ABRUPTO

14.12.06


COISAS DA SÁBADO: A ENTIDADE

Deixo a análise da deliberação da ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social) sobre o caso Cintra Torres / Público para outra altura, porque merece uma atenção mais cuidada, mas não se pode deixar passar este fabuloso comunicado com que a mesma “entidade” encerra um diálogo que considera “tão picaresco como pouco edificante”, sendo que assim se classifica também a si própria.

Vale a pena ler os termos desse comunicado onde se diz que “o Director do jornal "Público" [pode] ficar descansado”. Mas que é isto? Que linguagem é esta? Depois continua, insultando o director do Público numa alusão que não pode deixar de se perceber ás suas posições editoriais sobre o Iraque, mesmo que se escreva a pretexto da sua reacção à deliberação da ERC:
Registada que fica a sua enorme "coragem" e arrojo de lutador pela liberdade” , porém com o “o sabor amargo de ver como, com tanta "heroicidade", se brinca com a História e com o exemplo daqueles que - mas a sério - lutaram, e quantas vezes pagaram com a sua própria liberdade ou até com a vida, a liberdade de expressão e opinião de que hoje todos beneficiamos.
Este é um comunicado puramente político, ad hominem, mais uma peça que, tendo outra origem e outro pretexto, se insere numa campanha política que de há muito existe contra o director do Público. Ora, quem fala nesta voz é o Estado, porque, queira-se ou não, a ERC fala pelo Estado português, e é por isso que esta linguagem é grave. Ela mostra completa ausência de sentido de Estado e um sentimento de impunidade preocupante.

Com este comunicado, caso não seja retirado de imediato, a ERC deixou de ter condições para exercer a sua função de forma minimamente aceitável. A exigência da sua demissão devia ser uma causa, a começar pela demissão por livre consentimento de todos os que, dentro dela, discordam deste caminho. Se a ERC não se demitir já, arrastará a sua existência de forma conflituosa nos meses que vêm, sendo que todas as vezes que diga alguma coisa, mesmo que justificada, exercerá sempre o efeito contrário àquilo que pretende dizer. A história abunda destes exemplos. A começar pela história portuguesa. Não haverá aqui surpresas, está escrito nos céus.

Eu podia aqui fazer uma declaração de interesses, desnecessária porque todos sabem o que faço e penso. Eu não só escrevo no Público, como partilho muitos pontos de vista com o seu director e por isso também me sinto alvo do comunicado insultuoso da ERC. Porém a minha principal declaração de interesses é outra: é a favor da minha liberdade de escrever o que penso, sujeito apenas à lei comum nas suas consequências, e não dou à ERC qualquer direito de censurar, adjectivar ou ironizar sobre as minhas posições. Aceito isso de qualquer leitor, com razão ou sem ela, não do Estado.

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© José Pacheco Pereira
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