ABRUPTO

10.10.03


INTENCIONALIDADES

Resta a questão da intencionalidade: os políticos falam para promover a sua carreira, ou para defender o seu partido; os outros, os jornalistas em particular, falam com isenção e desprendimento político. É verdade, por regra, a primeira parte. Mas é falsa, por regra, a segunda. Por regra, porque há excepções, mas o seu caminho é difícil e nem sempre unívoco.

Todos os domingos sei isso e, quem me vê e ouve, tem pelo menos a transparência de saber quem sou, a que partido pertenço e se tenho ou não interesses na matéria – existe uma declaração de interesses financeiros publicada e acessível a todos.

Uma parte do ataque aos “comentadores” vem da escassez do mercado. Portugal é um país pequeno, os bens são escassos e onde estão uns, não podem estar outros. Outra parte vem da perturbação que esse comentário introduz no monopólio da “compreensão”, a fonte do poder do “quarto poder”. Há muitos anos que escrevo que uma parte do conflito entre políticos e jornalistas vem de ambos disputarem um outro bem escasso, a influência. Um jornal é poderoso se tem influência, um jornalista é poderoso se tem influência, um político é poderoso se tem influência. Logo, o controlo da opinião pública é um terreno de disputa duríssimo, e nessa disputa estão presentes diferentes corporações.

Há um elemento que perturba esta relação, e tem a ver com a emergência do populismo moderno, que é um populismo mediático. A análise deste fenómeno, uma natural evolução da forma como o sistema politico-mediático funciona e da sua competição interior, fica para outra altura.

(Continua)

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© José Pacheco Pereira
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