ABRUPTO

10.4.06


AGUSTINA BESSA-LUIS
FAMA E SEGREDO NA HISTÓRIA DE PORTUGAL


Eu cresci na secreta dependência moral do afonsismo. Meu tio-avô, Joaquim Bessa de Carvalho, teve uma vida prestigiosa na Baía, onde casou. Prosperou com uma frota para comércio de fruta, nesse tempo a laranja; mandada para Inglaterra, grande consumidora de compota. Os abastados negociantes da laranja, espécie de irmandade laica comungante dos princípios maçónicos, não se distinguiam pela cultura. Daí que meu tio-avô, ao enriquecer, se voltasse para as coisas que não teve tempo de aprimorar: os livros e o que neles estava escrito. Foi um dos sócios fundadores do Gabinete Português de Leitura, do que fui informada da primeira vez que fui à Baía.

Meu tio Joaquim, com nome impresso nas Enciclopédias, era um homem severo, de poucas graças. De resto, na família, os homens tinham fama de perigosos, ainda que amáveis quando lhes parecia. Meu tio Joaquim casou as filhas com doutores; o filho foi deputado na primeira República, e ele morreu de repente na sua chácara de Vila-Meã que mais parecia a datcha dum escritor russo, sem escritor.

Desde criança que eu ouvia o nome de Afonso Costa pronunciado com emoção e louvor. E a República pairava como um lábaro por cima do candelabro da sala de jantar de oito braços, estilo holandês mas de madeira de castanho. Afonso Costa, se não era o ídolo, era o que mais se parecia com um dos desses lares, ao lado do bengaleiro, à entrada. Falar de Afonso Costa era proibido como era proibido falar de Yavé na fé dos judeus. No meio do seu silencioso e quase fanático afonsismo, meu pai teve uma ideia genial: mandou-me educar pelas doroteias.

“Quem matou o Sidónio foram as mulheres”, dizia-se, com essa suficiência que têm as senhoras à hora do chá de antigamente. O Sidónio enchia a imaginação das mulheres que, como se sabe, tem lugar para tudo.

Afonso Costa e Sidónio faziam o contraponto de duas posições políticas ou de duas paixões politizadas. O primeiro foi odiado pelas medidas caudalosas de reacções profundas que tomou. O segundo foi amado pela erotização das massas que se julgaram ameaçadas pela revolução. Sidónio Pais inaugura no círculo do P.N.R. (Partido Nacional Republicano) uma medida chave que é o culto da personalidade. O P.N.R. era um partido criado por uma cimeira forte para apoiar uma figura capaz de mover as massas pela sua aura de iluminado. O que, em toda a Europa carente de todos os bens materiais e de cultura, iria dar frutos envenenados. Sidónio defendia um programa de governo presidencialista, no qual o presidente podia dissolver o Parlamento, tendo para isso nas mãos um poder, na sua essência, ilimitado. Egas Moniz avisou Sidónio Pais dos perigos que ele corria contribuindo para o colapso do P.N.R. A população estava do seu lado mas, excluindo as cidades de Lisboa e Porto, o país era um deserto de moral política e em que a propaganda a favor da nacionalidade, como preconizava António José de Almeida, não era prioritária. Por enquanto, o poder estava nas mãos de Afonso Costa. Só ele mantinha a calma tendo o Conselho de Ministros perdido o sangue frio quando a guerra com a Alemanha parecia iminente, dado o pacto luso-britânico. A guerra não era desejada na opinião de Brito Camacho; e, sobretudo, se Londres não apoiasse a intervenção de Portugal, ao menos a honra estaria salva. Brito Camacho tinha uma lucidez aguda e às vezes até cínica. Era ele quem dizia: “Não bulas na barriga ao macho enquanto come”, aludindo aos interesses obscuros que se geravam em volta duma guerra lucrativa para alguns. O movimento monárquico era irrequieto e, para mais, germanófilo e, em consequência, castelhano. “Antes Afonso XIII que Afonso Costa”, era um grito em surdina, mas que era ouvido nos círculos monárquicos.

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O fetiche tinha sido encontrado, o silêncio fora accionado e tanto os germanófilos, como os católicos e os monárquicos agruparam-se em volta de Sidónio Pais. A sua figura, a natural elegância que a farda favorecia, atraiu-lhe as boas graças das mulheres. O regime ditatorial que atribuíram a Sidónio não estaria naquilo que não passou dum breve culto da personalidade. A sua morte favorecia a República, era o que se podia supor. Mas sobretudo favorecia aquilo que já estava na forja, uma ditadura. Pelo que é indecifrável aquele assassinato no Rossio a que não faltou um toque maquiavélico a que tanto a grande política como a pequena política não são estranhas.

Afonso Costa definia-se pela grande política, vinculada às grandes questões, a defesa, a conservação das estruturas económico-sociais. Os seus rasgos elementares mas derivados duma oposição cerrada, desacreditaram-no como homem e como político. O provincianismo que se respira nos ares da pequena política, em que as questões parciais e as lutas de partidos enfermam da ambição de serem elementos indispensáveis da grande política, tornam Afonso Costa um refugiado da República. Foi julgado como homem desonesto, mas não como homem político em profundidade, ou seja, que, cumpra ou não com os seus compromissos, fale à sociedade que pretende e deseja transformar.

Sidónio Pais morre, se não heroicamente, então digamos como a mola duma máquina que atingiu o limite da sua duração. Para ganhar eleições, como se queria, mobilizando um eleitorado cada vez mais desgastado pela República radical, era preciso controlar o Governo; mas aqui interveio a personalidade de Sidónio (que cedo ou tarde acaba por se manifestar no decurso dos objectivos políticos mais genuínos) quando ele pensou criar um partido único de massas. Não teve êxito, era o princípio do partido único que o espírito castrense aprova, mas Sidónio era muito popular e, como Presidente da República, o fetichismo triunfava. Ele era um homem de acção, ou parecia ser, porque a sofreguidão da felicidade cria os seus próprios mitos. Quis fazer o que faz um homem tímido a quem oferecem a glória mais do que o êxito: quis conhecer os portugueses, apertar-lhes a mão e visitar os doentes nos hospitais. Ignorou um dos princípios fundamentais do poder — defender-se da missão histórica e guardar a distância entre dirigentes e dirigidos. O seu porte militar foi, por muitos anos, um atributo indispensável para se assumir a Presidência.

O fraco de Sidónio Pais era o de querer fazer da sua ambição um charme. Ora, ou há ambição, ou charme. Sidónio rodeou-se de gente nova a quem a própria infusão erótica da juventude fazia parecer optimismo. Duma hora para a outra, o favor dos jovens cai no esquecimento e eles próprios não se reconhecem no que amaram tão sinceramente. Chamaram a Sidónio “homem honrado”, o que é sempre um perigo para quem julga que a honestidade faz votos. Quem vota ou é um transgressor, pequeno ou médio, ou está para o ser. A transgressão é óleo da máquina política; faz com que esta role melhor, sem parecer que depende da lei da gravidade.

O que em Afonso Costa era arrogância, que serve no Parlamento, em Sidónio Pais era coragem, que depende da sugestão ou experiência das trincheiras. A coragem requer perseverança, o que faltou a Afonso Costa quando se exilou para Paris com o pretexto de que em Portugal um rapaz de doze anos andava armado. Mas a coragem pode conter um pouco de terror, como creio ter acontecido com a viagem de Sidónio ao Norte e a sua convicção de ter de fazer algo necessário ou algo que esperavam dele. O contrário era perder os seus galões e o significado dado à sua política-paixão.

A fórmula de Léon Blum “O poder é tentador. Mas só a oposição é confortável”, parece ter estado no pensamento de Afonso Costa. Concebe-se plenamente que, em dado momento, preferiu criar as bases duma oposição, a usufruir o poder que é, afinal de contas, mais cedo ou mais tarde “uma norma”. Como chefe do executivo, Afonso Costa estava contrafeito e Sidónio era naturalmente adequado. Mataram-no precipitadamente porque defendia a neutralidade. É evidente que no plano das definições Afonso Costa era um jacobino. Aplicava o absolutismo à soberania popular, sendo o seu dom da palavra uma forma de execução sumária. Nem por um momento deve ter dado atenção a Sidónio Pais senão para garantir as relações de força que tinha que ter em conta para mover os interesses económicos ao seu alcance. A sua paixão não era a política nem o que dela advém, mas os interesses económicos, aquilo com que se lucra ou se perde, o preço, em suma. Ele vinha duma província solitária, franzina na sua produção, trabalhosa e com pouca margem de rendimento. Ao mesmo tempo, propunha ao país ideias demasiado avançadas para o seu grau de instrução. Para o povo as medidas tomadas de rompante por Afonso Costa, ou eram heresias ou então significavam privilégios para os mais ricos ou os mais astutos. Atribuíam a Afonso Costa uma fortuna de nababo e dizia-se que tinha na serra um palácio; não passava dum chalé à moda suíça, como convinha, achava ele, a uma paisagem de neve.

© Guerra &Paz editores, Agustina Bessa-Luís. Reprodução Interdita.


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