ABRUPTO

18.12.06


PERGUNTAS ENTRE O ESPAÇO E O CIBERESPAÇO 5

Texto em movimento, V. 1

5. A fábrica das conferências - o texto

Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais

O programa inclui, antes de mim, a keynote de Lawrence Lessig, CC today, CC tomorrow, e intervenções de Catharina Maracke (CCi - The International Project of Creative Commons), John Wilbanks (Science Commons) e Shigeru Miyagawa (MIT OpenCourseWare: Unlocking Knowledge, Empowering Minds), moderados por José Vitor Malheiros. Comigo falam dois professores de Direito, Alexandre Dias Pereira e Dário Moura Vicente, especialistas em propriedade intelectual, moderados por outro professor, José Moutinho. A ecologia é esta: os "americanos" (embora nem todos sejam americanos) e os especialistas de Direito. Lessig faz a ponte entre o Direito, o "código", o ciberespaço e as licenças Creative Commons, a razão do encontro.

http://www.unomaha.edu/constitution/img/constitution.jpgFalamos todos a mesma linguagem? Nós pensamos que os americanos falam a mesma linguagem que nós, mas não falam, falam ligeiramente diferente embora com as mesmas palavras. We the People. Há ali um gap: os americanos vivem numa sociedade em que a pulsão democrática é maior e diferente da europeia, tem mais mobilidade vertical, mais "oportunidades", as "massas" lá já estão em todos os mercados há muito mais tempo. No eleitoral, no político, no cultural, nos consumos de bens e ideias, logo a perturbação das elites é menor do que na Europa. Cá ainda não estão habituadas, lá sempre foi assim no século XX. O tumulto com a "canalha" é europeu. Nos EUA, Hollywood, os gangsters, a Grande Depressão, a Disneylandia, os GIs, o baby boom, já amaciaram a coisa, já colocaram na ordem o que tinham que colocar. Vê-se, lendo o Code de Lessig: aquela normalidade democrática permite dizer frases e pensar coisas que pareceriam terrívelmente ingénuas na Europa. Há uma liberdade que vem de outros lados, não vem das Luzes, vem do dissent, é popular e não intelectual, federalista e não jacobina. Há questões que pura e simplesmente os americanos não entendem e, num certo sentido, ainda bem para eles. Lessig pode gozar com a sala pomposa da Ordem dos Advogados americana e compará-la às salas dos Congressos do PCUS, mas só um americano acharia normal essa comparação. Tiveram Macarthysmo mas não sabem o que é um Partido Comunista, nem o socialismo.

OCW Consortium logo.

Depois são doers, não são teóricos nem dreamers. Estão sempre a um mílimetro de fazer as coisas, como se vê. Estão ali: a "coisa" Creative Commons, a "coisa" OpenCourseWare. Era por isso que Lenine gostava dos americanos, tinham "espírito prático". Os europeus deram a Lenine os "sovietes", que seriam impossíveis de imaginar na América, os americanos deram-lhe a electrificação e o Sistema Taylor. Gap, diferenças. Lessig, no meio delas, comenta ironicamente que para alguns dos seus compatriotas é comunista. Um velho europeu que leu Proudhon poderia assentir: nem tu sabes quanto, no sentido antigo da palavra. Antes de haver comunistas. Gap.

É outro mundo, logo procuro uma fala comum, mais velha do que os dois lados do "Ocidente" separados pela viagem do Mayflower. Vou reformular, "reciclar" no sentido Jerry-Seinfeldiano, a intervenção que fiz uma semana antes para o I Congresso de Internet e Propriedade Intelectual organizado pela Associação Portuguesa de Direito Intelectual na Faculdade de Direito. Dez perguntas, dez problemas entre o espaço e o ciberespaço, para me colocar de pé atrás diante do ciberoptimismo, sem ser injusto com o imenso mérito destes homens. De pé atrás, curiosa expressão.

A primeira pergunta que anotei no meu texto é metodológica e tem como patrono Clausewitz, o da guerra.

(Continua)

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