ABRUPTO

16.12.06


PERGUNTAS ENTRE O ESPAÇO E O CIBERESPAÇO 2

Texto em movimento, V. 1

2. A fábrica das conferências - que tecnologia do "comunicar" devo usar?

Preparo a intervenção de forma diferente. Vou ver o site de Lawrence Lessig. Há uma nova edição do livro Code and Other Laws of Cyberspace agora chamada apenas de Code v.2 que se pode descarregar em PDF. Tem cerca de 400 páginas, não o vou poder ler todo. Leio o prefácio (os dois) e os primeiros capítulos e depois escolho os que preciso de ler. Parte II, III, V.
Prof. Lessig describes permitted activities
Pelas outras partes, passo nalguns subcapítulos. Vejo uns videos no You Tube com gravações de fragmentos das conferências de Lessig. Fiz bem, Lessig repetiu quase ipsis verbis uma das conferências, adaptando apenas alguns dados a Portugal. É, como muitos académicos americanos, um profissional que tem uma apresentação estandartizada, mas muito eficaz, dos seus pontos de vista. Como Lawrence Lessig é também um militante das suas causas, a começar pelas licenças Creative Commons, a eficácia do discurso é decisiva.

Lessig fala com uma nova forma muito plástica de interacção entre o que diz, sem papel nem texto e o que passa no écrã do fundo. O Diogo Vasconcelos disse-me qual era o programa, mas não fixei. O resultado é muito diferente do PowerPoint, a integração fala-écrã valoriza as palavras, joga com as palavras, como se fosse um sublinhado visual. Vendo aquilo, o velho método de fazer apresentações está mais que morto. A conferência que era a Conferência dependia da qualidade do texto, era o texto que valia mais que tudo. C. S. Lewis, T. S. Eliot não "interagiam" com o público, que sentado muito direito e silencioso, ouvia como lia. Lessig, como a maioria dos conferencistas anglo-saxónicos, em particular nestas áreas, fala, solto do púlpito, sem uma palavra a mais e sem uma imagem a menos. Não dá, não dá para competir, tem que ser doutra maneira.

Leio o blogue de Lessig e lá está a salvação, uma salvação: "People are often very kind (at least to me) about my speeches. But the truly inspired rhetorician of our age is Eben Moglen." Moglen é outro militante como Lessig, de causas muito próximas, e lá está um video de uma conferência sua em Seattle, há muito pouco tempo (Software and Community in the Early 21st Century) . Moglen fala passeando-se pelo palco com o microfone, também sem papel, fora do púlpito. É um discurso de tipo clássico que vive da empatia e da retórica, fluente, ao mesmo tempo convincente e expositivo, que se percebe já ter sido feito mais vezes, ou pelo menos ter "partes do código" já experimentadas. É assim que vou tentar fazer.

E tento. No tecnológico anfiteatro da Universidade Católica existem microfones daqueles que usam na televisão os locutores. Uma caixinha com um interruptor e uma luz que se prende ao cinto e um fio que termina num microfone pouco maior do que uma cabeça de fósforo. No intervalo coloco a caixa e o técnico verifica que está tudo a funcionar. Estou pronto para competir com o Eben Moglen, já que para o Lessig sou um primitivo actual. Quando chega a minha vez, avanço para o púlpito, para partir dali para passear no palco, corpo e mãos a explicar a fala à falta de melhor. O microfone recusa-se a funcionar. Adeus, tecnologias de "comunicar".

(Continua)
*
O microfone recusa-se a funcionar. E desatei-me a rir !

Já me aconteceu este ano, em Novembro e Dezembro.
Para mim, a melhor tecnologia, e unica em que confio, é a voz.
Eu tenho uma voz forte, dá para 70 pessoas. O Manuel Alegre, teria uma para 150. O Pavarotti para 500 (Digamos assim).

Fico à espera de saber como resolveu o problema !

(Eduardo Tomé)

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