ABRUPTO

29.9.03


UM IMENSO E AMBÍGUO CONSENSO

No momento em que as questões europeias são mais complexas e delicadas (Constituição, implementação do Tratado de Nice, reforma da PAC, alargamento, directório, etc.), no momento em que Portugal tem mais a perder na sua posição relativa no contexto europeu (menos votos, menos deputados, menos poder nos esquemas de votação maioritária, acabado que está o direito implícito de veto, fim dos prazos especiais que protegiam o nosso atraso, ameaças sobre a política de coesão, competitividade acrescida dos países do alargamento, etc.), no momento em tudo está a mudar qualitativamente não se sabe bem para onde, estão criadas todas as condições para que não haja qualquer debate sério sobre a Europa, abafado por um imenso e ambíguo consenso.

PS, PSD e PP estão presos nesse consenso; o PCP estará fora, como sempre esteve, e não é nos seus termos que a discussão tem sentido. Vai estar tudo de acordo, vão ficar apenas meia dúzia de nuances. É por isso também que já se percebeu que o referendo, prometido pelo Primeiro Ministro, prometido já há vários anos pelo PSD e pelo PS, que juraram que nunca mais haveria mudanças significativas na posição europeia de Portugal sem consulta popular, vai ser metido na gaveta. O PS não o quer porque teria que estar ao lado do PSD, o PP não o quer de todo, porque lhe seria muito incómodo, dadas as suas posições ainda recentes, e o PSD hesita para não pôr o PP em dificuldades.

Isto significa que as próximas eleições europeias pouco terão de europeu e muito de português: serão sobre o governo e a oposição, ou se calhar nem isso, se o PS continuar como está. A ser assim, a abstenção crescerá e a anomia política também.

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© José Pacheco Pereira
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