ABRUPTO

27.8.07


NUNCA É TARDE PARA APRENDER:
GÉNIO, "INSACIÁVEL CURIOSIDADE", PESSIMISMO


Flo Conway / Jim Siegelman, Dark Hero Of The Information Age: In Search of Norbert Wiener The Father of Cybernetics, Nova Iorque, Basic Books, 2005

Amar Bose, o das colunas estereofónicas e rádios Bose, colega e colaborador de Norbert Wiener, num dos longos passeios que faziam pelos corredores do MIT, perguntou-lhe o que o movia, como tinha conseguido revolucionar tantos ramos do saber, abrir caminho a tantas tecnologias, invenções, ideias? Wiener, já no fim da vida, respondeu apenas: "insaciável curiosidade".

A "curiosidade" só lhe trouxe alegrias, mas aquilo por que pagou um preço elevado, foi pelo génio. Em certas actividades, como a matemática e a música, nasce-se genial. Nos seus últimos anos, Wiener interessou-se pela doutrina hindu da reincarnação, certamente para encontrar uma explicação para o facto de, aos sete anos, ser saudado pela imprensa como "the most remarkable boy in the world" pelas suas proezas matemáticas e linguísticas e por ser, no plástico sistema universitário americano, doutorado aos 18. Tudo isto sem uma verdadeira educação formal, mas sim uma dura e penosa "educação familiar", conduzida pelo seu pai que tinha teses sobre como é que se educa alguém para génio e fez do filho a sua vítima, atormentando-o à mais pequena falha e insultando-o nas várias línguas que usava, do grego homérico ao alemão.

O resultado ficou à vista e Norbert Wiener viveu toda a vida entre as grandes expectativas de genialidade e reconhecimento do seu trabalho, que demorou a ser feito, entre outras coisas porque tanta genialidade irritava. Wiener respondia em espécie, para além das excentricidades várias, acabava por destruir as equipas que lhe eram mais dedicadas e deixar marcas de animosidade generalizada entre os seus colegas. Na sua autobiografia, ajustou contas com os pais com uma veemência pouco comum, como se lhes devolvesse o custo das depressões e tendências suicidárias que ocasionalmente o dominavam. O seu destino escapou por pouco de ser semelhante ao de John Forbes Nash, um dos colegas matemáticos com quem se cruzou, a quem a "beautiful mind" não salvou da esquizofrenia.

(Continua.)

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© José Pacheco Pereira
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