ABRUPTO

14.9.04


A CARTA

Passa-se qualquer coisa com Bagão Félix, que está demasiado convencido de si próprio. Fica-lhe mal a ele, que é sem dúvida um dos membros mais capazes deste governo, como já o era do anterior, tanta soberba. Ele é o primeiro a saber que, do ponto de vista substantivo, a conversa televisiva que teve ontem só tem duas mensagens políticas: uma, prevenir-nos de que não vai controlar o défice; outra, que este governo vai romper com a política do anterior. O resto é inexistente, descontando já o paternalismo um pouco insuportável de nos virem dizer, do alto do governo, como é que se governa uma família. É pouco, ou então é propaganda.

Esta tendência de Bagão Félix começou com a história da carta, a que se deu pouca atenção. Bagão Félix apareceu na televisão a fazer um número. Nos dias em que o governo se estava a formar e não se sabia quem ficava do governo anterior, apareceu a deitar uma carta no correio para a sua família, dizendo-lhe qual era o seu destino. Repetiu várias vezes que sabia muito bem o que ia fazer. A única interpretação possível era a de que iria abandonar o governo, porque era a única circunstância que dependia exclusivamente da sua vontade. Pareceu-me um exercício de auto-afirmação, como quem diz, eu sou dono de mim próprio e decido o meu destino. Naqueles dias, em que andava tudo muito caladinho, a ver o que acontecia, pareceu-me saudável.

Quando, dias depois, apareceu como Ministro das Finanças, o episódio da carta já tinha uma luz muito diferente. Para além do pormenor de, ou ele, ou o primeiro-ministro, nos estarem a enganar com as datas dos dias do convite, havia ali, já não inteireza, mas soberba e vaidade.

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© José Pacheco Pereira
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