| ABRUPTO |
semper idem Ano XIII ...M'ESPANTO ÀS VEZES , OUTRAS M'AVERGONHO ... (Sá de Miranda) _________________ correio para jppereira@gmail.com _________________
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10.8.04
POBRE PAÍS 1 - O PODER CORPORATIVO E A IRRESPONSABILIDADE
Toda esta trapalhada grave, muito grave, das cassetes roubadas, revela uma questão estrutural mais de fundo: nos últimos vinte anos, o poder de algumas corporações ultrapassou o do estado. Dois casos são hoje absolutamente pertinentes: o dos jornalistas e dos magistrados. À sua volta outros poderes cresceram, mais clássicos, o do dinheiro em particular, mas, no cômputo geral, o poder dos poderosos aumentou. O crescimento do poder dos jornalistas e magistrados fez-se durante os mesmos anos e pelas mesmas razões: a pressão populista das oposições e a cedência cobarde de governos, para a constituição de contra-poderes que fizessem, fora do sistema político, aquilo que deveria ser feito por uma Assembleia forte e um sistema judicial equilibrado e eficaz. Como ninguém quis fortalecer a democracia onde ela devia ser fortalecida, criou-se um monstro que, a prazo, devora quem o gerou e degrada a vida pública. O poder destas corporações levou-as ao local ideal: o da irresponsabilidade que gera a impunidade. Magistrados e jornalistas não podem ser chamados a qualquer responsabilidade, porque conquistaram uma absoluta irresponsabilidade. Nenhuma lei se lhes aplica efectivamente e só existem excepções nuns desgraçados apanhados a nível local e regional, sem a protecção dos maiores. Mas, na capital, nos grandes órgãos de comunicação, no limite, não há responsabilidade. Sempre que há uma crise, alguns jornalistas juram a pés juntos que certas coisas nunca mais irão acontecer… até à próxima crise em que elas acontecem de novo. Hoje estão-se a tornar tão habituais que estão a criar novos standards de comportamento. Já ninguém sabe como era, já só se sabe como é. Não é legal gravar alguém sem o seu consentimento. Mas um jornalista pode fazê-lo. Não é legal divulgar conversas gravadas ilegalmente, mas um jornalista pode fazê-lo. Não é legal roubar e vender a um receptador (ou vários) o produto de um roubo, mas um jornalista pode ser receptador de um objecto roubado. Nada é legal, mas há sempre uma excepção para os jornalistas. Os jornalistas podem fazer o que um polícia ou um serviço de informações não pode. Os jornalistas podem fazer praticamente tudo, que não são responsáveis por nada. Basta invocar o “interesse público” que eles próprios definem. Depois quando se espera justiça, quem a devia garantir diz logo à cabeça que ela é impossível. É verdade que tudo isto acontece pela miserável prática, que quase toda a gente acha normal, de fazer confidências como “fonte” dos jornais e televisões. Esta prática gera cumplicidades, e impedimentos que depois introduzem mais silêncios e incomodidades no completo esclarecimento dos casos. Acaba por haver culpados de um lado e de outro e, no momento decisivo, eles calam-se para não se comprometerem e se protegerem. Como na corrupção. Se é verdade que desde o director da PJ, a agentes, magistrados envolvidos nos processos, advogados de defesa, políticos, seja lá quem for que entende defender a sua causa, os seus interesses, ou valorizar-se junto de jornalistas, ou pura e simplesmente mostrar-se loquaz e incontinente sobre segredos que lhe dão a guardar, eu só acredito num estado e num governo que os ponha na rua no dia seguinte. Por justíssima causa. (url)
© José Pacheco Pereira
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