| ABRUPTO |
semper idem Ano XIII ...M'ESPANTO ÀS VEZES , OUTRAS M'AVERGONHO ... (Sá de Miranda) _________________ correio para jppereira@gmail.com _________________
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9.6.03
TRADUÇÃO DA ODISSEIA POR FREDERICO LOURENÇO
A tradução que Frederico Lourenço fez da Odisseia ( Edição da Livros Cotovia ) é um grande acontecimento para os que gostam de ler, de ler os clássicos , de ler Homero . E , lendo Homero , perceber como fomos feitos , como já estávamos feitos desde há muito tempo , como naquela viagem – onde muitas vezes deve ter brilhado um sol como o de hoje – nasceu um conhecimento de nós mesmos , fraquezas , terrores , dúvidas , tentações , coragens , cobardias , curiosidades , violências – tudo . Não sei grego suficiente para julgar da tradução enquanto fidelidade e literalidade, mas li a Odisseia as vezes suficientes para saber se a tradução me restitui a irreprimível sedução de alguns dos seus episódios. Entre esses episódios está o de Nausícaa ( sigo a grafia de Frederico Lourenço , embora estivesse habituado a outra para alguns nomes ) e o da morte dos pretendentes , dois momentos muito diferentes do livro . Veja-se a descrição da morte de dois pretendentes, a de Antínoo e a de Eurímaco . Quem escreveu isto viu morrer gente assim , porque , na enorme simplicidade da descrição , está a imagem certeira da convulsão da morte . Estas não são mortes de filme , são mortes reais em combate . Antinoo , o primeiro a morrer , morre surpreendido , quase à traição . Ulisses não lhe dá combate, mata-o de surpresa , como se disparasse para as suas costas , fazendo juz à sua qualidade de “astucioso” . Antínoo era de todos os pretendentes aquele que lhe poderia dar mais luta , e Ulisses não corre riscos : “Assim falou, e contra Antinoo disparou uma seta amarga. Ora Antinoo estava no momento de levar à boca uma bela taça, vaso dourado de asa dupla; pegara nela com as rnãos, para beber um gole de vinho. 0 morticínio estava longe dos seus pensamentos. Pois quem dos celebrantes do banquete pensaria que um homem, isolado entre tantos, ainda que forte, lhe traria a morte malévola e a escuridão do destino? Mas Ulisses disparou contra ele e atingiu-o com a seta, cuja ponta lhe atravessou por completo o pescoço macio. Inclinou-se para o lado; a taça caiu-lhe das mãos ao ser Atingido , e logo das narinas jorrou um jacto de másculo sangue . Depressa afastou a mesa com um pontapé e toda a comida foi parar ao chão, conspurcando o pão e as carnes assadas.” Eurímaco , pelo contrário , não é apanhado de surpresa . Ele vira o que se passara com Antínoo e reconhecera Ulisses . Pretende apazigua-lo, oferecendo-se, em nome de todos, para restituir os bens que roubara e repor a autoridade de Ulisses como rei de Itaca . Ulisses recusa “com sobrolho carregado” "Eurímaco, nem que me désseis todo o vosso património, tudo o que tendes agora e pudésseis reunir de outro sítio, nem mesmo assirn eu reteria as mãos do morticínio, até que todos vós pretendentes pagásseis o preço da transgressão. 0 que tendes agora à frente é isto: combater, ou então fugir, se é que alguém pode fugir à morte e ao destino. Mas não penso que nenhum de vós fuja à morte escarpada." E o combate inicia-se com o assalto de Eurímaco e , de novo a sua morte é uma morte real , pouco ficcionada : “Assim dizendo, desembainhou a espada de bronze afiado, uma espada de dois gumes, e lancou-se contra U!isses com um grito terrível! - mas ao mesmo tempo disparou uma seta o divino Ulisses, acertando-lhe no peito, ao lado do mamilo: a seta veloz atingira-o no fígado. Das mãos Eurímaco deixou cair a espada; contorcendo-se por cima da mesa, dobrou-se e caiu, atirando para o chão a comida e a taça de asa dupla. Bateu na terra com a testa na agonia da morte; e esperneando contra a cadeira, fê-la abanar com ambos os pés. Mas depois o nevoeiro lhe desceu sobre os olhos.” Está intacto o brilho original com que , ao ler pela primeira vez estas páginas , a cena violenta me impressionou . Magnifica tradução . (url)
© José Pacheco Pereira
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