ABRUPTO

1.8.04


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: INCÊNDIOS - UM TESTEMUNHO

"No domingo passado entre os muitos incêndios que infelizmente surgiram por todo o país, houve também um incêndio no Alentejo, na minha terra, junto à casa dos meus pais e de muitos vizinhos e amigos que conheço desde que nasci. Não causou danos maiores do que os já suficientemente graves da área ardida, isto é, não arderam casas, não houve mortos nem feridos mas ficou destruída, evidentemente, vegetação, cortiça, pastagem para gado. Acontece que contactar mais de perto com esta realidade me fez tomar consciência da forma como as coisas estão organizadas e ter a vontade de as gritar bem alto para que todos as conheçam. Esta pequena aldeia (Fornalhas Novas), fica a mais de 50 Kms de distância da sede do Concelho a que pertence – Odemira, portanto Distrito de Beja. Existem duas corporações de bombeiros relativamente próximas, uma a cerca de 12 kms (Alvalade-Sado) e outra a cerca de 20 (Cercal do Alentejo). Ambas na área territorial do Concelho de Santiago do Cacém, Distrito de Setúbal.

Quando os residentes locais deram conta do deflagrar do incêndio chamaram evidentemente os bombeiros, e, salvo melhor opinião, muito correctamente chamaram os que se encontram mais próximos. Segundo me foi relatado os bombeiros desta corporação chegaram mesmo a deslocar-se ao local do incêndio e lá foram informando que não sendo do concelho, nada poderiam fazer. E nada fizeram. Nessa altura o fogo rapidamente teria sido circunscrito. Mas não. Foi preciso esperar pela corporação certa, a do Concelho, que fica a mais de uma hora de distância! É possível compreender isto? Não consigo conceber que burocracias de divisões administrativas e territoriais se sobreponham ao combate a um incêndio. E ponham em causa bens e, mais grave do que isso, vidas humanas. Infelizmente percebo agora muito melhor as razões de tanta calamidade um pouco por todo o país.

Não consigo compreender a actuação dos bombeiros. Acredito que se têm este tipo de actuação é porque recebem instruções neste senti do. O que indubitavelmente tem de se colocar em causa é a forma como as coisas estão organizadas. Muito provavelmente por quem não faz a mínima ideia das realidades no terreno, não faz ideia das distâncias. Ultrapassa completamente a minha capacidade de entendimento ficar à espera dos bombeiros certos permitindo que o fogo avance e destrua tudo à sua passagem. A mim parece-me lógico e evidente que não se deve esperar que o fogo avance. Este não escolhe concelhos nem freguesias. Quando avança, avança. Não tem jurisdição. Porque é que o seu combate há-de ter? Terão os responsáveis a noção das consequências deste tipo de actos administrativos? Não deveriam ser criadas áreas de actuação independentes das divisões administrativas? Será que nem para combater incêndios somos capazes de nos organizarmos? Será assim tão impensável que os municípios colaborem uns com os outros? Será que a Protecção Civil de Setúbal e a de Beja não podem pôr um pé no território uma da outra? Enquanto is so tudo arde???? Um incêndio não é propriamente um papel que anda de secretária em secretária até que “encontre” o funcionário “certo” para tratar do assunto... Sem retirar gravidade a este acto, mas essa é outra discussão..."

(Maria Santos Silva)

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