ABRUPTO

3.1.07


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: PERPLEXIDADES




Apenas duas linhas para exprimir a minha, justificada ou não, perplexidade em relação ao episódio dos tripulantes da manifestação em Vila do Conde.


Do lado dos homens do mar argumenta-se que é inaceitável não ter havido socorro porque os pescadores morreram praticamente na praia, ou seja a poucos metros de terra firme. E de facto, apesar de ser leigo na matéria, chocou-me a história daqueles homens morrendo agarrados a um pequeno barco encalhado na areia da praia. Ou seja, parece-me que os trabalhadores do mar têm razão.
Contudo não há ninguém a dizer, com uma infinitésima parte da veemência dos pescadores, da culpa dos pescadores. É que segundo relatos, passados nos noticiários, de várias pessoas que praticam pesca à linha naquela praia, as traineiras em geral, e aquela em concreto, costumam pescar demasiado perto da costa, não respeitando a distância regulamentar à praia. Isto parece ser generalizado em vários pontos da costa , pois estou ciente desse tipo de actuação há muitos anos por frequentar uma praia onde ainda se pratica a arte de Xávega, naqueles barcos artesanais em meia lua, praia essa na qual os pescadores locais se queixam das traineiras lhe roubarem o peixe. Outra questão importante, é que, segundo informações também transmitidas nos noticiários, os tripulantes da traineira não usavam os regulamentares coletes de salvação, que possivelmente os teriam salvo.
Ou seja, bastaria os tripulantes da traineira terem cumprido estas duas regras para esta tragédia não ter acontecido. Regras essas que eram do seu conhecimento e que optaram deliberadamente por não cumprir.
Contudo, a afirmação clara destes factos, a atribuição de uma quota-parte da responsabilidade aos falecidos, ainda não reparei que tenha sido feita. Dirão, desculpando-se, que estamos num momento de luto, as famílias estão pesarosas, o momento não é para isso. O problema é que nunca vai haver um momento para isso, porque entretanto o tempo passa e a história cai no esquecimento. E fazê-lo agora, e numa altura de luto e pesar, serviria para contundentemente dar ênfase à responsabilização individual, neste caso dos pescadores, mas que deveria existir noutros sectores da sociedade.
Não aproveitando a ocasião para consciencializar os pescadores e a sociedade, os coletes continuarão guardados e o limite mínimo de distância à costa continuará a ser quebrado, impunemente até ao dia em que hão-de dizer que houve um “azar”.

(Henrique Oliveira)

*

Pegando ainda no comentário perplexo de Henrique Oliveira, tenho a dizer que vem de encontro a muito do que pensei neste caso nos últimos dias. Lembram-se de uma campanha que dizia qualquer coisa como "descalçar as botas de água à entrada das barras dos portos não é cobardia é sensatez/precaução?" (já não me lembro bem...) Já nem vou discutir o conceito de "macho viril" que está subjacente à forma como a frase foi concebida! Mas parece-me estar perante uma situação que tem ecos vários do que esteve por trás daquela frase: os cuidados não se têm e depois a culpa é dos outros. Não nego que duas horas para aparecer um helicóptero naquela situação me parece excessivo. Mas não sei a história toda: porque é que o helicóptero demorou esse tempo? Outra pergunta: o que é que o pescador que se salvou fez de diferente dos outros para se salvar? Mais outra: os pescadores que morreram sabiam nadar? Se estavam assim tão perto, não poderiam ter tentado chegar à costa, apesar da rebentação? Ou continuam a achar que não se deve saber nadar porque isso desafia o destino?
E claro, estou de acordo com o leitor Francisco Figueiredo: nós somos os primeiros responsáveis pela nossa própria segurança. Comportamentos imprudentes, não. E a fiscalização deve ser actuante, como medida de prevenção que é também... Lamento, tenho muita pena dos que morreram, das famílias que os perderam, de uma comunidade que ficou mais pobre. Mas não tenho a pena toda...

(M. João Afonso)

*

Hesitei em comentar algo sobre o acidente do barco de pesca ao largo 'da Nazaré': morreram homens, há famílias de luto...
Mas a 'perplexidade' do seu leitor Henrique Oliveira decidiu-me!
Em primeiro lugar, e por uma questão de precisão, o naufrágio não aconteceu 'na Nazaré' mas numa praia do Concelho de Alcobaça (por isso é que foram chamados os bombeiros de Pataias, e não os da Nazaré).

Em segundo lugar, sou testemunha dos abusos sistemáticos daquele tipo de barcos de pesca nas águas do litoral do Distrito de Leiria (onde resido e que conheço razoavelmente); provavelmente os pescadores só evitam aproximar-se da costa na zona de São Pedro de Moel e da Nazaré, devido à existência de rochas; o resto é de areias, logo convidativa... Esta forma de actuação contraria as regras e, claro, prejudica os resistentes da arte xávega, como também observou Henrique Oliveira.

Em terceiro lugar, ficou claro que os tripulantes do barco não usavam os coletes de salvação.
Por isso, parece-me deslocada e naturalmente exagerada a responsabilização das 'autoridades' neste caso.

Por muito que custe, não aconteceu nada de substancialmente diferente de um acidente de automóvel: o barco 'despistou-se' e os tripulantes não usavam 'cinto de segurança' (como muito bem foi observado por um especialista de que não fixei o nome, creio que na SIC). Ora, se no caso dos acidentes de automóvel geralmente não se responsabiliza o tempo de chegada dos meios de socorro (pelo contrário, a culpa é sempre do 'excesso de velocidade'), por que razão no caso deste barco terá que ser diferente?

O que choca (mas não é de agora...) é a completa ausência de fiscalização da actividade da pesca. Armadores e pescadores fazem o que querem, quando querem, onde querem na mais completa impunidade: se não há dinheiro para barcos, ao menos a Polícia Marítima podia usar binóculos...

(Francisco Figueiredo)

*

Escrevo-lhe mais ou menos como resposta à entrada no blog do que Henrique Oliveira escreveu.

Porventura, numa questão meramente académica e de limite, se os pescadores tivessem decidido cometer suicídio colectivo e as autoridades para essa situação de perigo fossem alertadas, é da sua resposabilidade intervir o mais rapidamente possível de forma a evitar que algo de mal aconteça!

O que verdadeiramente se discute neste caso é a prontidão da resposta que foi dada às vítimas, na minha opinião, desastrosa, tendo os ocupantes da embarcação, ao longo do tempo que estiveram à espera de auxílio, falecido.

(Hugo Filipe)

*

A propósito do caso trágico da Nazaré , é de estranhar ( ou dai talvez não .. ) o silêncio dos membros do Governo.

Um caso que tal como em Entre-os-Rios, revela a fragilidade do aparelho de Estado , por não ter capacidade de planeamento e antecipação em algo aparentemente simples e pouco complexo.

Este governo , perante boas noticias ( ou assim tornadas boas noticias pela máquina de propaganda..) , como sejam investimentos( ou muitas vezes intenções de investimentos..) , é rápido a espalha-las pelos jornalistas .

Numa altura como esta que se pretende de paz e amor, perante uma noticia difícil e adversa, os Ministros com a tutela não deram a cara.

A sua presença junto da família dos pescadores desaparecidos neste momento teria feito muito mais pela credibilidade do governo que qualquer sessão de Power -Point no Centro Cultural de Belém

(João Melo)

(url)

© José Pacheco Pereira
Site Meter [Powered by Blogger]