| ABRUPTO |
semper idem Ano XIII ...M'ESPANTO ÀS VEZES , OUTRAS M'AVERGONHO ... (Sá de Miranda) _________________ correio para jppereira@gmail.com _________________
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10.8.04
PROBLEMAS QUE NÃO SÃO NOVOS: ESTAREMOS ERRADOS?
Em Outubro de 1953, o jornal Ler, criação de Francisco Lyon de Castro e obra de Fernando Piteira Santos, publicou este texto sem indicação de autor. O autor é certamente Piteira Santos, que sabia que aquele era o último número do jornal, proibido pela Censura e atacado com a maior das hostilidades pelo PCP, que lhe chamava o “jornal do SNI”. “"Porque se quis apenas ser um ‘jornal de Letras, Artes e Ciências’ – e só isso – procurou-se, com a objectividade de que os homens que vivem de pés fincados na terra são capazes, servir a cultura. Não se ignorava que as culturas se dividem e se opõem, mas cuidou-se, consciente e sinceramente, que, antes, antes de opção, o problema primacial e urgente era o de opor a noção de cultura e todos os valores culturais autênticos à deplorável subversão de valores, ao triunfo da ignorância, das capelinhas do elogio mútuo, dos grupos de escaladores da glória e à lepra de uma mistificação que grande parte da imprensa poderosa auxilia e que conduz, inevitavelmente, ao delírio do futebol, ao ópio do fado e a essas tristes exibições de mau gosto, incultura e boçalidade que são os programas radiopublicitários." “Nós temos a ingenuidade de considerar que o depoimento do escritor Joaquim Paço d’Arcos sobre Holywood ou as lições do matemático Hugo Baptista Ribeiro na Universidade de Berkeley, na Califórnia, êxitos da fadista Amália Rodrigues nas boites de Nova Iorque; nós temos a ingenuidade de supor que o escritor Ferreira de Castro leva o nome de Portugal mais longe e mais alto do que o ‘matador’ Manuel do Santos; nós temos a ingenuidade de nos sentir mais diminuídos do concerto das nações pela percentagem de analfabetismo do que com o pesado score de uma derrota na Áustria. Estamos errados? Estaremos, realmente, a errar?" “Mas comparem-se o 6300 exemplares da tiragem de Ler – número que os entendidos não consideravam provável e possível e número que nenhum jornal do género em Portugal atingiu – com o volume das tiragens dos jornais desportivos e ter-se-á uma imagem clara e significativa da situação que explica que no calor de uma campanha eleitoral o discurso do Prof. João Cid dos Santos ou a palestra do Eng. Cunha Leal assumam menor vulto nas discussões políticas do que os sucessos e os insucessos do Sporting, do Benfica ou Futebol Clube do Porto." “E atente-se igualmente em que nos mesmo dias em que se explica a chamada ‘crise do livro’ por razões económicas, pelas dificuldades da classe média, pelo baixo nível dos trabalhadores, não há crise para a frequência aos espectáculos de futebol; e não se esqueça que o ritmo de venda dos romances de Aquilino Ribeiro, de Alves Redol ou de Francisco Costa é de longe excedido pelo ritmo de venda dos romances policiais traduzidos directamente do americano ou grosseiramente decalcados das edições brasileiras."” (url)
© José Pacheco Pereira
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