ABRUPTO

10.10.05


BIBLIOFILIA: ANTIPASTI (3ª série)


Já conhecia quase todos os textos do livro do Vasco Graça Moura, Lusitana Praia. Ensaios e Anotações, mas prendi-me em dois, que nunca lera, sobre Aquilino Ribeiro. Li-os e a seguir uma série de artigos de jornal de José Cardoso Pires, também sobre Aquilino, coligidos em Dispersos 1. Literatura da Dom Quixote. Um efeito de Aquilino é visível nos dois autores: os seus textos, mesmo ensaísticos, assumem um registo vocabular … aquiliniano, como se fosse impossível escrever sobre o Mestre (*) sem ficar impregnado pela sua escrita.

Os dois textos do Vasco são mais interessantes do que os de Cardoso Pires, que se repete no efémero dos artigos de jornal, embora algumas observações autobiográficas de Pires retratem muito bem o "tempo" da sua leitura de Aquilino. Ambos se perguntam sobre o dilema de uma obra reconhecida por todos, mas pouco estudada e aparentemente só comunicando com literatura regionalista menor. Vasco analisa bem o “mundo” social que Aquilino conhecia, onde se movia como ninguém e como é cada vez menos legível nos nossos dias o “festival da língua portuguesa” que é A Casa Grande de Romarigães.

Eu, que sou amador de citações, registo uma de Aquilino, apropriada para os tempos de hoje, onde, em vez de Minho, se pode colocar o nome da Divisão Maior onde vivemos:

"A gente desta Casa, até a altura em que chegaram os do meu sangue, tem as virtudes e os defeitos em inho, honradinho, bonzinho, marotinho, ladrãozinho. É um côvado especial para esta província, cujo nome precisamente parece mesmo o eco de tais dimensões."


* Cardoso Pires explica porque razão nunca usava este título quando se dirigia a Aquilino:

"Por pudor, nunca a tratei em vida por Mestre. Era um lugar-comum dos cavalheiros das letras cumprimentarem-no dessa maneira e eu não queria, nem quero, misturar-me com esses perus. Ele, que tinha sete sentidos e mais um, também não alinhava no mote e lá tinha as suas razões.

Mestre. Poucos, raríssimos escritores foram tão enaltecidos como Aquilino pelo lado fácil da leitura ou pelo oportunismo insidioso. Salazar, que era de letras canónicas e carnívoras, louvou-o (não sei se se lembram) pelas seduções clássicas e rurais e passou palavra a alguns ministros que logo disseram que sim: no fundo, tratava-se dum republicano beirão e de boa sintaxe, julgavam eles, nada a temer: imprimatur e siga a barco. Quanta a velhada conservadora, Aquilino era o Arcanjo Negro que traçava a pena de ouro o Portugal desmantelado pela miséria dos talassas e pelas oratórias parlamentares: tratava-o como um São Malhadinhas de pôr na estante ao lado do seu Anatole e lia-o em caricatura de caçador da Serra da Nave, arma à bandoleira e lábia grosso, sá instinto. Da malta nova nem vale a pena falar, pegava-lhe, se lhe pegava, a correr e com preconceito: Aquilino era prosa telúrica e serrana. Um matagal."

(Apoiando a tese do Vasco, sobre a nossa rápida diminuição do património das palavras, o corrector ortográfico fica mais que perplexo com o vocabulário dos três: Aquilino, Cardoso Pires e Vasco Graça Moura.)

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© José Pacheco Pereira
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