| ABRUPTO |
semper idem Ano XIII ...M'ESPANTO ÀS VEZES , OUTRAS M'AVERGONHO ... (Sá de Miranda) _________________ correio para jppereira@gmail.com _________________
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18.9.06
CICLOS E MITOS (2) ![]() O mini-debate sobre a "refundação da direita", que se esboçou há cerca de um mês, parece ter-se esvanecido como as rosas de Malherbe. É natural que assim seja, porque era já uma réplica de uma réplica de um pequeno tremor cujo epicentro data da fundação do PP. O tema carece de novidade, não no sentido jornalístico, o que seria menos importante, mas sim pela impossibilidade de algo de novo caber no invólucro da palavra, fora de alguns rearranjos, confinados à área política do CDS/PP, entre o bloqueamento desse partido até ao destino do infatigável PND, envolvendo personagens que ficaram desirmanadas com a queda do governo Santana Lopes, e alguns projectos mediáticos político-culturais nessa "movida". Para além do Manifesto do dr. Monteiro e a sua interessante mistura de personagens à procura de um autor, sobra a coincidência com o fim do Independente, que revelou a construção mitológica de uma estória destinada a legitimar uma história ideológica bem diferente da que efectivamente aconteceu. O fim do Independente foi "lido" a partir das imagens e projectos dos dias de hoje e não do papel que realmente teve, construindo-se assim uma nostalgia não do objecto perdido no passado, mas do objecto desejado para o presente. Até por isto, por este papel mítico e onírico, a experiência do Independente foi importante na nossa história social, cultural e política. Em que é que O Independente foi diferente? Que frutos deu o jornal? O que é que mudou? A voz do desejo diz, olhando para o presente, que "fundou a direita moderna", livre nos costumes e sem preconceitos ideológicos. A frase tem todas as ambiguidades, mas pode-se aceitar em parte, numa pequena parte. Não vale a pena concentrar o debate de forma estéril negando a pequena parte em que O Independente também deu esse fruto, mesmo aceitando com largueza de espírito que essa "direita" é aquilo que acha que é. Vamos ao outro lado, ao fruto bem mais pesado e importante que nasceu do ventre do Independente, o reforço, a "modernização" se se quiser, do populismo usando novas formas mediáticas e instrumentos mais poderosos no plano social e cultural. Esse populismo realizou todas as amálgamas de todos os populismos, quer à "direita", quer à "esquerda", exprimindo um sentimento contra os "políticos", antiparlamentar e anti-sistémico, explorando a desconfiança face aos poderosos, descrevendo-os como corruptos, arranjistas, motivados apenas pelo interesse próprio, despejando sobre eles editoriais inflamados de agressividade moral e denunciando os "escândalos" uns atrás dos outros. Muita coisa que hoje faz o 24 Horas, com mais fundamento jornalístico mas menos legitimação "cultural", poderia ser colocada no Independente com os mesmos títulos e destaques, com o mesmo efeito político e a vantagem da novidade. Este populismo anti-sistémico agradava a uma faixa muito vasta, que ia desde os saudosistas do salazarismo, para quem a política era a "porca da política", até aos reformados que jogavam dominó numa sede qualquer do PCP na Margem Sul e passavam o tempo a barafustar contra os poderosos e a escrever cartas para o Correio da Manhã. Agradava também, e muito, a uma pequena burguesia urbana que começava a fazer com o "cavaquismo" um upgrade das suas expectativas para padrões europeus e que nas repartições e escritórios se sentia mais solta e lúdica para achar graça a gozar com quem lhes dava o pão. Era uma forma pouco subtil de irem à mão dos chefes e de encontrar no jornal o espelho da inveja socializada que era, e é, o cerne da sua relação com a sociedade. Por último, O Independente era também atractivo para os pequenos e médio intelectuais cínicos, então quase todos à esquerda, que estavam desiludidos da eficácia dos pilares jornalísticos do velho regime, O Jornal e o Expresso, que não tinham sido capazes de travar a maioria absoluta de Cavaco e queriam vingar-se da humilhação que era serem governados pelos "pessedês", essa gente provinciana e inculta que não lia jornais e parecia não precisar deles. Entre estes intelectuais, estavam muitos jornalistas, um grupo crucial na vida política dos dias de hoje, que passaram a admirar O Independente, em particular se nele não trabalhavam. Diante dos seus olhos cínicos passou invisível o projecto político de Paulo Portas, sem nunca o terem visto, o que mostra como o cinismo dos intelectuais é bem fácil de enganar. Como é que O Independente conseguiu ser a expressão de todos estes sentimentos? Combinando dois factores, um, em grande parte de responsabilidade de Miguel Esteves Cardoso, que é do domínio do literário e do lúdico; outro, de Paulo Portas e tem a ver com o "programa social" inscrito no Independente. Quanto ao primeiro, ele é reconhecido e incontestado, quanto ao segundo, nele está a chave da eficácia política do Independente e da natureza do populismo que ele gerou. Em tudo isto é bem menos importante a distinção esquerda/direita do que se pensa e esta estava pouco presente nos tempos genéticos do jornal. Politicamente, à data da génese do jornal, se se quiserem usar as designações clássicas, Miguel Esteves Cardoso tinha apoiado o PPM de Ribeiro Telles, um grupo que rompera pela esquerda com os monárquicos tradicionalistas, e Portas, após passar pela JSD, a ala esquerda do PSD cujo jornal se chamava Pelo Socialismo, era um jovem lobo cínico e mordaz, com tiradas inflamadas ridicularizando o poder e os políticos, Portugal e os portugueses, cujas intervenções em vários debates televisivos circulam hoje pela Internet, com afirmações taxativas e irrefutáveis sobre como nunca seria político, nunca estaria no poder e muito menos se imaginaria... ministro do Mar. Hoje, vendo esses vídeos, Portas pareceria um típico intelectual do Bloco de Esquerda, bem longe do "Paulinho das feiras" em que se veio a tornar. Junto com eles, muitos que deram ao Independente o seu prestígio cultural, como é o caso de Vasco Pulido Valente, tinham escrito preto no branco que se havia lados, o deles era a esquerda, o lado dos meninos dos Esteiros de Soeiro Pereira Gomes. O programa não-escrito do Independente era social, antes de ser político, agia na política pela crítica social e podia definir-se assim (repetindo o que há muitos anos já escrevi): O Independente atacava os "novos ricos", os políticos que vinham de baixo, os parvenus da democracia e poupava sempre os políticos poderosos que entendia caberem na categoria de serem do "velho dinheiro", das "velhas famílias", das "dinastias", como agora se diz dos toureiros. Atacava os deputados da província do PSD, os que não eram advogados lisboetas importantes, nem homens de negócios ilustres, nem socialites reconhecidos, usando todas as suas armas, a começar pela ridicularização social. O objectivo era torná-los o retrato da política portuguesa com os seus vícios, as suas pequenas corrupções reais ou imaginadas com a casinha, com a terrinha, com o carrinho, com as suas famílias rurais desajeitadas, mas acima de tudo com o "mau gosto" do seu trem provinciano de vida, os deputados da "meia branca" deslumbrados pelo Rosa e Teixeira. Vivendo obcecado pela admiração pelo upstairs, O Independente varria os downstairs, numa atitude que um marxista ou Balzac, para o caso tanto faz, reconheceriam como típica da pequena burguesia urbana, a meio caminho das escadas e que pretende exorcizar a sua origem social renegando-a e fazendo-se passar por aquilo que não é. Por várias razões, que para a semana analisaremos, esta forma de irrequietude social é poderosa para olear o populismo em política... do downstairs. (No Público de 14 de Setembro de 2006) (url)
© José Pacheco Pereira
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