ABRUPTO

19.1.06


COISAS DA SÁBADO: ALEGRE, QUE DIZER DE ALEGRE?



Todas as semanas tento descobrir alguma coisa que caracterize a campanha de Alegre e encontro sempre o mesmo: o tema da campanha de Alegre é a candidatura de Alegre, as suas razões, as suas vicissitudes, os ataques do PS, as aleivosias do “aparelho” do PS, e o hiper-elogio da grande coragem, do magnífico “acto de cidadania” que foi fazer uma candidatura nestas circunstâncias. Alegre apresenta-se sempre como “o homem que ninguém cala”, como se fosse o único na política portuguesa com essa virtude.

Depois há algumas coisas que foram esboçadas nos documentos iniciais da candidatura, um patriotismo “orgânico”, telúrico, histórico, identitário, que valeria a pena discutir, se tivesse tido algum desenvolvimento no quotidiano político da candidatura, e há o homem Manuel Alegre que, no cinzentismo dominante da nossa política, tinha mais corpo do que é habitual, voz alta, prazeres fortes, raízes, obra e vida. Mostrou moderação e gentlemanship, qualidades que partilhou com Jerónimo de Sousa e contrastavam com Soares e Louçã entre os opositores de Cavaco. Mas também isso ficou pelo caminho de uma campanha que nunca se ergueu de toda uma mitologia da “cidadania”, permanentemente auto-elogiosa, e demasiado presa ás suas circunstâncias para ganhar dimensão. Mas por que raio, em 2005-6, fazer uma candidatura dissidente no PS é assim uma coisa tão corajosa que justifique andar três meses a encher o peito?

Alegre na sua campanha acaba por gerar os efeitos contrários à mensagem que quer passar, porque sobrevaloriza o “acto de cidadania” que é, num partido democrático num país democrático, candidatar-se contra a liderança. Big deal. Estamos em democracia, o máximo que se pode perder são alguns lugares, posições e prebendas. Eu sei do que falo, talvez por isso não me incline para passar o tempo todo a dizer que isso é uma grande coragem. Coragem era antes, antes do 25 de Abril, ou no PREC, agora são peanuts. Pelo modo como está permanentemente a incensar-se Alegre acaba por desvalorizar a verdadeira coragem política, a favor de um acto de rebeldia, um pouco incómodo pessoalmente e desgastante, mas nada que Alegre não possa suportar como consequência da sua decisão de homem feito.

O segundo efeito desta candidatura é mais verdadeiro, e mais preocupante. Actuando o candidato Alegre nos “meios” PS e estando o PS no governo, o que Alegre nos diz é que nos partidos políticos, neste caso em particular no PS, o conformismo e a obediência são a chave para os lugares, as cunhas, os múltiplos serviços que um socialista pode tirar do seu partido no governo, para si, para o seu emprego, para os seus, para o filho que quer empregar numa autarquia, para a filha que quer ver numa repartição. Aí sim, a candidatura de Alegre revela o clientelismo partidário e os seus mecanismos, e esse é o “medo” de que ele está a falar. Não é do “medo” dos portugueses em apoiar a sua candidatura, bem vista por boas e más razões “à direita”, mas sim do “medo” dos socialistas com as represálias do seu partido. Quisesse Alegre ir mais longe por aqui e o seu discurso político teria utilidade, mas mesmo que o fosse, era pouco para uma candidatura presidencial.

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O simples facto de a candidatura de Alegre por a nu os mecanismos de fidelidade canino-partidária e as punições que esse sistema impõe aos “rebeldes” é já em si um valor acrescentado. Não necessitei de ler o seu post para perceber que o medo de que Alegre fala não é o medo físico dos tempos da PIDE e do PREC, mas o medo “sociedade de consumo estatizada”. Com 50% do PIB a passar pelo directamente pelo Orçamento de Estado e 700.000 funcionários públicos (ao que há que acrescentar as empresas controladas pelo estado, GALP, CGD, EDP. etc., e as empresas municipais, entre outras) tornou- se fácil aos partidos criar uma cadeia de Estado-dependentes e com isso comprar a fidelidade canino-partidária dos seus dirigentes e militantes activos. E numa sociedade onde o status económico e o consumo de bens de ostentação se tornaram um forma de “cidadania” o medo de perder lugares e respectivas prebendas é tão ao mais poderoso do que o velho medo da PIDE. Só quem não quer perceber isto pode dizer “big deal / peanuts” face à atitude de Alegre e de alguns membros do PS que o apoiam. Como membro de um partido e tendo já tido ao longo da sua vida diversas fricções com a respectiva cúpula, você sabe bem do que Alegre fala. Pode não ser aos seus olhos tão nobre a coragem de enfrentar o medo da “sociedade de consumo estatizada” do que enfrentar o medo da PIDE, mas cada época tem os seus medos e as suas formas de coacção. Seria muito estranho que no inicio do Sec XXI e numa sociedade com quase 30 anos de democracia fosse o poder da força que imperasse e não formas mais subtis e sub-reptícias de influenciar os comportamentos. Você já se referiu diversas vezes essas novas formas de poder,a essas ditaduras “soft”, encapotadas, por isso não percebo porquê que agora desvaloriza quem as enfrenta por comparação com tempos e formas de poder que já lá vão. Para o bem e para o mal, nos tempos que correm é este tipo de desprendimento de relativamente a prebendas e benesses vindas do Estado que marca a coragem de enfrentar os interesses instalados à mesa do orçamento, e são poucos os que têm essa coragem. Há que valorizá-los.

(Miguel Sebastião)

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