ABRUPTO

17.1.06


APRENDENDO COM MANUEL BERNARDES / ESOPO

No tempo em que o lobo e o cordeiro estavam em tréguas, desejava aquele que se oferecesse ocasião para as romper. E um dia, que ambos se acharam na margem de um regato, indo beber, disse o lobo mui encolerizado contra o cordeiro:
- Porque me turvais a água que eu vou a beber?
Respondeu ele mansamente:
- Senhor fulano lobo, como posso eu turvar a v.m. a fonte, se ela corre de cima e estou cá mais abaixo?
Reconheceu o adversário a clareza da solução do seu argumento; porém, variando de meio, instou, dizendo:
- Pois, se a não turvaste agora, a turvaste o ano passado.
Satisfez o cordeiro, dizendo:
- Como podia eu cometer esse crime haverá um ano, se eu não tenho ainda de idade mais que seis meses?
Então o lobo, enfadado tanto mais quanto mais convencido, disse:
- Pois se não fostes vós, foi fulano carneiro, vosso pai.
E investindo ao pobrezinho, o levou nos dentes.
Assim fazem os ímpios e maliciosos, a quem não há inocência que satisfaça, nem desculpa que contente. Porém os de coração pio e clemente até nos seus ofensores procuram achar motivos de comiseração e razões de desculpa.

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© José Pacheco Pereira
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