21:07
(JPP)
LENDO
VENDO
OUVINDO
ÁTOMOS E BITS
de 17 de Agosto de 2006 (2ª série)Quem ouvisse o telejornal das 20 horas da RTP, ficava a pensar que Marcello Caetano foi um benigno professor de Direito, que teve a infelicidade de o 25 de Abril lhe ter cortado uma carreira ao serviço dos portugueses, cujo bem estar ele mais que tudo desejava. Dizer-se de um homem que fez a sua formação política nos anos do autoritarismo que não desejava o "poder", é apenas um exemplo do absurdo de toda a peça jornalística. Duvido que o próprio se revisse na visão
wishy-washy que uma mistura de ignorância e de revisionismo histórico dá da sua vida e carreira.
*
A propósito do centenário de Marcello Caetano, até mesmo a entrevista com Fernando Rosas, no Jornal das 9, na SIC Notícias, a achei uma amena cavaqueira sobre os méritos e bloqueios com que o ex-Presidente do Conselho se deparou nos seus 6 anos de magistério. A certa altura, perguntei-me mesmo se a vítima era afinal ele e não os portugueses sem direito a voto, sem liberdade de expressão e policiados pela PIDE (ainda que rebaptizada).
Ao ver as diferentes peças que sobre o tema os diferentes canais nos foram apresentando, fiquei com a ideia de que a fatalidade de Marcello Caetano se resumiu à impossibilidade de acabar com a guerra colonial, porque em tudo o mais Marcello Caetano seria um liberal apostado em mudar o regime. Permitam-me apreciar a questão ao contrário. A incapacidade de acabar com a guerra colonial era apenas o sintoma mais trágico da incapacidade do regime se reformar, se extinguir a si próprio e encontrar uma qualquer forma de transição para uma nova realidade política.
Pensar que sem guerra colonial, a Primavera Marcelista teria gerado um regime democrático (eventualmente melhor que o actual, ler-se-à nas entrelinhas) dá boa ficção histórica. Pior do que isso é colocar-se a hipótese de que uma versão light do Estado Novo seria preferivel ao que temos actualmente. Se tudo isto andou ontem no ar, espero que se mantenha evaporado nas altas camadas da nossa atmosfera mental.
(Mário Almeida)
*
Deixe-me contar-lhe apenas a minha visão dessas notícias da RTP, eu que sou um jovem de 23 anos e portanto, não assisti a nada do 25 de Abril "em directo". Vi o telejornal, depois tive curiosidade em ouvir a entrevista com a filha de Marcello Caetano, depois vi ainda o documentário que se seguiu. Quando dei por mim, quase estava a ter pena do homem. Felizmente pus um travão na minha mente e consegui pensar exactamente como o sr.: "Espera lá, mas então ele não cresceu politicamente naquela altura? Ele podia ter-se oposto às ideias salazaristas".
Será que me podia dar uma teoria sua para a RTP ter orientado as notícias daquela forma? Quem não conhecesse história de Portugal e assistisse àquilo tudo pensaria concerteza que se estava a homenagear uma grande figura, adorada por todos nós, que teve "azar".
(Hugo Tavares)
*
A evocação "soft" do centenário do nascimento de Marcello Caetano e as peças jornalisticas superficiais que, a propósito desta efeméride, foram sendo produzidas nos diversos orgãos de informação só reforçam um facto para mim inquestionável: a evidente perda de memória histórica da sociedade portuguesa, por si bastante mais perigosa do que um qualquer tipo de revisionismo histórico. É paradoxal que um país com uma história tão rica tenha ao mesmo tempo um problema tão grande na defesa da sua memória não conseguindo "inscrever" os acontecimentos do quotidiano nem ter uma relação traquila com a sua história - oscilando entre a celebração heróica de um passado triufante e a negação absoluta das faces negras da sua história.
Pior do que alterar a história é ignorá-la.
(Jorge Lopes)