ABRUPTO

17.12.06


PERGUNTAS ENTRE O ESPAÇO E O CIBERESPAÇO 3

Texto em movimento, V. 1

3. A fábrica das conferências - preparação.

Promenade

O mal destas coisas é que andam umas atrás das outras. Eu que vou ser o Pessimista de serviço (vou-me intitular de Apocalíptico de serviço porque soa melhor, faz um upgrade para o simples e vulgar Pessimista) percebo como tudo melhorou entre o espaço e o ciberespaço. Olho os meus instrumentos de hoje e os antigos e estou quase disposto a assinar por baixo do optimismo internetiano e ciberespacial.

Caneta e papel mudaram pouco. São melhores. Uso normalmente uma Staedtler Liquid Ball, corre melhor do que as Bic, mas as Bic já foram as minhas segundas canetas porque comecei com canetas de tinta permanente, ou seja, a uma dada altura houve uma troca entre a qualidade e a facilidade. Vidas.

Staedtler 416 Liquid Point Red [Pack 10] Normalmente as canetas são de tinta preta, uma sobrevivência da necessidade de tirar fotocópias. Aí está uma diferença abissal. O primeiro documento de que tirei fotocópias foi uma publicação da antiga CGT, e as fotocópias, pesadas, cinzentas, e que cheiravam intensamente a químico, estão hoje quase ilegíveis. Eram caríssimas. E colocavam um problema complicado: só havia duas ou três lojas de fotocópias no Porto e era perigoso chamar a atenção para os documentos "subversivos" que eu queria fotocopiar, apesar dos seus mais de cinquenta anos adormecidos na memória de quase todos. Por detrás de cada fotocopiadora podia estar a PIDE e, em muitos casos, estava.

Em vez de fotocópias, passava-se tudo à mão. Cadernos e cadernos e cadernos estão guardados com longas transcrições de A Batalha, da Aurora, da Sementeira, do Comunista, da Bandeira Vermelha, que usei para escrever o meu primeiro livro. Tinha uma vantagem: seleccionava-se melhor, decorava-se mais, mas demorava um tempo infinito. Comecei por escrever nuns cadernos reciclados que a minha mãe trazia dos Correios, que eram feitos com um papel creme em cujo verso estava uma cópia a químico de umas contas quaisquer com o carimbo do "Exactor". Parecem ser o reverso de contabilidade, um livro de recibos, em terceiro ou quarto uso de papel químico ( Ainda haverá papel químico, uma coisa sinistra?). Alguém que trabalhava nos Correios reparou que havia pilhas de papel que iriam para o lixo e começou a utilizar a outra face para escrever e eu beneficiava de cadernos abundantes. Eram feios, rudimentares, com as folhas presas com um forte agrafo e uma fita de tecido colada na dobra, mas serviam. Este que se vê aqui é sobre Herberto Helder, data de Esmoriz de 1967 e é o número 17 de uma série.

Os cadernos dos Correios tinham uma enorme vantagem: só se podia escrever de um lado. Em Lisboa usava os cadernos da Faculdade de Direito, exactamente iguais aos do Liceu, e escrevia na frente e verso das folhas (uma vez um aluno em Boticas perguntou-me ""senhor professor posso escrever na coroa da página?". "Podes" - demorei uns segundos a pensar no que seria isso da "coroa" da página - disse eu, admirado por um mundo onde a Ordem continuava tão viva que ainda havia quem pedisse autorização para virar a folha e escrever no cimo da página). Com o frente e verso, o caos instalou-se . Os horrores do mundo analógico obrigavam a uma sucessão de correcções, acrescentos, notas, cortes e cola. Num dos meus cadernos de Direito, está um "ensaio" sobre Nietzsche intitulado Dysangelium onde tudo está torto: o texto não se vê coberto de recortes, folhas, uma ficha da Biblioteca Pública Municipal do Porto a servir de nota, fita gomada. Nunca acabei o texto.


Nietzsche e Althusser davam isto:



(O passeio continua, mas chegarei, a seu tempo, ao anfiteatro Cardeal Medeiros. Speak, Memory.)

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Escreveu que as canetas de tinta preta são «uma sobrevivência da necessidade de tirar fotocópias». Uma antiga colega de curso minha fazia excelentes apontamentos das aulas, que eram fotocopiados por muitos colegas. Certa vez ofereceram-lhe de presente... uma caneta de tinta preta! A ideia era, é claro, que as fotocópias ficassem mais legíveis. Quanto ao papel químico, ainda tenho umas folhas de reserva. Guardei-as propositadamente, por pensar que seria divertido mostrá-las a crianças, mas ainda não o fiz.

(José Carlos Santos)

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A sua análise é interessante. De facto havia um enorme preço a pagar quando se copiava ‘à mão’ com caneta ou lápis. Era um processo moroso, imperfeito, e os erros pagavam-se caros (principalmente quando escreviamos a caneta). Esse preço passou a ser substancialmente menor com os tecnologias de reprodução rápida (do papel químico à fotocopiadora). Mas continuava a haver um preço, pois, para além do custo de fotocopiar, à medida que tirávamos fotocópias eramos penalizados pelas perdas de qualidade em relação ao original (por exemplo a côr).

Com os conteúdos digitais tudo é diferente. É hoje fácil reproduzir, copiar, multiplicar conteúdos digitais quantas vezes quisermos, de forma quase instantânea, e praticamente sem perdas de qualidade e sem custos (ou com custos comparativamente muito baixos). Hoje os alunos pedem-nos os slides, não em papel, mas em formato digital para poderem tirar notas usando os ‘laptops’ e anotando directamente os ficheiros.

Estas mudanças (impostas pelas novas tecnologias) ajudam a perceber a necessidade de desenvolver novos mecanismos de protecção da propriedade intelectual. No que respeita a conteúdos disponibilizados ‘online’, careciamos de mecanismos simples e flexiveis de sinalização. Não havia uma maneira fácil e eficaz de um autor sinalizar os termos em que permite, ou não, que os seus conteúdos sejam utilizados. Felizmente hoje temos esse mecanismo.

(adiantei-me no seu ‘passeio’...)

(Pedro Oliveira)

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