| ABRUPTO |
semper idem Ano XIII ...M'ESPANTO ÀS VEZES , OUTRAS M'AVERGONHO ... (Sá de Miranda) _________________ correio para jppereira@gmail.com _________________
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18.12.06
PERGUNTAS ENTRE O ESPAÇO E O CIBERESPAÇO 4 Texto em movimento, V. 1 Continua a Promenade Será que o sinal analógico deseja ser digital? Talvez. Durante anos, os meus papéis desejavam ser digitais e continuavam desesperadamente analógicos. Flutuavam é claro, no seu desejo. Havia fichas, milhares e milhares de fichas, a guarda avançada do Futuro. Em 1969, a sede eleitoral da Oposição no Porto era uma garagem perto do mercado do Bom Sucesso, antes da passagem por baixo dos prédios. A feitura das listas era de responsabilidade da própria Oposição que tinha que pagar os custos e conseguir ultrapassar o medo de as tipografias ficarem "marcadas" e de obter um papel que impedisse que se percebesse que o voto não era na União Nacional. Coisas que hoje parecem absurdas, mas que eram do dia a dia da ditadura. No dia seguinte às eleições, toda a gente sabia que a sede iria ser encerrada a qualquer momento pela PIDE. Fui lá, encontrei maços e maços de boletins de voto por distribuir e trouxe-os. Era um papel excelente e mais grosso que o normal. Cortado em quatro fazia umas fichas razoáveis, e inteiro dava para escrever no verso (ao lado, a ficha de O Barbeiro na Literatura Portuguesa e na Vida Social de Bermontan, nom de plume de António Bernardo Monteiro) . Eu tinha uma compulsão para poupar papel que nunca perdi e, durante dez anos, os restos da pobre candidatura da CDE serviram para trabalhar... no verso.Quando a PIDE me assaltou a casa, apreendeu vários milhares dessas fichas que nunca recuperei, com o corpo do delito oposicionista nas costas e coisas que agora ninguém "sabe" ler, como a profissão deste candidato, um velho professor comunista que, como não podia exercer a sua profissão no ensino oficial, tinha que ir para o "ensino livre", colégios particulares e explicações. Os cadernos de argolas, com as suas possibilidades combinatórias, melhoraram a organização "livre". O desejo digital nos cadernos de argolas é maior e deu cabo deles como não podia deixar de ser. Este, que não foi desmembrado na Grande Ruptura, está também escrito no verso das listas de 1969. Do outro lado estão notas de leitura do livro de Armando Silva Pais, O Barreiro Contemporâneo, onde se fala, entre outras coisas, na Loja Maçónica "Esperança no Porvir", e na terra em que as procissões estavam proibidas ainda no final dos anos trinta. Depois, imediatamente antes da Grande Ruptura, acabaram-se as fichas de 1969 e comecei a comprar este modelo, produzido pela grande papelaria do Porto, a Araújo e Sobrinho. Eram muito caras e o abastecimento era irregular, mas o meu arquivo-espólio-biblioteca estava a subir na vida. As fichas registam tudo. A "Esperança no Porvir" acabaria por dar resultados, trazendo consigo a destruição criadora. A Grande Ruptura foi quando peguei nestes cadernos e os cortei para os reduzir a fichas, tentando encontrar essa Ordem mais minúscula, mais dos dedos, mais minute, mais pars minuta prima, a caminho da recolha perfeita, a que não perde nem um átomo de informação, antes de tentar não perder um bit. Estava preparado para a Revolução, o improvável Spectrum, o milagre do processador de texto, o Word Perfect e a perfeição do Dbase III, sonho dos sonhos. Ainda dizem que não há progresso... (Continua). Etiquetas: ciberespaço (url)
© José Pacheco Pereira
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