ABRUPTO

9.4.06


AGUSTINA BESSA-LUÍS
FAMA E SEGREDO NA HISTÓRIA DE PORTUGAL

O rei é uma pessoa bondosa, um pouco fútil, o que na realeza se traduz nalguma insolência. Quando da visita do Kaiser a Portugal, ao vê-lo aproximar-se, D. Carlos teria dito: “Lá vem o gajo!”, o que é sintomático duma personalidade desinibida ou até que se diverte com a informalidade. Usa da realeza como dum objecto que só a ele diz respeito, intocável por qualquer coisa de estranho — os outros. Daí a sua simpatia por João Franco, o ditador. João Franco assumira como plebeu o que o rei não se propõe como aristocrata. Será o rei um falso aristocrata a quem a tirania, no fundo, lhe agrada? Há em D. Carlos uma exasperação que contraria a sua índole bonacheirona, de artista de domingo, de soberano por desporto. O povo conhecia-lhe os defeitos, mantendo-se à distância para não ser vítima deles.

Se D. Carlos tivesse demitido João Franco, pelo menos acabaria em paz o seu reinado e depois dele que viesse o dilúvio. Mas a questão é que o rei fizera um pacto com a fatalidade. Ele estava cansado de ser rei, de ser marido, de amar os filhos seus herdeiros ou mais seus herdeiros do que filhos. Há um suicídio encoberto na teimosia de D. Carlos em ir de Vila Viçosa para Lisboa onde entra em carruagem aberta. Ele que já não aparece a cavalo pela cidade e sem guardas. Encontra no presidente de conselho, o quê? A mão que o há-de empurrar para o abismo, e de que ele precisa para se precipitar. Há quem veja o golpe de Estado como uma coisa certa; e diz de João Franco: “É mais fácil suicidar-se do que deixar de ser o que sempre foi”. É isto que o rei admira e talvez inveja. A inveja é um sentimento de frustração. Aparece em qualquer área da sociedade e muito especialmente entre a gente culta e estimada para a glória.

Quando Guerra Junqueiro publica o livro Pátria ninguém quer ver o seu conteúdo. É um panfleto arrasador, é uma execução em regra do regime, é um grito cujo eco não se extinguirá mais. Só vêem um folheto de propaganda no que é uma labareda que chega às nuvens. Guerra Junqueiro era subsidiado e pago pelo sentido republicano do Porto, onde a propaganda era mais activa. A linguagem do poeta tinha a ressonância dum campo de manobras. João Franco, quando soube do triunfo da lista democrática, teria dito: “Republicanos, o quê? Esses diabos ainda vivem?”. Entre esses diabos, estava Afonso Costa, um advogado de Viseu, que depois se tornou na áspide do jardim das delícias que se pretendia ser Portugal.

Não sabemos ainda hoje se Afonso Costa foi um tribuno digno de melhor campo revolucionário, se foi um homem de acção que estaria bem à cabeça dum regime sério. Mas que seriedade podia haver num regime em que o rei troçava mais do que governava? É de Saint-Just a revelação: “Um regime que troça tem tendência para a tirania”.

Nós não sabemos como era João Franco na intimidade. Sem esse dado que se tornou vital para conhecer a profundidade dos factos (e que se tornou disponível exactamente a partir duma nova concepção planetária do homem) não podemos avaliar os actos das pessoas. Os actos e as vontades, e a soma de responsabilidade que lhes é atribuída.

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O rei dizia que vivia numa monarquia sem monárquicos. Como hoje se pode dizer que vivemos numa democracia sem democratas. Bento Carqueja, uns bons trinta anos depois do regicídio, lembrou que as instituições políticas estavam mais ou menos divorciadas da Nação ou a Nação alheada da sua vida política. D. Carlos e o príncipe herdeiro são abatidos no Terreiro do Paço sob o olhar duma corte cega e a obstinação dum governo farto de ter de dar explicações das suas razões. Não há razões sem paixões e estas nem sempre são demonstráveis. Não se leva ao Parlamento um frio de adaga que entrou no coração graças a uma palavra imprudente. A cedência absoluta do rei perante o seu ministro não se pode condenar, nem aprovar, porque pertence aos mistérios das relações humanas. Não se pode demonstrar que uma Constituição é digna de aprovação em todos os sentidos. Benjamim Franklin chamou ”o menos mau dos sistemas” à Constituição submetida ao Congresso de Filadélfia. Porque um certo número de homens reunidos para dar testemunho do seu saber, dão também testemunho dos seus preconceitos, as suas paixões, os seus erros de opinião, os seus interesses locais e a sua visão pessoal dos factos. “Duma tal assembleia pode-se tirar um resultado perfeito?”

E, no entanto, governa-se como se quisessem atribuir à própria acção do governo, um resultado perfeito. E, por efeito duma soma de desconfortos interiores, a massa dos homens que, no fundo, estão alheios aos enigmas do governo para não serem devorados por ele, de repente abatem-no. Latino Coelho via assim a revolução: “um precipício, no fundo do qual está o usurário, oferecendo uma bolsa ao mendigo glorioso”. Para um romântico, não se pode pedir melhor.

Há uma pergunta sem resposta feita pelo Dr. Lopes de Oliveira no II volume da História do Regime Republicano em Portugal. “O rei, se não trazia armas na mão — ignoro-o — tinha ao seu lado quem as manejasse… A sua guarda despreveniu-se?” Nessa mesma manhã de 2 de Janeiro, consta que o rei fora prevenido para não sair de Vila Viçosa e que ignorou o conselho. João Franco não parece perturbado com o desenlace trágico da sua política; e quando a duquesa de Palmela lhe diz, no Paço, — “Mas isto assim é o fim da Monarquia, não é, João Franco?”, ele responde: “O da Monarquia e da minha vida política”.

O pacto cumpre-se; com a morte do rei ele retira-se; com a sua morte, D. Carlos abdicaria. É simples, tem a simplicidade da tragédia. Não é a rainha D. Amélia nos seus crepes de luto, nem o príncipe imberbe e assustado, com as pétalas do ramo nos ombros, as flores do ramo com que a mãe lhe salva a vida, que são o índice da tragédia. São as palavras de João Franco: “Acaba-se tudo e eu também…” O significado da vida política, a de ambos, dele e do rei, terminou. Dois homens ligados pelo poder, a intriga, o desprezo pelas razões que invocam, a amizade selada pela causa pública e, no entanto, pronta a perder o seu instável equilíbrio.

Havia muitos espias (num café, o Martinho, por exemplo, podiam-se contar mais de cem), os passos dos suspeitos e até dos insuspeitos, eram seguidos, vigiados, anotados em cifra. E o rei é assassinado à luz do dia, como se se tratasse dum cumprimento da morte e não das balas dum assassino. Houve quem se aproximasse do cadáver do Buíça, e beijasse a mão que pendia do tabuleiro, na Morgue, e a beijasse. O Buíça ficou como um desses heróis de quem não se fala, desconhecido e recordado a medo. Quando lhe contaram o plano para matar o rei, ele disse, com uma espécie de sensualidade brutal: “Agora que eu tinha em vistas uma rapariga…” Pensava casar-se e ter filhos; é surpreendido por aquele contratempo que lhe pede o melhor das suas forças, numa caçada à presa real, um acto terrível mas que o transtorna de felicidade. Matar o rei é arrastar a coroa dele e, por um momento, coroar-se a si próprio com ela.

Guerra Junqueiro, do alto da sua pequena estatura, da sua combinação de paixão política e ferocidade poética, declama: “O atentado foi obra única de dois homens. E, contudo, as balas de morte partiram da nação”. Ele diz “única”, sublinhando, porque sabe que o Buíça e o Costa foram os sequazes, os servidores dum processo que nunca ficou esclarecido. Era a revolução o que se queria evitar, e matar o rei consistia num golpe que paralisasse a revolução? Seria aprovado o golpe de Estado, aprovado por altas personalidades do partido monárquico. Mas o rei não aceitou pactuar; estava talvez possuído duma cólera contra os seus cortesãos, os mais dedicados, os mais leais e que o iam trair a qualquer momento, para assegurar uma vida tranquila com as suas esposas moralistas e as amantes dispendiosas.

© Guerra &Paz editores, Agustina Bessa-Luís. Reprodução Interdita.

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