ABRUPTO

29.6.08


EM TEMPOS DE SÍNDROMA DE ABSTINÊNCIA DO FRENESIM



A função dos agulheiros era mudar as linhas nos eléctricos e nos comboios. Tinham um ferro com uma cunha e viravam a agulha, a linha, de uma direcção para outra. Neste caso, o agulheiro é uma senhora que virou várias agulhas nos últimos meses. A primeira foi ao dizer que havia uma "questão social grave" e mais tarde, uma "emergência social" no Portugal de hoje. O comboio na altura ia na direcção do deslumbramento tecnológico, do tout va très bien Madame la Marquise. Virou a agulha. Depois, foi ao falar do empobrecimento num múltiplo sentido: pauperização da classe média, agravamento da pobreza tradicional e aparição de novas bolsas de pobreza. Falou em classe média, lugar maldito da esquerda. Falou nas pequenas e médias empresas e não nos grandes grupos económicos ou nos projectos PIN negociados nos gabinetes governamentais. O comboio ia para a glória do nosso crescimento, para a troca de interesses entre o PS e aquilo que o PCP chama o "grande capital", misturado com o "quão de esquerda que nós somos" e outros locais de vaidade ideológica. Virou a agulha. Depois disse que muitos dos investimentos públicos previstos ou não eram necessários ou o país não os podia pagar. O comboio seguia para a alta velocidade, para mais de vinte concessões de auto-estradas, para mil e uma obras públicas, para a hegemonia tradicional do betão para dar emprego e injectar dinheiro na nossa economia. Virou a agulha.

Virou muitas outras agulhas, umas mais outras menos, outras ainda não virou e outras não vai virar como eu o desejaria, virou a do PSD, onde fez uma revolução nos quadros dirigentes, virou a do estilo, etc., etc., mas nem que virasse tudo ao contrário, nunca bastaria. A resposta a essas viragens foi um clamor pedindo que dissesse já qual a cor do comboio, qual a decoração dos lugares, o que é que o bar servia, e se o apito da locomotiva tocava música ou não. Excelente distracção, essencialmente para que não se discutisse a viragem da agulha, ou seja, o caminho diferente do comboio e qual o seu objectivo. Alguns disseram que o problema era que o comboio continuava a ir para norte, embora fosse para oeste quando antes ia para este, em vez de virar radicalmente a sul. É um ponto de discussão, a seu tempo, mas a dominância foi o clamor pela cor do comboio. Ou seja, diga lá que obras públicas, diga lá que medidas para os pobres, faça lá o catálogo como o Don Giovanni.

Percebe-se bem porquê: quanto mais rápido a discussão passar para a casuística, mais ela perde a dimensão geral que precisa de ter antes, que ela deve ter antes, que ela deve ter como alternativa política. A senhora tinha dito que não ia fazer oposição "por casos", mas sim por "políticas" e pelos vistos toda a gente quer é "casos". E disse, a seu tempo, que as coisas têm de ser estudadas e não se podem mandar "bocas". Isto não disse assim porque é elegante, mas digo eu que sou mais bruto. Insistem: escreva no joelho, porque é isso a que estamos habituados, no fundo, quem é que quer saber da espuma de hoje na espuma de amanhã? Escreva no joelho senão vamos dizer que não tem nem uma ideia dentro da cabeça, que não sabe o que quer. Olhem que sabe... Na verdade quando José Sócrates, na campanha interna do PS, disse umas coisas sobre as novas tecnologias, ninguém lhe apareceu no dia seguinte a dizer: como é, vai colocar quadros interactivos nas escolas? Vai aliar-se com a Microsoft ou pôr o Governo a trabalhar com software "livre"? Diga lá já qual a cor do seu comboio, qual a cor dos estofos, qual o apito da buzina. Mas os tempos mudaram e o lado mudou. Logo, duplicidade de critérios.

O domínio do "caso" desgasta o poder mas não serve para construir uma alternativa séria. Veja-se o ciclo habitual do "caso", dos "casos" actuais como o do Tribunal de Vila da Feira, ou o das fardas das polícias, dois dos "casos" correntes na altura em que escrevo, ou de quaisquer outros. Aparece o "caso", numa rádio logo de manhã - o mais provável. À noite, o "caso" chega à televisão e no dia seguinte aos jornais. Amplia-se o "caso", todos falam do "caso", somam-se declarações sobre o "caso", falam os actores habituais, falam os sindicatos, falam os juízes, indignam-se os "populares", falam os comentadores (o "caso" chega à Quadratura, falo eu também), e fala o Governo. O "caso" chega ao Parlamento pela mão da oposição, chama-se o ministro. Quando chega a esta fase já o "caso" está a morrer. Aparece o novo "caso" que desvia todas as atenções do anterior. Repete-se o ciclo. Tudo fica na mesma.

Tudo isto tem a ver com a entrada na vida política portuguesa de um tempo antifrenesim, e da síndroma de abstinência que existe com o dito frenesim que acabou. O teórico do frenesim foi Luís Filipe Menezes. Ele explicou que, minuto a minuto, como diz o RCP, ia haver oposição, nas entradas das fábricas, nas saídas da Assembleia, nos passeios do "líder" pelo interior, com propostas todos os dias, todas as horas, todos os minutos. Na verdade, o frenesim já era regra da vida política portuguesa muitos anos antes, quando o tempo comunicacional se acelerou e os jornais e televisões precisam de novidade diária. O frenesim é bom para a comunicação social, que precisa de um tempo rapidíssimo e de soundbites em cada noticiário, mas não é bom para a política, pelo menos para a que se pretende ainda política e não apenas marketing. A comunicação social gosta de "casos", que são rápidos e perecíveis e lida mal com as políticas que não cabem nos soundbites no intervalo da logomaquia do futebol. Aliás, pensando bem, alguma comunicação social gostaria que a política fosse como o futebol, proclamações ribombantes, contratações e traições, queixas e processos de intenção, injúrias e bater no peito, milhões de palavras à volta de excitações. Muito pathos e nenhum logos. Alguns políticos também gostariam que fosse assim, porque é a atmosfera onde vivem por aí. A senhora em causa não é deste mundo, logo transporta consigo o "ar do frigorífico", não é? Pois é, mas lá vai virando as agulhas, pouco a pouco mas de forma segura, e segurança em tempos de crise é como pão para a boca.

Eles sabem, eu sei que eles sabem, por isso este clamor. Que passará quando houver outro clamor, e outro e outro. Se no meio do clamor, se ouvir uma voz, tudo está bem. Mas não é garantido, isso também eu sei, porque o ruído é já a regra.

(Publicado no Público em 28 de Junho de 2008.)

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© José Pacheco Pereira
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