ABRUPTO

8.6.03


UM PENSAMENTO ANTIDEMOCRÁTICO

Os Movimentos Sociais estipulam como ponto central a ideia de que não há democracia sem participação e sem direito de iniciativa e de associação. A relação entre o indivíduo e o Estado ou é marcada pela participação ou não é democrática. A participação, como tal, não pode ser um direito formal que é respeitado pelas instituições ao sabor dos seus interesses. Ou as opiniões participam das decisões, isto é, ou são meios de poder; ou então a participação é uma ilusão.

( Do projecto de declaração da auto-intitulada Assembleia de Movimentos Sociais do Fórum Social Português )

Aqui está uma interessante proposta , a que é manifestada pela última frase . Presume-se , senão nada teria sentido , que essas “opiniões” não são as que se exprimem pelo voto regular para as instituições democráticas . Serão “opiniões” “socialmente” expressas . Como sabemos quais são ? Como sabemos da sua relevância no conjunto da população ? Por sondagens ? Por manifestações ? Por quem as exprime ? Pelos programas pimba da televisão , pelo Fórum da TSF ? Pelo activismo de quem as defende ? Quem é que escolhe entre as “opiniões” contraditórias ? É o “anti-racismo” politizado uma opinião melhor do que o racismo populista , mesmo admitindo que este último é muito mais “opinião” ? E as “opiniões” a favor da pena de morte , da expulsão dos emigrantes , da proibição dos partidos, contra a central de tratamento de lixos na freguesia , a favor do “progresso” que traz um empreendimento turístico , ou da liberdade de se construir como se quiser num parque natural , devem ter “poder”?
A proposta é liminarmente anti-democrática e , se fosse tomada a sério , fortaleceria o populismo de direita . Já hoje , mais do que o que devem , os políticos governam por sondagens . Infelizmente para os “movimentos sociais” as “opiniões” mais significativas são aquelas de que eles não gostam , mas , no fundo , eles são elitistas e vanguardistas e as “opiniões” que deveriam contar são as que eles defendem . Não é uma “democracia de qualidade” que propugnam , é um regime não-democrático , em que activistas ilustrados , intelectuais de esquerda , com ou sem “líder máximo” , governariam sem ter essa inconveniência que é ir a votos e aceitar a lei . Eles não o quererão admitir , mas é Chávez da Venezuela o modelo proposto .

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