ABRUPTO

13.10.06


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: MAIS CENSURA



Não tem nada a ver com Salazar, mas já que no Abrupto se fala de censura, gostaria de relembrar aqui uma lei que a Assembleia Nacional francesa aprovou ontem: a partir de hoje, e caso a dita lei siga o seu percurso até à aprovação final, qualquer cidadão francês que negue a existência do genocídio arménio, cometido pelos otomanos, poderá ser pesadamente multado ou até preso.

Numa altura em que mais do que nunca é necessário que a Europa demonstre o orgulho que tem, ou deveria ter, na aquisição que se deseja definitiva de uma total liberdade de expressão, a Assembleia francesa resolveu dar este presente a quem a ela não está habituado e nem deseja estar. Estou certo de que o presente será devidamente apreciado.

É mais uma vitória do "políticamente correcto" (neste caso também eleitoralmente conveniente) em direcção a uma censura que se acha virtuosa por supostamente defender causas humanistas. E sem sequer perceber (ou não querendo) que fazer esta lei para o genocídio arménio e não fazer para todos os outros que se passaram e passam pelo nosso planeta, é de uma incoerência total; e que, se se quiser ser coerente a lei terá de ser contra o negacionismo de todo e qualquer genocídio; e, se for esse o caso, em quantos anos prescreve o crime? é que ainda há muita gente viva que negou durante muito tempo os crimes de Estaline. A não ser que não sejam genocídio...

(João Tinoco)

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Não resisto a comentar a questão do reconhecimento do genocídio arménio:

O que não faz sentido nesta questão toda, para além de várias pisadas à liberdade de expressão, é o facto de se querer pretender que existe uma memória colectiva institucionalizada. Que existe uma memória colectiva, mais ou menos consensual, característica, ainda que miscível e osmótica, para cada bloco cultural-geográfico, é defensável. Agora que sentido faz uma memória colectiva institucional, expressa na lei, dependente da discricionariedade de quem detém o voto no momento? Quanto vale para a História? Quanto vale para os direitos humanos? Aquilo que vale compensa o que se perde, ou é descabido pôr a questão neste termos? Não será uma questão cuja peritagem deve ser deixada exclusivamente, a quem reconhecidamente a estuda em toda a sua complexidade, os historiadores? E que mesmo assim possa ser discutida livremente por todos?

Se a assembleia francesa não tem a noção disto, está muito mal, se tem a noção e mesmo assim é preferível ganhar votos junto da população de origem arménia e dificultar a entrada da Turquia na UE, a preservar liberdades de expressão, não sei se não está pior.

(Jorge Gomes)

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Àqueles seus leitores que atribuem a "motivos eleitoralistas" a aprovação pela Assembleia Nacional Francesa de uma Lei visando penalizar a negação do genocídio dos arménios durante a I Guerra Mundial, somente perguntaria:

os franceses de descendência turca não constituem um "franja eleitoral" muito superior aos 80,000 arménios ou seus descendentes aí residentes?...

(Jorge Freitas)

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© José Pacheco Pereira
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