ABRUPTO

4.10.05


NOTAS TRANSMONTANAS:
A CAMINHO DO "CALIPSO"


1.

A caminho do “calipso”, como ouvi chamar ao eclipse. “Vai ver o calipso?” Vou, vou.

2.

Fique já esclarecido que nada me move contra as energias renováveis, cujos méritos são imensos. Compreendo que algum sacrifício se paga sempre, e que não há, também aqui, almoços grátis. Mas basta andar pelo país para se perceber que estamos no limiar de o estragar ainda mais do que já está. Muito mais, mesmo muito mais, enchendo-o de eólicas, por todo o lado. Se as que já estão colocadas são, como se sabe, uma ínfima parte das que se prevêem, vamos ter um problema sério. Surpreendentemente, ou talvez não, pouco se lê sobre isto nos jornais e quase nada se ouve dos nossos ecologistas quanto a mais este sinal de desorganização da nossa paisagem. O Marão está cheio delas, e a vista límpida das serras transmontanas acabou já como paisagem natural.

3.

Era mesmo preciso colocar uma solitária eólica em cima de um dos Cornos do Barroso, um dos lugares simbólicos da serra, visível a muitos quilómetros de distância? Era mesmo necessário colocar uma ventoinha num dos Cornos, tornando tudo aquilo ridículo de se ver, como se alguém enfiasse um boné daqueles com uma vira-vento em cima na montanha? Ao menos coloquem já uma outra ventoinha no outro Corno para ficar completamente ridículo e a gente se esquecer de vez do Barroso, dos seus bois, da sua cultura pastoril, do seu relevo ondulado e manso…

4.

Incêndios, incêndios por todo o lado.

5.

Rotundas, rotundas, rotundas, por todo o lado. Em Chaves, vi uma no meio duma rua que não tinha nenhum cruzamento. A meio, de repente, uma rotunda que não distribui trânsito nenhum, para quê? Todas com estátuas, emigrantes, burros, camponeses, blocos de ferro a saírem de correntes, uma torneira, antas, monólitos diversos, monumentos grandiosos ao desperdício. Em meia dúzia de pequenas cidades, devemos ter mais estatuária urbana do que em Berlim. Muitas destas terras não têm saneamento básico.

(Continua)

*
O que vamos fazer ao país com os parques eólicos é o mesmo que fizemos com o turismo no Algarve e com a floresta no centro e norte do país: a utilização dos recursos naturais do país sem regras nem critérios para além da habitual cegueira do dinheiro fácil. Depois, daqui a 20 ou 30 anos, há-de haver os mesmos debates e indignações a que agora nos dedicamos afincadamente a pretexto dos erros que cometemos nos últimos 20 ou 30 anos.

Já vários bloggers se referiram a este problema (eu, há quase um ano e a propósito de mais um momento ridículo da política nacional, em A Natureza do Mal há algum tempo, bem como noutros que a minha memória perdeu); obviamente, agora que o tema foi trazido à tona no Abrupto, ganhará uma visibilidade que os grupos ambientalistas (estranhamente?) nunca procuraram para este problema, mas temo que seja tarde demais. Aliás, creio que em qualquer altura teria sido tarde demais. Lembro-me de há 20 anos se dizer dos eucaliptos o que o Diabo não disse da cruz e nem por isso o descalabro anunciado continuou -- e continua, mesmo depois dos últimos verões -- a ser preparado.

(Eduardo Basto)
*
Sabe o que me aborrece mais nas rotundas? Não é o dinheiro que custaram, a tacanhez que muitas vezes representam, a estátua pindérica lá em cima. É que na relva e florzinhas das rotundas, naqueles jardins de anedota, esgota-se o orçamento municipal para espaços verdes. Depois os miúdos jogam futebol nas playstation , os “shópingues” servem para passeio de domingo e o autarca moderno, regressado de mais uma viagem de confraternização com a cidade “germinada”, promete construir o grande parque como viu lá fora quando os da cor chegarem ao governo e libertarem aquela verbazinha...
(Teresa)

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© José Pacheco Pereira
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