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ÁTOMOS E BITS
de 15 de Agosto de 2007Em dias seguidos, a RTP2 passou dois documentários sobre escritores portugueses, Torga e David Mourão-Ferreira. Esses documentários mostraram as forças e fraquezas deste tipo de produções, em particular a enorme dificuldade em ultrapassar neste tipo de trabalhos uma retórica cheia de empáfia, uma colocação das vozes a puxar ao sentimentalismo, uma linguagem serôdia e uma visão pinga-sentimento insuportável. Parecia, no intervalo dos depoimentos, quando a responsabilidade do documentário é puramente da produção, que se tinha voltado a um estilo de declamação e de representação entre os recitais de poesia de província e o teatro antes das telenovelas.
O documentário sobre Torga é o mais prejudicado por esta retórica apologética. Parece que não se conseguia sair das fragas, do húmus, do telúrico, dos rochedos, dos pés mergulhados na terra, e que não havia mais a dizer sobre Torga. Se calhar não há. Mas, nos depoimentos a qualidade do documentário melhora e muito. Quer Eduardo Lourenço, quer, em particular, António Barreto, diziam coisas interessante e que podiam e deviam ser exploradas no filme, para além das das fragas, do húmus, do telúrico, dos rochedos, etc., etc. Os depoimentos de Barreto sobre como o Douro foi feito de um enorme “sofrimento” explicavam muito da recusa do bucólico de Torga. Mas muito do que era interessante para se perceber Torga, por exemplo a influência de Unamuno, ficava por tratar. A dificuldade do script voar para além do lugar-comum era evidente.
Por seu lado, o documentário sobre David Mourão-Ferreira beneficiava da personalidade mais “solta” do escritor, menos ensimesmado nas fragas, no húmus, no telúrico, nos rochedos, nos pés mergulhados na terra, etc., etc. David Mourão-Ferreira trazia para o documentário textos e circunstâncias únicas que por si só lhe davam interesse, como é o caso de um diário pré-adolescente da sua experiência escolar, e da interacção com o pai, a avô e a professora, à volta da escola, que, como testemunho genuíno, me parece muito raro. Depois, a série de depoimentos é excepcional, ritmada, presa à fluência da biografia, à memória e ao gosto, que ilumina todo o percurso erótico, de escrita, académico e por fim a conversão religiosa e a doença. Só que, por razões que me escapam, seja porque foi preciso empregar mais gente, seja porque o gosto não abunda para aqueles lados, os intermezzos em que entravam poemas de David, eram tão possidónios que dava vontade de agredir a televisão. Umas meninas a dançar, umas imagens dos monumentos de Lisboa a mergulhar no Tejo, uns poemas lidos sobre um fundo azul com umas gotinhas de água. Isto num poeta que deixou gravado, de forma magnífica, os seus melhores poemas, e tendo entre os depoentes gente que diz melhor poesia, sem cair no sentimentalismo barato. Se se retirassem aquelas pastelices, e se substituíssem por fados da Amália, por imagens dos programas de televisão que fez ( e que mereciam, como o Nemésio, já ter sido editados em DVD), e por mais depoimentos ficava muito mais escorreito.
A estética narrativa dos nossos documentários raras vezes escapa a esta antiquada retórica que parece ainda dever algo à televisão de antes do 25 de Abril e é pena.
Etiquetas: David Mourão-Ferreira, Torga