ABRUPTO

13.4.07


COISAS DA SÁBADO:
OS MARINHEIROS INGLESES E O DECLÍNIO DA VERGONHA

http://www.pbs.org/newshour/updates/new-imagebank/people/british-sailors.jpg http://www.smh.com.au/ffximage/2007/04/02/uksoldier_wideweb__470x333,0.jpg
Há qualquer coisa de muito errado em toda esta história dos marinheiros ingleses aprisionados pelo Irão. Os ingleses são militares profissionais que estavam numa zona praticamente de guerra. Fazem parte da sua formação militar instruções quanto ao modo como devem proceder caso caiam nas mãos de um “inimigo”. Presumo que estas instruções já incluam regras de procedimento para esta nova forma moderna de mostrar os prisioneiros na televisão a fazerem declarações hostis ao seu País e favoráveis ao “inimigo” para efeitos de propaganda, o que é uma violação das leis da guerra codificadas há um século na Convenção de Genebra. É verdade que só a forma é moderna porque se trata de um acto de guerra muito antigo a que a televisão e a preponderância dos media trazem um dimensão nova, aumentando a sua eficácia como arma psicológica, ou seja como acto de guerra. Duvido, no entanto, que sejam quais forem essas instruções – que não são feitas nem para pessoas comuns, nem para heróis, mas sim para soldados – elas tenham sido cumpridas pelos marinheiros ou, pelo menos, por parte deles.

Não cabe a ninguém fazer julgamentos morais sobre o comportamento de pessoas em perigo e seria uma enorme jactância estar a julgar sobre a coragem ou a cobardia dos marinheiros ingleses, confrontados com ameaças reais de um poder capaz de as levar avante. Mas, repito, que há qualquer coisa de muito errado em toda esta história, há, e convinha discuti-la em vez de a colocar debaixo do tapete. É que é difícil de compreender que sem qualquer sinal de aberta violência ou constrangimento forçado, - não tinham a espada da Al-Qaida e uma expectativa de uma morte quase certa sobre a sua cabeça - os marinheiros se prestassem tão depressa, tão bem e tão à vontade a servir a propaganda de guerra iraniana. Sabemos que foram ameaçados de vários anos de prisão e que o Irão mostrou que não queria saber da Convenção de Genebra para nada – por exemplo, ameaçou julgar como espiões os marinheiros ingleses que se encontravam uniformizados, logo não podiam cair sobre a acusação de espionagem, mesmo que estivessem a recolher informações – mas mesmo assim é pouco. Insisto, trata-se de militares com preparação específica, profissionais treinados e que estão numa zona de guerra, se bem que longe do sítio em que esta tem mais intensidade, Bagdad e as cidades limítrofes.

Não adianta saber a opinião de cada um sobre a guerra do Iraque, mesmo admitindo que a oposição generalizada ao conflito afecta o moral das tropas. Mas o problema está mais para além deste conflito e tem a ver com a difícil sobrevivência do ethos militar nas democracias contemporâneas e com a fragilidade de velhas regras de conduta assentes na “honra”, uma ideia tão bizarra nos nossos dias que tenho que a escrever com aspas para se perceber que é a honra antiga, que ao mais pequeno estremeção se passa à colaboração quase voluntária com o “inimigo”. Sim, porque os sorrisos e as palavras afectuosos dos soldados na despedida ao Presidente do Irão não são nem forjados nem resultado de qualquer síndroma de Estocolmo para que não houve tempo nem condições. Foram mesmo fragilidade humana, fraqueza perante o inimigo.

Não custa compreender que, chegados a casa, vender a história aos jornais fosse o corolário normal dos seus sorrisos iranianos, com a suicidária complacência do Ministério da Defesa britânico. Assim não vamos a lado nenhum e o mal-estar que certamente este caso causa nas forças armadas britânicas e na população representa uma grande vitória para o Irão.

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© José Pacheco Pereira
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