| ABRUPTO |
semper idem Ano XIII ...M'ESPANTO ÀS VEZES , OUTRAS M'AVERGONHO ... (Sá de Miranda) _________________ correio para jppereira@gmail.com _________________
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22.7.07
NUNCA É TARDE PARA APRENDER: OUVIR OS MORTOS Andrew Robinson, Lost Languages: The Enigma of the World's Undeciphered Scripts Quando comprei o livro foi apenas por pura curiosidade para a estante do "por ler". Folheei-o na livraria (na Leitura no Porto) e vi que tinha um capítulo sobre o etrusco. Mais curiosidade: sabia que o etrusco não tinha sido decifrado e isso intrigava-me. Era uma língua "moderna", e havia suficiente continuidade com os romanos para não perceber porque razão se tinha "perdido". Sabia também que ainda hoje "falavamos" etrusco por via das palavras que tinham emigrado para o latim como "átrio". Comecei pois a lê-lo "de passagem", o meio caminho entre ler e folhear, no capítulo do etrusco, e, duas páginas depois, estava no princípio e depois foi sempre até acabar. O livro é excelente, e é pena não estar traduzido. Sendo uma obra para amadores e não para linguistas profissionais, os seus capítulos são bastante desenvolvidos para se perceberem bem não só as fontes das línguas "perdidas" e "achadas", como a mecânica da sua decifração. Os capítulos sobre a escrita hieroglífica egípcia, o Linear B, o Maia, entre as escritas decifradas e o etrusco, o Linear A, o Zapotec, o Rongorongo, e a "linguagem" da civilização do Indus, são muito bons exemplos de síntese informada sobre o estado actual dos conhecimentos. E são todo um mundo em que mais do "falar com os mortos", como diz Robinson, se "ouvem os mortos". E os mortos falam dos deuses, da teogonia e do génesis, mas também de listas de mercearia, de pagamento de salários, de genealogia e história dos reis, uma fala que vem desde o princípio da história. Tão longe como a escrita da civilização do Indus (por decifrar) que já tinha desaparecido quando Alexandre chegou àquelas paragens. Depois há toda a voz dos mortos. Como por exemplo, o que se pôde, pela primeira vez, "ler" no Maia e que escorre mais sangue do qualquer massacre de motoserra no Texas. Ou a obsessão pelo tempo dos maias. E as placas do Rongorongo aparecidas na Ilha da Páscoa e só lá, a milhares de quilómetros de tudo. O Rongorongo permanece indecifrável, mesmo apesar das tentativas de encontrar, ainda no século XIX, uns octogenários que supostamente as sabiam ler e que, depois de embebedados para ultrapassarem o seu medo de revelarem o que consideravam sagrado, desatavam a cantar: " o deus X copulou com a deusa Y e deu origem aos tubarões; o deus Z copulou com a deusa W e deu origem ao fogo", ou seja uma teogonia polinésia não muito diferente da de Hesíodo. E, por fim, o fabuloso mundo dos decifradores, um dos ramos da ciência em que amadores dedicados e profissionais se misturam com charlatães, partidários das mais bizarras teses esotéricas, puros loucos, etc., etc,. numa saga de inteligência e intuição, mas também de golpes e contra-golpes, de invejas académicas, de rivalidades de mestres e discípulos. Não há tanto sangue como nos textos maias, mas há matéria para filmes de Hollywood entre variantes do Indiana Jones, professores alemães vetustos e agentes dos serviços secretos, unidos numa confraria internacional da curiosidade. Percebo-os bem. (url)
© José Pacheco Pereira
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