ABRUPTO

15.10.08


LIVROS DE QUATRO GERAÇÕES (75) 

Este Almanach d'Illustrations Modernes é mais um exemplo da excepcional qualidade do trabalho de gravura que enchia os periódicos do século XIX. Estamos em pleno reino da gravura, numa época ainda de infância da fotografia, não só como "retrato" da actualidade mas também como sátira e caricatura. Nesta biblioteca familiar, um dos aspectos mais interessantes é a de ser um bom retrato daquilo que se podia encontrar numa biblioteca de leitor em pleno século XIX, quer as obras eruditas, as edições de luxo, mas também os autores da moda que hoje ninguém lê (muito de Dumas, George Onhet, Xavier de Montepin, Paul de Kock e tantos, tantos outros) , os best sellers que atingiam tiragens e número de edições inimagináveis por comparação com os dias de hoje. E, como funciona como uma cápsula do tempo, inclui jornais, revistas, folhetins, almanaques, vendidos em quiosques, nalguns casos contendo as verdadeiras primeiras edições de Balzac, Zola e muitos outros.


Depois os livros têm vida, a nossa. Este almanaque em que ninguém deve tocar há mais de 100 anos, está cheio, página a página, de folhas e flores secas, um clássico do interior dos livros. Teria sido lido ao ar livre num jardim qualquer? Teria servido de repositório de recordações de uma viagem, de um amor, de um encontro? Estaria nas mãos de uma rapariga, vivendo a condição do seu tempo e sonhando os sonhos do seu tempo? Não sei, sei apenas que dentre as magníficas gravuras, caem estas velhas folhas. Vou colocá-las de novo no seu sítio e guardar este antigo almanaque com ainda maior cuidado. É como se no livro viesse um fantasma amável de alguém já há muito morto e esquecido.


 
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Uma folha do calendário destes meses de Outono e Inverno e notícias da guerra civil americana, com os wide awake a fazer campanha pelo Honest Abe, Lincoln.


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Os livros têm vida própria e os melhores deixam impressões profundas. Há um ano - a conselho seu, aqui - li «A Vida e o Destino». Este ano, por impulso, li «As Benevolentes». O problema imediato é que ficamos indisponíveis durante meses para muitas leituras menores embora bem interessantes. O efeito a longo prazo é a aprendizagem feita em obras duras, indigestas, superiormente inteligentes da condição humana em circunstâncias excepcionalmente graves. São livros de desassossego extremo esses em que se segue os pensamentos, as emoções e as decisões que levam a um passo numa carreira, um gesto de afirmação, uma determinação dos contornos de uma relação, uma sagacidade maldosa, uma bondade gratuita - sendo o cenário a política na forma última de guerra, e os figurantes a tragédia, as purgas, os combates, os extermínios e o futuro do Mundo, que, para nosso infortúnio no caso, temos a desdita de mais ou menos conhecer. A maneira como os dois autores nos convidam à inteligência enquanto profundamente nos embaraçam nunca terá prémio bastante.


(José Mendonça da Cruz)

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