ABRUPTO

13.7.07


COISAS DA SÁBADO:

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ELEIÇÕES PARA LISBOA: A MODA DAS “SOLUÇÕES” NO DISCURSO MEDIÁTICO



Quando já se viu muitas modas, quando já se esteve e já se passou de moda, quando o gosto se começa a misturar com a memória do gosto, deve-se ganhar aquilo que se chama vulgarmente “experiência”, ou seja, entre outras coisas, uma certa resistência à moda. Mas, a moda estará sempre na moda e entre os jornalistas (e por via do jornalismo entre os políticos mediáticos) ela traz imensas vantagens nas quais avulta a preguiça do pensar e a aparente criação ex-nihil de novidade, a pedra de toque do jornalismo-espectáculo.

Estas eleições para Lisboa, realizadas debaixo de uma enorme sombra de aborrecimento, forma como é percebida pelo “povo” a impotência, sua e deles (dos políticos, para tudo que não seja “servirem-se” do prato orçamental), foram subordinadas a uma moda que ultimamente domina as entrevistas para os cargos executivos: a ideia peregrina que os candidatos devem saber de cor e salteado os dossiers sobre a cidade e ter “soluções” prontas para todos os problemas. Esta moda já dominou as últimas legislativas, mas revelou-se em toda pujança no último Prós e Contras com os 12 candidatos a Lisboa, com a apresentadora a cortar de uma forma muitas vezes arrogante e opinativa qualquer intervenção em que se fizessem “diagnósticos”, “tricas partidárias”, ou qualquer outra coisa que não fossem “soluções”. “Soluções”, “soluções”, “soluções” é o que o coro mediático, que se apresenta como ungido das presocupações “populares” agora exige no tribunal espectacular que são estes debates circenses.

Esta moda das “soluções” é o resultado do desgaste do discurso generalista ideológico, do discurso dominado pelo posicionamento partidário, vencido não só pelos seus defeitos, mas também pela apatia ideológica, pela despolitização, e pelo modelo yuppie da “eficácia” empresarial associado ao fascínio tecnocrático, o menos adequado para se perceber sequer o que está em causa na crise de cidades como Lisboa. Não se passou do mau para melhor, substituiu-se um mau por outro mau, em ambos os casos um pseudo-écrã que nos tapa a percepção quer dos problemas quer das diferenças e alternativas no defrontar os problemas, aliás na própria identificação dos problemas tarefa profundamente ideológica.

É um discurso que apaga as alternativas acentuando a ideia errada e demagógica de que há sobre todas as questões uma solução técnica ideal, fora da ideologia e da política, e que como solução técnica exige técnicos para a aplicar. Como as “soluções” assim obtidas parecem neutras, técnicas, eficientes, insisto no “parecem”, não é por acaso que todos “parecem” dizer o mesmo, apresentar as mesmas soluções, apenas impossíveis de compatibilizar pelas “tricas partidárias”. É por isso que num debate anterior se pode falar de Duarte Pacheco como um exemplo para a cidade de Lisboa num país democrático, assente na representação de interesses, no voto e na lei. Só porque o comunismo tem má fama é que não se falou do “grande projecto” para Bucareste do Conducator Ceausescu, ele também passando com o seu urbanismo imperial por cima de todos os “interesses mesquinhos” da velha cidade.

Como os políticos não são técnicos, exige-se-lhes que se comportem como tal e entende-se que apenas tem mérito para chegar aos lugares quem “conheça muito bem os dossiers”, ou seja que não fale de política mas de técnicas. Ora o que falta ao debate de Lisboa é em primeiro lugar política, muita política, boa política, que se existisse (e fosse permitida pelos organizadores do espectáculo mediático) levasse ao cerne dos problemas de governabilidade de Lisboa, muito mais importantes do que todas as “soluções” técnicas que encalham mesmo quando tem mérito, exactamente porque um poder político frágil ou comprometido as bloqueia por inércia ou dolo.

Ora falar dos problemas de governabilidade no seu sentido lato significaria falar de corrupção, real ou percebida, clientelismo partidário, interesses corporativos, tudo coisas que estão mais próximas da crise actual da Câmara de Lisboa do que a falta de “soluções” técnicas, mas também falar de interditos como seja a legislação do arrendamento, o factor singular mais gravoso na crise das cidades portuguesas, que por nunca serem discutidos tornam artificiais todos os programas salvíficos para “repovoar” a cidade.

2

ELEIÇÕES PARA LISBOA: AS ENTREVISTAS E DEBATES COMO EXAMES ESCOLARES

Neste contexto da moda mediática, as entrevistas e debates funcionam como exames escolares onde o professor é o jornalista ou o outro candidato. Foi assim que Negrão chumbou porque não tinha decorado as siglas, e todos os candidatos tem que ter o cuidado de estudar o preço dos bilheres de metro e do passe social, mesmo que nunca andem nos transportes públicos, para não cairem no alçapão onde caiu uma vez Vasco Pulido Valente ao não saber o valor do salário mínimo. Ainda estou para ver o candidato que tenha a coragem de dizer logo à cabeça qualquer coisa como, “olhe eu não sou especialistas em finanças, mas terei ao meu lado quem saiba e muito de finanças, mas o que lhe posso dizer é que encontrarei soluções financeiras para este modo de entender a cidade, assim, assim, e assim, onde as pessoas possam viver de acordo com este modo de vida urbana que tem estas vantagens e inconvenientes”.

Os candidatos supõe-se que sejam aptos em matérias tão dispares como urbanismo, gestão orçamental, redes de transportes, reabilitação urbana, sociologia, demografia, estatísticas diversas, obras públicas, prazos e empreitadas, etc., etc. Não se lhes pede que conheçam a cidade por viverem nela, uma mais sensata exigência, mas que conheçam a “cidade” dos planeadores de transportes, dos urbanistas, dos arquitectos, dos animadores culturais, dos assistentes sociais, dos sociólogos, dos engenheiros de transportes, dos construtores civis, a habitual fauna “técnica” das cidades modernas. Por singular coincidência é esse mesmo grupo de profissões e actividades que depende de forma crucial de Câmaras como a de Lisboa, que dominam o discurso “técnico” e o tornam numa variante da Lei de Parkinson.

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Escreveu que há agora uma moda jornalística que consiste em desvalorizar a política em detrimento das (pretensas) soluções concretas dos problemas e avançou mesmo com uma explicação para este facto. Venho propor uma outra explicação que também pode ajudar a explicar o mesmo fenómeno. Tenho vindo a ter ao longo dos anos a impressão de haver uma nítida degradação na capacidade de argumentação abstracta na população em geral, bem como nos jornalistas e nos políticos em particular. Isto leva naturalmente a um aumento na dificuldade em falar em questões de política e, consequentemente, numa maior apetência em abordar problemas concretos. Naturalmente, a classe política não pode ser formada por pessoas como Lenine, de quem alguém disse que só pensava em termos de «massas, movimentos e classes», mas que parecia ficar confuso quando lhe vinham pedir ajuda para um problema concreto de uma pessoa concreta. Só que, como diria Aristóteles, no meio é que está a virtude. E, parafraseando o mesmo Aristóteles, é marca de uma mente educada ser-se capaz de abordar cada assunto com o grau de abstracção que este exige (a frase original tem «precisão» no lugar de «abstracção»).

(José Carlos Santos)

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O seu texto e o comentário do leitor s/ falta de capacidade de abstracção da população faz-me lembrar um texto c/ muitos ano do Miguel Esteves Cardoso em que ele falava do “só saber”. Este verbo era usado quando se perguntava a alguém na rua “o que pensa da entrada de Portugal na CEE?” (por aqui se vê os anos do texto) e a resposta era “disso não percebo nada, só sei que a comida está cada vez mais cara e qualquer dia o que a gente ganha não chega para comer”. Assim tínhamos o “saber” – abstracto e que só interessava a mentes mais elevadas e o “só saber” – reservado ao povo que se ligava com as questões práticas do dia-a-dia e das dificuldades da vida.

Como vemos o problema tem mais de 20 anos e cada vez mais as pessoas “só sabem” e os políticos resolveram ir pelo mesmo caminho (como sabemos qualquer fluído líquido tende deslocar-se pelo caminho que lhe oferece menos resistência. Modéstia à parte aqui está uma frase que combina política com técnica) para poderem conquistar votos e porque muitas vezes eles também “só sabem”, quando não é o caso que não sabem mesmo nada, pois não só não têm capacidade intelectual para saber como muitos deles nunca tiveram necessidade de “só saber” para assegurar a sua subsistência. Ou melhor “só sabem” servir interesses, lamber botas, fazer tricas, dizer “sound bites”, falar politicamente correcto, mudar de posição quando tal lhes é conveniente, etc.

(Miguel Sebastião)

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© José Pacheco Pereira
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