 de Setembro é um desses momentos, em que ficamos de algum modo muito auto-conscientes e com a dúvida "eu acho que devia sentir isto de uma maneira mais forte e adequada e não tenho a certeza de que é isso que se está a passar...", sobretudo quando o momento histórico foi acompanhado da voz do José Rodrigues dos Santos a falar de "avionetas" a bater nas torres.
Outro desses momentos aconteceu-me ontem. E este foi talvez mais forte que o 11 de Setembro porque é daqueles mais calmos, mais obscuros, daqueles momentos cujas implicações nós não estamos certos mas suspeitamos. Falo das declarações de Alan Greenspan na audiência do Congresso. Com a mesma serenidade com que sempre falou , Greenspan admitiu que houve uma "falha". Falha? Falha por incompetência? Falha por esquecimento? Não, Greenspan fala mais de uma falha na Visão do Mundo. "eu pensava que o Mundo funcionava de uma certa forma; enganei-me."
Esta frase tão singela e dita de modo tão sincero e confesso, tem uma força inconcebível. Mas ao mesmo tempo dá-nos vontade dar um tabefe de mão aberta na cara do Sr. Greenspan. Portanto, o mundo não funciona como ele pensava. Como um adolescente de 17 anos que dissesse "eu pensava que bastava pagar um jantar a uma rapariga para levá-la para a cama...Enganei-me."
Se calhar as consequências deste tipo de enganos são ligeiramente mais gravosas, não? Se calhar, poderíamos exigir que certo tipo de pessoas em certo tipo de cargos devessem ter certo tipo de sensibilidade e conhecimento sobre "o Mundo". Mas as coisas são assim, o Presidente da FED não é eleito, é indicado. E este foi indicado por sucessivos presidentes ao longo de 18 anos. E agora, reformado, Greenspan pode dizer apenas que se enganou e fica tudo bem; já nem squer cá está o Milton Friedman para culpar (ele que convenientemente abandonou este mundo pouco depois do Katrina deixando escrita uma última exortação à apropriação selvagem da tragédia alheia).
(Daí também a minha ideia de que seria uma medida global de paz permitir que o mundo inteiro votasse nas eleições americanas, visto que o resultado dessas eleições tem repercussões que se estendem muito para além das fronteiras geográficas).
Mas para falar a ver, não queria escrever apenas sobre Greenspan, queria escrever-lhe a si sobre si, sobre as suas opiniões. Penso que não tenho apanhado todas as coisas que tem escrito sobre a crise, e é verdade que sem TV Cabo perco as suas intervenções televisivas. Mas a não ser que muito me engane, creio que o JPP tem seguido uma linha consistente de pensamento que apoia apesar de tudo a ideia básica do Capitalismo como um sistema que é necessário. Não sendo perfeito, é necessário, e é muito melhor do que qualquer das alternativas propostas historicamente.
Ora eu não quero propriamente discutir esta ideia, mas quero discutir a sua defesa, em face também dos momentos históricos como seja as declarações do Sr. Greenspan. Cono já lhe disse algumas vezes, gostava de ter tido uma formação melhor que tive em certas áreas, particularmente a Filosofia. Não li muito de Aristóteles, não dei muita Lógica sem ser a matemática. Mas do pouco qu eli dos Tópicos, percebo a importância das formas de ver e colocar as coisas. E eu não posso aceitar que a questão da avaliação do Capitalismo seja discutida com base em mudanças de concepçõe fundamentais, isto é, da alternância entre considerarmos que o Capitalismo é um "estado" ou um "processo". Parece-me que discutir os altos e baixos do regime com base na ideia de que "os problemas são apenas confirmação da justeza e capacidade auto-regulatória do sistema" constitui uma maneira não totalmente honesta de pôr as coisas, pois assume o Capitalismo como um processo quase hegeliano de emergência da finalidade última da política e economia.
Discussões à base de processos parecem-me complicadas, e podem levar a uma contra-argumentação estéril: não será possível dizer que os últimos 20 anos foram apenas uma "febre" que em última análise prova a superioridade do sistema comunista? Não será o Capitalismo apenas um mal necessário, um teste supremo que faz emergir uma forma "melhor", mais forte, mais justa? Não será a auto-regulação do sistema capitalista que funciona à base de crises, apenas uma crise em si mesma, sendo por outro lado as "crises" a mostra da justeza natural do sistema comunista?
Eu coloco estes argumentos apenas de um ponto de vista retórico, repare que não estou a submeter uma posição pessoal minha sobre a força de qualquer um dos sistemas. Mas simplesmente enerva-me que a discussão seja posta nestes moldes.
Eu compreendo que o JPP ache sobretudo e antes de mais que o socialismo levado às últimas consequências seja tão mau como qualquer fundamentalismo de direita; e compreendo que esse medo seja exacerbado quando falamos desses extremismos em povos que pelas suas características mantêm uma vocação imperialista, e uma cultura chauvinista. Mas não consigo aceitar que isso implique uma necessidade de defender os benefícios do sistema apenas a partir de uma perspectiva processual, orgânica. Não há ética na fisiologia.
Não sei se me fiz compreender ou não, espero que sim.