ABRUPTO

11.10.04


O PORTO DEBAIXO DO IMENSO VENTO

Recordação recente, memória antiga. Vendo de noite as árvores do Palácio, as grandes tileiras batendo umas contra as outras, sob uma chuva de folhas. Não se via o chão, tantas as folhas. Um ruído que passeava surdo, de árvore em árvore, no meio das ruas interiores, às escuras. Ameaçador, mas familiar. Não sei quando, há muitos anos, mas já devo ter visto este vento por aqui. Uma trovoada súbita nestas mesmas árvores, toda a gente a fugir dos restaurantes que havia na rua. Rua? Se a memória me não falha “avenida”, talvez “Avenida das Tílias”. Lojas de farturas? As emissões experimentais da televisão num barracão? E de repente chuva e vento e uma ameaça. Lembro-me hoje para trás, será que nesse tempo me lembrava para a frente? Suspeito que sim, suspeito que sabia já deste momento, num Palácio de absoluta ficção, sem farturas, sem restaurantes, sem televisão a preto e branco, sem inocência. Sabia que ia ser assim.

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© José Pacheco Pereira
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