ABRUPTO

14.10.05


ALGUMAS NOTAS PÓS-AUTÁRQUICAS

PSD

1. O PSD ganhou as eleições, de forma inequívoca. Ter tido este resultado, meses depois da derrota estrondosa de Fevereiro, tem significado nacional. Não há volta a dar a este facto.

2. Para a noite das eleições autárquicas estava prevista uma ofensiva contra Marques Mendes. Não era segredo para ninguém e tinha sido antecipada por Valentim, Isaltino, Menezes, Lopes e alguns outros que andam “por aí”. Apesar do PSD ter perdido em Oeiras e Gondomar, duas autarquias importantes, o apoio da opinião pública ao corte com esses autarcas, e o sucesso no resto do país, travou esses ímpetos. Com as presidenciais à vista não se vê que tão cedo haja condições para essa contestação activa.

3. Mas a liderança de Marques Mendes tem muitas fragilidades, umas próprias e outras que reflectem a situação calamitosa em que o partido se encontrava depois de Lopes. O que Marques Mendes conseguiu, deveu-se a um combate pela credibilidade que tem duas vertentes: a ruptura do partido com alguns casos flagrantes de má fama publica dos seus políticos, e a tentativa de um estilo diferente de oposição. É um bom princípio, mas é preciso ir muito mais longe, porque o PSD (como o PS) está muito corroído por dentro e seria um erro trágico pensar que já se fez o bastante. Se se quer mudar mesmo, tudo no partido precisa, em linguagem informática, de um upgrade.

4. Espanta-me que não se note, com o devido valor, que o PSD, tem tido um registo de oposição bem mais sério e responsável do que alguma vez teve no passado o PS e o próprio PSD. O estilo prepotente e clientelar do governo do PS traduz mais continuidade nos erros, do que o da oposição. É verdade que, num ou noutro caso, Marques Mendes tem hesitado e feito críticas demagógicas, mas elas são mais a excepção do que a regra.
Diferentemente da oposição feita pelo PS, a oposição do PSD não se colocou ao lado dos grevistas e manifestantes, apoiou o governo na sua posição face a militares e juízes, não fez demagogia com os incêndios, elogiou medidas na educação sem qualquer “mas”, e excluiu qualquer leitura nacional dos resultados autárquicos. Tudo exactamente o contrário do que fez o PS, basta ir aos relatos das sessões da Assembleia. Leitura nacional queria o PS fazer se elas tivessem corrido bem, como se viu pelas declarações de Jorge Coelho, e como o PS fez nas últimas europeias.
Isto é muito positivo, porque retira da lógica redutora situação / oposição a avaliação do governo, e dá mais força às críticas. Tem, no entanto, dois problemas: na nossa cultura política e comunicacional parece uma oposição “frouxa”, e é como o tango, precisa de dois protagonistas para poder ser dançado. Ora essa viragem, o PS e o governo não a deram, bem pelo contrário. Continuam com o estilo antigo.


PS

A nível nacional o PS perdeu bastante mais do que pensa. As medidas difíceis do PS, em particular aquelas que atingem interesses corporativos, são nacionalmente mais populares do que impopulares. A condenação da opinião pública em relação às greves sectoriais, seja dos professores, dos militares, dos polícias, dos juízes, dos funcionários públicos, tem sido generalizada. Não penso que são as medidas difíceis, que mais pesaram na avaliação negativa do governo que facilitaram estes resultados autárquicos. Bem pelo contrário, parece-me desculpatório do governo pensar assim.
Foram outras coisas que pesaram: a mentira sobre os impostos, o estilo prepotente e autista do Primeiro-ministro, as sucessivas nomeações partidárias tidas como incompetentes, o Verão de ausência quando o país ardia, a queda do Ministro das Finanças, as trapalhadas com a OTA e o TGV, a errática política económica. E também a escolha de Mário Soares como candidato presidencial, a sucessiva ocupação de todo o estado pelos socialistas, um sinal péssimo para os mecanismos de equilíbrio da democracia. Tudo junto se resume numa só coisa: dotados de condições excepcionais pelo voto dos portugueses, o PS revela-se incapaz de gerar confiança e credibilidade. Chega para perder eleições.

POPULISMOS

O populismo reinou nesta campanha, com duas excepções importantes, Lisboa e Porto, onde parece ainda haver uma massa crítica eleitoral que o trava nas suas manifestações mais extremas. Mas, mesmo assim, convém ser prudente, porque o populismo continua a ser o mecanismo mais fácil para fazer campanhas de sucesso garantido, pela simbiose entre o populismo moderno e os meios de comunicação de massas, em particular a televisão. Felgueiras, Valentim, a nível local, e Louçã a nível nacional, foram os políticos que fundaram a sua campanha quase que exclusivamente num apelo populista sem freios. A eles se deve somar Pinto da Costa, na conturbada campanha do Porto.


POPULISMO REGIONALISTA

“Quem manda em Gondomar são os gondomarenses”, “Felgueiras para os felgueirenses”, foram uma de muitas formas deste populismo. “Para além do Marão mandam os que lá estão”, dizem os transmontanos. Só que o Marão é uma montanha e como todos sabem, não é verdade o que diz a frase. Jardim, que diz o mesmo da Madeira, também ilude os que o ouvem.
Tudo isto é errado, como é óbvio, em democracia. Em Gondomar e Felgueiras quem mandam são os portugueses, as leis portuguesas, o governo português, o parlamento português, os tribunais portugueses, e, no âmbito das suas competências, os autarcas eleitos.

ISOLAMENTO, REGRESSÃO

É o que podem esperar terras como Gondomar e Felgueiras. Os seus resultados eleitorais podem traduzir uma reacção bairrista, mas, nas suas livres opções eleitorais, os seus munícipes fizeram mal às terras: condenaram-nas a uma marginalização, a que cada passo das relações entre o poder local e nacional seja escrutinado sem complacência. Se os processos judiciais transformarem inocências (actuais) em culpas, Felgueiras e Gondomar conhecerão crises políticas e serão vistas como locais de má fama. Os eleitores são, no acto de votar, tão politicamente responsáveis como aqueles que elegem.

COMUNICAÇÃO SOCIAL I

Não gostava de Rio, nem de Carrilho e fez a vida negra aos dois. São casos em que uma antipatia corporativa, tornada colectiva pelo “pack journalism” que temos, se manifestou dando o carácter de “causa” à cobertura comunicacional.
Há diferenças nos dois casos. Ainda Rio não tinha começado a sua presidência já era sujeito a uma campanha de ataque vinda dos jornalistas do Porto, que nunca esmoreceu um segundo até à sua reeleição. O “sistema”, para usar uma expressão futebolística, criado pelo PS de Fernando Gomes no Porto, englobava todos os agentes comunicacionais, jornalistas, “artistas”, meios da cultura subsidiada, intelectuais, instituições. Quem hoje vê a imagem de Gomes, esquece-se até que ponto ele foi intocável enquanto presidente da Câmara do Porto, de braço dado com todas as “forças vivas” da cidade, do futebol à animação cultural. Todas essas pessoas deserdadas fizeram uma guerra sem tréguas a Rio e, fosse este mais pusilânime, bem o podiam ter corrido do lugar. Em consequência, Rio era tratado de forma mais equilibrada nos jornais lisboetas, na proporção directa do afastamento destes dos lobis portuenses.
Carrilho, por seu lado, nunca percebeu que se quer ter mãos livres para criticar a comunicação social não se pode pretender nuns dias fazer uma campanha eleitoral à americana, com esposa célebre e filho, noutras como Lang modernaço, árbitro do gosto pós-moderno, superior ao vulgo ignaro que vê, mais do que lê, a Caras. Não cola, não colou. A comunicação social tomou-o de ponta nem sempre por boas razões, mas não foi por criticar a comunicação social que Carrilho perdeu (Rio fê-lo e ganhou). Foi porque ninguém sentia a menor vontade de lhe acudir e todos de lhe bater.

COMUNICAÇÃO SOCIAL II

Já escrevi isto a propósito de outras campanhas do passado, porque não é uma pecha recente, mas tem que ser repetido: a comunicação social descreveu esta campanha como um nojo, uma abjecção contínua, uma luta mesquinha e sem grandeza. Se formos a ver, já há muito tempo que descreve assim todas as campanhas eleitorais, sejam elas quais forem. Abriu uma excepção: elogiou Maria José Nogueira Pinto, mas fê-lo de forma utilitária para servir de contraste para atacar Carmona e Carrilho,
Esquece-se de uma coisa básica: que diferença fez em relação a candidatos que se esforçavam para ser diferentes e que, por não serem um “nojo”, não interessavam nem ao menino Jesus? Ignorou-os e ajudou a que eles perdessem. Quantas pessoas, quantos candidatos, em muitos sítios se esforçaram por fazer diferente? Nem um? Duvido, isto não é Sodoma e Gomorra. Quanta gente séria e esforçada foi pura e simplesmente ignorada para se correr atrás do lixo, que tanto critica para, no fundo, o promover às luzes da ribalta. É que, meus caros amigos, a ecologia de visibilidade da campanha, só tem uns mediadores em democracia, os meios de comunicação social. E esses, de há muito, escolhem mostrarem apenas o que vende e o que lhes convém para moralizar os costumes. Como se dizia da Internet: mete-se lixo, sai lixo.
Já é assim há muito tempo, fazem o mal e a caramunha.

(Do Público)

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Comentando o último artigo de J. Pacheco Pereira no PÚBLICO, sem dúvida que estou de acordo quando à ideia geral de o PSD estar a ter «um registo de oposição bem mais sério e responsável do que alguma vez teve no passado o PS». Simplesmente um apoio ingénuo do PSD na área da educação «sem qualquer ‘mas’» é um «remake» do que conduziu o ensino ao estado desastroso a que chegou, ou seja, ontem como hoje o PSD não conseguiu e não consegue definir uma política autónoma sobre o ensino/educação. Se não existem visões pluralistas para o sector com peso efectivo no espaço público, dando voz a diferentes segmentos de opinião como devem fazer as democracias, é porque os partidos não têm feito por isso. São, nessas matérias, «marias-vão-com-as-outras». Aí o PSD tem graves responsabilidades.

Poderei estar de acordo com algumas medidas do actual governo (pelo menos com regresso às escolas de muitos professores ou com as aulas de substituição), mesmo se feitas na base de um populismo inconsequente. Mas a verdade é que as questões estruturais continuam na mesma: gestão das escolas, indisciplina, número de alunos por turma (continuamos na casa aberrante dos 28), sistema de avaliação (onde se tem de discutir de modo consequente a questão dos exames nacionais em final de ciclo e repensar a escala de avaliação de 1 a 5), questões curriculares (disciplinas como «Área de Projecto», «Formação Cívica» e «Estudo Acompanhado» reproduzem uma perspectiva revolucionária de criar o «homem novo» através de um «novo aluno», precisamente à custa da desvalorização dos saberes científicos e estruturados e atentam contra a própria dignidade exigível a um espaço simbólico como a sala de aula, sendo que elas têm outros efeitos gravemente perniciosos que me dispenso de enumerar e foram introduzidas por visionários sem qualquer debate público minimamente sério) e, é claro, a ideologia chamada «ciências da educação». Esses e outros assuntos deveriam ser tratados em conjunto e as reformas apresentadas como um projecto sólido.

Reformar a conta-gotas e mexer no que é secundário só revela que não se sabe ao certo o que se quer (porque não se conhece o terreno e nisso governantes e sindicalistas são irmãos gémeos) e fazê-lo desse modo leva a que os agentes no terreno não entendam para onde se quer caminhar. Assim, medidas positivas, sendo pontuais, são rapidamente anuladas por tudo o que de negativo anda à sua volta, até pela forma sobranceira com que se tratam os profissionais, mesmo aqueles que, eventualmente, poderiam estar disponíveis para a mudança. Assim o que se consegue é que quem está dentro do sistema e é decisivo para as reformas tende a estar contra e os que apoiam estão fora e só com o tempo entenderão (se é que chegarão a isso) como as resistências silenciosas são, de todas, as mais perniciosas e nefastas. Se partidos como o PSD não acordarem para democratizar as ideologias e políticas de ensino, daqui a uma década provavelmente cá estarei para confirmar que tudo estará quase na mesma, como venho escrevendo desde 1998. Portanto, o Dr. Marques Mendes e o PSD deverão apoiar o que acham que devem apoiar, mas isso é quase nada. Mais importar é explicar as razões dessas tomadas de posição num contexto de um projecto estruturado que tenham para o sector. Aliás, por muita razão que este ou futuros governos tenham no que fazem, vivemos numa democracia que não vive de cheques em branco.

É preciso que os partidos cheguem às eleições com programas estruturados para a educação para, depois, não perderem a legitimidade aquando da sua aplicação. Veja-se a nulidade que eram os programas eleitorais de todos os partidos para a educação. Simplesmente lamentáveis. Irá o PSD repetir isso no final desta legislatura?

(Gabriel Mithá Ribeiro)

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Essa dicotomia entre comunicação social do Porto (má) e comunicação social de Lisboa (boa) parece no mínimo enviesada. Poderíamos fazer outras dicotomias sobre a comunicação social mais fáceis de compreender: Informada sobre a cidade (Porto) vs desinformada sobre a cidade (Lisboa); "Supportive" da cidade (Porto) vs "Desconfiada" da cidade - para não dizer "opponent" - (Lisboa) ou ainda, porque ninguém deixa de ter os seus interesses: beneficiária dos "lobbies" da cidade (Porto) vs beneficiária dos "lobbies" de fora da cidade (Lisboa) (sejam eles económicos, políticos, futebolísticos ou outros)

- A comunicação social do Porto, tal como eu eleitor, não apoiava Rui Rio porque não via qualquer dinâmica de desenvolvimento e afirmação da cidade e não aceita como é que o Presidente da Câmara do Porto não quer ter um papel (que politicamente não existe) de liderança para além da CMP, tendo uma visão reducionista do seu cargo. Por outro lado, a comunicação de Lisboa apoiava Rui Rio porque via nele um contraponto a alguém que é por eles detestado (Pinto da Costa) e alguém com um perfil não reivindicativo de uma maior distribuição de fundos públicos ou de capital político (tão necessário em casos como a Petrocer, a venda da Portucel à Sonae a construção da OTA, entre outros casos). Tanto uns interesses como outros são legítimos só que uns beneficiam a cidade e os seus cidadãos e outros não.

A vitória de Rui Rio deve-se principalmente ao castigo nacional dado ao PS, à influência da comunicação social de Lisboa ("nacional"), que é incomparavelmente mais forte de que a meia dúzia de jornalistas do Porto, e à incapacidade de, no tempo de duração da campanha, sobressair um candidato alternativo. A vitória, não se deve a qualquer convicção da cidade que Rui Rio é o Presidente que vai ter um papel na melhoria das suas condições de vida (sejam elas económicas, afectivas ou de bem-estar). Aliás, comparando a dimensão da vitória de Rio (presidente re-eleito) com Carmona, fica clara a desconfiança que continua a existir relativamente a Rui Rio

Se fosse o Dr. Rui Rio Presidente da Câmara há 15 anos, não haveria Metro, Serralves, Casa da Música ou Rivoli e não haverá (tal como hoje, diga-se) o dinamismo económico necessário ao desenvolvimento da cidade. Este é o meu grande temor: que a sua vitória não se traduza em nada de positivo para a cidade.

(Hugo Enes)

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