ABRUPTO

21.12.06


PERGUNTAS ENTRE O ESPAÇO E O CIBERESPAÇO 7

Texto em movimento, V. 1

7. A pergunta do Coelho Branco na Alice no País das Maravilhas

.
.. suddenly a White Rabbit with pink eyes ran close by her.

There was nothing so very remarkable in that; nor did Alice think it so very much out of the way to hear the Rabbit say to itself "Oh dear! Oh dear! I shall be too late!" (when she thought it over afterwards it occurred to her that she ought to have wondered at this, but at the time it all seemed quite natural); but, when the Rabbit actually took a watch out of its waistcoat-pocket, and looked at it, and then hurried on...

Por que é que o tempo passa tão depressa? Por que é que eu estou sempre atrasado? Por que é que no ciberespaço todo o tempo é rápido, todo o tempo é novo, todo o tempo é pouco? Por que razão no ciberespaço o rio de Heraclito corre tão depressa?

[e ao contrário: por que razão o tempo no ciberespaço não é o do Chapeleiro Louco, o de Parménides?

It's always six o'clock now.'

A bright idea came into Alice's head. `Is that the reason so many tea-things are put out here?' she asked.

`Yes, that's it,' said the Hatter with a sigh: `it's always tea-time, and we've no time to wash the things between whiles.'

`Then you keep moving round, I suppose?' said Alice.

`Exactly so,' said the Hatter: `as the things get used up.'

`But what happens when you come to the beginning again?' Alice ventured to ask.

`Suppose we change the subject.' ]
Antes de chegar lá dentro (ao ciberespaço) o tempo rápido já existia cá fora há pelo menos 200 anos, desde a Revolução Industrial.

[Nessa altura interpelo a sala, o anfiteatro, as pessoas sentadas nas cadeiras: no vosso corpo, o primeiro instrumento da "sociedade de informação" que lhe está colado é o relógio. Nesta sala quase todos têm na sua roupa, no seu corpo, pelo menos três instrumentos que têm a ver com a informação: uma caneta ou qualquer outra coisa para escrever, um relógio e um telemóvel. O iPod, ou outro leitor de MP3, também pode estar num casaco ou numa mochila, e o telemóvel pode agrupar funcionalidades de vários instrumentos: GPS, televisão, computador. Mas o primeiro instrumento da "sociedade de informação" que todos têm, que "manda" mais em nós, é o relógio. ]



(Projecto arquitectónico para uma fábrica centrada na torre do relógio.)

O relógio, o instrumento número um da modernidade. Começou no topo das fábricas para "mandar" numa população arrancada aos campos e que só conhecia o sol a sol. Os historiadores do movimento operário sabem como foi conflitual a imposição do tempo, de horários de entrada e saída, uma das mudanças coercivas mais difíceis de fazer no início da Revolução Industrial. Significava mudar de vida, mudar de "tempo". Depois nunca mais parou, o tempo nunca mais se atrasou. O tempo começou a acelerar-se quando cada um o pode medir no seu relógio e, desde essa altura, um minuto, um segundo - que são, bem vistas as coisas, tão pouco tempo - , contam.

(Por exemplo:

Às 19 horas e 59 minutos anunciam-se as 20 horas nos telejornais, um minuto separa os dois mundos. Este minuto foi negociado entre as estações emissoras para impedir a antecipação caótica dos noticiários na competição pela fixação das audiências no primeiro noticiário que aparecesse no ecrã.)

(Continua, em breve, devagar.)

*
Quando se dá uma aula, um relógio é fundamental. Por boas razões há salas com relógio na parede. Um professor sabe que tem um determinado tempo (uma hora, duas, três, para "dar" uma determinada quantidade de matéria). É preciso saber fazer a gestão do tempo, e controlar o ritmo. Geralmente tenho as aulas preparadas em folhas A4, e sei que um determinado numero de folhas (1 em computador a 1 espaço, 2 a dois espaços ou meia duzia escritas à mão) correspondem a uma hora de aula, por isso, é possível modular o andamento de quarto em quarto de hora, pelo menos.

Por outro lado, no que respeita à gestão do tempo, o conceito de intervalo também é muito importante. Eu nunca dou aulas de mais de 50 minutos. Já cheguei a fazer dois intervalos em aulas de três horas. E controlo, com o relógio. Mas nesses casos, o olhar também conta: os alunos cansam-se, de hora a hora. Quando me conhecem melhor, e estão mais à vontade, são eles a pedir intervalo. E o meu descernimento também é um bom indice: eu também me canso, de hora a hora e quando começo a ver que o pensamento se turva, paro. Por isso relógios há vários: os de parede, os de bolso, os faciais (nos outros), e os do nosso corpo e mente (em nós).

(Eduardo Tomé)

*

“Estou atrasado, sempre atrasado” faz parte de nós. Felizmente a pressa e a
perseverança convivem lado a lado, sem interferências. Quatro anos para
aprender francês, três anos até aprender a forma do Tai Chi Taoista…
Dizem-me que pessoas que fazem Tai Chi há 20 anos afirmam que ainda estão a
evoluir e (pasme-se) sentem que ainda têm muito para aprender. Curioso é uma
principiante ouvir isto e em vez de desmotivação ou angústia sentir um
conforto inexplicável.

Admirável globalização que nos trazes a sabedoria oriental (sushi incluído).

(Ana Luísa Mouta)

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