ABRUPTO

15.7.07


O QUE FIZEMOS POR CÁ NESTES ÚLTIMOS MILHARES DE ANOS

Pouco. Bastante pouco. Bastante mal distribuído no tempo. Bastante frágil. Nem sempre muito bonito, nem sempre muito impressionante, nem sempre durável, nem sempre bem feito. O concurso, com pseudovotações, mas, mesmo assim, concurso, das nossas Sete Maravilhas nacionais revelou como escasseiam entre nós as maravilhas, como temos muitas vezes uma exagerada noção da nossa própria história e capacidade de realização e, mesmo assim, como os portugueses não foram sempre os mesmos em todos os tempos. Nalguns fizeram muito mais, noutros fizeram muito pouco e na maioria dos tempos não deixaram nada que valesse ser lembrado, muito menos "maravilhado". Quando se pensa que os turistas estrangeiros podem, devem, vir admirar a nossa terra, cometemos muitas vezes o pecado da soberba de pensar que ela pode ombrear com muitas outras terras europeias em maravilhas ímpares, com Londres, Paris, Viena, Roma, Veneza, Praga, São Petersburgo, ou mesmo muitas outras pequenas cidades europeias.

Sobram, é verdade, recantos naturais de grande beleza, bom clima, águas temperadas, fina areia, mas esses foram feitos pelo Supremo Arquitecto e não pelos portugueses, que se têm encarregado de os destruir activamente com furor. Sim, sobra alguma coisa no Alentejo profundo, em Trás-os-Montes, nos Açores, mas em proporção inversa à proximidade ao Algarve, a Lisboa e à antiga Estrada Nacional n.º 1.

Nesta questão do concurso das maravilhas há dois tempos diferentes: o da nomeação e o da escolha. Ambos têm regras muito distintas e funcionam com mecânicas diversas. As nomeações, dado o seu número elevado, retratam mais ou menos o que há, as escolhas revelam os lobbies e os movimentos de gosto popular. Trataremos de cada um por seu lado.

Que maravilhas temos? O concurso registou 77, que estão enumeradas numa página oficial do concurso na Rede que, à boa tradição nacional, deixou de ser actualizado um dia antes da eleição, ao ponto de não ter sequer em linha os resultados do concurso. Fez-se a festa, foram-se todos embora. Dos 77 monumentos nomeados, 27 são de carácter religioso (Capela de São Frutuoso de Montélios, Convento de Cristo e Convento e Basílica de Mafra, Igrejas de Santo Agostinho da Graça, da Flor da Rosa, da Madre de Deus, da Sé Velha de Coimbra, de Bravães, de Castro de Avelãs, de São Francisco, de São Martinho da Cedofeita, do Antigo Mosteiro de Jesus, do Convento do Carmo, Igreja e Torre dos Clérigos, Igreja Matriz de Mértola, mosteiros da Batalha, de Alcobaça, de Leça do Bailio, de Santa Cruz, de Santa Maria de Belém, Misericórdia de Viana do Castelo e as Sés da Guarda, de Braga, de Évora, de Lisboa, de Silves, do Porto). Depois da igreja, os mais numerosos monumentos são de carácter militar, incluindo os castelos da Feira, de Almourol, de Beja, de Guimarães, de Leiria, de Marvão, de Monsanto, de Óbidos, de Palmela, de Porto de Mós, de São Filipe, de São Jorge, de Silves, de Viana do Alentejo e a fortaleza de Sagres e as fortificações de Monsaraz. Registe-se que a esmagadora maioria dos monumentos militares são medievais e muitos dos castelos foram obra dos mouros e não dos cristãos.

Em seguida, avulta a arquitectura palacial régia, incluindo os Paços dos Duques de Bragança, o Paço Ducal de Vila Viçosa e os Palácios Nacionais da Ajuda, da Pena, de Queluz e de Sintra, a que se somam algumas escassas casas nobres palaciais como as da Brejoeira, de Mateus e o Palácio e Quinta da Bacalhoa. Arquitectura civil, grandes obras púbicas, são ainda mais escassas: dois aquedutos, o das Amoreiras e o das Águas Livres, um chafariz, a Praça do Comércio. Edifícios de cultura, arte e saber são raríssimos: os Paços da Universidade de Coimbra e o Teatro Nacional de São Carlos.

A distribuição pelo tempo é também muito desigual, embora se tenha que ter em conta que não é possível tirar conclusões de uma cronologia simples, porque o grau de destruição, a monumentalidade, o tipo de edifícios, a sua necessidade de conservação e perenidade variam muito com as épocas. Mas algumas conclusões podem ser tiradas. Anteriores à nacionalidade, se deixarmos de lado alguma arquitectura religiosa, ou construções militares árabes, que também o são, mas entroncam com o fio da nossa história nacional, sobram as pinturas rupestres da Gruta do Escoural, os monumentos megalíticos de Alcalar, os Sítios Arqueológicos do Vale do Côa, as Ruínas de Conímbriga, o conjunto arqueológico de Idanha-a-Velha, o Templo Romano de Évora e a ponte sobre o Lima em Ponte de Lima. Os romanos ficam pois entre os nossos grandes construtores, em conjunto com os nossos crentes cristãos que fizeram igrejas e mosteiros e os engenheiros militares árabes, tornando a Idade Média numa grande produtora de maravilhas.

Depois, a coisa começa a escassear, com o Portugal das Descobertas a construir mais lá fora do que cá dentro, e cá dentro a apenas dar a conhecer a mão férrea dos nossos monarcas despóticos. E depois quase que acaba. Monumentos que possam ser associados à revolução industrial são quase inexistentes, incluindo-se apenas aqui dois exemplos de arquitectura de ferro, o elevador do Carmo e a Ponte de D. Maria Pia, a que podemos somar o Palácio da Bolsa no Porto, que também é subsidiário de um gosto de pastiche típico da mesma época. Há o pequeno esboço romântico da Pena e acabaram-se as maravilhas.

De que país falam estas maravilhas? De uma terra de povoamento antigo, mas isso é mérito do tempo e da terra, mas que logo que a história se forjou como civilização foi periférica e quando não o foi, nos séculos XV e XVI, cuidou mais de outras alfaias e menos do espavento. Se calhar também aí há uma lição a tirar. De uma terra pobre, na maioria do seu tempo e para a maioria dos seus habitantes, muito pobre mesmo. Depois, a história mais propriamente portuguesa é feita pela igreja e pela guerra e pelo poder político quando é forte. Ponto final. Se bem que a nossa ideia moderna de Estado não possa ser extrapolada para o passado, a verdade é que poucas maravilhas nos deixou o Estado se comparado com a igreja, e a paz comparada com a guerra.

http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/fotos/braga/macro/gcastelo02.jpgAs escolhas finais foram o que foram e, para além dos lobbies de promoção e votação, correspondem a um modelo do Portugal monumental que poderia ter sido escolhido pelo SNI da Salazar: o "berço da nacionalidade", o Castelo de Guimarães, arquitectonicamente pouco interessante (o Castelo de Óbidos é muito mais interessante, mas a votação aí é muito turística), o local de batalha de Aljubarrota, o local mítico da derrota dos espanhóis, associado à Batalha, os Mosteiros de Alcobaça, dos Jerónimos (Lisboa) e Batalha que têm dimensão monumental, a Torre de Belém (Lisboa), imagem identitária, e o gosto romântico ficou-se pelo Palácio da Pena (Sintra), em nome do Luís da Baviera que não tivemos e da Disneylândia. A gramática do gosto moderno, explicou-o o esquecido Barthes, privilegia os monumentos que estão no cimo dos montes (Pena e Óbidos), e uma centralidade ou espacial (Alcobaça) ou cultural (Jerónimos e Belém) ou icónica (Torre de Belém).

Tudo isto é estimável e, para quem gosta da sua terra, é a nossa face, o nosso espelho. Sem elas não somos nós. Mas gostar da sua terra não precisa de nos tirar lucidez sobre o que fizemos e deixar de sentir a obrigação de se ser mais cosmopolita e menos provinciano. Estas maravilhas sabem a pouco.
Tenho de há muito a opinião que a Pátria é muito melhor a escrever do que a construir ou a pintar ou a pensar. De longe. Gil Vicente, Camões, Vieira, Camilo, Eça, Cesário e Pessoa, são "monumentos" mundiais que podem ser colocados em qualquer lista mais restrita de "maravilhas". E não estão sós: geniais autores de um, dois , três e quatro poemas, existem bastantes em Português, exactamente como muitos poetas e escritores que admiramos em espanhol, francês ou inglês o são também. No resto, é que escasseiam as "maravilhas".
(No Público de 14 de Julho de 2007)

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© José Pacheco Pereira
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