O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: DEIXOU DE HAVER SEGUROS?
[O leitor refere-se a esta nota publicada na Sábado:
"Quem ouve alguns comerciantes de zonas periodicamente inundadas, muitas delas procuradas para o seu ramo de negócio exactamente pelo seu potencial turístico junto aos rios e ao mar, a queixarem-se de que o estado tem que fazer alguma coisa pelos seus prejuízos, no caso actual resultado não de uma grande catástrofe natural, mas de uma intempérie mais vigorosa, pergunta-se sobre a nossa atávica dificuldade em lidar com a responsabilidade individual. Será que deixou de haver seguros? Será que a preguiça e o deixar andar levou a esquecer os riscos de ter estabelecimentos em leitos de cheia? Será que não há escolhas individuais, riscos assumidos, vantagens ponderadas com desvantagens na localização de alguns negócios? Parece-me bem que sim e que é a coisa mais natural do mundo prever o que acontece face a fenómenos tão naturais como respirar. "]
Relativamente ao seu artigo na Revista Sábado Nº 135, de 29 de Novembro, com o subtítulo “Deixou de haver seguros?”, permita-me prestar-lhe alguns esclarecimentos sobre este assunto. A resposta à sua questão é que, efectivamente, deixou de haver seguros!
Durante os últimos quatro anos fui presidente da Associação Comercial de Águeda, localidade recorrentemente associada ao fenómeno das cheias. A baixa da cidade, e muito do seu comércio, situam-se junto ao Rio Águeda. Este afluente do Vouga há muitas décadas que tem sido visita ocasional do espaço urbano, causando, pouco frequentemente, alguns estragos avultados em lojas, habitações e espaços públicos.
A última grande cheia com prejuízos relevantes para os comerciantes foi em 2001, a anterior em 1995, ficando-se pelos “ameaços” habituais quase todos os Invernos. A forte exposição mediática que caracteriza as nossas cheias, (potenciada também pelas “cirúrgicas” visitas de um aguedense, Manuel Alegre, que às vezes parece só vir à sua terra quando na casa da família a água sobe acima dos joelhos), acaba por contribuir para algum alarmismo, erradamente, banalizado.
O resultado da “fama” das cheias de Águeda é que as companhias seguradoras se recusam a efectuar seguros aos comerciantes localizados nas chamadas “zonas de risco”. A Associação Comercial de Águeda tem tentado alertar para esta deliberada fuga a quaisquer riscos que, afinal, constituem a essência do negócio segurador. Creia, (...) que não são a preguiça ou a “atávica dificuldade em lidar com a responsabilidade” que impedem os comerciantes de segurar os seus bens, nem sequer os eventuais custos elevados dos prémios, na medida em que a recusa das seguradoras surge assim que associam o local às cheias do Rio Águeda.
(Alberto Marques, Águeda)
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Já tenho vindo a lamentar que a questão da Industria Seguradora esteja a ser tratada numa óptica miserabilista e sempre apontando às empresas do sector a culpa por algo que não corre bem na sociedade no aspecto catastrófico.
Penso que o problema carece de uma análise de raiz e nunca apontando às empresas privadas do sector a responsabilidade pela falta de cobertura de tais danos como os que são abordados pelo leitor de Águeda que, com toda a justiça, reclama solução para o problema das cheias.
A menos que estejamos a pensar no espírito mutualista com que nasceram as seguradoras - onde a iniciativa cooperativa constituiu a sua essência - é ao Estado que esta questão tem sempre que ser questionada. O Estado somos todos nós e, assim, torna-se sempre premente que ele assegure as condições de vida aos cidadãos.
Esse leitor, que já foi membro executivo de uma associação de comerciantes, saberá que, como investidor privado, orienta os seus negócios para a rendibilidade e sempre sabe escolher os produtos que deseja comercializar. Nunca atribuirá quaisquer direitos aos seus clientes para escolher os bens que ele deve vender permitindo-lhes isso sim, numa óptica de inteligência profissional, que eles possam sugerir "para mais tarde pensar".
O que faz falta na nossa sociedade - e isto abrange uma discussão mais lata e todos os sectores - é esclarecimento. Quando se discutem os seguros o que leio ou oiço é sempre que as companhias são "as culpadas de tudo" e nada nem ninguém vejo aparecer na "praça pública" para as "defender" dessa injusta e desajustada imagem.
O que se pode - e deve - por em causa é o bom ou mau profissionalismo desta indústria, aliás, como o de outra qualquer. A transparência com que vende, a rapidez com que responde nos momentos da sua "razão de existir", o sinistro.
Ora, se aceitamos este "estado social" que cada vez mais depende da iniciativa privada ou aceitamos as regras dessa iniciativa ou então - como defendo - devemos também cada vez mais reflectir na necessidade de todos nós - digo, Estado - criarmos as condições de segurança para os cidadãos. Mas, á boa maneira portuguesa, continuamos a querer "sol na eira e chuva no nabal".
(Francisco Teixeira)
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Com efeito não são só os comerciantes de Águeda que se podem queixar da falta de seguros. Assim um honesto cidadão, praticamente desde criança que pode ter um seguro de doença. Vai pagá-lo pela vida fora até á data mágica em que atinge os 65 anos. A partir desta idade, quer tenha sido saudável como um touro toda a vida, ou se tenha servido desse seguro várias vezes veja se há alguma companhia de seguros em Portugal que o aceite para seguro de doença. Se calhar até aceitam, mas com um prémio tão agravado, e com tantas exclusões, que o seguro só funcionará se a pessoa cortar um dedo, entre as 16 e 16,30 de uma sexta-feira dia 13. Isto é, os seguros só são bons quando não são precisos. Já agora pode perguntar aos lavradores do Douro como é, já que só podem fazer seguro que cubra a geada nos meses de Junho e Julho, isto é no pino do verão.