ABRUPTO

11.10.04


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: DERRIDA

"Morreu Jacques Derrida. No longínquo ano de 1980 colaborei numa das primeiríssimas traduções integrais (registe-se hoje: imperfeita) que ele conheceu em Português. Não ganhei, por isso, inscrição em qualquer galeria; na verdade, nunca o conheci nem vi pessoalmente e muito do que fiz ou pensei depois seguiu por caminhos e linguagens bem diferentes. Mas a obrigação de respeito pelo dizer e pelo pensar de outrém em que aquela tradução me instituía, deixou em mim um vínculo compreensível que a notícia da morte me torna dolorosamente claro.

Na conjuntura geocultural das décadas que se seguiram, tornou-se impossível pronunciar o nome de Derrida sem activar de imediato um sistema de oposições binárias que (prolongando no plano da cultura outras guerras menos “florais”) opõem a deliquescência do “francesismo” à sólida tradição anglo-americana, o desconstrucionismo (entendido sem mais especificações como sinónimo de relativismo) ao racionalismo epistemológico e ético, o “pensamento de 68” à tradição liberal, etc., etc.

Pessoalmente, não poderei dizer que essas oposições sejam em absoluto infundadas (e que o “derridaísmo” internacionalizado não tenha mesmo sido mesmo um dos seus pilares). Para o José Pacheco Pereira, no entanto, considerados muitos dos seus textos, tais oposições parecem muitas vezes matéria de facto.

Sabe-se como estes sistemas classificação para consumo alargado, uma vez instituídos no espaço intelectual e mediático, facilmente funcionam por si mesmos (tanto para os epígonos como para os adversários), para além de qualquer escuta efectiva e de qualquer desejo de pensar. Talvez, por isso ao ler hoje esta entrevista impressionante ao Le Monde de um homem e de um pensador que (sabemo-lo nós agora) sabia então que morreria em breve, dei comigo a pensar que o José Pacheco Pereira não desdenharia (nem pelo tom nem pelo conteúdo) afixá-la nesse espaço singular de comunicação pública que é o seu “blog”.
"

(Joaquim Torres Costa)

*

"Diz Joaquim Torres Costa que a entrevista de Derrida é impressionante. Também achei, como acho impressionante quase tudo o que leio de Derrida. Acho deveras impressionante a vacuidade filosófica e o pedantismo intelectual de Derrida, de que a entrevista ao Le Monde é um bom testemunho. Trivialidades embrulhadas num discurso oracular como « La survivance, c'est la vie au-delà de la vie, la vie plus que la vie» ou a conversa sobre aprender a viver e a ideia de que viver é sobreviver, insinuando que é preciso ser tranquilamente pessimista e pesaroso para se ser profundo. Aliás o que afirma tem tanto de trivial e desinteressante que nem sequer se dá ao incómodo de oferecer qualquer vestígio de argumento (quem sabe se para exemplificar a desconstrução a que o discurso lógico e racional deve ser submetido). Talvez por isso abundem associações vagas de ideias no lugar dos argumentos. Será por isso que sugere não haver mais do que umas dezenas de leitores competentes dos seus livros em todo o mundo?

Tudo indica que Derrida almeja a irrefutabilidade: se alguém mostrar que o que afirma é contraditório, inconsistente, ou simplesmente falso, ele pode sempre responder que não foi compreendido; pode até acrescentar, como o tem feito, que a ideia de contradição e de inconsistência precisam de ser desconstruídas (será que a ideia de desconstrução também tem de ser desconstruída e também ela não passa de mais uma narrativa como outra qualquer?) Nada do que se possa objectar atinge o alvo, até porque o discurso não tem «centro». Assim, Derrida consegue colocar-se olimpicamente acima da crítica e tornar-se irrefutável. Daí o estatuto divino, imune à crítica, que adquiriu na área de influência da cultura filosófica francesa, a qual, como sublinha Jacques Bouveresse, mais parece uma comunidade de crentes do que uma comunidade filosófica. Sim, porque fora daí, Derrida quase só é exportável para os departamentos de literaturas e de estudos femininos. Afinal de que serve discutir um filósofo irrefutável? Felizmente a esmagadora maioria da actividade filosófica mundial não perde grande tempo com vacas sagradas como Derrida, Deleuze, Lyotard e companhia. Bem pode Derrida apelidar-se de filósofo «intransigente» e «incorruptível» como, de forma insultuosamente pedante, afirma nesta entrevista."


(Aires Almeida)

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