ABRUPTO

17.7.07


IDEIAS FEITAS QUE CIRCULAM:

NÃO HOUVE VOTO DE PROTESTO CONTRA O GOVERNO

Olhe que sim, olhe que houve. Não está na votação dos partidos da oposição, mas está na abstenção, no elevado número de votos brancos – nulos, uma especificidade lisboeta. Não é só contra o governo, é também contra o sistema político-partidário, mas é um voto de protesto. Claríssimo.

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Olhe que não: Não em parece correcto que se tirem grandes ilações a partir dos números da abstenção (e faz-se isso muitas vezes...). Parece-me que quem não vota é porque não pode ou porque simplesmente não quer saber. O desinteresse pode ser preocupante mas está longe de ser um protesto. Existirão excepções, pessoas que não votam mesmo por "protesto", mas não me parece muito racional, logo acho que serão uma minoria. Quem quer protestar vota em branco ou faz uns rabiscos, não se conforma em ir parar ao bolo da abstenção, onde está tudo misturado. O que terá acontecido é que muitas pessoas não puderam votar porque estavam de férias. E não é só uma questão de "Algarve & praia", muitas pessoas planeiam férias e pagam bilhetes de avião e "pacotes" de férias com muita antecedência. Nas low-cost, por exemplo, os bilhetes só compensam se forem comprados com muita antecedência.

Já os votos brancos e nulos, esses sim, são números interessantes e "protestantes".

(Ana Mouta)

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Não me parece que seja adequado tirar conclusões válidas com base no "parece-me que". Não me parece que seja adequado classificar as pessoas que protestam através da abstenção como irracionais. Não me parece que quem conhecer verdadeiramente a cidade de Lisboa, os seus bairros e as suas gentes, possa afirmar que cerca de 350 mil lisboetas (abstencionistas e familias), de um universo de 524 mil eleitores, tenham todos ido para férias no estrangeiro, para destinos longínquos e aerotransportados. Não me parece que os números das eleições possam iludir alguém. Tanta gente em casa, em dia de eleições autárquicas (que são usualmente as mais participadas) tem de querer dizer qualquer coisa. E decerto não quererá dizer que existem mais de 30 mil pessoas irracionais em Lisboa.

Naturalmente que eu coloco alguma hipóteses, mas não avanço palpites antes de estudar melhor o terreno. As ciências sociais, como a medicina, por exemplo, não podem fazer diagnósticos sem analisarem bem o paciente. Tudo o resto é "palpitismo" - um mau hábito português, cada vez mais em uso, em que cada um se acha no direito de proferir as mais prolixas teses sobre qualquer assunto, desde a massa do pastel de bacalhau até a teoria dos quasares, passando - necessariamente - pela táctica futebolística e pelas artes adivinhatórias.

(Carlos Robalo)

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A propósito do comentário da sua leitora Ana Mouta, devo dizer que eu sou um dos eleitores que deixou de votar (abstencionista) porque, depois de vários votos brancos em eleições consecutivas, vim a saber que o efeito voto branco é literalmente ignorado pelo nosso sistema político. De que me vale assim ir votar em protesto, se o meu voto é considerado lixo? Voltarei a votar, quando os responsáveis políticos resolverem dar expressividade aos votos brancos, pela presença de cadeiras vazias (lugares não eleitos) nas assembleias, nacional ou regionais, correspondentes ao número de votos brancos das respectivas eleições. Saberemos assim, com rigor, qual a representatividade político-partidária existente, no sistema político do país. Até lá, serei um voto de protesto diluído na abstenção.

(Vítor Martins)

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