O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: TESTEMUNHOS DOS INCÊNDIOS
Esta descrição de Pacheco Pereira (no Abrupto, princípio de Agosto 2005) traz-me à memória os incêndios que nos dois anos anteriores (2003 e 2004) devastaram as serras da zona de Monchique, no Algarve, assim como outras zonas próximas. Lembro-me de uma noite de 2004, aquela em que deflagrou o segundo grande incêndio desse ano, depois de cerca de metade da zona ter sido reduzida a cinzas pelo primeiro. Atravessei boa parte do Alentejo pela auto-estrada, sem encontrar muito trânsito. Era já bem de noite e a partir de certa altura (ao aproximar-me de Ourique) distingui um clarão vermelho ao longe, em frente. Era o fogo, a mais de cinquenta quilómetros de distância. Saí da auto-estrada em Ourique e meti-me pela estrada nacional, até desviar em São Marcos para a nova estrada que corta os primeiros montes até ao Alferce, uma das três freguesias do concelho de Monchique.
A partir de metade do percurso por essa nova estrada (que no total tem cerca de quinze quilómetros), comecei a ver uma linha contínua de fogo. Ia progredindo lentamente, com cerca de meio metro de altura. Se saísse do carro e começasse a apagá-la com ramos de eucalipto, em meia-hora talvez conseguisse limpar cerca de cem metros, mas a linha de fogo tinha alguns quilómetros. E eu não via ninguém por ali. O silêncio que conheço das noites naquela zona era então quebrado apenas pelos sons do mato a arder, que aumentavam de cada vez que as chamas trepavam a uma das árvores. Decidi que não podia parar, que tinha de chegar mais adiante, à antiga casa da minha avó, numa aldeia agora desabitada. Era aí que eu passava a temporada das férias grandes, em criança. O mundo tão grande desses tempos parecia-me agora bem mais pequeno. Não se via nas redondezas nenhuma luz artificial, nem ao longo da estrada, que apesar de ser toda moderna não tem postes de iluminação. Luz, apenas a da linha de fogo. Distingui a aldeia no fundo do vale, junto a um ribeiro, iluminada pelo clarão.
Parei o carro perto da saída para a estrada de terra que dá acesso ao vale, tentando que não ficasse em cima dos matos. Desci pela estrada de terra, sempre com o mesmo silêncio interrompido apenas pelos estalidos que saíam da linha de fogo. Andei cerca de um quilómetro, atravessei a ponte sobre o ribeiro e entrei na aldeia. Pouco passava da uma da manhã. A linha de fogo estava cinquenta metros acima e podia entrar na aldeia, embora esta estivesse limpa de mato. Ali, junto com a antiga casa da minha avó, a minha família possui mais algumas casas menores, uma azenha e um terreno. Eu sabia que o meu irmão estava por perto, mais adiante, por isso continuei.
Cerca de um quilómetro depois, cheguei a uma zona de montado da minha família. Sempre com a linha de fogo a acompanhar-me. Foi então que me deparei com uma espécie de monstro a encandear-me, um monstro com os máximos ligados a ocupar toda a largura da estrada de terra. Eu tinha um carro de bombeiros na frente, com dois ou três bombeiros inquietos por estarem com uma viatura naquela estrada estreita, rodeada de árvores e com o fogo numa linha contínua, paralela à estrada, embora do outro lado do ribeiro. O meu irmão desceu da parte de trás do camião e despediu-se. Os bombeiros foram-se embora, parecendo aliviados.
Disse-me depois o meu irmão que na vila tinha conseguido convencê-los a acompanharem-no até ali, com o argumento de que mais adiante o fogo não se limitava àquela linha contínua de meio metro de altura, estava bem maior, e com um carro de bombeiros seria possível contê-lo. Mas eles foram sempre insistindo que não podiam fazer nada, e acabaram por ir-se embora depois de eu chegar.
Ficámos os dois, eu e o meu irmão, com uma carrinha, dois machados, dois baldes e duas enxadas. As enxadas para atirar terra para as chamas, os machados para cortar ramos com os quais poderíamos bater nas chamas, os baldes porque tínhamos o ribeiro de onde tirar água. Ficámos toda a noite naquilo, como muitos populares noutras zonas da serra. Não havia nada parecido com o que viu Pacheco Pereira, o autor do «Abrupto», na auto-estrada para o Norte, mas de manhã, quando fomos para casa, deparámos nas estradas de alcatrão à volta da vila de Monchique com um movimento intenso, e pela vila a coisa ainda era pior. Carros, camiões, carrinhas de último modelo da direcção-regional já nem me lembro de quê... Bombeiros, polícia, GNR, tropa e, sobretudo, uma categoria um pouco difícil de caracterizar, os chamados responsáveis (dos quais se destacava um, por de vez em quando ter um copo de whisky na mão). Todos num corrupio. E as chamas também num corrupio. Como que por ironia do destino, o fogo foi dado como extinto ao fim de alguns dias, exactamente no mesmo local onde tinha começado. Deu voltas e mais voltas e regressou às origens, talvez por não ter mais nada para queimar.